
ERICO VERISSIMO
O TEMPO E O VENTO
O CONTINENTE II
29" Edio
D
E D I T O R A
a
Copyright  1948 by Erico Verssimo

Copyright  1978 by Mafaida Volpe Verssimo

Clarissa Verssimo Jaffe

Luis Fernando Verssimo
Ilustrao de capa: Iber Camargo

Foto de Geraldo Viola/Arq. Editora Globo
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Grafrca Editoriale Bologna, Milo, Itlia
ap-Brasil. Catalogao-ria-fonte - Um~ Brasileira do I1vro, SP
Verssimo, Erico, 19O5-1975
O tempo e o vento - O continente 2 / Erico Verissimo. - 29. ed. - So Paulo : Globo, 1997.

Tomo 1: 34. ed., 1997; t. 2: 29. ed., 1997. ISBN 85-25O-O27O-4 (obra completa) ISBN 85-25O-O271-2 (t. 1) ISBN 85-25O-O272-O (t. 2)

1. Romance brasileiro L Titulo. 11. Srie.


89-1388        CM-869.935
ndices para catlogo sistemtico:
1. Romances : Sculo 2O : Literatura brasileira 869.935 2. Sculo 2O : Romances : literatura brasileira 869.935
#T E I N        A G U 
E m 185O a vila de Santa F foi elevada a cabea de comarca e seu primeiro juiz de direito, o Dr. Nepomuceno Garcia de Mascarenhas, natural do Maranho, veio morar
com a esposa numa das casas de alvenaria que o Cel. Bento Amaral mandara recentemente construir na Rua dos Farrapos. Era o Dr. Nepomuceno um homem de estatura mediana,
que impressionava logo pelo comedimento de gestos, palavras e opinies. Andava sempre de sobrecasaca preta e dificilmente se separava de sua bengala de casto de
prata. De olhos empapuados e mortios, voz velada e lenta, tinha um ar de sonombulo, acentuado pelo andar tateante e meio cansado, que aos ntimos ele explicava
ser devido ao fato de ter ps chatos. Passava o juiz de direito por bom latinista, razovel matemtico e exmio jogador de xadrez. Era maom, adorava Chateaubriand
e nas horas vagas fazia sonetos.
Juiz ntegro, homem austero, o novo magistrado de Santa F se impus desde logo ao respeito e  admirao dos habitantes da vila. E afeioou-se de tal maneira quele 
lugar, cujos bons ares lhe haviam restaurado a sade da esposa, que resolveu no mais sair dali. E como prova de estima. e gratido  vila e seus habitantes, organizou 
e mandou publicar por conta prpria, numa tipografia de Porto Alegre, o primeiro Almanaque de Santa F, que apareceu em janeiro de 1853, com informaes sobre a 
topografia, a geologia, a fauna e a flora do municpio, alm dum calendrio completo, com conselhos aos agricultores e horticultores, bem como pginas amenas e instrutivas 
de literatura e humorismo, charadas, logogrifos, enigmas pitorescos, etc... .
Abria o almanaque uma descrio literria da cidade, feita pelo prprio Dr. Nepomuceno. Comeava assim: "A vila de Santa F, cabea da " comarca de So Bor ja, e 
da qual temos a desvanecedora honra de ser O-Primeiro juiz de direito,  uma das flores mais formosas do vergel serrano. Situada sobre trs colinas e cercada de 
campinas onduladas, lembra ela ao viandante, "singelo mas gracioso pre-
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sege. Prodigamente dotada pela natureza, seus bons ares e suas cristalinas guas so propcios  longevidade, razo pela qual muitos de seus habitantes, em geral 
de costumes morigerados, passam dos noventa anos, como foi o caso extraordinrio do preto escravo conhecido pela antonomsia de Sinh d"Angola, o qual durou mais 
duma centria, e do Cacique Fongue, que viu pela primeira vez a luz do dia na reduo de Santo Angelo, por volta de 175O, e o qual ainda hoje por aqui vive em pleno 
gozo de suas faculdades
mentais.
O Almanaque oferecia tambm a seus leitores um "escoro histrico" da vila, no qual o autor prestava uma homenagem  famlia Amaral, cujo fundador foi "esse venerando 
cidado, o Cel. Ricardo Amaral, o primeiro povoador destes campos, um bandeirante na verdadeira extenso do vocbulo, e que morreu como um bravo, no lendrio combate 
do Passo das Perdizes". Vinha a seguir uma referncia de dez linhas ao filho de Ricardo, Francisco Amaral, "o fundador de Santa F", e depois uma pgina inteira 
dedicada a seu meto, o Cel. Ricardo Amaral Neto, "que tanto contribuiu para o engrandecimento deste municpio, de cuja Cmara foi o primeiro presidente". Aps a 
enumerao das qualidades morais de Ricardo Amaral Neto e de seus feitos na paz e na guerra, a biografia terminava assim: "...e em 1836 baqueou como um bravo, de 
armas na mo, dentro de sua prpria casa, defendendo a legalidade". .Havia por fim trs pginas dedicadas  personalidade do Cel. Bento Amaral - "atual chefe poltico 
deste municpio, deputado  Assemblia Provincial, verdadeiro varo de Plutarco que perpetua no tempo e na admirao de seus coevos um nome honrado e uma tradio 
de virtudes cvicas e privadas".
O Almanaque circulou em Santa F e arredores, onde -foi lido, comentado e apreciado. E -atravs de seus dados estatsticos e de suas informaes - escrupulosamente 
colhidos pelo prprio Dr. Nepomuceno - ficaram os santa-fezenses sabendo que a vila possua agora sessenta e oito casas, entre as de tbua e de alvenaria, e trinta 
ranchos cobertos de capim; e que sua populao j subia a seiscentas e trinta almas. Informava ainda o Dr. Nepomuceno que Sant F contava com quatro bem sortidas 
casas de negcio, uma agncia do correio - "cuja mala, lamentamos diz-lo, chega apenas uma vez por semana" - uma padaria, uma selaria e uma marcenaria. "A cincia 
de Hipcrates est-representada entre ns pelo ilustrado Dr. Carl Winter, natural da Alemanha e formado em Medicina pela Universidade de Heidelberg e que fixou residncia 
nesta vila em 1851, data em que apresentou suas credenciais  nossa municipalidade. No podemos deixar de mencionar o nosso Clotrio Nunes, mdico homeopata bem 
conceituado, e o curandeiro conhecido popularmente por Z das Plulas, muito procurado por causa de su
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ervas medicinais cujos segredos diz ele ter aprendido ds ndios coroados, dos quais parece ser descendente."
Causou tambm muito boa impresso a parte do almanaque em que o Dr. Nepomuceno rememorava as guerras em que os filhos de Santa F haviam tomado parte. "Nossa vila 
(e aqui peo vnia para usar o possessivo nossa, uma vez que me considero um santa-fezense de corao se no de nascimento) tem pago pesado tributo de sangue e herosmo 
no altar da ptria. Muitos foram os oficiais e soldados que deu para as lutas de que esta Provncia tem sido teatro, e pode-se dizer sem exagero que no houve gerao 
que no tivesse visto pelo menos uma guerra. Durante a luta civil que por espao de dez anos ensangentou o solo generoso do Continente, muitos foram os santa-fezenses 
que participaram dela, quer nas hostes farroupilhas quer nas foras legalistas. No me cabe aqui, como magistrado e como homem infenso s paixes polticas, manifestar 
simpatias ou lanar diatribes. O que passou passou e mais vale esquecido do que lembrado, pois uma luta fratricida  mil vezes mais; horrenda do que as guerras entre 
as naes. Graas ao Suprema Arquiteto do Universo o sol da paz raiou benfazejo no horizonte da Provncia, e os inimigos de ontem se deram as mos e recomearam 
a trabalhar juntos em prol da grandeza da Ptria comum. Mas, ai!, ainda nem bem se haviam cicatrizado as feridas abertas pela guerra civil e j de novo eram nossos 
irmos arrancados ao aconchego dos seus lares e ao seu trabalho pacfico, convocados mais uma vez pelo pressago clarim da guerra. Rosas, o tirano argentino, ameaava 
a integridade de nosso Brasil, e era necessrio fazer frente a essa ameaa. E assim mais uma vez os santa-fezenses formaram os seus batalhes de voluntrios e nessa 
luta que nem por ser relativamente curta foi menos cruenta, muitos foram os filhos desta vila que tiveram atuao destacada. Entre eles  de justia salientar o 
jovem Bolvar Terra Cambar, filho dum intrpido soldado, o Cap. Rodrigo Severo Cambar, morto heroicamente num combate que se feriu nesta mesma vila em princpios 
de 1836. Bolvar, esse denodado jovem, cujo nome parece trazer em si uma destinao gloriosa, guiou os seus cavalarianos numa carga de lana, destruindo um quadrado 
inimigo e arrancando, ele prprio, das mos dum adversrio a bandeira argentina! Esse ato de bravura valeu-lhe a promoo ao posto de primeiro-tenente, e uma citao 
especial em ordem do dia."
As anedotas do Almanaque foram muito apreciadas, bem como as poesias, algumas da lavra do prprio Dr. Nepomuceno, e outras de poetas famosos como Cames, Tomaz Antnio 
Gonzaga e Gregrio de Matos. No "fecho de ouro" dum de seus sonetos, o juiz de direito conclua com rimas ricas que sob o veludo da rosa s vezes um acleo se esconde.
Pouco tempo depois do aparecimento do Almanaque, o sone-
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tista teve ocasio de sentir na prpria carne a pungente verdade do verso. Sim - refletiu o magistrado - seu anurio podia ser comparado a uma linda e perfumada 
rosa que a todos deleitara com suas cores e seu perfume. Mas trazia ela um espinho escoa= dido e inesperado: o artigo intitulado "Residncias de Santa F", que ele 
prprio escrevera sob o pseudnimo de Atala. Essa pgina, traada com sinceridade e sem a menor inteno de ofender ou criticar quem quer que fosse; desgostara e 
irritara o Cel. Bento Amaral. Ocupava-se o infeliz ensaio do sobrado que um tal Aguinaldo Silva mandara construir em Santa F. Depois demencionar a simplicidade 
rstica da maioria das casas do lugar e de elogiar a solidez e a sobriedade do casaro de pedra dos Amarais, "to cheio de invocaes histricas", .tala escreveu: 
"O forasteiro que chega a nossa vila h de por certo quedar-se surpreso e boquiaberto diante duma maravilha arquitetnica que rivaliza com as melhores construes 
que vimos no Rio Pardo, em Porto Alegre e at na Corte. Referimo-nos  casa assobradada que o Sr. -Aguinaldo Silva, adiantado criador deste municpio, mandou recentemente 
erguer na Praa da Matriz, num terreno de esquina com as dimenses de trinta e sinto braas de frente por uma quadra completa de fundo. Essa magnfica residncia 
deve constituir motivo de ldimo orgulho para os santa-fezenses. Dotada de dois andares e duma pequena gua-furtada, destacam-se em sua fachada branca os caixilhos 
azuis de suas janelas de guilhotina, dispostas numa fileira de sete, no andar superior, sendo que a do centro, mais larga e mais alta que as outras, est guarnecida 
duma sacada de ferro com lindo arabesco; por baixo, desta sacada, no andar trreo, fica a alta porta de madeira de lei, tendo de cada lado trs janelas idnticas 
s de cima. Ao lado esquerdo, do sobrado, no alinhamento da fachada, vemos imponente porto de ferro forjado ladeado por duas colunas revestidas de vuoso azulejo 
portugus nas cores branca, azul e amarela, e encimadas as ditas colunas por dois vasos de pedra de caprichoso lavor. O terreno, a que esse porto d acesso, est 
todo fechado por um muro alto e espesso que por assim dizer (perdoe-se-nos a ousadia da imagem) aperta a casa como uma tenaz. O efeito  assaz formoso, pois o `Sobrado" 
(assim  a residncia conhecida na vila) d a impresso desses solares avoengos, relquias de nossos antepassados lusitanos. No devemo esquecer outro encanto, qual 
seja o seu vasto quintal todo cheio d rvores de sombra e frutferas, como laranjeiras, pessegueiros, gua birobeiras, lindos ps de primaveras, cinamomos, magnlias 
e u esplndido e altaneiro marmeleiro-da-ndia.
"Convidados gentilmente pelo Sr. Aguinaldo Silva para vi si tar-lhe a residncia, pudemos verificar que esta se acha dividida e 18 amplas peas, mui bem arejadas 
e . iluminadas, com p-direis bastante alto;  que as portas que separam essas peas umas d outras terminam em arco, em bandeirolas com vidros nas cor
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amarela, verde e vermelha. Os mveis so de autntico jacarand, muito pesados e severos, tendo pertencido, como nos informou o dito Sr. Silva, a uma Casa Senhorial 
de Recife, e sendo de l trazidos para Porto Alegre num patacho e desta ltima localidade para c em carretas."
O artigo terminava com um pargrafo que por assim dizer constitua a ponta do traioeiro espinho "Assim, pois, seria o sobrado do Sr. Aguinaldo Silva um solar digno 
de hospedar at Sua Majestade D. Pedro II, caso o nosso querido Imperador nos desse a altssima honra de visitar Santa F."
Pois esse artigo, escrito com um entusiasmo inocente e. desinteressado, deixara o Cel. Bento" Amaral furioso.
- Essa  muito boa! - exclamou ele um dia na loja do Alvarenga. - O Imperador parando na casa do Aguinaldo!  de primeirssima! Uma idia estpida assim s podia 
ter sado da cabea daquele p-de-pato!
Ficou muito vermelho e comeou a sentir uma comicho na cicatriz em forma de P que lhe marcava uma das faces. O Pe. Otero, que tinha ido comprar um emplastro na 
loja, ouviu a exploso, e como era amigo do juiz de direito, com quem habitualmente jogava longas partidas de xadrez (apesar de sab-lo pedreiro-livre), arriscou:
- O Dr. Nepomuceno no escreveu isso por mal, coronel.. .
- No sei se foi por bem ou pot mal - retrucou o outro, fitando o olhar encolerizado na face amarela do vigrio. - O que sei  que escreveu. Ele devia saber quem 
 esse Aguinaldo Silva:
Pigarreou com fria e escarrou no cho.
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Mas, para falar a verdade, em Santa F ningum sabia ao certo quem era Aguinaldo Silva. Claro, pela entonao da voz, via-se logo que o homem era do Norte. Ele prprio 
declarara ter nascido no Recife; o que no contava, mas. os outros murmuravam, era que tivera de fugir de l, havia muitos anos, por ter matado a esposa e o homem 
com quem ela o trara. "Isso no  crime" - observara um dia o Alvarenga, de cuja loja o nortista era bom fregus. - "Um homem de vergonha no podia fazer outra 
coisa." Mas pessoas que sabiam ida histria com todos os pormenores explicavam que o duplo assassnio fora premeditado. Ao descobrir que a mulher o enganava,_ Aguinaldo 
a obrigara a marcar um encontro com o amante em seu prprio quarto de dormir. Simulara uma viagem mas ficara escondido debaixo da cama, e saltara do esconderijo 
em dado momento para estripar a facadas tanto o amante como a mulher. Havia no drama um detalhe dum trgico grotesco que os maldi-
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tentes usavam como remate humorstico do caso: "O homem catava comeando a tirar a roupa quando Aguinaldo saiu debaixo -da cama. O infeliz nem teve tempo de dizer 
ai: a faca do marido rasgou-lhe o. bucho." Risadas. "No fim, acho que ele no sabia se segurava as calas ou as tripas." Pausa dramtica. "Mas tanto as calas como
as tripas acabaram caindo no cho." Nova risadas.
Eram essas as histrias que corriam em Santa F. Mas ningum -sabia de nada com certeza. Contava-se tambm que depois de passar alguns anos no Rio de Janeiro -e 
em Curitiba, com nome trocado, Aguinaldo viera para a Provncia de So Pedro, onde durante a guerra civil andara ora com as tropas farroupilhas ora com as foras 
legalistas, ao sabor de suas convenincias. Os que o conheciam de perto pintavam-no como um homem ladino, de olho vivo para os negcios, e que, obcecado pelo medo 
de ser logrado e sabendo que a melhor maneira de a gente se defender  atacar, tinha a preocupao permanente de lograr os outros. Baixo, de pernas muito curtas 
para o trax anormalmente desenvolvido, era levemente corcunda e tinha, plantada sobre os largos ombros ossudos, uma cabea triangular, de pescoo curto, e uma cara 
de chibo que a peta grisalha acentuava. Era feio, mas duma fealdade aliciante
- simptica, muito ajudada por uma voz de inflexes - macias e musicais. Apesar da cor amarelada do rosto, tinha uma sade de ferro e aos setenta e dois anos ainda 
fazia tropas, dormia ao relento,
- campereava com o entusiasmo e a eficincia dum moo de vinte. Por muito tempo Aguinaldo recusara vestir-se como os gachos da 1rovncia. Conservara a indumentria 
de couro dos vaqueiros do Nordeste - o que lhe valera muitas vezes a desconfiana e a m vontade dos continentinos - e mesmo agora que decidira a abandon-la em 
favor da bombacha, do pala e do poncho, conservava ainda o chapu de sertanejo, de abas viradas para cima, o que, como dizia o Dr. Nepomuceno, lhe dava uns ares 
napolenicos. Aguinaldo amava o dinheiro mas no era sovina. Gostava de pagar "comes
- bebes" para os amigos, vivia ajudando os necessitados, e era generoso para com seus agregados, pees e comissionados. Quando pela primeira vez aparecem em Santa 
F, no ano em qu fora assinada a paz entre farroupilhas e legalistas, causara a pior das impresses. Chegara escoteiro, montado num cavalo magro e manco, e fazendo 
questo, de mostrar a toda a gente que tinha as guaiacas atestadas de moedas de ouro. Comearam ento a murmurar naa vila que Aguinaldo havia descoberto uma "manca 
l para as bandas de So Borja. "Salamanca? Lorotasl" retrucavam outros. - "Isso  dinheiro de contrabando. Conheo pelo cheiro." E um dia, numa roda de bisca na
casa do Alvarenga, o Pe. Otero comentou: "Seja como for, no deve ser dinheiro limpo." Mas os que.precisavam de crdito para sena negcio@ no se preocuparam com 
averiguar a origem dos pataces, cruzados e onas de Aguinaldo Silva, quando
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este se aboletou num rancho nos arredores de Santa F e comeou a emprestar dinheiro a juro alto. Quando sabia que um lavrador ou criador estava em dificuldades
financeiras, procurava-o, blandicioso, e oferecia-lhe um emprstimo, pedindo como garantia terras ou gado num valor que em geral correspondia ao dobro ou ao triplo
do capital emprestado. Se o homem era bem sucedido nos negcios, l voltava o dinheirinho para a bolsa de Aguinaldo, acrescido dos gordos juros. Mas se a dvida
se vencia e o devedor no estava em condies de liquid-la, Aguinaldo, sem desmanchar dos lbios o sorriso amigo, sem a menor dureza na voz cantante, executava
a hipoteca. Foi assim que com o passar dos anos, em que fez tambm muitas tropas e vendeu-as a charqueadores, Aguinaldo se apossou de vrias propriedades de Santa
F - inclusive da de Pedro Terra - e multiplicou sua fortuna de tal forma que j se dizia estar ele to rico de campos, gados e moeda sonante quanto o prprio Bento
Amaral.
Muito religioso, Aguinaldo ia  missa todos os domingos e fazia donativos  Igreja. O Pe. Otero gostava de ouvi-lo contar histrias do serto de Pernambuco em torno
de cangaceiros, cabras valentes, lutas de famlia e casas assombradas, ficava admirado de ver como aquele caboclo analfabeto sabia narrar com fluncia e colorido;
com, um sabor at literrio.
Tambm dava muito na vista em Santa F o apego que Aguinaldo Silva tinha por dois filhos do lugar: Bolvar Cambar e Florncio Terra. Conversando certa ocasio com
o Pe. Otero, Aguinaldo lhe dissera:
- Esses dois meninos so mesmo que filhos meus. Vosmec sabe, seu vigrio, perdi toda a minha gente. Da minha famlia s me sobrou uma neta, a Luzia, que est estudando
num colgio na Corte. Quero que ela tenha o que eu no tive e o que os pais dela no tiveram. Tudo do bom e do melhor.
E um dia quando o vigrio e Aguinaldo se encontravam na praa, debaixo da figueira, conversando e olhando para o sobrado, enquanto trabalhadores lhe caiavam a fachada,
o Pe. Otero perguntou:
Ainda que mal pergunte, amigo, no acha que o Sobrado e um pouco grandote pra uma famlia to pequena? Vosmec no disse que s tinha uma neta?
- Disse. Mas acontece que um dia a Luzia vai casar e ter filhos. E os filhos da Luzia vo casar tambm e ter famlia. Quero reunir toda a cambada no Sobrado. . .
Ficou um instante pensativo, olhando para a casa. Depois acocorou-se  maneira dos sertanejos e comeou a picar fumo. E assim nessa posio, com uma palha de milho
atrs da orelha, contou ao padre que um dia, quando menino, vira uma cena que nunca mais lhe sara da memria: um senhor de engenho cofiando as
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barbas brancas e sorrindo  cabeceira duma mesa comprida a que estavam sentados, comendo, rindo e conversando, os vinte e tantos membros de sua famlia - filhos, 
filhas, genros, noras, netos Desde esse momento Aguinaldo decidira trabalhar como um burro para um dia ter tambm casa e famlia grande, com mesa farta e alegre.
- Mas Deus no quis que eu visse minha famlia reunida -murmurou ele, enrolando o cigarro. - Foi matando todos, um por um...
Ergueu os olhos para o vigrio, ficou a contempl-lo por alguns segundos, e depois murmurou:
- Nunca fui ao confessionrio, padre, mas vou lhe contar aqui um segredo que nunca contei a ningum. - Riu. - No sei por que estou lhe dizendo isto, mas de repente 
me deu vontade...
Calou-se por um instante, seus olhos se perderam na direo dos campos. Depois, baixinho, num cicio, olhando furtivamente para os lados, contou:
- A Luzia no  minha neta de verdade. Peguei ela num asilo, quando ainda de colo. Era rf de pai e me. Mas criei a menina como se fosse minha neta. Um homem no 
pode viver sem ningum de seu, pode, padre?
O vigrio sacudiu a cabea negativamente. E o nortista acrescentou:
- Ela no sabe da verdade. Pensa que  minha neta mesmo. O Pe. Otero ficou um instante pensativo e depois disse:
- No desanime, seu Aguinaldo. Vosmec est ainda forte e
se a Luzia casar o Sobrado pode estar cheio de crianas dentro de
poucos anos.
- Se eu viver at l.
H de viver, sim, se Deus quiser.
Aguinaldo fechou um olho, ficou um instante como que dormindo na pontaria e finalmente perguntou
- Mas ser que o Velho quer mesmo?
Dessa conversa resultou um novo donativo gordo para a Igreja. O vigrio o recebeu sorrindo e a refletir assim: Esse caboclo pensa que pode comprar a dinheiro favores
de Deus. Mas bendisse os cruzados do pernambucano, pois precisava deles para custear um puxado que ia fazer na casa paroquial e. para comprar uns castiais novos
para o altar-mor.


Quando Luzia deixou o colgio e mudou-se para Santa F, onde passou a ser a "senhora do Sobrado", todos acharam que, mais do que ningum, ela merecia o ttulo. E
durante muito tempo a neta de Aguinaldo Silva foi o assunto predileto das conversas da vila. As mulheres reparavam nos um vestidos, nos seus penteados,
nos seus "modos de cidade", mas, bisonhas, no tinham coragem de se aproximar da recm-chegada, tomadas duma grande timidez e duma sensao de inferioridade. Em
muitas esse acanhamento se transformava em hostilidade; noutras tomava a forma de maledicncia. Luzia era rica, era bonita, tocava citara - instrumento que pouca
gente ou ningum ali na vila jamais ouvira - sabia recitar versos, tinha bela caligrafia, e lia at livros. Os que achavam que Santa F no podia dar-se o luxo de
ter um sobrado como o de Aguinaldo, agora acrescentavam que a vila tambm "no comportava" uma moa como Luzia. Para alguns severos pais de famlia tudo aquilo que
a forasteira era e tinha constitua uma extravagncia ostensiva que os deixava at meio afrontados. E quando viam Luzia metida nos seus vestidos de renda, de cintura
muito fina e saia rodada; quando aspiravam o perfume que emanava dela, no podiam fugir  impresso de que a neta do pernambucano era uma `;mulher perdida" e portanto
um exemplo perigoso para as moas do lugar. Por outro lado, o passado escuro de Aguinaldo no contribua em nada para melhorar a situao da moa. Aqueles homens,
dum realismo rude, olhavam para o Sobrado e para seus moradores como para intrusos e acabavam dizendo: "Isso no vai dar certo."
Os rapazes da vila, conquanto se sentissem atrados por Luzia, concluam quase todos que ela no era o tipo que desejavam para esposa. A moa causava-lhes um vago
medo que eles no sabiam explicar com clareza, mas que em geral resumiam para si mesmos numa frase: "No nasci pra corno." No entanto, desde o momento em que a rapariga
chegara, Bolvar Cambar e Florncio Terra ficaram fascinados por ela, cercaram-na de atenes e no perdiam pretexto para visitar o Sobrado. Faziam isso, porm,
de maneira diferente. Bolvar no escondia seus sentimentos: mostrava-se como era - sfrego, apaixonado, explosivo. Florncio, entretanto, mantinha-se reservado,
silencioso,. mas duma fidelidade canina; portava-se, em suma, como um cachorro triste que - temendo ou sabendo no ser querido pela dona - limitava-se a ficar de
longe a contempl-la com olhos clidos e compridos, cheio dum amor dedicado mas que no "tem coragem de se exprimir.
Aguinaldo percebera tudo desde a primeira hora e observava, deliciado, a maneira como a neta tratava os dois rapazes, mangando com ambos, dando a um e outro esperanas
que ela prpria se encarregava de desmanchar dias ou horas depois com um gesto, uma palavra ou um encolher de ombros.
Como era natural a histria se espalhou depressa pela vila: Bolvar e Florncio, primos-irmos e amigos de infncia, estavam apaixonados por Luzia Silva. Qual dos
dois a moa iria escolher?
- Escolhe o Florncio - dizia um - porque  o preferido
do Velho.
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- No. O preferido do Aguinaldo  o Bolvar - afirmav outro.
- Mas, no fim de contas, qual  o preferido da moa?
- Decerto os doisl - maliciava um terceiro. -Ela tem olho de mulher falsa.
- Mas no pode casar com os dois ...
- U        Casa com um e depois fica amsia do outro. Gent
de cidade grande no tem vergonha na cara. Um dia algum disse:
- O Florncio e o Bolvar vo acabar brigando.  uma pena. Primos-irmos... cresceram juntos como unha e carne. Agora ve essa bruaca estrangeira .. .
- Mas ela no  estrangeira. Nasceu em Pernambuco.
Sei ll No sendo continentino pra mim  estrangeiro.
Em princpios de 1853, quando os santa-fezenses ainda comeu tavam o almanaque do Dr. Nepomuceno, espalhou-se por toda vila a notcia de que Luzia Silva ia contratar 
casamento com Bolvia Cambar.
Um habitante antigo do lugar, que conhecera o Cap. Rodrigo murmurou: - Se o rapaz puxou pelo pai, tenho pena da moa. .
Mas um outro, que sabia das histrias que corriam sobre o pas sado de Aguinaldo, retrucou
- Mas se a moa puxou pela av, a corrida vai ser parelha
3
Acordou sobressaltado, sentindo que havia soltado um gnt Pulou da cama automaticamente e ficou de p no meio do quart escuro, na estonteada aflio de quem se v
de sbito sem mem e no sabe quem  nem onde est - mas sente que algo de terrv est acontecendo.
"Meu filhol"
Donde vinha aquela voz? Da direita? Da esquerda? De on "Meu filhol" Quase sem sentir, como uma criana que- t
medo da escurido, ele gritou: "Mame!"" A memria ento lhe voltou. Era Bolvar Cambar, estava
sua casa, em seu quarto e fazia algum tempo que- se deitara p dormir. Mas o medo ainda lhe comprimia o peito, e era terrvel ainda porque ele no lhe conhecia a
causa. Alguma co o fizera soltar um grito e acordar assustado,. alguma coisa -que certo estava agora escondida num ds .cantos -d quarto escuro. Por isso a voz
de sua me era uma esperana de socorro. Ele qu luz: ele queria a me.
Uma porta se abriu e Bibiana apareceu com uma vela acesa na mo. A chama alumiava-lhe o rosto. E por um segundo Bolvar de novo voltou  infncia. Pareceu-lhe at
sentir o cheiro do leo da lamparina. O rosto da me lhe deu-a sensao de segurana de que ele precisava. Seu primeiro mpeto foi o de caminhar para ela, buscando
a proteo de seus seios, de seus braos, de seu ventre. Para ele me e luz eram duas coisas inseparveis. Quando menino, muitas vezes acordava assustado no meio
da noite, comeava a chorar e s se acalmava quando a me acendia a lamparina e o tomava nos braos para o embalar.
- Que foi que aconteceu, meu filho? - perguntou ela caminhando descala para o rapaz e pondo-lhe a mo no ombro. - Est_ sentindo alguma coisa?
- No  nada, me.
De repente teve vergonha da situao. Um homem de quase vinte e trs anos portando-se daquela maneira. . .
Bibiana empurrou Bolvar para a cama, de mansinho. Bolvar deixou-se levar.
- Deita, meu filho.
Ele obedeceu. Bibiana sentou-se na beira da cama, deps o castial sobre a mesinha de cabeceira e puxou a colcha de algodo, cobrindo o filho.
- O sonho veio outra vez?
- Veio.
Desde que voltara da guerra, Bolvar sonhava periodicamente
com o homem que matara numa carga de lana. Claro, tinha matado muitos outros, em diversos entreveres: mas havia um que ele no podia esquecer. .. Vira-lhe bem o
rosto no momento em que sua lana lhe penetrara o trax, num estalar de costelas - uma cara contorcida pela dor e pelo medo, com o sangue a escorrer pelos cantos
da boca ...
E agora, ali junto da me, pensando em tudo isso, Bolvar mais uma vez teve vontade de desabafar .com ela, contar-lhe o que nunca contara a ningum. Queria dizer:
"Foi de mau que matei ele- O combate tinha terminado. O quadrado estava -rompido. Os argentinos se entregavam. Foi ento que vi aquele homem. Olhou pra mim, ergueu
os braos e gritou: "Amigo, amigol" Estva doido de medo, o pobre... Estava desarmado... Esporeei o cavalo, arranquei pra cima dele e enterrei-lhe a lana no peito.
Eu estava como louco, meio cego... O homem caiu de costas com a lana espetada no peito e eu fiquei olhando... Era bem mo~o e estava de olhos vidrados. Eu matei
aquele homem por maldade. Mas no sou bandido, me, juro por Deus que no soul"
Bolvar olhava para a me mas no dizia nada. Falava apenas em Pensamento, confessava tudo. E em pensamento tambm chorava, tirava aquela nsia do peito, desabafava...
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Como se tivesse ouvido as palavras que o filho no pronunciara, Bibiana comeou a passar-lhe as moss pelos cabelos e a dizer:
- No  nada, Boli. Guerra  guerra.
Ela sempre lhe contava as histrias do Cap. Rodrigo e as que sua av Ana Terra lhe narrara sobre revolues, violncias e crueldades. Parecia que aquelas mulheres 
estavam habituadas  idia de que um homem para ser bem macho precisava ter matado pelo menos um outro homem.
- Sonhei que o morto estava em cima do meu peito - disse Bolvar - e que o sangue que saa da boa dele escorria pra dentro da minha e me afogava. . .
- Por que no esquece isso, meu filho? O que passou passou.
- Mas no passou, me. De vez em quando o sonho volta. Cada vez que ele vem,  o mesmo que matar de novo aquele homem.
- So os nervos, Boli.  por causa de amanh.
No dia seguinte ia haver uma festa no Sobrado para festejar o contrato de casamento de Bolvar com Luzia Silva. Era natural que o noivo estivesse preocupado.
Bibiana tomou de novo o castial e ergueu-o diante do rosto de Bolvar. Viu a chama refletida nas pupilas do filho uma pequena vela acesa em cada olho.
- Agora dorme. Tudo passa. Fecha os olhos e faz fora pra no pensar.
Bolvar cerrou os olhos e pediu: - Deixa a lamparina acesa.
- A lamparina? - estranfiou ela. A vela, digo.
Lembrou-se dos tempos de menino quando suplicava: "No apaga a luz, que_ eu tenho medo."
Os dedos dela eram frescos e leves sobre sua testa. Sentiu quando ela se erguia, ouviu-lhe os passos macios nas tbuas do soalho. e o rudo "da porta que se fechava
de mansinho. De novo teve a sensao de abandono e de inexplicvel medo. No silncio comeou a ouvir o tique-taque do relgio sobre a mesinha de cabeceira.
Era o relgio que pertencera a seu av, Pedro Terra. Quando menino, Bolvar costumava pedir ao velho que lhe deixasse escutar o corao do relgio. "No  corao,
Boli. E uma mquina" - explicava Pedro. O corao de Pedro Terra tinha parado para sempre. Mas o do relgio ainda continuava a bater.
Bolvar revolveu-se na ama, e ento o pensamento que estava tentando evitar, lhe veio-de novo, com uma fora to terrvel qu lhe ps o sangue a pulsar nas tmporas
com fria entontecedora O quarto de sbito como que ficou cheio da presena do negr Severino.
O suor escorria pela testa e pelas faces de Bolvar, e ele seu a camisa pgajosa e mida colada s costas e ao peito. Precisav
A TEINIAGUA        339

sair para o ar livre, procurar a companhia de algum. Pensou em ir icordar o primo. Florincio era o seu melhor amigo, a nica pessoa com quem se podia abrir. Sim,
devia levantar-se e sair. Mas no saa. Ficou na ama, deitado de costas, com a impresso de ter o mundo iteiro em cima do peito.
Havia uma coisa que no lhe saa da mente: Amanh Severino vai ser enforcado por minha culpa. Todos diziam que fora o depoimento de Bolvar Cambar que o condenara.
O jri se realizara havia mais de ano, o processo se arrastara, fora mandado em recurso final ao Tribunal da Relao do Rio de Janeiro, que confirmara a sentena.
Severino ia ser enforcado no dia seguinte, s cinco da tarde, na Praa da Matriz... Era a primeira condenao  morte na histria de Santa F. Na expectativa do
grande espetculo, a populao estava excitada, como em vsperas de quermesse ou de cavalhadas. Iam at botar cadeiras ao redor da forca...
Havia pouco mais de um ano aquele crime ocupara todas as atenes na vila e no municpio. Os habitantes. antigos do lugar afirmavam que fora. o- mais horrvel de
quantos tinham lembrana. Dois tropeiros desconhecidos haviam pedido pousada numa chcara das cercanias da vila, onde morava um oleiro vivo servido por um nico
escravo, Severino. Jantaram os viajantes na companhia do oleiro e durante -o jantar - em que foram atendidos pelo preto dedataram ter recebido muito dinheiro da
venda duma tropa de mulas. E como fossem partir no dia seguinte,. antes do nascer do sol, quiseram, antes de se recolherem, pagar a hospedagem, e um deles tirou
uma ona de ouro da guaiaa recheada de moedas. O dono da casa - segundo ele prprio contou mais tarde s autoridades - mostrou-se melindrado com aquele gesto e recusou
receber o dinheiro. Onde se viu um gacho cobrar hospedagem em sua asa? Os viajantes recolheram-se ao quarto e no dia seguinte foram ambos encontrados mortos, com
as cabeas esmigalhadas. Ao descobrir os cadveres o oleiro - de acordo com seu prprio depoimento - gritou por Severino e verificou que o negro havia desaparecido.
Aconteceu que na noite do crime Severino pedira guarida a Bolvar, dizendo ter fugido do amo por no poder suportar-lhe os maus tratos. Bolivar ficou intrigado ao
ver manchas frescas de sangue na camisa e nas alas do escravo.
- Que  isso, Severino?
- Sangre.
- Eu sei. Mas de quem?
O negro pareceu hesitar um instante e depois disse:
Meu. Foi da sova que apanhei ind"agorinha.
- Tire a camisa. Vamos botar remdio nas feridas.
No carece.
- Tire a camisa! - ordenou Bolvar.
34O        O CONTINENTE
Severino ento comeou a tremer e a balbuciar coisas que B lvar no entendeu, e num dado momento olhou para a porta co olhos cheios de pavor, precipitou-se na direo 
dela, e fugiu. Fo preso no dia seguinte nuns matos dos campos dos Amarais e trazid para a vila. Chamado a depor, Bolvar contara o que vira. Inter rogado pelas autoridades, 
o negro chorou, negando ter cometido crime. Como as guaiacas das vtimas no tivessem sido achadas perguntaram a Severino onde as havia escondido.
- No escondi nada - choramingou ele. - No matei nin gum. No sei nada. Sou um pobre negro.
Contava mais, que na noite do crime o patro o acordara chicotadas e ameaara-o com um faco, gritando:
- Vai-te embora, negro sujo, seno eu te sangrol
O oleiro, entretanto, negava tudo isso, como negara tamb haver surrado o escravo na noite em que os tropeiros lhe pedira hospitalidade.
O jri foi dos mais movimentados em toda a vida de Santa F desde que ela fora elevada a cabea de comarca. Entre os juzes d fato estavam Bento Amaral, Aguinaldo 
Silva e Juvenal Terra. promotor foi implacvel. Achava que um crime daquela nature no podia ficar impune; tinha de ser punido com a mxima severidade - "... para 
que,.senhores jurados, no fique estabelecid um precedente horrvel que haveria de trazer a inquietude e o pavo permanentes a todos os senhores de escravos, a todas 
as casas, a td as famlias". E continuou: "O depoimento do Sr. Bolvar Cam barri, pessoa que nos merece a maior confiana, deixa o caso ciar como um cristal. Na 
noite do crime o negro o procurou e esta com as roupas ensangentadas. Que dvida pode ainda subsistir Era o sangue das vtimas inocentes, pois se fosse o sangue 
 prpn escravo, como ele parecia insinuar, por que se recusou Severino mostrar suas feridas ao homem junto do qual buscava proteo?
Severino foi declarado culpado por todos os juzes, menos Juvenal Terra, que mais tarde afirmou a amigos: Esse negro e conheo desde menino. Brincou com o Florncio 
e o Bolvar. N  capaz de matar uma mosca. Homem e cavalo eu conheo pe
jeito de olhar."
Bolvar revolveu-se na cama e ficou deitado de bruos, com braos dobrados e os punhos cerrados debaixo do peito, sentindo bater furioso do corao. Pensou no corao
do Severino a pui naquele pobre peito escuro e lanhado. Decerto quela hora o neg estava acordado na sua cela, esperando o clarear do dia de s morte. Mas quem Bolvar
via em pensamentos na cadeia no era Severino homem feito, mas sim o menino que brincava com ele Florncio debaixo da figueira da praa. E esse menino agora
A TEINIAGUA        341
morrer s por causa dumas palavras que seu amigo Boli dissera s autoridades...
Bolvar procurou pensar em Luzia, esforou-se por se convencer a si mesmo de que tudo estava bem : ele ia casar com a mulher que amava, com a mais linda moa de 
Santa F: um dia seria o senhor do Sobrado... Mas era intil. Seu mal-estar continuava : aquela aflio, aquele peso no peito, a sensao de que algo de horrvel 
estava por acontecer... E a lembrana de Luzia agravava essa sensao. E, sem compreender como, Bolvar odiou a noiva. Odiou-a por tudo quanto sentia por ela, odiou-a 
porque ela era bela, rica e inteligente. E odiou-a principalmente por causa de seus caprichos de mocinha mimada. Ele lhe pedira, lhe suplicara quase, que transferisse 
a festa do noivado para outro dia qualquer, a fim de que a cerimnia no coincidisse com a hora do nforcamento de Severino. Luzia batera p: "No, no e nol" O 
Pe. Otero interviera, dizendo que no era" direito estarem se divertindo no Sobrado enquanto um cristo morria ali na praa. Mas Luzia no cedera. Achava que no 
havia nenhuma, fazo para modificar seus lanos. J tinham preparado tudo: os convites estavam feitos, os doces prontos... Se as autoridades quisessem, que transferissem 
a execuo. E Aguinaldo, que sempre acabava fazendo as vontades da neta, deu-lhe todo o apoio: "Luzia  a dona da casa e da festa. Ela  quem manda."        /
Bolvar sentia o pulsar do prprio sangue no ouvido que apertava contra a fronha. Seu corao batia com tanta fora que parecia sacudir a cama, a casa, o mundo. 
E batia de medo - medo do que ia acontecer depois que o dia -siasse...
De repente Bolvar descobriu por que sentia aquilo. Era a imPresso de que ele, e no Severino,  que ia ser enforcado. Aquela era a sua ltima noite. No podia 
dormir. Era intil tentar. O Pavor da morte mantinha-o de olhos abertos.
Atirou as pernas para fora da cama e levantou-se. Como era seu hbito, dormia vestido.. Apanhou as botas e comeou a caminhar na direo da porta, procurando no 
fazer barulho. E quando se viu a andar p ante p na casa silenciosa, teve a impresso de que era um ladro ou de que ia matar algum... E " num segundo passou-lhe 
pela mente uma idia confusa e horrenda: Ele, Bolvar, unha assassinado os dois tropeiros: Severino escava inocente. Agora se lembrava. A machadinha, os dois homens
ressonando no quarto escuro. Depois o estralar dos ossos daquelas cabeas, como cocos que se Partem. Bolvar respirava com dificuldade. Tinha.os olhos fechados procurava
espantar aquela idia. Devo estar louco por
essas barbaridades.
Continuou a andar, com todo o cuidado. Mas o soalho rangeu a voz da me veio do outro quarto: "Bolvarl"
Por um instante ele no respondeu. Estava trmulo, assustado.
#342        O" CONTINENTE

como se tivesse sido descoberto no momento em quc ia cometer crime. A porta abriu-se, e de novo l estava D. Bibiana, com cabelos grisalhos cados sobre os ombros. 
A luz da vela, que alumiava o quarto, no chegava at o rosto dela.
- Que  que o meu filho tem?
- No  nada, me. S que no pude dormir.
- So os nervos.
Houve um -silncio. Bolvar calou as botas, e depois disse: - Vou caminhar um pouco pra refrescar. - Vai, meu filho, mas no demora. Amanh precisas
bem disposto.
Bolvar saiu com a impresso de que no voltaria mais, nun mais.
A TEINIAGUA        343
Era uma noite calma, e morna, de lua cheia. Bolvar comeo a andar sem saber ao certo aonde ia, mas seus passos o levaram direo da casa de Florncio. Tinha a impresso 
esquisita de n estarr bem acordado. Seus ps pesavam como chumbo e parecia. q o cho lhe fugia s pisadas. Galos amiudavam nos terreiros e deixava tudo mais estranho- 
pois embora ele sentisse que os gal estavam cantando, esse canto no chegava a mover o ar morto noite. Houve um instante em que Bolvar* desconfiou de que tu aquilo 
era apenas um sonho. Talvez fosse. Talvez de ripes acordasse para verificar que estava ainda em sua cama. No entan andava sempre, via as casas ao luar, os quintais 
onde rvores escure javam, as sombras das casas na ma, os frades-de-pedra -na frente venda do Schultz, da loja do Alvarenga e da agncia do correi Ele estava acordado,
no havia dvida. E agori comeava a doer lhe a cabea - uma dor de canseira e de tontura, um mal-estar febre. Um, gato cinzento passeava por cima dum telhado e
olhos fuzilaram. De repente, num choque, Blvar lembroudum gato que, quando menino, ele vira um escravo enforcar fundo do quintal, e o guincho estrangulado do animal
lhe passou a memria como uma agulhada. E l de novo estava tino pendurado na forca, e o corao de Bolvar a bater-lhe um possesso dentro do peito.
Decerto estou doente, com febre - refletiu ele ao chegar frente da casa de Florncio Terra. Ficou indeciso. Precisava rha o amigo sem acordar as outras pessoas da
casa. Entrou pelo lateral e bateu de leve na janela do quarto do primo. No nenhuma resposta. Tornou a bater com mais fora, chamam "Florncio... Florncio."
Esperou. Ouviu um arrastar de ps dentro do quarto. Depois a janela se entreabriu.
- Quem ?
- Sou eu. O Boli.
- Que foi que houve?
A cabea de Florncio apareceu.
- Nada. S que no posso dormir. .. - comeou a dizer Bolvar. E de repente sentiu vergonha daquela situao. Estava ali como um menino assustado pedindo a proteo
dum mais velho. Ficou* desconcertado, sem atinar com o que fazer. Florncio compreendeu tudo e murmurou
- Espera um pouquinho que j saio. - E fechou a janela.
Bolvar encostou-se na parede -da casa, tirou do bolso um pedao de fumo, desembainhou a faca e comeou a fazer um cigarro. Havia no ar um perfume de madressilvas
e agora,, longe, um cachorro comeava a uivar. De novo Bolvar pensou em Severino. Ele decerto estava ouvindo da cadeia o uivo do animal, uma lamria agourenta,
prolongada e trmula, que Bolvar sentia repercutir-lhe dentro do peito. Pensou na "simpatia" que sua me costumava fazer quando ouvia um cachorro uivar: virava
uma chinela de sola para o ar e imediatamente o uivo cessava.
O vulto de Florncio apareceu, vindo do fundo da casa. Os dois primos comearam a caminhar lado a lado, em silncio, ganharam a rua e sem a menor combinao se dirigiram
para a praa. Era assim que faziam quando crianas: mal se juntavam corriam a brincar debaixo da figueira grande.
Pararam por um instante  frente da capela, e Florncio, vendo que o primo tinha preso entre os dentes o cigarro apagado, bateu a pedra do isqueiro. E quando o outro
aproximou a ponta do cigarro da brasa do pavio, Florncio percebeu que os dedos do amigo tremiam.
- Calma, tenente - murmurou ele. - Calma ...
Era assim que dizia quando estavam na vspera dum combate. Tinham feito juntos a campanha contra Rosas, e pouco antes de entrarem em ao, Bolvar ficava to nervoso
que comeava a bater queixo, a tremer e s vezes rompia at a chorar. Florncio tinha de tomar conta dele, leva-lo para o mato, met-lo na barraca, abafar-lhe o
choro como podia para que os companheiros no ouvissem, para que no pensassem que Bolvar estava com medo. Porque covarde ele no era. Quando ouvia os primeiros
tiros, quando via o inimigo aproximar-se, o rapaz mudava completamente. Ficava assanhado como um potro bravo, de narinas infladas, cabea erguida, ardendo por se
meter num entrevero. E era preciso cont-lo para que no fizesse temeridades.
Florncio agora olhava para o primo  luz do luar. Como era difcil compreender aquele homem! Viviam juntos desde meninos
. 11
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e ele ainda no conseguira entender o outro, nunca sabia o que aspar dele. Era uma criatura desigual: num momento-estava exaltado fogoso, mas no minuto seguinte 
podia cair no mais profund desnimo. Passava da doura  clera com uma rapidez que das norteava os amigos.
Depois que decidira contratar casamento com Luzia, seu ner vosismo aumentara, e agora ele comeava a portar-se como se esta vesse em vspera de combate.
Florncio apagou o isqueiro e perguntou:
- O sonho veio outra vez?
- Veio - murmurou o primo, puxando uma baforada
fumaa.
-,O mesmo de sempre?
Bolvar sacudiu a cabea, numa afirmativa meio relutant Depois, disse
- Desta vez o Severino tambm apareceu.
Florncio sempre achara que os sonhos traziam avisos de coi que iam acontecer. Conhecia casos... Mas o Dr. Winter afirma que isso era crendice, porque os sonhos 
nada tinham a ver com futuro.
Agora os dois caminhavam calados para o centro da praa Florncio via que os olhos de Bolvar estavam postos na forca Compreendeu ento que era que estava roendo 
o amigo por dentro mas achou melhor no dizer nada. O outro que puxasse o assunt se quisesse.
Sentaram-se debaixo da figueira, ficaram por algum tempo silncio, pensando os dois nos tempos da infncia, quando vinha ali brincar com Severino. O negrinho subia
na rvore, gil e escu como um bugio, fazia piruetas, soltava guinchos. Bolvar er ao rosto um pedao de pau, fazendo de conta que era uma espi garda, apontava-o
para o bugio, gritava: piI, e Severino, segun uma combinao prvia, tinha de atirar-se ao cho e ficar imvel um bugio morto - at que Florncio vinha ajoelhar-se
ao p de encostar o ouvido no peito do "animal" e depois declarar mui srio para o primo: "Bem no corao." Mal, porm, ele dizia palavras o negrinho comeava a
rir desesperadamente, a retorcer todo e a espernear. Era a hora de Florncio tirar da cintura ;a faca de madeira e "sangrar" o bugio bem como os homens da ch queada
sangravam os bois...
O bugio vai ser enforcado amanh - pensou Bolvar. De n comeou a sentir as batidas violentas do prprio corao. Es sentado com as costas apoiadas no largo tronco
da figueira, e um momento em que lhee pareceu que a rvore tinha tambm grande corao que pulsava, numa cadncia de medo. Aquela gueira sempre lhe dera a impresso
duma pessoa, duma mulher tivesse a cabea, os braos e os ombros enterrados no cho e
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pernas erguidas para o ar, muito abertas. Bolvar tinha treze anos quando descobriu a semelhana, e desde ento comeou a amar secretamente a figueira. s vezes
ficava montado bem na parte em que as duas pernas da "mulher" se ligavam ao tronco: enlaava com ambos os braos uma das coxas e, de olhos fechados, ansiado e trmulo,
ficava ali longo tempo, com o corao a bater descompassado de prazer e de medo - prazer de amar a figueira-mulher: medo de que algum aparecesse e o visse fazendo
aquilo. Nunca contara seu segredo a ningum, nem a Florncio, pois o primo no gostava de "bandalheiras". E aquela rvore tinha sido para ele tudo: cavalo, carreta,
castelo, abrigo, amante... Pensou em Luzia, imaginou-a meio enterrada no cho, de pernas para o ar. Luzia devia ter pernas bonitas. Ele ia amar Luzia como amara
a figueira. Mas Luzia no era boa como a figueira, Luzia no era amiga como a figueira ...
Olhou para o Sobrado : grande, branco, imvel ao luar. Por trs daquelas paredes sua noiva decerto dormia sem remorsos, como uma criana. Tinha tudo o que queria,
todos lhe faziam as vontades, era como uma rainha. Um homem ia morrer na forca, mas que era para aquela moa mimada a vida dum homem, de cem homens?
Bolvar olhou para o primo, tomado dum sbito desejo de contar-lhe o que sentia:, mas a voz se lhe trancou na garganta. Depois, havia tanta coisa a dizer que ele
no sabia por onde comear. Ficou olhando alternadamente para o Sobrado,. para a forca e para a cadeia onde Severino estava preso. Galos cantavam. Dentro de algumas
horas a manh ia raiar.
De repente, como se seus pensamentos se transformassem em palavras  revelia da vontade, Bolvar murmurou:
-  uma barbaridade enforcarem um homem.
Atirou longe o cigarro. Florncio encolheu os ombros.
- Barbaridade por barbaridade, h muitas outras no mundo e a gente acaba se habituando com elas.
- Mas vai ser uma injustia! - gritou Bolvar. E suas palavras foram absorvidas pelo ar parado da noite.
Florncio voltou a cabea para o primo. No lhe podia distinguir bem as feies ali  sombra da figueira, mas sentiu que no rosto dele havia sofrimento.
- Injustia? O jri condenou o Severino.
- Mas o negrinho est inocente.
Qu?
Quem matou os trapeiros fui eu.
Florncio sentiu no peito estas palavras como um soco que lhe cortou o flego. Mas logo se refez e reagiu:
No seja bobo. Vassunc est mas  doente.
Agora ele ouvia a respirao arquejante do outro, como a dum
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O CONTINENTE
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cachorro cansado. Bolvar meteu as mos pelos cabelos e come a sacudir a cabea devagarinho. Foi com voz fosca que disse:
- Mas se eu fosse me apresentar s autoridades confssan que matei os dois homens, ningum podia duvidar da minha pala
-        o Severino se salvava.
O luar era como uma geada morna sobre os telhados. Florn arrancou um talo de capim e mordeu-o.
- Vassunc precisa  dormir, descansar - disse ele simpl mente.
Bolvar continuava a sacudir a cabea.
- O negrinho vai morrer por minha culpa.
- No diga isso, Boli. Vassunc fez o que era direito. Cont
-        que viu...
- No sei.
- Que  que no sabe?
- Se contei o que vi. No princpio achei que estava falara a verdade. Mas depois do jri comecei a duvidar. Hoje no anais nada ... Parece que o sangue era mesmo 
do negro...
- Nesse caso, quem foi que matou os tropeiros?
- Sei l! Algum ladro que entrou de noite pela janela. O quem sabe, o dono da casa.
Florncio mordia o talo de capim e sua voz estava calma, r signada e triste quando ele disse,
- Agora  tarde.
Bolvar ergueu a cabea e lanou um olhar na direo da cadei - No  tarde. O Severino ainda est vivo. - Mas est preso, Boli, e vai ser enforcado amanh. Florncio
sentiu a mo quente e mida do amigo apertar
-        pulso com uma fora quase furiosa.
- Florncio, ainda tem tempo!
O rosto de Bolvar estava agora to prximo que Florncio lh
sentia o hlito cido.
- Tempo de qu?
- De salvar o negrinho.
- Mas como?
- Tirando ele da cadeia.
- Est louco?
- No, mas sou capaz de ficar se o Severino morrer enforcad
No posso agentar mais essa morte na conscincia.
- Mas o que  que vassunc quer fazer?
- Escuta, tem s dois guardas na cadeia. Ns somos dois. . Florncio agora compreendia. Cuspiu de sbito o talo de ap
-        sacudiu vigorosamente a cabea.
- Vamos at a cadeia - continuou Bolvar - amarram
os guardas, tiramos o Sevrino, eu dou um dos meus cavalos p
ele e mandamos o negro embora. Pode sair na direo da Cruz Al
e ir pra So Borja e depois, pra: Argentina, pra qualquer lugar. Qualquer coisa e melhor que a forca.
Florncio tirou do bolso um pedao de fumo em rama. desembainhou a faca e comeou a fazer um cigarro. Bolvar esperava a imposta. S depois de algum tempo  que
o primo respondeu:
Vassunc est bem doido mesmo.
- No estou, j disse. Ainda tem tempo. Vamos.
Florncio picava fumo, calmo. Ele. conhecia o primo. Tudo aquilo ia passar. Ainda bem que no havia ningum por ali pau ouvir aqueles despautenos.
Vassunc precisa mas  de descansar. Amanh quando raiar o dia tudo vai ficar direito.
- No fica. Fica pior.
- Sabe duma coisa? Um banho no lajeado ia l fazer bem. Vamos?
Bolvar pareceu no ouvir o que o outro propusera.
- Vamos tirar o Severino da priso enquanto  tempo - insistiu.        Quando amanhecer vai ser tarde demais.
Viam uma janela iluminada na casa da cadeia. Era o candeeiro que passava a noite aceso. Havia dois guardas que se revezavam na viglia. As vezes- fiavam acordados
jogando bisca e bebendo. Contava-se que no raro ambos caam no sono.. Os olhos de Bolvar agora estavam #fitos na janelinha iluminada.
Florncio guardou a faca na bainha e comeou a amassar o fumo no cncavo da mo.
- Ns tiramos o Severino da cadeia.. - disse ele com sr" voz calma - e depois, que vai ser de ns?
Bolvar encolheu os ombros.
- Que me importa?
- Como, homem? No v que  uma coisa muito sria dar escapula pra um condenado  morte? .
- Pois ento fugimos tambm com ele, vamos pro outro lado do Uruguai.
- Vassunc perdeu o juzo. No se lembra que amanhs  o dia de seu contrato de casamento?
t3aciaQue me importa? A vida duma pessoa tem mais impor
.
Que tem, tem. Mas o cano aqui  diferente. Os jurados acharam que o negrinho era .culpado. & algum errou no foi vasaunc, foi o jri.
- Mas houve um jurado que no achou o Severino culpado. FO1 o deu pai. Ele disse que conhece as pessoas pelo jeito de olhar. Ele jura que o negrinho no em capaz
.de cometer aquele crime. Tio Juv*"l conhece as pessoas. Ele nuns se engana.
Florncio alisava agora a palha do cigano.
348        O CONTINENTE

O        ~ vriea tambm re engana. Todo o mura engana. r~ ~  infalvel. S Dona.
- Dcnr tambm se engana. H moita injustia no moa
- Vaana .precisa  dom banho frio. Por qsc no era mos os avalos e vamos at o lajeado?
De sovo galos cantaram: eram como sm relgio dando Cada vez mais se aprozimava o, fim da noite. Bolvar olhou o horizonte atravs duma boca de roa. Temia ver aquela 
parte cu clarear. Mas que m mesmo que ele temia? A hora do umecto? A hora do noivado? O aaor . agora lhe eatnva cantos da boca, pelos olhos, e por algaras segandos 
le via a atravs dama cortina lquida: fado trmalo e vago. Scsa pr pensamentos pareciam .encharcados de suor, estavam confasoa, fundos, eram como sm miagas gseate 
de febre.. Pensava-entoa dameate em Severino e em Luzia: ora lhe parecia que fora .L quem mandara matar Srverino; ora era Severino quem estava na de Luzia, montado 
nela, com sena buos negros a enlaar-lhe cozas; ora era Latia quem talava na cadeia e ia ser enforcada. imaginava-os todos a fugir pau o Uruguai, a galope, montados 
cavalos em pelo - ele. Luzia, Florncio, Severino - petsegat pela polcia, peraegaidaa pelos galos e pelas barras do dia.
Levantou-se, bronco.
- Pois sc yaassac no quer ir comigo, era vou sozinho. - Vai .aonde? - pergaaton Florncio, apesar de saber a Ooutro a< referia.
- Tirar o Severino da cadeia.
Florncio soltou uma risadiaha seca.
- Man primeiro tem qae lotar comigo.
"Ergueu-se tambm, mas lento, tom o cigarro apagado entre
dentes.
Bolvar olhou para o amigo, cuja calma o enervava. vontade de esbofete-lo. E - estranho - num relmpago praaden qse .naquele momento ele tinha inveja do outro.
l~lo no sofria, eco trm homem liwe, no ia casar-se cora Luzia St Sentiu tambm cime dele, porque sabia que FlorBacio sempre tara de Luzia, e esta moitas vezes
deu mostos de no lhe ser fer+cnte. E ali catava agora o primo, pachorrento, batendo o " para acender o aen cigarro: Invejava-lhe tambm aquela cal eoaacincia tranggila,
a segannp de suas palavras, de seus g de soas coavices.
Bolvar. olhou de novo para a janela da odeia. Atnvesaa praa cornado, armado de pistola e, entrando de. repente, fara a gaardas .dessem liberdade a Srverino. "Corre,
negro, fogel a meu cavalo ~da estrebaria e foge pro Uragoai. Drpreaaa l"
Passou a mo pelo soato, enzugaado o saor. Sentis qae podia fazer nada "do que pensava. Era loacra. Severiao
"do. 81e estava perdido. Toda eabvsm perdidos. Todos m~,os Luzia. Ela sempre fazia e tinha o que gsena. Ela e Flo~ao, E ento de repente lhe veio sma idia. "Eu
solto o Severino e fojo com_ ele pra Argentina. Florgntio fica e acaba casando-se com Lnzta." Ali estava a solaoI Nesse momento vetifimn que estava desarmado.
Tinha de ir at a cana pau bsar dinheiro e soas armas. Entraria na ponta dos ps, sem fazer baralho .. . Lembrou-se da me. Que ia ser dela . se ele fagiaae? Por
algara instantes teve tia mente a imagem de Bibiana, de camisola, os abe= los grisalhos soltos, ama lamparina sa mo... A me morreria de desgosto re ele fagisae.
Flore"ncio pitava serenamente. Bolvar aprozimoa-se da figueira e passou-lhe a mo pelo tronco spero. Quando meninos. eles tinham gravado sena nomes a ponta de
faca naquele tronco.. Como no soubesse esever, Sevenno desenhara ali apenas sma~ traz. Agora o coitado ia morrer aa forca, talvez nem o enterrassem como trinto.
No teria de seu nem ama traz. Bolvar prometes a si mesmo que havia de compor para Severino uma sepultara com ama cruz e ama iascrio, como sepsltara de busco.
?assara a frias Lentamente tornos a sentar-se. O cho estava tpido como -um corpo hamano. Pensou em Latia e desejou estar na cama com ela, no para am-la, mas
para ter um neo onde repousar a cabea assada e chorar. Porque a vontade de chorar lhe crescia aos pontos no peito. Por algaras instantes latos com ela, mas por
fim cedes, e o chro rompeu-lhe da garganta num soluo. Escondeu o rosto nas mos e fitos a soluar coavalsi"vamente.
Florncio baixos oa olhos para o amigo e pensos: Sle tem medo da Luza. Mas no disse nada.. Olhou pau o Sobrado e pensou na moa. Agora que ela ia casal com o primo,
deitava de ser mulher para ele.. Estava todo acabado: Doena de amor se cura com o tempo. No fendo ele se sentia feliz por Luzia no o ta escolhido. Feliz filo
era bem a palavra : aliviado, isso sim. Lszia raio era mulher para ele nem para Bolvar. Ia casar com o rapaz por capricho os por birra, ningum sabia bem ao certo
por qn8. Amor noo era, que Lszia no era mulher para isso. Pobre do Bolil Sr no botasse cabresto na tapsa desde o primeiro, dia, catava perdido.. Luzia era como
certos cavalos que precisavam de rdea curta. el~ gwll Boli estava cego de amor, ia passar a vida dominado.por
Em todo aquilo s havia ama esperana: era tia Bibiana, que u morar tambm ao Sobrado. Ela caidaria de Boli, seria sempre
escudo pau o filho. Lszia era volnatariosa, autoritria, cheia
caprichos, mas ia encontrar pela frente uma adversria de respeito. T~ Bibiana tinha a cabea no lagar: era uma mulher dos bons ~Pos. Estava habituada a lidar com
gente, e tinha a fibra. da
~s        concluis Florfncio com certo orgalho, finado uma
baforada,
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Neasc instante viu que am vulto se aproximava. Reco os contornos do Dr. Grl Wiater. O mdico alemo en incoafand Ntagnm mais em Santa F se vestia daquele jeito 
engraado. gnm ali asava chapu alto como dzamia nem. aquelas roupas pafrdias.
A pontos passos da figueira Carl Winter garoa.
- Boa noite, doutor! - exclamou Florncio.
Por alguns instantes o mdico ainda hesitou mas. po
nconheceado o rapaz, .responder:
- Boa noite. Florncio. Boa noite: Den mais alguns passos  frente.
Qne anda ..fazendo por aqui a estas _horas? Virou lo
mem?
Winter soltou a sua risada em falsete e antes de responder f a acender um de seus charutinhos.
- Fui chamado para ir ver o. Cel. Sento. Comem ch atrainado e ficou com cibras no estmago.
- Deve ter sido charque da chargntada .dele - observou rncio.
Foi ento que. Winter viu Bolvar.
- Ahl Bolvar. No .rinha visto o amigo. Boa noite. Bolvar fungou.
- Boa noite.
- Est resfriado?
- Um ponto.
Florncio aspirava com certo prazer a fumaa. do charutinho mdico: Ali em Santa F s ele fumava aqueles charutos do ta nho dum cigarro. O Dr. Winter era am homem
fora do com que vestia roupas de velado nas cores mais egtravagantes, tom esquisitos- coleEes de fantasia. Fazia uns dois anos que estava vila e diziam que tinha
.emigrado da Alemanha por se ter me numa revoluo. .Sena inimigos afirmavam que ele no era orado, mas o Dr. Winter tinha em casa nm diploma -para_ q gwsesse ver:
en nm papel escrito em alemo que ele .gear destro .dum surdo de lata. O Schnltz ganntia que o dipl
en legtimo.
Fz-se nm silncio. O Dr. Winter parecia estar olhando p
forca e Florncio, temendo que ele falasse cat Severino, pr
levar a conversa para outro ramo.
- )a grave " - perguntou.
- Grave? - repetia o mdico. - A aoena ao Cel. Bento.
- Ach! Um pargante de . sal amargo resolve fado. Flosncio sempre -admirava a maneira correta com que a
lesmem se. exprimia em portugus: tinha.. um sotaque muito f
era verdade, carregava nos erres, mas quanto ao resto falava fl
mente como um brasileiro educado, quase to bem como o juiz de direito ou o padre. E diziam que sabia tambm o seu latim e que em sua casa tinha muitos livros escritos
em lnguas estrangeiras.
Florncio continuava a aspirar a fumaa do charutilho do mdico, de cheiro to forte como o do seu cigarro de palha.
- Ainda no se decidiu a pitar um crioulo, doutor?
-        outro sacudiu a cabea.
- Nem a dormir com mulatas - respondeu com voz risonha. - H muitos produtos desta terra que no so para meu paladar.
Florncio sorria. De cabea baixa, protegido pela sombra, Bolvar pedia a Deus que o mdico fosse logo embora.
- Pelo cigarro crioulo eu respondo - assegurou-lhe Florncio. mostrando os dentes num lento sorriso. - Tambm nunca fui apreciador de mulatas.
- Que  que diz o Bolvar?
Bolvar no respondeu. Limitou-se a erguer a cabea para o mdico.
- Ele agora vai sentar o juzo - disse Florenao. - Amanh fica noivo.
-        Dr. Winter coou o queixo onde crescia, revolta, uma barbicha ruiva.
- No acha ento que devia estar na cama descansando? - perguntou com jeito quase paternal.
Florncio apressou-se a responder:
- O homem perdeu o sono e ento viemos pra c palestrar e tomar a fresca.
-        mdico resmungou qualquer coisa, puxou uma baforada de fumo, cuspinhou para o lado e disse:
- Bom. Vou ver se durmo um pouco. Dizem que a noite foi feita para dormir.
- Dizem - repetiu Florncio.
- Bo noite, rapazes.
- Boa noite, doutor.
Wiater afastou-se na direo de sua residncia. 1~Iorava numa meia-gua atrs da igreja, ao lado da casa do padre. Por alguns instantes Florncio acompanhou-o com
os olhos. Gostava do Dr. Winter. Sentia por ele uma espcie de respeitosa confiana, como a que a gente sente por uma pessoa sria e idosa. No entanto o mdico no
teria muito mais de trinta anos. Devia ser aquela barba e aqueles culos que lhe davam um ar assim to respeitvel.
- Ser que ele notou? - perguntou Bolvar.
Notou o qu?
Que eu estava chorando .. .
Florncio encolheu os ombros.
Sei l! Esse homem parece que no- olha pra nada enxerga tudo com o rabo dos olhos.
mas
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Houve um curto silncio e depois Bolvar perguntou
- Ser que vo mandar o Dr. Winter examinar o corpo - Qne corpo, homem? -
- O do Severino, depois que enfortirem ele. - Pra cm isso, Boli. Que homem tustosol
Bolvar olhou para o Sobrado e tornou a pensar em Luzia.
5
Naquele mesmo instante o Dr. Carl Winter - que atrav
a praa com suas passadas lentas e largas. - olhava para a casa Aguinaldo Silva e tambm pensava -em Luzia. Tinha-a na me tal como a vira no Sobrado na festa de 
seu aniversrio, toda vesti de preto, junto duma mesa, a tocar ctara com seus dedos fin .brancos. Nessa noite ficara fascinado a observ-la, e houve minuto em"que 
uma voz -- a sua propna a sussurrar-lhe em semento - ficara a repetir: Melpmene, Melpmene ... Sim, L lhe evocava a musa- da tragdia. Havia naquela bela mulher 
dezenove anos qualquer coisa de perturbador: uma aura de dra uma atmosfera abafada de perigo. Winter sentira isso desde o mento em que pusera os olhos nela e por 
isso ficara, com rela  neta de Aguinaldo, numa permanente atitude defensiva. Nu terra de gente simples, sem mistrios, Luzia se lhe revelara u criatura complexa, 
uma alma cheia de refolhos, uma pessoa, en - para usar da expresso das gentes do lugar - "que tinha ou por dentro". Ao conhec-la, Winter ficara todo alvoroado 
co um colecionador de borboletas que descobre um espcime raro lugar mais inesperado do mundo. Ao contrrio, porm, do que riria um colecionador, noo desejou apanhar 
aquela borboleta sua rede; ficou, antes, encantado pela idia de seguir-lhe o vo, observ-la de longe, viva e livre. Que mistrios haveria deu daquela cabea bonita?
Boas coisas noo havia de ser - conclura ele. O instinto insinuava isso. Lembrou-se de seu professor de clnica, segnnd qual em Medicina, como em tudo mais, o instinto
 tudo. Sen o clnico, ou seu sexto sentido fazia soar nma sineta d4 alarme t a vez que ele via Luzia Silva. E- sempre que visitava o Sobra enquanto o velho Aguinaldo
contava com sua voz cantante hst do serto pernambucano, ele ficava a examinar furtivamente, c olhares oblquos, a menina Luzia. Que tinha ela de to serra Talvez
os olhos ... Eram grandes e esverdeados ... Ou seriam zentos? Era difcil chegar a nma defini, pois lhe parecia que mudavam de cor de acordo com os dias ou com
as horas.. Possu ama fixidez e um lustro de vidro e pareciam completamente va
de emoo. Winter descobrira que Luzia fitava as pessoas com a mesma indiferena com que olhava para as coisas: no fazia nenhuma distino entre o noivo, uma mesa
ou um bule. Pobre Bolvar! Winter achava absurdo que duas pessoas to desiguais estivessem para casar, morar na mesma casa, dormir na mesma cama e juntar-se para
produzir outros seres humanos. Bolvar mal sabia ler e assinar o nome: era um homem rude. Carl no acreditava que Luzia o amasse; para falar a verdade no a julgava
capaz de amor por ningum .. - Quanto ao rapaz, era natural que estivesse fascinado por ela. Winter sabia o quanto era difcil para qualquer homem que estivesse
na presena de Luzia desviar os olhos de seu rosto. Reconhecia que ele prprio senta pela senhora do Sobrado um certo desejo fsico. Era, porm, um desejo sem ternura,
um desejo frio e perverso.
Afastou os olhos do casaro e baixou-os para a terra onde se projetava sua sombra alongada. E ento de repente sentiu o silncio da noite e aquela impresso de mistrio
que o envolvia sempre que ele caminhava sozinho de madrugada, pelas ruas desertas. Sentira isso na sua aldeia natal, em Heidelberg,. em Paris, em Berlim. Era como
se nessas horas solitrias ele fosse uma espcie de fantasma de si mesmo.
"Melpmene" - murmurou. E imediatamente lhe veio uma idia curiosa: nunca ningum pronunciara aquele nome naquela vila. Talvez nem naquela provncia ... Depois,
mais alto, como se se dirigisse  prpria sombra, repetiu: Melpmene. Nunca - refletiu - eu sou o primeiro. E o primeiro tambm que passeia sob este cu com estas
roupas. E rindo o seu riso interior o Dr. Winter olhou para a prpria silhueta no cho e teve mais que nunca conscincia da maneira como estava vestido: a sobrecasaca
de veludo, verde, as calas de xadrez preto e branco, muito ligadas s coxas e s pernas, e principalmente aquele chapu alto, que era um dos grandes espetculos
de Santa F. Sabia que suas roupas davam muito que falar. Os colonos alemes em sua generalidade haviam j abandonado seus trajos regionais e adotado os dos naturais
da Provncia. Mas ele, Winter, preferira conservar-se fiel  indumentria europia e citadina, e continuava a vestir-se bem como se ainda vivesse em Berlim ou Munique.
Por outro lado, no que dizia respeito s coisas do esprito, tambm continuava a usar as modas europias; e no queria mudar, pois sabia que no dia em que se adaptasse
e comeasse a comer e vestir como os nativos, mais da metade do encanto de viver naquela terra remota estaria perdida. Winter sempre amara sua independncia : era
um individualista. No via, pois, melhor maneira de se afirmar como um indivduo, e de defender sua independncia do que a de andar vestido daquele modo inconfundvel.
Antes de entrar em sua rua lanou um olhar enviesado na dire-
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o da figueira grande. Ela lhe dera a impresso duma eno galinha . a acolher sob as asas aqueles dois pintos ~ Florncio Bolvr. Ble vira claramente que um dos 
pintos estava assustado. Se en fosse me casar com Luzia Silva - refletiu Carl Winter jga do ao cho o toco do charuto - tambm perderia o sono . , E entrou em 
casa.
O cheiro de picum e mofo - que ele tanto detestava mas c o qual j comeava a habituar-se - envolveu-o num abrao f miliar. Winter acendeu o candeeiro, franzindo 
o nariz ao cheiro sebo frio; brotou dele. uma chama amarelenta e mvel, e aos pouc as coisas daquele quarto como que foram crescendo da sombra pa fazer-lhe companhia: 
a cama-de-vento, a gamela de pau que 1 servia de bacia, o jarro de folha amassada, as cadeiras de palhin a estante com os livros, a mesa de pinho, sebosa e guenza, 
com papis, o tinteiro, o secador de Loua e a pena de pato ... As pa dos caiadas estavam manchadas de umidade.
Que contraste aquele ambiente oferecia quando Winter o co parava com os aposentos que tivera na Alemanhal Mas aque rusticidade, aquela pobreza davam-lhe um absurdo 
prazer como que uma pessoa sente ao se infligir certos castigos sem propsit tomar banhos frios no inverno, dormr em camas duras.
Winter pendurou o chapu nnm prego cravado na parede comeou a despir-se lentamente. Ouvia o ressonar pesado da ne Gregria, uma escrava que ele comprara havia pouco 
mais de an
-         qual dera alforria imediatamente. Ela lhe preparava a come
- tomava conta da casa. Era uma preta de carapinha amarelen velha e reumtica, de pernas elefantinas. Sua presena- faziasentir duma maneira muito aguda, impunha-se 
 vista, ao olfa
- ao ouvido, porque Gregria cheirava mal, era grande, moviacom rudo e passava quase todo o dia cantando, falando consi mesm ou arrastando pesadamente os ps inchados 
pela cozinha.
Por que era que ele insistia em continuar naquela casa? Extr vagncia? Autoflagelao? Ou simples preguia? Talvez f preguia.. A verdade era que costumava divertir-se 
imaginando o q dirim seus amigos de Berlim se o vissem naquele ambiente. O vindo os roncos de Gregria, Garl disse para si mesmo: Eu pod" estar morando com Gertrude 
Weil numa casinha limpa de Eberbac com vasos de flores nas janelas. No entanto estou nesta pocilg em Santa F, na companhia da negra Gregria. Ach, du lieber Got
Estava agora completamente nu. Tinha um corpo muito esgar
- ossudo, dum branco de marfim. pintalgado de sardas e recobert duma penugem fulva. Ficou a imaginar o que aconteceria se u dia sasse a andar assim despido pelas 
ruas do povoado. Certamen aqueles homens sairiam a ca-lo a" tiros e as mulheres que o visse soltariam gritos de horror. E s de pensar nisso Carl ficou sacudi 
de riso. Baixou os olhos na contemplao do prprio corpo.
magro e dessangrado como o Crucificado de Van der Weyden que ele vira em Viena. Apenas o Cristo da pintura noo usava culos. T1em era ruivo. Nem formado em Medicina. 
Nem ... Ach! .. . pu bist ein Hanswurst, Carl!
Estendeu-se na cama e apanhou um livro de poesias de Heine. Mas noo abriu o volume. P-lo em cima do ventre, achando gostoso o contato fresco da capa de couro negro. 
Cerrou os olhos e em breve verificou que estava sem sono. Abriu o livro e comeou a ler um poema, mas com a ateno vaga. Tornou a fechar o volume, soprou a lamparina, 
e o ar, que estava amarelento, ficou azulado: o foco de luz deixou de ser a velha candeia de ferro para ser a janela escancarada por onde entrava o luar. E nesse 
retngulo violeta Winter comeou a ver o crivo mido das estrelas.
Tirou os culos e p-los com todo o cuidado em cima da cadeira, ao lado da cama. E de repente, como j acontecera antes tantas vezes, sentiu- se tornado de uma sensao
de estranheza que ele poderia toscamente resumir nestas palavras: Eu, -Cari Winter, natural de Eberbach, formado em 16ledicina pela Universidade de Heidelberg, completamente
nu deitado numa cama tosca, num quarto malcheirante, numa casa miservel na vila de Santa F, perdida no meio das campinas da Provncia de So Fedro do_ Rio Grande,
Brasil, Amrica do Sul. Como? Por qu? Para qu? Enlaou as mos -sobre o ventre e ficou de olhos cerrados a pensar. Era o melhor estratagema que conhecia para apsionar
o sono. Procurava narcotizar-se com pensamentos at dormr.. E nunca conseguia ver claro o momento em que cruzava a tnue linha que separa o devaneio do sono.
Como? Por qu? Para qu? No cometi nenhum crime. No sou nenhum imbecil. O mundo  muito largo. Eu podia estar no Cairo, em .Bombaim, em Canto, em Caracas. E por
que no em Munique, Berlim ou mesmo Eberbach .. .
Sempre hesitava antes de responder, quando lhe perguntavam Por que deixara a ptria. Certo; no era um "colono" como os outros alemes que se haviam estabelecido
s margens do Rio dos Sinos. No viera  procura do E1-Dorado nem da Galinha dos Ovos de Ouro. Refugiado pltico? Talvez fosse essa a sua classificao. Sua malcia,
entretanto, recusava o ttulo dramtico e levava-o a resumir sua histria em poucas palavrs: "Estou aqui Pr"mcipalmente porque Gertrude Weil, a Frciulein que eu
amava, preferiu casar-se corri o filho do Burgomestre. Isso me deixou de tal maneira desnorteado, que me meti numa conspirao, que .redundou numa revoluo, a qual
por sua vez me atirou numa barricada. Ora, essa revoluo fracassou e eu me vi forado a emigrar com alguns companheiros."
Carl Winter gostava de relembrar a srie de acontecimentos fortnitos que o haviam trazido de-Berlim a Santa F, atravs das mais
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curiosas escalas. Desembarcara no Rio de Janeiro com o diplo
a caixa de instrumentos cirrgicos e algum dinheiro no bolso, cidido a estabelecer-se ali, fazer clnica, juntar uma pequena fortu para um dia - depois que seu governo 
tivesse indultado os rev lucionrios e ele conseguido esquecer Trude Weil - retornr  A manha. Achou, porm, que o Rio era insuportavelmente quen tinha um incmodo 
excesso de mosquitos e mulatos, alm da ames permanente da febre amarela. Meteu-se com armas e bagagens n patacho que se fazi de vela para a Provncia de So Pedro 
- q lhe diziam ter um clima semelhante ao do sul da Europa - desembarcou na cidade do Rio Grande, onde julho o esperou co ventos gelados que cheiravam a maresia 
e nevoeiros que o lembrar agradavelmente dum inverno que ele passara em Hamburgo, quan adolescente. Apresentou suas. credenciais  prefeitura e, sabendo ex tir na 
cidade uma grande carncia de mdicos, ofereceu-se para t balhar gratuitamente no hospital de caridade local. Foi 1a qne u di, . fazendo. sua visita matinal aos 
doentes, encontroa deitado nu daqueles catres sujos e malcheirosos, num contraste com as cor tostadas dos nativos, um homem louro, extremamente jovem, e~ aspecto 
europeu. Deteve-se, interrogou-o e verificou que se trata de um alemo que viera com as tropas mercenrias que o govern brasilero havia contratado para lutar contra 
os soldados do ditad Rosas. E o pasmo de Winter chegou ao auge quando o moo 1 declarou chamar-se Carl von Koseritz e ser descendente duma faml nobre do ducado 
de Anhalt. Fo, pois, com uma mistura de s presa e cepticismo que o mdico ouviu yuele homem de fei" finas, ali estendido num ,srdido leito de hospital de indigent 
contar-lhe que seu irmo Kurt fora ministro do duque e sua irm Tony, dama de honor da duquesa.
- Mas como foi que veio parar neste pas, nesta cidade, nes hospital?
- Fui renegado pela minha famlia - sorriu o moo.
O mdico. ia perguntar: "Por qu?" - mas conteve-se a tem Era uma pergunta indiscreta. Talvez o rapaz houvesse falsifica a firma do .pai em alguma. letra para pagar 
dvidas de jogo. . Ou ento, amante de alguma condessa, tivesse sido obrigado a mat o conde num duelo .. .
Von Koseritz, porm, apressou-se a explicar que, sendo est dante em Berlim, se metera, contra a vontade dos pais, na revol o de 48. E acrescentou:        "
- E j que estava eni ritmo de guerra, achei melhor vir pa c com os "Brumers" para lutar contra o tirano Rosas. .Sabe o q cn era? - perguntou a sorrir com malcia. 
- Canhoneiro do 2 Regimento de Artilharia! - Suspirou. - Mas aconteceu qne tropa se insubordinou e foi dissolvida. Assim um dia me vi deen e sem recursos nesta cidade 
estranh. Eis a minha histria.
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Winter olhava para o outro numa confuso de sentimentos. Tudo aquilo lhe cheirava vagamente a pera-bafa. O rapaz, porm, lhe mostrou os documentos comprobatrios 
de sua identidade. Tinha um belo nome:. Carlos Jlio Cristiano Adalberto von Koseritz. Nascera em 183O: estava portanto com apenas vinte e um anos!
- E agora? - perguntou Winter. - Que vai fazer depois que der alta do hospital?
- Ficar nesta provncia.
- E plantar batatas como nossos compatriotas de So Leopoldo?
- No. Abrir uma escola e ensinar; fundar um escrever .. .
- Mas como, se nesta terra se fala o portugus?
- Dentro de pouco tempo estarei habilitado a escrever nessa lngua to bem como na minha.
Era assombrosa a certeza .que aquele moo tinha de seu futuro.
- E sabe duma coisa, doutor? - perguntou Von Koseritz, passando os dedos pela barba loura que lhe cobria o rosto - talvez eu ainda venha a me naturalizar brasileiro
.. .
- Mas ... e sua famlia?
O outro Carl deu de ombros.
- Um dia eles vo compreender que no precisei de seu nome nem de seu auxlio para abrir caminho na vida.
Aquele dilogo marcara o incio duma boa e slida amizade. E fora por conselho de Carl voa Koseritz que Carl Winter transferira residncia de Ro Grande para Porto
Alegre. Perguntara-lhe o baro numa carta: "Por que noo vai. clinicar na bela cidade que os aorianos ergueram s margens dum magnfico esturio e no meio de colinas
verdes? Entre as muitas vantagens que ela oferece, tem a de ficar a pequena distncia de So Leopoldo, que meu caro amigo poder. visitar periodicamente quando sentir
a nostalgia do Vaterland."
Winter, porm, no tardou a declarar guerra  cidade aoriana. Para principiar no era o que ele esperava. Gostou do cenrio mas detestou os atores. Por outro lado,
no conseguiu fazer muita dnica, pois os mdicos locais o hostilizavam. Os costumes da terra o irritavam tanto como os habitantes, e por fim Carl, s por bina,
comeou a meter-se em discusses polticas, o que lhe valeu mais Inimizades. Escrevia longas cartas ao baro dndo-lhe conta de sena agravos e idiossincrasias. Von
Koseritz respondia-lhe com sugestes animadoras: "A nica vantagem que um homem solteiro tem sobre o casado  a da mobilidade. Pois se noo gosta de Porto Alegre,
mude-se. O meu caro doutor  ttm homem livre. Por que noo tenta as colnias? V visit-las a ttulo de experincia. Talvez goste delas e fique por l." Winter foi,
no gostou e noo ficou. Conduta qne seus compatriotas o irritavam tanto ou mais" que os
jornal e
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nativos. Muitos deles eram estpidos e cheios . de preconceitos. via-os de toda a natureza e de todas as origens, inclusive os que envergonhavam do ttulo _de "colonos" 
e declaravam no t vindo para o Brasil trazidos peia fome, pela desejo de fugir impostos ou de enriquecer: eram, isso sim, exilados polticos. Al chegavam a insinuar 
at vagos antepassados de sangue azul. sua maioria ficavam indignados quando algum os julgava makl burgueses, pois contava-se que as primeiras levas ~ de colonos 
viu de Mecklenburgo eram formadas de mendigos e presidirios.
Wnter encontrara compatriotas que haviam assimilado t os maus hbitos dos naturais da terra, e vira at colonos alem que viviam masiados com mulatas e negras, 
das quais tinham filh Moravam em ranchos miserveis, andavam descalos e j estav rodos de vermes e sfilis. Em sua maioria, porm, prosperava moravam bem, ganhavam 
dinheiro, aumentavam as propriedad Desprezavam o caboclo e eram por sua vez desprezados pelos esta cieros, dos quais -no gostavam, embora parecessem tem-loa. 
triste ver como em seus bas e sacos, junto com roupas e tarec haviam trazido para o Brasil todos os prejuzos, rivalidades e m quinhezas de suas aldeias natais. 
No compreendiam - os inse satos! - que lhes seria possvel passar a vid a limpo vaque patna nova.
Winter decidiu ento procurar a zna rural do Rio Gran onde noo havia ncleos coloniais alemes. Sempre desejara co cer as terras que ficavam para as bandas de oeste. 
Um dia compr uma bssola, um mapa e um cavalo e meteu-se pelo interior Provncia. Queria ir at as runas das redues jesuticas, cuj lendas tanto o seduziam. E 
assim de estncia em estncia, de pov do em povoado, melhorando e enriquecendo cada vez mais portugus, fazendo curas aqui e ali e ecebendo como. pagamen hospitalidade, 
mantimentos ou dinheiro, foi penetrando o nteri subiu a serra e, antes de entrar na zona missioneis, thegon Santa F num entardecer de maio. Pernoitou na vila e 
ficou de modo fascinado" pelo lugar, que resolveu ali permanecer poi al tempo, esquecido da visita s Misses. Que havia naquele vilare pobre que tanto lhe falava 
 fantasia? No sabia explicar. Gos daquelas ruas tortas, de terra batida e muito vermelha, em co traste com o intenso verde das campinas em derredor. Achara encanto 
rude e spero nas casas :e nas caras das gentes, na p aca de rvores copadas, nos quintais lamacentos onde roupas secav ao sol. Por uma razo misteriosa Santa F 
lhe parecera uma familiar, que ele cnhecia dum sonho ou doma outra vida: tinha. impresso de haver j cruzado aquelas ruas num pastado mui remoto e s agora descobria 
que sempre desejara voltar ali: entanto aquele conglomerado de casinholas sem estilo .nem tria noo se parecia em nada com sua cidade natal de Eberba
por ali no corria nenhum rio que lhe pudesse lembrar o Neckar, no se via nenhuma elevao de terreno que sugerisse a Serra de Odenwald. E estava claro que s num 
pobre esprito de pardia ele poderia comparar o sobrado de Aguinaldo Silva com o velho castelo dos tempos de Barbarroxa, uma das relquias histricas de Eberbach. 
Mas a verdade era que Winter pensara passar apenas uma semana em Santa F e no entanto l estava havia j mais de dois anos! Por qu? Por qu? Por qu?
Por alguns instantes, de olhos sempre cerrados, Carl Winter ficou a passar a mo pelo trax, sentindo o relevo das costelas. Por qu? Um mosquito esvoaava-lhe em 
torno da cabea, tocando em surdina seu violino miudinho. Mas por qu? D. Bibiana dera uma explicao simples: Santa F tinha feitio. E explicara: "O meu homem, 
o falecido Cap. Rodrigo, um dia chegou pra passar a noite na vila- e ficou aqui o resto da vida, que infelizmente foi mui curta." Sim, Santa F devia ter um poderoso 
sortilgio. Gregra acreditava em mandinga. (Luzia Silva devia ter mandinga naqueles olhos de rptil.) Desde que chegara  vila, Winter fazia projetos de "r embora 
na prxima semana". Ficar era absurdo. no havia nenhuma razo pondervel para isso. Podia ir para Buenos Aires, ou voltar para qualquer capital europia onde houvesse 
teatro, msica (que falta ele sentia de teatro e de msical) e museus onde de quando em quando pudesse encher os olhos "e o esprito com a beleza das obras dos grandes 
mestres. Queria um lugar que lhe oferecesse conforto e oportunidades de agradvel convvio humano. Mas os dias e as semanas passavam e ele ia ficando. Assustava-se 
 idia das lguas que teria de vencer, montado no lombo dum cavalo ou ento sacolejando dentro duma diligncia desconjuntada para chegar a Porto Alegre e Rio Grande, 
a fim de tomar um navio. Outras vezes deixava-se ficar  espera dum acontecimento: umas cavalhadas, umas carreiras, um batizado ou um casamento para o qual fora
convidado. Mas a verdade era que a ficando por pura inrcia. Durante o inverno vivia a praguejar em alemo. O minuano entrava assobiando pelas frestas de sua casa
e o frio lhe enregelava os membros. Punha todas as roupas quentes que tinha; vivia na proximidade dos foges, erguia os olhos colricos para o cu nublado e jurava
que iria embora na semana seguinte. Mas vinham dias de sol e o cu, despejado de nuvens, ficava de novo dum limpo azul. Carl Winter gostava das laranjas que as geadas
faziam amadurecer, das bergamotas gordas e douradas, sentia um prazer especial em beber todas as maphs leite momo, recm= sado dos beres da sua vaca malhada,
e adorava os churrascos que Gregria lhe assava no fundo do quintal e que ele comia com gosto, reSPingando de farinha a barba ruiva. E havia os hbitos: a conversa
de aps o almoo na loja do Alvarenga, as partidas. de xadrez e ~ discusses com o juiz ou com o vigrio, os series semanais no
#3.6O        O" CONTINENTE
Sobrado, .quando Latia toava ctara e tortnnva Bolvar com indifertiaa, e-ama casava vinha _com a panela de pinho cozi ora mm putos cheios de bolos de polvilho. 
No fim de contas inverno no durava toda a vida e se a gente tivesse um -porco pacincia a primavera no tardaria maito a vir ... E Winter ficando. Nio raro apaizonava-se 
por um aso de sua claia. Cel. Amaral  se tornara de amores por ele e o -fato de contar com simpatia e a pio eo do chefe poltico da tema dava-lhe facilida e vantagtns 
que le no aproveitava por para preguia, pela mes preguia que o f zia ir fiando, ficando sempre .. .
Gostava de r pila manh longos passeios a p pelo cam sentindo no a brisa fresca que cheirava a sereno batido de so Nessas oasi" deixava os olhos passearem pelas 
cozilhas ver onde aa ma pareciam as cabeleiras de milhares de Frulein sol ao vento. rudel Trndel Ich Bebe dich, abei das isr ja unm$ glich ... ) uma carta que dirigira 
a Von Koseritz; descrevendo-l a vida ae levava, dissera: "Ich berausche micte an der aleite d Horizontes" - tomo bebedeiras de horizontes. ATnna em toda sua vida 
vira cus mais largos nem sentira tamanha impresso d liberdade. Na paisagem ele descobria ento o mais poderoso motivo de sua permanncia em .Santa F.  que ela 
lh dava uma vertiginosa" sensao de ser livre, de noo ter peias nem limites. De certo modo naquela vida ele realizava pela primeira vez seu velho ideal de noo 
assumir compromissos definitivos com ningum nem com coisa alguma. No ter amo nem mestre, e poder - ahl principalmente isso - poder de vez em. quando dar-se o luxo 
da solido, da mais absoluta e hermtia solido, eram positivamente coisas voluptuosas I P_ pisagem daonela provncia perdida nos confins do continente americano 
era doce e amiga, supinamente civilizada, nm cenrio digno de abrigar a gema da raa humana. Parecia que ao m-la Deus tivera em mente, povo-la de figuras como 
Plato, Scrates, Goethe e Shakespeare. No entanto por ali andavam homens rudes como Bento Amaral ou ento aberraes humanas como aquele gnomo que se chamava Agnnaldo 
Silva. Nem mesmo Luzia pertencia  paisagem. Havia naquelas distncias e campinas, lagoas e horizontes, uma pureza e uma inocncia que ele noo sentia na neta do 
pernambucano.
O pr de sol de Santa F tambm o deixava exaltado. Em certos dias de outono subia  coxilha do cemitrio para ver os crepsculos vespertinos, que eram longos e 
fantasticamente coloridos. Em certas bons o cu do poente tomava uma tonalidade esverdeada e transparente: era como se a cor dos campos se refletisse no vidro do 
horizonte. E sobre toda a paisagem em torno pairava uma vaga neblina violeta que acentuava as sombras.. tingia as pessoas, os animais e aa coisas, parecendo aumentar 
a quietude do ar e da hora. Winter ficava imvel janto dos muros do cemitrio - entre o
A TEINIAGUA        361 silncio dos mortos e aquela fantasmagofis de ctofetas barbudos,
nuvens castelos das lendas do Reno, pe        p
monstros antediluvianos, rebanhos de carneiros brancos e rosados, exrcitos em fuga, vulces, ou fabulosas cidades de gelo iluminadas pelo claro de incndios. Mas 
quando no havia nuvens os crepsculos eram doces - azul desbotado, malva e rosa - e a paisagem adquiria uma pureza e uma simplicidade to grandes que Carl Winter 
ficava com lgrimas nos olhos e comeava a murmurar versos de Heine, e ao mesmo tempo a achar-se muito piegas e muito romntico por estar naquela atitude, fazendo 
e sentindo aquelas coisas. E desse modo - atravs de seu eu cnico e de seu eu senti mental - ele gozava duplamente da situao.
Adquirira o hbito de falar consigo mesmo em voz alta. Fazia-o em- alemo, em geral quando caminhava pelas ruas da vila ou saa em seus passeios solitrios pelos 
arredores. Os caboclos miravam-no- intrigados - Winter percebia com o rabo dos olhos. Mas mesmo quando encontrava estranhos continuava em seu solilquio, pois tinha 
a impresso de que, como falava alemo, a coisa toda perdia o seu carter absurdo. Ouvira um tila uma das velhotas da vila dizer: "O alemo  louco da cabea." 1~lein 
Gott! Louco da cabea. Lcido demais, isso sim. E era essa lucidez que s vezes o impedia de gozar melhor a vida.
Um dia seu eu romntico lhe perguntara : Carl, quando voltas para casa?" Com casa ele queria dizer - a ptria, a cidade natal, Eberbach. "ch!" - respondera o seu
eu cnico. "Quando a Alemanha for unificada e eu noo correr o perigo de ser preso. E quando Trude We estiver to gorda e feia que meu corao j noo possa mais
bater de amor por ela."
Winter deu um tapa no ar, procurando apanhar o mosquito e silenciar aquele violino enjoativo. Trude... Trude... Quando se olhava no espelho Winter compreendia por
que Gertrude o tinha esquecido em favor do filho do Burgomestre. Seus olhos eram dum cinzento frio e feio; seus cabelos, dum louro avermelhado como Odas barbas
de milho das roas de Santa F; sua pele, branca e oleosa, com manchas rosadas, lembrava salsichas cruas. No. 131e noo tinha a menor iluso quanto  sua aparncia
fsica. Trude era uma rapariga de bom-gosto e uma criatura sensata. Dono duma loja de Delikatessen, o filho do Burgomestre era gordo, corado e tinha uma beleza slida
e estpida. A escolha noo podia ter sido melhor. Grande rapariga! Sensata Frulein!
E Carl Winter de novo comeou a apalpar o trax e as pernas, como se tivesse certo orgulho de seu corpo angaloso e feio ora como se o fato de ser magro e desengonado
o divertisse.
Tentava agora lembrar-se de Gertrude. No podia. O mais que via em seus pensamentos en uma silhueta de mulher de tranas louras, e com uma face vazia de feies.
Mas era ainda com um
#362        O CONTINENTE

certo desfalecimento de coraio que pensava nela. A ferida esta cicatrizada - conclua - mas a cicatriz era sensvel, comicha muito e ao menor descuido podia abrir-se 
e sangrar.. .
Mas como pode a gente amar uma mulher de cujas feies n se lembra mais com nitidez? Ser que eu amo a idia de Ttu mais "que sua ptssoa? Quem sabe? Ach!
~: Winter revolveu-se na uma, ficou deitado de lado e finalmeate7 resolveu erguer-se e ir at  janela. Foi. Debruou-se no peitoril e ficou olhando para o quintal 
da casa do vigrio. Nu, debrufad a uma janela em Santa F, olhando para o quintal da casa do Pe. Oteco. Meias Gott! Tudo aquilo parecia impossvel; pel menos era 
improvvel.. .
As estrelas brilhavam. Do galinheiro do vizinho veio um rudo de asas. Raposa ? No. Se fosse, haveria nm pnico geral. Um galo cantou num terreiro distante.. Winter 
ficou a pensar no que havia de contar daquela provncia a seus amigos, se um dia voltasse para casa.        .
A paisagem. era civilizada, mas os homens no. Tinham rudes almas sem complexidade, e eram movidos por. pai~Eces primrias. A lida dos campos e das fazendas tornava-os 
speros e agressivos. Lidar com potros bravos, curar bicheiras, sangrar e carnear o gado, laar, fazer tropas - eram atividades violentas que exigiam fortaleza no 
s de corpo como tambm de esprito. (Winter sempre prometia a si mesmo tornar nota daquelas reflexes num caderno, mas nunca chegava a faz-o. Ach, s um vadio, 
Carl! ) Depois havia as guerras. Era raro passar uma gerao que -no visse pelo menos uma guerra ou uma revoluo. E como eram primitivas aquelas guerras em que 
brasileiros e castelhanos se engalfinhavam - primitivas na estratgia e nos armamentos. Mas nem por isso eram menos brutais e cruis que as guerras europias. Winter 
ouvia sempre contar histrias de entreveros, de cargas de lana, de atos de coragem .e desprendimento mas tambm de crueldades e . traies. Em muitos casos os soldados 
lutavam descalos e armados de lanas de pau: enm mal alimentados e raramente ou nunca recebiam seu soldo. Poucos sabiam ao certo por qae lutavam, mas havia na Provncia 
a tradio de "pelear com oa castelhanos", e seus homens encaravam as invases como asma fatalidsde, como nm ato de Deus - uma espcie de praga peridica to .inevitvel 
como uma seca ou uma nuvem de gafanhotos. Merc dessas lutas haviam surgido verdadeiros senhores fendais na Provncia. Eram os estancieiros como o Cel. Amaral, a 
quem o governo amparava e dava privilgios, na certeza de que na hora da guerra lea viriam com seus pees, agregados, amigos e assalariados para engrossar o. exrcito 
regular. Winter achava esquisito sabor em cmparar estancieiros como Bato P.maral com os Junker prussianos; e quando via a cicatriz em forma de P que ele tinha numa 
das faces, so podia deixar de fazer para
A TEINIAGUA        363

lelos entre os duelos acadmicos de Heidelberg e o feroz corpo-a-corpo como aquele em que o falecido marido de D. Bibiana havia deixado sua marca no rosto do adversrio.
D. Bibiana! Ali estava uma criatura de valor. Com umas duzentas matronas como aquela estaria garantido o futuro da Provncia. Entretanto o destino das mulheres naquele 
fim de mundo era bem melanclico. No tinham muitos direitos e arcavam com quase todas as responsabilidades. Sua misso era ter filhos, cri-los, tomar conta da 
casa, cozinhar, lavar, coser e esperar. Dificilmente ou nunca falavam com estranhos e Winter sabia que um forasteiro que dirigisse a palavra a uma senhora corria 
o risco de incorrer na ira do marido, do pai ou do irmo dessa senhora, que lhe viria imediatamente "tirar uma satisfaao". Os homens, esses podiam sair em aventuras 
amorosas, a fazer filhos nas chinocas que encontrassem pelo caminho, nas escravas ou nas concubinas; mas ai de quem ousasse olhar mais demoradamente para suas esposas 
legtimas! Eram estas em sua maioria anafabetas ou de pouqussimas letras e tinham uma assustadora tendncia para a obesidade. (Trude! Trude! Toma cuidado.) Eram 
tristes e bisonhas, e as contnuas guerras quase no lhes permitiam tirar o luto do corpo; por isso traziam nos olhos o permanente espanto de quem est sempre a
esperar uma notcia trgica.
O cdigo de honra daqueles homens possua um ntido sabor espanhol. Falavam muito em honra. No fim de contas o que realmente importava para eles era "ser macho".
Outra preocupao dominante era o de "no ser corn ". No levar desaforo para casa, saber montar bem e ter tomado parte pelo menos numa guerra eram as glrias supremas
daquela gente meio brbara que ainda bebia gua em guampas de boi. E a importncia que o cavalo tinha na vida da Provncia! Para os "continentinos" o cavalo era
um instrumento de trabalho e ao mesmo tempo uma arma de guerra, um companheiro, um meio de transporte; para alguns gachos solitrios as guas serviam eventualmente
de esposa. Winter conhecia ali homens que  fora de lidar com cavalos comeavam j a ter no rosto traos eqinos.
Mas era preciso ter pacincia e compreender que aquele era um pas novo, ainda na sua primeira infncia. Havia nas gentes da Provncia um certo acanhamento desconfiado
que nos homens se transformava num ar agressivo. Falavam alto, com jeito dominador, de cabea erguida. Entre fascinado e assustado, Winter assistira a vrias carreiras
em cancha reta, e mais de uma vez o haviam chamado para atender algum homem que. fora est ~pado num duelo por causa duma "diferena de pesco " on de qualquer
outra dvida quanto  deciso do juiz. Gostava de ver certo tipo de gacho que se sentava no cho para jogar cartas e antes de comear o jogo
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cravava sua adaga na terra, entre as pernas abertas, numa advertncia muda ao adversrio.
Os lavradores daquela provncia s agora comeavam a conhecer e usar o arado bblico. E ningum ali - suprema medida duma civilizao! - sabia fazer bom po e bom 
vinho.
Tratava-se positivamente duma sociedade tosca e carnvora, que cheirava a sebo frio, suor de cavalo e cigarro de palha. As casas eram pobres, primitivas, sem gosto 
nem conforto, quase vazias de mveis; em suas paredes caiadas no se via um quadro, uma nota de cor que lhes desse um pouco de graa. No inverno o minuano entrava 
pelas frinchas, cortante como uma navalha. Nos dias de chuva os homens traziam barro para dentro de casa nas suas botas ou nos ps descalos. Havia em tudo uma rusticidade 
e uma aspereza que estavam longe de ter o encanto antigo e a madureza das coisas
- gentes camponesas da Baviera, da Pomernia ou do Tirol - onde existia uma tradio no que dizia respeito a mveis, roupas, comidas, danas, lendas e canes. Os 
"homens machos" da Provncia de So Pedro pareciam achar que toda a preocupao artstica era, alm de intil, efeminada e -por isso olhavam com repugnada desconfiana 
para os que se preocupavam com poesia, pintura ou certo tipo de msica que no fossem as toadas montonas de seus gaiteiros
-        violeiros.
Como era escassa a msica daquela gente! No passava duma cantilena que tinha o ritmo do trote do cavalo, um lamento prolongado, pobre de melodia.
Infelizmente em Santa F Winter tinha de contentar-se com as peas que Luzia dedilhava na ctara ou ento com a msica que ele prprio produzia. Na Alemanha fizera 
parte dum quarteto de cordas de amadores, como violinista. (Hans, Hugo, Joseph, onde estais a estas horas?) Reuniam-se nas noites de sbado para tocar 1~Iozart, 
Beethoven e Schubert, beber cerveja e fumar cachimbo nos intervalos entre um e outro quarteto.
.Cari olhou para o cu estrelado e por alguns momentos ficou.a ouvir fragmentos de melodias do passado. Depois fez meia volta e, grave e nu, caminhou at o lugar 
onde estava o estojo do violino, abriu-o e tirou dele o instrumento com o ar de c~uem ergue o cadver duma criana de pequeno esquife negro. Feriu as cordas com 
o indicador, afinou-as como pde e depois comeou a tocar em surdina a Serenata de Haydn. A musiquinha doce encheu o quarto, fugiu para a noite.
Nunca esta melodia andou no ar de Santa F - pensou Winter com esquisita satisfao. Continuou a tocar marcando o compasso com o p longo e.descarnado, enquanto 
em-sua mente Hans, Joseph e Hugo faziam o acompanhamento em pizzicato. Era como se o velho quarteto de amigos se tivesse reunido de novo para um sero musical.
A TEINIAGU        365
Na praa, sob a figueira, Bolvar dormia, recostado ao velho tronco, com a cabea cada sobre o peito, a boca entreaberta. A, seu lado, fumando em paz, Florncio 
velava o sono do amigo, como um anjo da guarda.
Sentada na cama, com o busto muito teso, as mos pousadas no colo, Bibiana contemplava o filho que, diante do pequeno espelho, procurava dar a laada na gravata 
de seda preta. Ela via que o colarinho alto e engomado sufocava o rapaz, e que sua roupa domingueira de casimira preta o deixava contrafeito e ao mesmo tempo irritado. 
O suor escorria-lhe em grossas bagas pelo rosto, empapando-lhe o colarinho e a camisa. Bolvar .fungava e bufava, impaciente, enquanto seus dedos desajeitados lutavam 
em vo com a gravata.
Como ele est abatido! - refletiu Bibiana. - Tambm passou a noite em claro e no  brincadeira ficar noivo duma moa como Luzia Silva. Tem de estar nervoso mesmo 
.. .
- No posso! - exclamou Bolvar, dando um puxo na gravata. - No sei arrumar esta porcaria.
- Tenha pacincia, meu filho.
- No posso!
- Pode, sim. Querer  poder.
Bibiana lembrou-se de sua av e achou graa por ter falado exatamente como ela. Querer  poder. Se Ana Terra estivesse ali agora ia ficar orgulhosa do bisneto. Se
o Cap. Rodrigo pudesse ver o Bolvar crescido...
Seus olhos de repente se turvaram de saudade. E ela viu o marido em pensamento. Apeava do cavalo, de bombachas brancas, esporas de prata, leno vermelho no pescoo
e caminhava para ela de cabea erguida e olhos atrevidos: "Como le vai, minha prenda?"
A voz do filho cortou-lhe o devaneio.
- No tem jeito. No posso.
Bibiana ergueu-se e caminhou para ele.
- Deixe ver. Quem sabe se sua me acerta .. .
Bolvar alou um pouco o queixo. A cabea de Bibiana mal lhe chegava ao ombros. Enquanto seus dedos procuravam dar a laada, ela foi envolvida pelo calor do corpo
suado do filho e no pde evitar um pensamento que lhe pareceu vagamente indecente: O cheiro do pai. Sentiu tambm como batia forte o corao do rapaz e como seu
peito arfava. Lembrou-se dos tempos em que o embalava nos braos e sorriu para esta lembrana.
- De que  que est rindo? - quis ele saber.
- De nada. Duma coisa que pensei.
#366        O CONTINENTE

Depos, mudando de tom, perguntou: - Est nervoso?
- No - mentiu ele.
Tinha na cabea uma forca e uma voz que cochichava: "Daqui a pouco vo matar o Severino." A apreenso e o medo como que lhe apertavam o corao, insuportavelmente.
- Pronto - disse Bibiana, dando o ltimo toque na laada. - Veja se est direito.
Voltou a sentar-se na cama. Bolvar mirou-se no espelho. - Acho que est - disse.
Tomou dum pente e comeou a pass-lo na cabeleira preta e ondulada.
Foi ento que Bibiana percebeu que ela tambm estava nervosa. No era s por causa do pobre do negro Severno que ia morrer. Era tambm por causa do noivado. Seu 
segredo - um segredo to grande que no tivera a coragem de cont-lo a ningum, to grande que s vezes tinha medo de coment-lo consigo mesma - o seu imenso segredo 
como que se lhe avolumava agora dentro do peito, apertando-lhe o corao, e tornando-lhe custosa a respirao. Ningum compreendia por que tinha ela aprovado o casamento 
do filho com a neta de Aguinaldo. S .ela sabia o motivo.. .
Lembrava-se -duma conversa que tivera com o irmo:
- Mana, vassunc fez mal - dissera Juvenal, com seu jeito srio e sossegado.. - Fez muito mal em ajudar esse noivado. No compreendo como  que uma pessoa ajuizada 
como vassunc faz gosto nesse casmento. A Luza no  mulher pro Boli. )E: uma moa de cidade criada com mimo, e sem a menor serventia.
Ela ficara calada, apertando os lbios para evitar que seu segredo se escapasse. Podia contar tudo ao Juvenal. No era uma pessoa do mesmo sangue? No era o seu 
nico irmo? Mas no contou, e por isso sentiu aumentar o peso daqueles pensamentos secretos.
Juvenal tinha dito mais:
- Depois, a Aguinaldo  um ladro. No sei como  que vassunc pode esquecer que esse homem. roubou as terras de nosso pai. - Quem lhe disse que m"esqueci?
- Pois se no esqueceu, pelo menos parece.
- En sei o que estou fazendo, mano.
E estas palavras cortaram a discusso. Juvenal encolhera os
ombros, murmurando:
- Queira Deus que tudo. saia bem. Mas en duvido.
Sim, um dia Pedro Terra necessitara de recursos para plantar uma lavoura de linho e trigo (sempre a mania do trigo!) e por isso fora obrigado e pedir dinheiro emprestado 
a Aguinaldo Silva, dando-lhe como garantia sua casa e o terreno de esquina, cujo valor era trs vezes maior que o do emprstimo. Numa secesso de
A TEINIAGUA        367

safras infelizes a lavoura se fora guas abaixo e como, vencido Oprazo da hipoteca, Pedro no tivesse dinheiro para resgat-la e Aguinaldo no quisesse dar-lhe 
a menor prorrogao, as propriedades dos Terras passaram inteiras para as mos do av de Luzia. f-oi com dor no corao que Pedro abandonou sua casa, pois Aguinaldo 
queria o terreno para construir nele um sobrado. Bibiana lembrava-se de que o nico comentrio que o pai fizera no dia em que se mudara para um rancho. de barro, 
resumia-se em poucas palavras: "Ainda bem que a Arminda est morta." E nunca mais falou no assunto. Mas via-se no rosto dele que alguma coisa o estava roendo aos
poucos por dentro. Comeou a definhar, a edvelhecer, noo tomava interesse em mais nada e vivia triste, com olhos de cachorro escorraado. Chorou - sim, Chorou como
Bibiana jamais vira homem algum chorar - no dia em que .pedreiros -comearam a derrubar-lhe a casa. Era como se aquelas macetas, martelos e picaretas que golpeavam
as paredes de sua meia-gua estivessem tambm a quebrar-lhe os ossos, um por um.
Agora l estava o Sobrado como um intruso em cima daquela terra querida, Era como se o casaro do pernambucano houvesse esmagado a casinha onde vivera Ana Terra
e onde ela, Bibiana, noivara com o Cap. Rodrigo. L estavam anda as rvores que_ Pedro aiudara a plantar com suas prprias mos e amava quase tanto como a seus
prprios filhos.. Sempre que passava pelo Sobrado, Bibiana lanava uma olhar para aquelas laranjeiras, pessegueiros, cinamomos e marmeleiros e tinha a sensao de
qe eles eram parentes seus que a espiavam, tristes, por trs .das grades duma priso. Era por isso que contiriuava a alimentar a certeza de que aquela terra ainda
lhe pertencia e que portanto o Sobrado, era tambm um pouco seu.
O tempo passou. Dizem que tempo  remdio para tudo. O tempo faz a gente esquecer. H pessoas que esquecem depressa. Outras apenas fingem que no se lembram mais
.. .
Quando Aguinaldo comeou a procurar e adular Bolvar e Florncio, ela teve vontade de dizer-lhes: "No falem - com esse excomungado. Foi ele que matou. meu pai de
desgosto." Mas no disse. Os rapazes eram anda muito novos quando todas aquelas coisas tristes haviam acontecido. E mesmo que ela. dissesse, no adintava nada.
Os moos nunca aceitam muito as razes dos velhos. Alm disso, o diabo do nortista era- jeitoso, sabia falar bem, tinha mel na voz. E quando Luza chegou da Corxe
e os meninos comearam a andar atrs dela como cachorrinhos assanhados ao redor duma cadela, seu primeiro mpeto foi o de levar Bo1i para longe, a fim de evitar
que ele se apaixonasse pela forasteira.
Foi ento que lhe veio aquela idia doida ... A coisa aconteceu de madrugada. Ela acordou de repente, pensando na marido. Teria sonhado com ele? No se lembrava.
Mas ficou em todo caso pen-
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A TEINIAGU
369
sendo na noite da morte de Rodrigo.... Ela estava sozinha em casa, com o corao pulando no peito e uma apertura na garganta; ouvia o pipocar do -tiroteio e esperava 
em agonia o fim do combate. E quando o Pe. Lara lhe apareceu, no foi preciso que ele dissesse uma nica palavra. Ea adivinhou tudo:- tinham matado seu homeml 3rIais 
tarde lhe contaram que o capito recebera um balao. no peito quando tentava. tomar o casaro dos Amarais. Tomar o casaro .. .
Sentada na cama, no quarto escuro, ela comeou a pensar no Sobrado, nas suas rvores, em Luzia e em Bolvar. Tomar o Sobrada.... Se Bolvar casasse cm Luzia, ele 
ficava sendo o dono do Sobrado. Ela, Bibiana, iria viver com o filho, voltaria para o seu cho ... Aguinaldo estava velho e no podia durar muito tempo...- "~No 
princpio a ser difcil viver com aquele. corcunda, sob o mesmo teto. Mas a casa "afinal de contas era grande, e sua posse valia todos os sacrifcios...
Naquela noite Bibiana tomou a grande resoluo. Ia casar Bolvar com Luzia. A moa podia ser leviana, podia ser isto e mais aquilo. Mas seu filho afinal tinha nas 
veias o sangue do Cap. Rodrigo, e nunca uni Cambar se dexria dominar por uma mulher. Fosse como fosse, ela estaria sempre junto dele par ampar-lo e dar-lhe 
conselhos.
.Estava resolvido: ia tomar o Sobrado. No de assalto, aos tiros, como o ~Cap. Rodrigo.. Agora noo havia nenhuma pressa. Era mulher, tinha paciencia, estava acostumada 
 esperar... ~. Que era um ano,. dois anos, dez anos? Um dia Aguinaldo morre, Bolvar fica de dono de" tudo, eu volto .pias minhas rvores, vou ver nascer os filhos 
de meu filho, vou a judar a criar meus netos .. .
Bibiana agora sorria para seus pensamentos. Mas no fundo do corao ela temia o futuro.
Faltavam poucos minutos para as quatro quando Florncio apareeu.
- Est quase na hora - disse ele. - Vamos embora ? Por que ser que esse menirto no olha direito pra mim? - estranhou , Bibiana.
- Vamos, Boli - disse ela. - O noivo no pode chegar tarde. Dirigiu-se\ outra pea_ para apanhar o guarda-sol, e ao passar pelo sobrinho, perguntou:
- E o Juvenal ?
Sem encarar a tia o rapaz deu uma resposta evasiva - O papai Lest em casa.
- Brabo com gente?
Florncio hesitou.
- N... no. Por que havia de estar?
- ple  contra este noivado.
- No  bem assim, titia. - . Eu sei.
- A senhora compreende ... O velho  opinitico. - Basta ~ ser Terra.
Florncio sorriu, brincando com o chapu. O suor escorria-lhe
pela testa e seus olhos estavam estriados de sangue. Coitado -
pensou Bibiana. E sorriu com simpatia para o sobrinho.


Saram. A claridade da tarde era to forte que por um instante os deixou ofuscados. Comearam a caminhar de olhos apertados. Sob o guarda-sol aberto, Bibiana ia
muito tesa no seu vestido de cassa preta, ladeada pelos dois rapazes. Ar parado. As sombras sobre a terra vermelha eram dum preto arroxeado. Corvos voavam contra
o azul desbotado e luminoso do cu.
Bolvar sentia o sangue martelar-lhe as tmporas com fria compassada, e a cabea agora lhe doa tanto que parecia prestes a estourar. Pensava simultaneamente no
Sobrado e na forca, emSeverino e em Luzia. O colarinho dava-lhe uma sensao de estrangulamento, e sob a grossa roupa preta, seu corpo estava j todo mido de suor.
Andaram por algum tempo em silncio. Iam cumprimentando os conhecidos que se achavam s portas de suas casas ou que espiavam por cima das cercas dos quintais. Ondina,
a filha do Alvarenga, assomou  sua janela, sorriu e disse:
- Ento, D. Bibiana,  hoje o grande dia?
Era plida, tinha uma voz meiga, e olhos negros duma tristeza humilde de ovelha.
- B verdade - respondeu a me de Bolvar. - A sua vez tambm h de chegar, Ondina.
Florncio viu os olhos da rapariga pousarem um instante nos seus, muito a mdo, mas dum modo que o deixou perturbado. Desajeitado, bateu com dois dedos na aba do
chapu.
Quando j estavam longe de Ondna, Bibiana voltou a cabea para o sobrinho e murmurou:
- Uma boa moa pra vassunc casar, Florncio. - Deu meia dzia de passos em silncio e depois prosseguiu: -  muito prendada, sabe fazer renda de bilro como ningum,
 sossegada, boa dona de casa e uma doceira de mo-cheia.
Florncio nada disse. Coou a ponta da orelha, encabulado: pigarreou de leve e continuou a olhar para a frente na direo da capela.
- E  bem bonitinha - acrescentou Bibiana. - Mas por que  que vassunc est com cara de velrio, meu filho?
Bolvar no respondeu. O suor fazia arder-lhe as faces recm-
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escanhoadas e uma dor latejante na cabea deixavaahe as idias confusas.
- Ele anda triste por causa do Severino - explicou Florncio.
Estavam agora os trs a menos duma quadra da praa e j podiam ver o movimento das pessoas que pr"uravam lugares em torno da forca. Lenos, roupas e vozes alegres 
ao sol - aquilo parecia uma festa.
-  o diabo - concordou Bibiana. - E o diabo. Eu tam
bm tenho pena do negro. Afinal de contas a gente viu ele crescer
como se fosse uma pessoa da famlia ... - Suspirou. - Mas no
foi pelo que eu fiz que ele vai set enforcado.
Estas palavras doeram em Bolvar.
- Mas vo cometer uma injustiat- - .exclamou ele. - O
Severin est it~ocentel
Bibiana achou melhor no discutir. Ficou pensando, apreensiva, no que podia acontecer na hora do enforcamento. Bolvar estava nervoso: a forca tinha sido erguida 
bem na frente do Sobrado.. . Sim, teria sido melhor que Luzia houvesse concordado. em transferir a festa para outro dia.
Comearam a atravessar a praa. Um homem achava-se sentado numa pedra, alisando uma palha de milho com as costas da faca. Era o Chico Carreteiro. Ao ver o grupo 
o caboclo dirigiu-se " a Bolvar e caoou:
- Ento vamos ter hoje dois enforcamentos ao mesmo tempo, noo?
Mostrou os dentes escuros num sorriso rasgado. Bolvar teve vontade de atirar-se sobre ele e partir-lhe a cara a bofetadas. Cerrou os punhos, olhou duro para a frente 
e no respondeu. Bibiana, porm, sorriu para o carreteiro e disse:
- L verdade, seu Clco,  verdade.
- 1~ preciso ser muito malvado pra gozar com o sofrimento alheio - observou Florncio em voz baixa, olhando as pessoas que disputavam lugares ao redor do cadafalso. 
Tirou o relgio do bolso e olhou o mostrador. - E ainda falta mais d~ima horal
Aproximavam-se do Sobrado que l estava, muito branco, com soas janelas de caixilhos azuis, o telhado pardo e limoso, as vidraas chamejando ao sol. Como ficavam 
bonitos os azulejos do porto assim num dia claro, - refletia Bibiana. E seus olhos saudaram as rvores: "Tenham pacincia. Qualquer dia eu venho tomar conta de 
vassancs."
O Cap. Rodrigo naquela noite de 1836 correra armado de espada e pistola para a usa dos Amarais ... Mas ela agora ia tomar o Sobrado completamente desarmada : levava 
apenas um guarda-sol na mo e -aquele segredo no peito. O dono da usa ia receb-la de braos abertos.
Sentado em uma cadeira de respaldo alto e lavrado - que achava supnamente incmoda - o Dr. Winter passeava em torno Oolhar curioso. Fora o ltimo dos convidados 
a chegar ao Sobrado e lamentava ter perdido a arenga que Aguinaldo Silva fizera aos presentes para anunciar o contrato de casamento da neta com Bolvar Cambar. 
A vasta sala de visitas estava muito clara de sol e Carl notou que o reflexo tricolor da bandeirola duma das janelas tingia a face e o pescoo de Luzia. Uma estigmatizada 
-fantasiou ele. Achou-a perversamente linda. Estava ela sentada no sof ao lado do noivo, vestida de rnnolina verde, de saia muito rodada com aplicaes de renda;
tinha cravado nos cabelos dum castanho profundo grande pente em forma de leque, n centro do qual faiscava um brilhante. Winter pensou imediatamente na bela e jovem
broxa moura que o diabo, segando a lenda que corria pela Provncia, transformara numa lagartixa cuja eabea consistia numa pedra precigsa de brilho ofnscante. Como
era mesmo o nome do animal? Ah? Teiniagu. A sua Mesa da Tragdia havia agora virado teinaga. Winter pensava essas coisas e soma, apertando o charatinho-entre
os dentes.
O Dr. 1VIascarenhas conversava animadamente com Aguinaldo. Bibiana gritava ao ouvido da esposa do juiz, que era surda, e a boa senhora lhe respondia com sua voz
f"ca e branda. Winter percebem qae trocavam receitas de d"es e gastavam acar e ovos em grande profnso: era, por assim dizer, uma conversa. temperada de canela,
cravo e noz-moscada. Bolvar parecia nervoso e Winter sentia no ar algo de pressago e egnv"o qae comeava a deix-lo um pouco inquieto.
Sentado numa cadeira, pitando trangilamente seu cigarro ~de palha, Florncio de vez em quando lanava am olhar morno na direo de Luzia e do primo. O Pe. Otero
noo chegara ainda, pois estava "rapado com Severn: tinha de prepar-lo para morrer e devia assisti-lo at o ltimo momento.
Winter julgava perceber no rosto do dono da casa certo desapontamento ante o fato- de noo ver ali na sala a maioria das pessoas -que convidara para a festa. Toda
a gente sabia que os Amarais detestavam Aguinaldo Silva e recusavam-se a pr os ps no Sobrado. Quanto aos outros, era tambm sabido que no morriam de amores pelo
pernambucano, pois raro era o santa-fezense que noo se julgasse de qualquer forma lesado por ele ou que noo tivesse pessoa da famlia ora amiga de peito entre as
vtimas do que eles chamavam "as bandalheiras do corcunda". Alm disso - refletiu Winter - maitos dos convidados decerto acharam que seria mais divertido
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ficar na praa para ver Severino estrebuchar na forca do que vi para o Sobrado ouvir Luzia tocar ctara.
Aguinaldo, desinquieto como sempre, andava dum lado para outro na sala. Com sua corcunda pronunciada, a cabea triangular, a barba de chibo, o av de Luzia lembrava 
a Winter um , gnomo em verso cabocla.
- -lsso est muito desanimado, minha gente! - e~damou o velho. - At parece velrio de pobre. Luzia, toque um pouco de msica. Vamos animar a festa.
Deu dois pulinhos, esfregando as mos fortemente uma contra a ostra, e gritou na diro da cozinha:
- Sia Rosa, mande trazer a refresulhadal
Bolvar passava o leno vagarosamente entre o colriaho e o pescoo. A cabea ainda lhe -doa e agora a sede, uma sede desespe. rada, secava-lhe a goela, ressequia-lhe 
a boca. Um refresco chegava em boa hora.
- Vamos, menina, toque um poucol - tornou a -pedir Aguinaldo.
Luzia sacudiu a cabea de lve: o diadema chispou.
- L muito ceda .ainda, vov. Depois eu toco.
Tinha uma voz grave e musical, uma noz"- achava Winter -cujo registro correspondia ao da viola. Era quente, mida, profunda, veludosa - to excitante :que parecia 
qir-lhe do sego e noo da boca - refletia ainda o mdico. A comparao ,podia ser grosseira; pelo menos ele nunca a poderia fazer em voz alta. Entretanto, era exatamente 
isso que, ele sentia. Pensou em Trude, cuja voz , fina e melodiosa lembrava a dum obo. Que contrastei
Bolvar nono conseguia explica r a si mesmo por que ficava . to excitado quando a noiva falava. Aquela voz tinha feitio, punha-lhe uns arrepios no corpo. Quando 
a ouvia, ele tinha mpetos de saltar sobre Luzia, rasgar-lhe as roupas e am-la com fria. Agora, porm, , eram outros os sntimentos que o perturbavam. Metade de 
seu ser estava na sala:.a outra metade, l fora. Seus olhos de instante a instante, voltavam-se para a janela, mesmo contra sua vontade. Uma sensao de perigo iminente 
apertava-lhe o peito. ~ Ele sabia que s cinco em ponto Severino ia ser enforcad; era por "isso tambm que no perdia de vista o relgio grande de pndulo qpe estava 
a um unto da sala contgua, e o qual ele via atravs da porta. Eram quatro e vinte: o pndulo d lato oscilava compass3damente. As rinco Severino ia ficar pendurado 
na foro, balanando dum lado para outro.
Bolvar olhou para as mos muito brancas de Luzia, que rcponsavam sobre o verde da saia, segurando o leque:. seus dedos eram finos, compridos,_ delicados, e estavam 
cheios. de anis. Olhou para as prprias mos redes, queimadas de sol, cabeludas e sombreadas de veias. As anos dele nada tinham a ver com as dela. No entanto
em breve um padre ia uni-las para sempre. Bolvar percebeu que a nova o contemplava e sentiu seu mal-estar aumentar, pois sabia que seu rosto estava revelando todos 
os seus segredos. Levou automaticamente o leno s faces, ficou a fingir que enxugava o suor, mas aa verdade o que queria era escond-las:
Um escravo entrou com uma bandeja cheia de copos de limonada e comeou a andar  roda, oferecendo-os aos convivas.
- Chegue sua cadeira pra c, doutor! - convidou o juiz de direito, dirigindo-se ao mdico. - Faz tempo que no trocamos idias. . Faz tempo.
Winter obedeceu. Aguinaldo deu-lhe um copo de refresco, dizendo:
- Sinto muito no ter uma boa cerveja. pra oferecer ao amigo.
- Ach! No faz mal.
- Dizem que. em So Leopoldo j se fabrica boa cerveja -~comentou o Dr. Nepomuceno. - seus compatriotas, Dr: Winter, so especialistas em cerveja. - Inclinou a 
cabea, numa reverncia. - Como em muitas outras coisas mais. - E repetiu: - Como em muitas outras coisas mais.
Falava smpre com. ar sentencioso, por mais terra-a-terra que fossem as coisas que . dissesse. Orgulhava-se de ser um conhecedor profundo da poltica nacional, que 
acompanhava atravs dos jornais da Corte com escrupuloso interesse e com a mgarcialidade que convinha a um juiz.
- Eu estava dizendo ao Sr. Aguinaldo - contou ele, inclinando a cabea na direo de Carl Winter - que se o Marqus de Olinda tivesse ficado no governo com seu ministrio 
conservador, as coisas teriam tomado outro rumo.. Ele era contra a nossa interferncia nas questes do Prata. Mas veio o encalmo Sousa e seguiu a poltica intervencionista, 
fez aliana com Urquiza e o resultado foi a guerra contra Rosas.
- Mas ganhamos essa guerral - exclamou Aguinaldo, com os bigodes e a pera respingados de limonada. - E ali esto dois moos que viram a coisa de pertol
Lanou para Bolvar e Florrnio um. olhar cheio duma ternura quase paternal
A esposa do juiz dizia a Bibiana:
- Agora, a senhora sabe,. quindim gasta muito ovo. Mas o Nepomuceno  louco por quindim.
A outra, porm, no a escutava. Olhava para o filho com uma seasao de amoroso orgulho que chegava quase a ser. sufocante. Parecia vir dele uma onda de calor que 
a envolvia como um abrao: Mas quando Bibiaaa desviou . o olhar de Bolvar e focou-o em Luzia teve a impresso de receber de repente um sopro de gelo. Diziam que 
o mnuano vinha dumas montanhas_ geladas do Chile e da Argentina. Pois Luzia parecia mesmo uma montanha coberta
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de geada. lr bonita - refletiu Bibiana - isso ningum pode negar. Mas  uma boniteza m, ama boniteza de pecado. Bolvar precisa domar essa potranca no primeiro 
dia do casamento, senoo est perdido.
- ... e o ano passado eu quis fazer marmelada branca maa noo pude acertar direito o ponto - prosseguia a esposa do magistrado, com seu peito magro de tsica a arquejar.
Bibiana voltou para ela uns olhas onde havia um tpido interesse e sorriu para dar a entender  interlocutora que a escutava. Mas, na verdade,. naquele momento ela 
estava era sentindo o Sobrado. No! Ela estava sentindo seu cho. A casa de seu pai ficava naquele mesmo lugar onde agora estava o Sobrado. Faz de conta que esta 
 a nossa varanda. -.Ali est a parede empenada, que vov dizia que estava grvida. Ali a mesa, com as cadeiras; l naquele canto, a talha. Papai est pitando, senta_ 
do na cadeira de balano. Eu at vejo a fumaa do cigarro dele. A mame est fazendo croch perto da mesa. Eu estou aqui e o Cap. Rodrigo, que chegou h pouco, 
pediu. licena e est picando fumo pra fazer um crioulo. Por que ser que papai no fala com ele? Brrs de velho. No faz mal: com o tempo ele vai acabar gostando 
do genro. Ningum resiste queles olhos de gavio. Eu at nem posso olhar direito pra eles: fic meio zonza. lr por isso que estou olhando s Aras botas do capito. 
E ele vai dizendo cisas, contando histrias da sua vida: guerras, viagens, brigas, guerras, viagens, brigas... Todos escutam. Noite de Finados. Algum est cantando 
na venda do Nicolau. A voz  a do capito. Mas ele no pode estar l na venda e aqui em casa ao mesmo tempo. Por que noo pode? O Cap. Rodrigo pode tudo. O Pe. Lara 
chega, diz boa noite, senta-se, chiando como um gato velho. Coitado! Est enterrado perto da sepultura da vov. Decerto de noite os dois ficam ali no cemitrio conversando 
sobre os vivos, rindo-se deles... O Cap. Rodrigo j acendeu o cigarro. Papai olha o relgio como quem quer dar a entender que  tarde. Ento meu noivo se levanta, 
vai embora e eu fico pensando nele e nas coisas que tenho que fazer amanh. Pular da cama s cinco, tirar leite, encher lingia, dar milho pras galinhas, matar 
formigas pra elas no estragarem as plantas... Com essa cintara fina a Luzia parece uma formiga, uma sava grande. Mas formiga se esmaga com o p. E sapo tambm. 
E os olhos de Bibiana se voltam para Aguinaldo.
Depois passeiam lentos e avaliadores em torno da sala. Aquele espelho grande de moldura dourada  muito bonito, deve ter custado um dinheiro. E nm dia ainda quero 
ver naquele vidro o Aguinaldo dentro dum caixo de defunto, com gaatro velas acesas dos lados. Deus me perdoe,_noo desejo o mal de ningum, mas todos um dia morrem. 
Amm. E  bem bonita a moblia - refletiu ela, olhando para o consolo de mrmore, sobre o qual estava a ctara de Luzia,
A TEINIAGUA        375
dentro dum estojo de madeira lavrada. E pra que estas cadeiras todas cheias de regaififes, Santo Deus? No troco as minhas de palha tranada por estes monstrengos. 
Mas gosto desta casa. Como so grossas as paredes! Num casaro assim a gente se sente garantida. Pode vir chuva, ventania, tempestade e at guerra. Bala noo passa 
por elas.
- Est boa a limonada? - perguntou Aguinaldo, jovial.
Bibiana teve um leve sobressalto, ergueu os olhos para o dono da casa e respondeu
- No provei ainda.
S ento  que se lembrou de que tinha na mo o copo de limonada. Levou-o  boca e comeou a beber devagar. O cheiro de timo trouxe-lhe  mente um certo dia de 
sua vida, havia muitos anos. O Cap. Rodrigo chegou duma viagem e lhe disse: "Estou louco de sede, minha prenda. Me faz uma limonada bem ligeiro. Mas bota pouco acar. 
E depois, quando ela estava espremendo
.,
o limo dentro-dum copo, ele se aproximou por trs, enlaou-lhe a
cintura e beijou-lhe a nua.
Bolvar bebia sua limonada com avidez, mas a comoo parecia
trancar-lhe a garganta.
Florncio ergueu-se, foi at a janela e olhou para o cadafalso,
a cujo redor a multido engrossava. Crianas cornam e brincavam
sob a figueira grande. Uma brisa leve comeava a bulir com. as
folhas das rvores e  porta da cadeia curiosos se aglomeravam, anda
vam dum lado para outro, erguendo poeira do cho. Pobre do
Severino! E o nome de Severino que Florncio pronunciara men
talmente repetiu-se num eco. Mas o eco era o de um outro nome:
Bolvar. Pobre Bolvar!
Bolvar tornou a olhar para o relgio, mas no pde distinguir
o mostrador, porque o suor lhe entrara pelos olhos e lhe turvava a
viso. Comeou a esfreg-los com os dedos.
- Entrou alguma poeira? - perguntou Luzia, num sbito
interesse. - Deixe ver.
Bolvar sacudiu a cabea.
- No. No  nada. Foi o suor. - Est ardendo? - Um pouco.
- Deixe ver. - No carece.
Os olhos de ambos se encontraram.
- Qne  que vosmec tem? - perguntou ela. - Eu? Nada.
- Tem, sim. Est se vendo: - No  nada.
Bolvar noo pde suportar o olhar da noiva. Baixou os olhos
para o cho,
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- Se est arrependido - prosseguiu ela num murmrio - ainda  tempo de desmanchar o casamento. H pessoas que voltam at da porta da igreja.
Felizmente - pensou Bolvar - os outros estavam entretidos a conversar e no ouviam aquelas coisas estpidas que Luzia lhe sussurrava. Assim em cochicho a voz dela 
ficava ainda mais excitante. Era como se o estivesse convidando a ir para a cama.
- Ningum est falando em arrependimento... - retorquiu ele pondo o copo de refresco em cima da mesa redonda, na frente do sof.
- Ento diga que  que tem.
- Ora, estou me sentindo mal. Minha cabea est estourando.
Bolvar achava difcil conversar com a noiva cara a cara. No podia resistir ao olhar dela : dava-lhe um acanhamento que ele nunca sentira diante de mulher alguma. 
E por se sentir acanhado ficava com raiva da moa, de si mesmo, de tudo e de todos.. Vinhamlhe desejos de fazer violncias, dizer nomes feios,. de portar-se como 
um cavalo. Sempre que discutia e lhe faltavam argumentos, palavras, ele tinha gana de usar as patas.
- Passou mal a noite?
Com relutncia Bolvar sacudiu afirmativamente a cabea:
- A bem dizer passei a noite em claro.
Ergueu os olhos para a me e percebeu que, fingindo escutar a
esposa d juiz, ela procurava ouvir o que Luzia estava dizendo. - Pensando no Severino? - insistiu a moa. - Como  que vosmec sabe?
- B natural. O negro vai morrer por causa de seu testemunho.
Disse isso e seus olhos escrutaram o rosto do noivo, verrumantes, como se quisessem ver-lhe os sentimentos. Bolvar sentiu um pingo de suor escorrer-lhe frio sob 
a camisa, ao longo da espinha. Sua cabea latejava com fora e de repente ele. se lembrou dum homem que um dia vira cair em plena rua, fulminado por um ataque de 
cabea..
- Vosmec tambm acha que o negrinho est inocente? Luzia encolheu os ombros.
- Eu no acho nada. Vosmec  que devia saber o que dizia quando falou s autoridades.
Bolvar fez um gesto de impacincia e meteu os dedos trmulos pelos cabelos. Procurou alguma coisa para dizer, mas no encontrou nada. Teve vontade de mandar todos 
para os confins do inferno.
- Mas como  ... - principiou - como  ... o .. . Calou-se de novo. Tinha-se feito um hiato na conversao e
de repente a sala ficara silenciosa e os olhos do Dr. Winter, de
Florncio e de Bibiana estavam voltados para o sof.
- Ser que j comearam a brigar? - troou Aguinaldo.
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fazendo com a cabea um (sinal na direo dos noivos. - Tem
tempo, meninos tem tempo.
Florncio olhava para Luzia e achava-a parecida cm uma
imagem de Santa Rita que ele vira nas misses.
O Dr. Winter, o Dr. Nepomuceno e o dono da casa de novo
entraram numa discusso poltica, e Bibiana agora contava animadamente  interlocutora o que costumava fazer para secar a roupa
lavada em dias de chuva; a mulher do juiz, com a mo em concha atrs da orelha, escutava-a arfante e atenta.
- Falta s meia hora - murmurou Luzia, lanando nm rpido olhar para o relgio de pndulo.
Algum abriu uma porta nos fundos da asa e a brisa entrou na sala trazendo um cheiro de cozinha que, ao passar por Luzia. se misturou com um perfume de essncia 
de rosas e de pele limpa de mulher recm-sada do banho - o que contribuiu para aumentar a confuso de Bolvar, que de repente sentiu pela. noiva nm desejo estpido 
que era ao mesmo tempo nusea, medo e impotncia. Seus olhos voltaram-se mais uma vez para o mostrador do relgio grande. e ele tornou a ver o gto enforcado, e 
o grito do animal cruzou-lhe o esprito.
Bolvar ergueu-se como que impe,~ido por uma mola, e caminhou apressado pra a janela. Luzia seguiu-o`com  olhar, depois voltou a cabea para Florncio e sorriu. 
O rapaz respondeu com um sorriso meio constrangido e perguntou:
- Que foi que houve?
- Sen primo est _ nervoso.
Aguinaldo soltou uma risada.
-  natural. No dia que contratei casamento fiquei to nervoso que at me deu uma soltura.
- Vov! - repreendeu-o Luzia. - Isso no se diz.
Bibiana olhava apreensiva para o filho. Junto da janela Bolvar mal enxergava o que se passava na praa, pois diante de seus` olhos manchas dum preto esverdeado
danavam, estonteantes. Mais uma vez teve vontade de arrancar fora o colarinho, a gravata, o colete, sair correndo daquela casa, montar a cavalo  meter-se campo
adentro a galope.
Sentiu que lhe seguravam o-brao. Voltou-se: era a me. Tinha nas mos um copo de refresco.
- Beba mais um pouco, meu filho.
Sem pensar, Bolvar obedeceu. Emborcou o copo e bebeu toda a limonada dum sorvo s. O lquido adocicado, meio enjativo e pegajoso, lhe desceu com dificuldade goela
abaixo.
- V agora sentar-se perto da sua noiva - sussurrou-lhe Bibiana. - Coragem! Isso passa.
Bolvar votou para o sof.
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Aguinaldo agora contava coisas do Angico ao juiz de direito !ao mdico.
- Minha orvalhada anda muito ruim. Essas guerras estragam oa nossos rebanhos. lr uma lstima... Muito cavalo superior ac perdeu na Guerra dos Farrapos. Miles de 
miles - concluiu Aguinaldo, enrolando um cigarro.
O juiz sacudia a cabea lentamente, de olhos meio cerrados. - Muito homem superior morreu nessa guerra - corrigiu-o Biana.
- Pra mim animal  o mesmo que gente - explicou Aguinald. - Pego amizade por els. Pode ser cavalo, boi, cachorro ou gato. Um dia peguei um dos meus. escravos maltratando 
uma pobre mula. Ah, seu compadre, fiquei fulo de raiva e comecei a enzergar vermelho. Negro sim-vergonha, gritei,- vai bater na tua me, desgraadol Pois o diabo 
do negro estava to possesso que noo me- vn nem m"escutou. Continuou a dar com o chicote no lombo do pobre animal. A .mula estav j toda lanhada, escorrendo sangue. 
Ento perdi as estribeiras, tomei o chicote das mos do negro, me atirei pra cima dele e comecei. a dar-lhe na cara, a dar-lhe na cara, e fui ficando to furioso 
que acabei dando com o cabo do chicote na cabea do bandido. E d-lhe pau, d-lhe pau! No principio ele meio que ficou estonteado sem saber o que estava acontecendo. 
Mas quando compreendeu tudo, se ajoelhou, botou a boca no mundo e depois quis fugir. lulas corri atrs dle, o negro tropeou, caiu e ea me atirei em cima do cachorro, 
cego de raiva .. . E l vai pau, e l vai pau. Pois noo  que quase mato o desgraado?..- Os olhinhos de Aguinaldo brilharam.. ple fez uma pausa para acender o cigarro 
e depois continuou: - A sorte do crioulo  que j sou um homem velho e noo tenho a mesma fora dos tempos de dantes.. Cansei logo e parei pra noo cair. Se noo fosse 
isso, e~ acabava fazendo mingau da cabea do negro. ~ - Pnxou uma tragada, soltou o fumo no ar e disse. - Animal  mesmo que gente pra mim. - Caminhou at a porta 
da sala de "jantar e gritou:
- Sia Rosa, mande trazer as cflisas de comer!
O Dr. Winter contemplava Aguinaldo com a mesma curiosidade meio horrorizada com que um dia olhara um terneiro do Angico que nascera com duas cabeas.
Entraram duas escravas com bandejas cheias de bolos e doces.
Winter cruzou as pernas e disse ao dono da casa.
- Mas o senhor parece que no teve nenhuma piedade do negro. Me diga ento uma coisa: quando v um branco batendo num escravo, vosmec noo fica tambm revoltado?
Aguinaldo coou a para e estava para responder quando ouviu a voz de Luzia
- Negro no  gente - disse ela.
Todos os olhos se voltaram para a moa. Santa Rita disse uma barbaridade - pensou Florncio. Bolvar parafraseou mentalmente "s palavras da noiva: "Severino no 
 gente. Vo enforcar um
bicho-"
O Dr. Winter tirou os &ulos e comeou a limp-los lentamente cm o leno.
- 1f~lecn liebes Frulein! - exclamou le, com sua voz aflautada. - O que vosmec acaba de dizer  uma inverdade cientfica.
Luzia encolheu os ombros e seus dedos brincaram com o leque.
- No sei se o que eu disse  cientfico ou noo. Mas  o que sinto. Para mim o negro est mais perto do macaco que dos seres humanos.
O juiz fechou os olhos, como para no se deixar influenciar por aquelas idias, franziu os lbios reflexivamente, e quedou-se a procurar um ponto de conciliao. 
Bibiana ficou mais tesa ainda m cadeira, como cobra pronta para dar o bote. Ento  isso que essas moas aprendem nos colgios da Corte? - pensou ela. Credol  melhor 
a gente noo saber ler nem escrever mas ter nm bom corao. Cruzes!
- l~fein liebes Fr~ulein! - repetiu o Dr. Winter. Erguem-se e foi postar-se na frente da moa. Seu cheiro de desinfetante envolveu Bolvar, que por um rpido segundo 
o achou confort~d~ Uma vez tinha cado de cama, com febre, e sua me chamara v Dr. Winter. S a presena do mdico lhe trouxera alvio; e ele associava essa presena 
e essa impresso de alvio quele cheiro de remdio.
- l~lein liebes Fraulein! Como pode a minha graciosa amiga conciliar seu cristianismo com essas idias? - perguntou Winter. balanando o corpo na ponta dos ps. 
- Onde est sua caridade? Que um herege como eu pense assim, ainda se. admite. Mas que uma jovem crist diga essas barbaridades, mero Gott!, isso eu noo compreendol
- H muita coisa que vosmec noo compreende, doutor.
Bolvar sentia-se constrangido por wer a noiva a conversar com o mdico aqueles assuntos de que ele nada entendia. Teve vontade de gritar para Winter: "Cuide da 
sua vida. Volte pro seu lugar. Nos deixe em pazl"
Luzia abriu o leque e comeou a abanar-se serenamente.
- Vosmec no acha, doutor - perguntou ela - que ser bom ou ser mau  uma questo de mais ou mnos coragem?
- Hein? - fez o mdico, perplexo, a coar o queixo com dedos frenticos. - Quer dizer ento que bondade  sinnimo de covardia?
- E o senhor acha que noo ? Nunca pensou que ser bom  a coisa mais fcil do mundo? E que qualquer pobre-diabo pode se dar o luxo de ser bom?
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O CONTINENTE
O Dr. Wnter ergueu ambos os braos e depois deixou-os cair, batendo com fora nas coxas com as palmas das mos. Era um gesto que queria dizer: se a menina pensa 
assim, desisto de discutir.
Mas o diabo - pensava - era que de certa maneira misteriosa Luzia parecia ter alguma razo. Era preciso uma pessoa ter muita coragem para dar expresso a todos os 
seus desejos e sentimentos maus. Sm, ser bom era fcil. A teiniagu no se deixava apanhar facilmente.
Aguinaldo contemplava a neta com admirao, sacudindo a cabea devagarinho e rindo o seu riso encatarroado.
O juiz, ainda de olhos fechados, a papada comprimida entre o maxilar inferior e o colarinho engomado, lotava com palavras e idias, tentando formar mentalmente uma 
sentena que, sendo ao mesmo tempo gramatical e judiciosa, tivesse a peregrina virtude de clarificar a situao.
A esposa queria saber do que estavam falando, e Bibiana explicou-lhe tudo como pde. A surda lanou para o marido. um olhar que foi um apelo: "Tira-me do escuro, 
Nepomuceno!" O juiz continuava a sortir. as palavras, a ajust-las s idias. Que o negro era um ser humano, constitua uma verdade cientfica incontestvel. Mas 
ele prprio s vezes no deixava de sentir nas pessoas de cor qualquer coisa de bestial que as aparentava aos- animais inferiores. Como noo encontrasse a frase conciliador, 
soergueu o corpo na cadeira, estendeu o brao e apanhou um quindim da bandeja que .estava sobre uma pequena mesa e comeou a mordisc-lo cm alguma solenidade.
Uma questo de coragem ... Flornco no entendia .bem o que Luzia pretendia dizer com aquilo. Mas senti que boa coisa noo era ... Baixou os olhos e ficou olhando 
meio vago. para a ponta das botinas que lhe apertavam os ps.
Questo de coragem ... Estas palavras soavam ainda na mente de Bolvar. Se ele tivesse coragem sairia correndo e iria gritar. para aquela gente que estava reunida 
ao redor da forca
- Vo pra casa, bandidos! Onde se viu estarem. se divertindo com a morte dum homem?1 Severino est inocente. Quem devia estar pendurado nessa forca era eu. Matei 
um homem uma vez, s de mau. O combate tinha terminado. Ele pediu misericrdia. ~ Mata de mau. Eu bem podia ter matado tambm aqueles dois tropeiros. O Severino 
 um homem bom. Nunes fez mal a uma mosca. Tio Juvenal que conhece as .pessoas, diz qu o aegrinho est totente. Vo pra casa! Vo pedir perdo a Deus!
Winter voltara para~sua cadeira e agora observava Luzia. Qnt haveria naquela alma? Ele ainda no sabia, roas comeava a adivinhar, atravs duma nvoa, e o que entrevia 
lhe dava um aperto de corao, um frio horror. Como era que naquele fim de mundo naquele lugarejo perdido nos confins do continente americano, entre
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gente rude e primria, existia uma mulher assim? Podia estar numa tragdia de Sfocles ou de Schiller, num conto de Hoffmann ou num. - . 1[dein Gott! Contado ningum 
acreditaria. E por nm instante se imaginou num Biergarten d Berlim, dali a muitos anos. sentado ao redor duma mesa a tomar cerveja com amigos e a falar-lhes de 
seu passado de Santa F. E se viu e ouviu a dizer:
"H muitos anos, nos confins da terra, conheci uma rapariga singular. Chamava-se Luzia. Eu s queria saber que. foi feito dela..."
Agora o rosto da teiniagu tinha uma expresso anglica: estava sereno, limpo e luminoso. Sua voz profunda tornou a envolver o mdico
- Por que noo trouxe seu violino, doutor? - perguntou ela. - Podia tocar um pouco para ns.
Winter pensou no sacrista-o da lenda e viu a lagartixa encantada enroscar-se nle.
Deu um tapa cmico no ar.
- AchC J no sei mais tocar. Vou enterrar o violino.
- Talvez nasa um p de couve - observou. $ibiana.
Aguinaldo soltou uma risada .seca e disse:
- Por falar em enterrar, est quase na hora de enforcarem. o negro.
Como era que ele podia falar com- tanta despreocupao na morte duma pessoa? - perguntou Florncio a si mesmo, com uma. sensao de .mal-estar.- E" de novo ouviu 
na memria. as palavras de Luzia: Negro no  gente. Com que frieza ela tinha dito aquilo! Por contraste pensou em Ondina Alvarenga e a lembrana de seus olhos mansos 
lhe fez algum bem.
Silncio. O Dr. Nepomuceno - que tinha lavrado a sentena de morte - pigarreou, constrangido, e Comeou a tamborilar nervosamente com os dedos sobre a guarda da 
cadeira. O Dr. Wnter voltou-se para o magistrado:
- O senhor tem de estar presente  cerimnia? - perguntou.
O juiz tornou a inclinar o -corpo para a frente,- estendeu o bro e apanhou outro quindim.
- Eu devia estar l - disse, com relutncia, mordiscando .o doce. - Mas no gosto dessas coisas. Sou um homem nervoso. No gosto dessas coisas. - Pedaos de quindim 
pintalgaram-lhe de ouro a barba grisalha. - Alei no obriga propriamente o juiz a comparecer. . A lei no obriga ... propriamente.
Aguinaldo tirou do bolso o relgio e olhou para o mostrador.
- Faltam quinze minutos.
O corao de Bolvar comeou a bater com mais fora. Ainda havia tempo. Podia levantar-se e dizer: "Senhor juiz.. tenho de fazer uma confisso: O negro Severino
est inocente. -Quem matou os dois tropeiros fui eu. Juro por Deus Nosso Senhorl"
382        O CONTINENTE

Agninaldo aproximou-se da janela, relanceou os olhos e disse:
- Est assim de gente.. Parece at quermesse.
On ento - pensava ainda Bolvar - podia sair co
at o cadafalso, beijar a mo de Severino e pedir-lhe perdo
ginon-se fazendo isso. A mo do negro est gelada de
Sentiu na garganta um aperto que o impedia de engolir a sali - No quer um doce? - perguntou-lhe Luzia. - No - respondeu ele.
- Ainda est doendo a cabea? - Ainda.
A senhora do juiz contava que tinha encomendado umas de bilro a Ondina Alvareng. Mas D. Bibiana estava com a o no filho. Fz-rse um novo silncio difcil. Parecia 
que todos s pensavam na hora do enforcamento.
- Querem ir l na praa ver a coisa de perto? - Aguinaldo.
- Deus me livrei - apressou-se a dizer Bibiana. - E o senhor, doutor?
Winter sacudiu negativamente a cabea. O juiz limitou fechar os olhos e a repetir:
- A lei no obriga. No gosto desses espetculos. A 1 obriga.
Agninaldo esfregou as mos, de olho alegre. Piscou Dr. Winter e, inclinando a cabeona na direo do juiz,
- Ser que a conscincia est lhe doendo?
O Dr. Nepomuceno ficou soturno, brincou com a meda pendia da corrente do relgio e redargiu:
- Tenho a conscincia tranqila, Sr. Aguinaldo. T ~nscrencra . tranqila. Fz-se justia. Os juzes de fato
o ru culpado. A condenao foi feita de acordo com o numero 271 do Cdigo Criminal do Imprio. Tenho a co tranqila. - Lanou um olhar na dreo de Bolvar e ajun 
Ali est casualmente o cidado cujo depoimento contribui esclarecer o crime.
Fez com a mo um sinal solene que queria dizer.: um honesto, ntegro, acima de qualquer suspeita.
Florncio estava sentado na ponta da cadeira, com os postos no primo, temendo que ele fizesse ou dissesse alguma inconveniente.
Bolvar, porm, limitava-se a olhar para o soalho, com reluzente de suor e os largos ombros a subir e descer ao ritmo respirao fegante.
Por alguns instantes todos ficaram calados, como que  dalgama coisa. Agninaldo fez nora ou duas tentativas para am assunto.. mas foi em vo. O silncio voltava 
sempre, e
~~ os olhos estavam voltados para as janelas que davam para a Quantas daquelas pessoas - perguntava Winter a si mes

p~- desejariam ir ver o negro espernear na forca, levadas por aro - ,
rrma cenosidade mrbida que parecia ser um dos atributos da natu

reza humana? E se no se dispunham a ir at as proximidades do pdafalso ou a ficar olhndo de longe, ali das janelas, seria porque, de mistura com a curiosidade, 
sentissem tambm uma ponta de horror? Ou era porque queriam afetar bons sentimentos? Da parte de Bolvar e do juiz - refletia o mdico - devia haver um pouco de 
remorso, pois ambos tinham contribudo para a condenao do negro. D. Bibiana e a esposa do magistrado deviam detestar sinceramente a idia de assista  cena. Flornco 
era um homem de bom eorao... E Luzia? Continuaria sentada ou viria espiar o enforcamento?

Aguinaldo estava excitado, a de instante a instnte  janela, ficava ali num p s, fungando, aflito.

- Parece que vo trazer o negro - disse ele em dado momento, pondo a mo em pala sobre os olhos. - Estou vendo um movimento na frente da cadeia.

Comeou a esfregar as mos, satisfeito,. numa antecipao do espetculo.

Uma escrava entrou com uma grande bandeja cheia de talhadas de melancia.
- Pode botar em cima da mesinha - ordenou Luzia, com voz impaciente. - E v l pra dentro.

A negra obedeceu, hesitou um instante e depois se dirigiu ao amo, de cabea baixa, com voz humilde:
- A negrada da cozinha tambm quer ir ver .. .

- Pois vol - gritou Aguinaldo.

Luzia, porm, interveio

- Naol No vo. Fiquem l no fundo e noo venham nem pra frente.

A escrava saiu da sala de olhos baixos.
Winter sentiu que ele tambm estava inquieto. Se se erguesse e fosse at a janela poderia ver todo. O cadafalso ficava a uns hinU e poucos metros do Sobrado e erguia-se
a mais de trs do alo.. Podam dali ver a execuo muito melhor que muitos dos que se acotovelavam ao -.redor da fora, sob o sol quente. Vou ou noo vou? -. PKguntava
ele a si mesmo. Ir seria ceder a uma curiosi~~ ~v~. a um sentimento inferior. Mas no ir seria levar morto a srio aquela histria toda. No fim de contas era mdico

urra coisas piores em sua carreira: crnios esmagados, membros

Pados, tripas  mostra. Nunca, porm, assistira ao asaasanio

~" glct~do e legal dum homem. O fantasma de Luzia tochi
cbon"1~ na mente: Negro no  gente.
A TEINIAGU        383
382
Agninaldo aproxint~ e disse:
- Est assim de
On entq - pensa at o cadafalso, bri jax ad ginon-se fazendo isso, Sentiu na garganta uxn s
- No gnex um a
- No - respan~
- Ainda est does
- Ainda.
A senhora do juiz d de bilro a Ondina Alvad o no filho. Ft-se todos s pensavam na
- Querem ic l na~ Agninaldo.
- Deus me livre!
- E o senhor, do-
Winter sacudiu n fechar os olhos e a r
- A -lei no obrigs
obriga.
Agninaldo esfregou Dr. Winter e, indinand~
- Ser que a o
O Dr. Nepgmuceno pendia da corrente do r/
- Tenho a to conscincia. trangiila. o ru culpado. A com numero 271 do Cdigo ~~ tranqila. - Lanon x1u Ali est casualmente o I esclarecer o crime.
Fez com a mo nm , honesto, ntegro, ama f
Florncio estava sei postos no primo, temem inconveniente.
Bolvar, porm, 1" reluzente de suor e os la respirao fegants.        ,
Por alguns instantes dalguma coisa. Agniaal~ am assunto.. mas foi t~1
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- Faltam oito minutos - disse Aguinaldo. E de repente uma alegria infantil, exclamou: - L vem ele!
Winter ergueu-se, como que galvanizado, e aproximonjanela. O juiz continuou sentado onde estava, a balouar as nervosamente.
O mdico olhou para fora. Um grupo compacto movia cadeia na direo do cadafalso. Houve na multido que se a ao redor da forca um como que movimento de onda. Wiat 
lumbrou no grupo menor a batina negra do Pe. Otero e uniformes da Guarda Nacional. Tudo se processava no mel grande silncio.
O Dr. Nepomuceno foi atacado dum acesso de tosse a Voltando a cabea para dentro da sala; Winter viu que B duma palidez de morte, de olhos sempre baixos remexia-se 
fortavelmente no sof, ao passo que Luzia olhava atentamente: ele, sentada, multo ereta, na ponta do sof, como que a sofrimento do noivo. Q mdico tornou a olhar 
para a praa, quando dois guardas fizeram Severino subir os degraus do cada Dali Winter noo podia distinguir as feies do condenado percebeu que os guardas o amparavam 
para que ele se mau. de p. Ao lado do negro, o Pe. Otero ergueu um crucifixo voltou-se para a multido e pronunciou algumas palavras mdico no ouviu com clareza. 
Comeou ento a erguer povo um clamor unssono, cadenciado e fnebre. Rezavam o nosso. As vozes, graves e foscas, erguiam-se no ar luminoso, en a praa e tinham 
qualquer coisa que lembrava o som dum Winter comeou a sentir a garganta seca, a lngua grossa. um perfume ativo de essncia de rosas lhe chegava s nazi ento ele 
sentiu, antes de ver, que Luzia estava a seu lado,  Olhou-a de soslaio. Os seios da moa palpitavam, seus olhos vam fitos no cadafalso, imveis, arregalados, cheios 
duma fascinao.
De repente o coro cessou num amm que se esfarelou O padre voltou-se para o condenado e encostou-lhe aos l crucifixo. Naquele instante o relgio comeou a dar as 
horas: badaladas que Bolvar sentiu como pancadas no anio.
O carrasco experimentou o n corredio e depois colocou a em torno do pescoo do escravo. Havia agora na praa um de cemitrio. De repente um galo cantu atrs da 
igtel Dr. Winter voltou a cabea para Luzia. E foi no semb teiniagn que ele viu o resto da cena macabra. Primeiro o r
se contorceu num puxo nervoso, como se ela tivesse sentida sbita dor aguda. Depois se fixou numa expresso de interesse que aos poucos se foi transformando numa 
m gozo que pareceu chegar quase ao orgasmo. Winter o estarrecido. Na multido ao redor do cadafalso uma mulher
pm grito que subiu no ar como um dardo. Winter olhou para o cadafalso. Pendente da forca o corpo de Severino estrebuchava.
p Dr. Nepomuceno tossia ainda. Sua esposa apertava o leno nas mos e tinha lgrimas nos olhos bondosos e palermas. Bibiana e Florncio olhavam ainda para Bolvar 
"com pena, como se fosse ele e noo Severino o enforcado.
Winter voltou para a sua cadeira e acendeu um charutinho. Estava subitamente triste por contraste pensava em Trnde, especialmente-num certo dia em qne a vira ntrar 
na igreja de Eberbach, toda de branco, com pequenas flores azuis nos cabelos dourados.
- L se foi o negrol - exclamou Aguinaldo, esfregando as mos e caminhando na direo das melancias. Apanhou uma talhada e convidou: - Vamos, minha gente, antes 
que a melancia esquente.
1~Ias ningum fez o menor movimenta Luzia deixoa a janela: Seu rosto estava iluminado por uma Iuz de bondade que a transfigurava. Sentou-se junto do consolo, abriu 
o estojo de madeira e tirou de dentro dele a ctara. Fez tudo isso com gestos cuidados e tranqilos como quem segue um rito.
Tirou alguns acordes do instrumento e depois comeou a tocar uma valsa brilhante. - Winter observava-a, perplexo. A melodia alegre encheu a sala. A. senhora. do 
juiz aproximou-se mais de Latia. e, com a mo atrs da orelha,- tentava escutar, com uma expresso de estranheza nos olhos ainda midos.
De repente Bolvar rompeu a chorar, escondeu o iost nas mos e ficou onde estava, os ombros sacudidos pelos soluos. Bibiana correu a sentar-se junto dele.
- 1~Ieu filho - murmurou. ela, entre penalizada. e cheia de vergonha. - No faa isso. Um homem no chora.
Luzia olhou para o noivo, com olhs nespressivos, e continuou a tocar. Winter, embaraado, mascava ferozmente seu charatinho. Florncio ergueu-se, caminhou para 
o primo e tomoa-lhe do brao, . dizendo:
- Boli, vamos dar um passeio ,l no quintal.
O outro no se moveu.. Florncio obrigou-o a levantar-st. Bolvar deixou-se arrastar pelo primo para fora da sala.
- Vou mandar fazer um ch de folha de laranjeira pra lt - d~ Aguinaldo.
Os olhos de Bibiana Terra chisparam.
- Meu filho no  mulher pra tomar chs, seu Aguinaldo. Neap~ terra noo h nenhum homem mais macho qne o Bolvar. ~em tiver dvida que experimente.
Passeou rapidamente o olhar em torno, num desafio, fez cotia pl~ e saia no encalo dos dois rapazes.
Como se nada tivesse acontecido, Luzia continuava a dedilhar
A TEINIAGUk        385
#3 84        O CONTINENTE

- Faltam oito minutos - disse Aguinaldo. E de repente uma alegria infantil, exclamou: - L vem ele!
Winter ergueu-se, como que galvanizado, e aproximoujanela. O juiz continuou sentado onde estava, a balouar as nervosamente.
O mdico olhou para fora. Um grupo compacto movia cadeia na dreo do cadafalso. Houve na multido que se a ao redor da forca um como que movimento de onda. Wiat
lumbrou no grupo menor a batina negra do Pe. Otero e uniformes da Guarda Nacional. Tudo se processava no meia grande silncio.
O Dr. Nepomuceno foi atacado dum acesso de tosse Voltando a cabea para dentro da sala; Winter viu que B duma palidez de morte, de olhos sempre baixos remexia-se
fortavelmente no sof, ao passo que Luzia olhava atentamentt~ ele, sentada, multo ereta, na ponta do sof, como que a g sofrimento do noivo. Q mdico tornou a olhar
para a praa, quando dois guardas fizeram Severino subir os degraus do cada Dali Winter noo podia distinguir as feies do condenado percebeu que os guardas o amparavam
para que ele se maat de p. Ao lado do negro, o Pe. Otero ergueu um crucifixo voltou-se para a multido e pronunciou algumas palavras mdico no ouviu com clareza.
Comeou ento a erguer povo um clamor unssono, cadenciado e fnebre. Rezavam o nosso. As vozes, graves e foscas, erguiam-se no ar luminoso, e a praa e tinham qualquer
coisa que lembrava o som dum Winter comeou a sentir a garganta seca, a lngua grossa. um perfume ativo de essncia de rosas lhe chegava s nazi ento ele- sentiu,
antes de ver, que Luzia estava a seu lado,  Olhou-a de soslaio. Os seios da moa palpitavam, seus olham vam fitos no cadafalso, imveis, arregalados, cheios doma
fascinao.
De repente o coro cessou num amm que se esfarelou O padre voltou-se para o condenado e encostou-lhe aos l crucifixo. Naquele instante o relgio comeou a dar as
horas: badaladas que Bolvar sentiu como pancadas no crnio.
O carrasco experimentou o n corredio e depois colocou a em torno do pescoo do escravo. Havia agora na praa nm de cemitrio. De repente um galo cantn atrs da
igrt Dr. Winter voltou a cabea para Luzia. E foi no semb teiniagn que ele viu o resto da cena macabra. Primeiro o r se contorceu num puxo nervoso, como se ela
tivesse senti sbita dor aguda. Depois se fixou numa expresso de interesse que aos poucos se foi transformando numa m gozo que pareceu chegar quase ao orgasmo.
Winter o estarrecido. Na multido ao redor do cadafalso uma mulher
cadafalso. Pendente da forca o corpo de Severino estrebuchava.
O Dr. Nepomuceno tossia ainda. Sua esposa apertava o leno nas mos e tinha lgrimas nos olhos bondosos e palermas. Bibiana e Flornco olhavam ainda para Bolvar
"com pena, como se fosse ele e noo Severino o enforcado.
Winter voltou para a sua cadeira e acendeu nm charutinho. Estava subitamente triste por contraste pensava em Tande, especialmente-num certo dia em que a vira ntrar
na igreja de Eberbach, toda de branco, com pequenas flores azuis nos cabelos dourados.
- L se foi o negrol - exclamou Aguinaldo, esfregando aa mos e caminhando na direo das melancias. Apanhou uma talhada e convidou: - Vamos, minha gente, antes
que a melancia esquente.
Mas ningum fez o menor movimento. Luzia deixou a janela: Seu rosto estava iluminado por uma luz de bondade que a transfigurava. Sentou-se junto do consolo, abriu
o estojo de madeira e tirou de dentro dele a ctara. Fez tudo isso com gestos cuidados e tranqilos como quem segue um rito.
Tirou alguns acordes do instrumento e depois comeou a tocar uma valsa brilhante. - Winter observava-a, perplexo. A melodia alegre encheu a, sala. A. senhora. do
juiz aproximou-se mais de Luzia. e, com a mo atrs da orelha,- tentava escutar, com uma expresso de estranheza nos olhos ainda midos.
De repente Bolivar rompeu a chorar, escondeu o rost nas mos e ficou onde estava, os ombros sacudidos pelos slnos. Bibiana correu a sentar-se junto dele.
- Meu filho - murmurou. ela, entre penalizada. e cheia de vergonha. - No faa isso. Um homem no chora.
Luzia olhou para o noivo, com olhs inexpressivos, e continuou a tocar. Winter, embaraado, mascava ferozmente seu charutinho. Florncio ergueu-se, caminhou para
o primo e tomou-lhe do brao, . dizendo
- Boli, vamos dar um passeio ,l no quintal.
O outro noo se moveu.. Florncio obrigou-o a levantar-se. Bolvar deixou-se arrastar pelo primo para fora da sala.
- Vou mandar fazer um ch de folha de laranjeira pra lt - du~ Aguinaldo.
Os olhos de Bibiana Terra chisparam.
- Men filho noo  mulher pra tomar chs, seu Aguinaldo. Nesc,~ terra noo h nenhum homem mais macho que o Bolvar. ~m tiver dvida que experimente.
Passeou rapidamente o olhar em torno, num desafio, fez meia pl~ e saiu no encalo dos dois rapazes.
Como ~ nada tivesse acontecido. Luzia coatianava a dedilhar
A TEINIAGUA        385 ,~ grato que subiu no ar como um dardo. Winter olhou para o
A TEINIAGUA        387
A moa comeou a tocar em surdina uma barcarola, ao mesmo
tempo que dizia
Uma vez na Corte, quando eu era menina, vi um enfor
cament ~aAum Mi f Nou"pode se compara rcomso Rio de Janeiro,
F  ape
 natural. - Olhava para os propnos dedos, como que enamorada deles. Prosseguiu : - O condenado era um turco que tinha matado
a mulher. So-detl.o Pe Sorriu~lsa adindo de leve a abParto e m pedao de p
Braado, no ? Quando o padre veio para a confisso, o turco disse que era muulmano ou coisa que o valha ... O padre ficou furioso.
Winter mirava ora as mos de Luzia ora o seu rosto, e deixava-se embalar pela vz dela.

- Depois fizeram um cortejo pela rua- continuou a moa. - Vinha na frente o juiz das execues, o meirinho, os irmos da Santa Casa, com os seus balandraus... Ahl
Vestiram um casaco branco no condenado." Depois vinham os funcionrios, os soldados .. .
A escrava entrou trazendo uma bandeja com clices de licor de pssego. e distribuiu-os entre os convivas.
- Ind"agorinha eu vi tudo ali da janela - disse Luzia, parando de tocar e descansando as mos no regao. Seus olhos pousaram no rosto do vigrio. - Vosmec ouviu
quando o pescoo do negro se quebrou?
- Se ouvi? - perguntou o padre, franzindo a testa.
- Quero dizer, quviu o barulho de ossos se quebrando?
O sacerdote encolheu os ombros, em dvida.
- E ele ficou de lngua de fora?
- Minha filha ... eu ... vosmec sabe que a gente no presta bem ateno a essas coisas. Na hora se fica to ... Ora, pra falar a verdade, nem olhei quando puxaram
o alapo. Estava de olhos fechados, rezando.
Luzia insistiu
- Mas depois, quando vosmec olhou ... ele estava de lngua de fora?
O padre voltou a cabea para Aguinaldo e. disse com um sorriso constrangido
- A curiosidade das moas de hoje no tem limites.
No esprito de Winter a palavra curiosidade transformou-se em crueldade. Luzia positivamente tinha a coragem de sua crueldade. Agora a nvoa se ha"via dissipado
ao redor dela. L estava a Musa da Tragdia com toda a sua alma desnudada.
A mulher do juiz, aflita, olhava com ar desamparado dum para outro, sem conseguir ouvir o que diziam.
O Dr- Nepomuceno cruzou as pernas, ergueu os olhos para o
386        O CONTINENTE
a ctara. Um reflexo da bandeirola da janela manchava-lhe de verde.
A teiniagu - pensou o Dr. Carl Winter. E ficou ol para o "animal", como que enfeitiado .. .
A TEINIAGUA        387
a ctara. Um reflexo da bandeirola da janela manchava-lhe a de verde.
A teiniagu - pensou o Dr. Carl Winter. E ficou nl para o "animal", como que enfeitiado .. .
8
Quando o Pe. Otero chegou ao Sobrado por volta das a meia, Bibiana, o filho e o sobrinho j se haviam retirado. O entrou com ar cansado, cumprimentou os presentes 
e foi senta um unto da sala, na sua. cadeira de balano predileta. E homem baixo e franzino,"ainda moo;- tinha um rosto alo duma, palidez eswerdeads de heptico. 
De to surrada sua j se fazia rua e .estava toda manchada de sebo.
- Come uns docinhos, padre? - perguntou Aguinaldo
O vigrio sacudiu melancolicamente ~ cabea.
- N.: Muito obrigado.
Uma talhada de melancia?
- Tambm no. No estou com fome.
- Ento vamos tomar um licorzinho de pssego .. .
O Pe. Otero fez primeiro uma careta de. dvida; depois
- Est bem, aceito.
Aguinaldo gritou para Rosa que trouxesse o licor. Luzia lhava ainda a ctara, de leve. J tinha tocado quase tudo q sabia e a sad do noivo no a deixara nem um 
pouco pertur
- Ento, vigrio? - perguntou o Dr. Nepomuceno. -nos conta?
O sacerdote fez um gesto desalentado.
- Consummatum est.
Houve um curto silncio, ao cabo do qual Dr. Winter guntou:
- E o condenado ... cmo se portou?
- No fez a menor qexa. No fez nenhum pedido es Confessou-se e na hora de morrer beijou o crucifixo. Seu-: tremiam, mas seus olhos estavam secos. No soltou um 
ai. como um homem.
Luzia ergueu a cabea e indagou:
- E na hora da confisso... ele confessou o crime, ou r que estava inocente?
- Minha filha - respondeu o padre com triste calma -~-
posso quebrar o sigilo do confessionrio.
O juiz de direito ergueu os olhos bovinos para Luzia e ref - r. Ele noo pode. No pode.
A moa comeou a tocar em surdina uma barcarola, ao mesmo ttmpo que dizia:
Uma vez na Corte, quando eu era menina, vi um enforp~ento. Ah! Mas foi muito mais bonito que este. Enfim, Santa F  apenas uma vila. No pode se comparar com o 
Rio de Janeiro,  natural. - Olhava para os proprios dedos, como que enamorada deles. Prosseguiu: - O condenado era um turco que tinha matado a mulher. Seu ltimo 
pedido foi um clice de vinho do Porto e um pedao de po-de-l. - Sorriu, sacudindo de leve a cabea. - Engraado, noo ? Quando o padre veio para a confisso, 
o turco disse que era muulmano ou coisa que o valha ... O padre ficou furioso.
Winter mirava ora as mos de Luzia ora o seu rosto, e deixava-se embalar pela vz dela.
- Depois fizeram um cortejo pela rua- continuou a moa. - Vinha na frente o juiz das execues, o meirinho, os irmos da Santa Casa, com os seus balandraus ... Ah! 
Vestiram um casaco branco no condenado." Depois vinham os funcionrios, os soldados .. .
A escrava entrou trazendo uma bandeja com clices de licor de pssego. e distribuiu-os entre os convivas.
- Ind"agorinha eu vi tudo ali da janela - disse Luzia, parando de tocar e descansando as mos no regao. Seus olhos pousaram no rosto do vigrio. - Vosmec ouviu 
quando o pescoo do negro se quebrou?
- Se ouvi? - perguntou o padre, franzindo a testa.
- Quero dizer, quviu o barulho de ossos se quebrando?
O sacerdote encolheu os ombros, em dvida.
- E ele ficou de lngua de fora?
- Minha filha ... eu ... vosmec sabe que a gente no presta bem ateno a essas coisas. Na hora se fica to ... Ora, pra falar a verdade, nem olhei quando puxaram 
o alapo. Estava de olhos fechados, rezando.
Luzia insistiu:
- Mas depois, quando vosmec olhou ... ele estava de lngua de fora?
O padre voltou a cabea para Aguinaldo e. disse com um sorriso constrangido
A curiosidade das moas de hoje no tem limites.
No esprito de Winter a palavra curiosidade transformou-se em crueldade. Luzia positivamente tinha a coragem de sua crueldade. Agora a nvoa se havia dissipado ao 
redor dela. L estava a Musa da Tragdia com toda a sua alma desnudada.
A mulher do juiz, aflita, olhava com ar desamparado dum para outro, sem conseguir ouvir o que diziam.
4 Dr. Nepomuceno cruzou as pernas, ergueu os olhos para o
386        O CONTINENTE
a ctara. Um reflexo da bandeirola da janela manchava-lhe de verde.
A teiniagu - pensou o Dr. Carl Winter. E ficou nl para o "animal", como que enfeitiado .. .
8
Quando o Pe. Otero chegou ao Sobrado por volta das meia, Bibiana, o filho e o sobrinho j se haviam retirado. O entrou com ar cansado, cumprimentou os presentes 
e foi senU um unto da sala, na sua. cadeira de balano predileta. Erat homem baixo e franzino,"ainda moo;- tinha um rosto aloa duma, palidez eswerdeads de heptico. 
De to surrada sua j se fazia rua e .estava toda manchada de sebo.
- Come uns docinhos, padre? - perguntou Aguinal
O vigrio sacudiu melancolicamente a~ cabea.
- N.: Muito obrigado.
Uma talhada de melancia?
- Tambm no. No estou com fome.
- Ento vamos tomar um licorzinho de pssego .. .
O Pe. Otero fez primeiro uma careta de. dvida; depois
- Est bem, aceito.
Aguinaldo gritou para Rosa que trouxesse o licor. Luzia lhava ainda a ctara, de leve. J tinha tocado quase tudo q sabia e a sad do noivo no a deixara nem um 
pouco pertur
- Ento, vigrio? - perguntou o Dr. Nepomuceno. -- nos conta?
O sacerdote fez um gesto desalentado.
- Consummatum est.
Houve um curto silncio, ao cabo do qual   Dr. Winter guntou:
- E o condenado ... cmo se portou?
- No fez a menor qexa. No fez nenhum pedido c~ Confessou-se e na hora de morrer beijou o crucifixo. Seu-: tremiam, mas seus olhos estavam secos. No soltou um 
ai. como um homem.
Luzia ergueu a cabea e indagou:
- E na hora da confisso ... ele confessou o crime, ou r que estava inocente?
- Minha filha - respondeu o padre com triste calma -
posso quebrar o sigilo do confessionrio.
O juiz de direito ergueu os olhos bovinos para Luzia e ref - r. Ele noo pode. No pode.
A moa corneou a toca
tampo que dizia:
_. Uma vez na Corte,{ gmeato. Ah! Mas foi mU~ F  apenas uma vila. No GQ
 natural. - Olhava para d~f4o
deles. Prosseguiu: - O CO~"u~
a mulher. Seu ltimo pedi~l pedao de po-de-l. - S~ Gy Braado, noo ? Quando ~1 ase que era muulmano O, furioso.        ~
Winter mirava ora as f9 va-se embalar pela vz de1~~~1~
- Depois fizeram um ~ Vinha na frente o juiz d9~~o Santa Casa, com os seus ba^
branco no condenado." D1DQ
dos .. .
A escrava entrou trazef~ ~ ~ pssego. e distribuiu-os ent~a
- Ind"agorinha eu vi y~ do de tocar e descansando ~y~ no rosto do vigrio. - VO t se quebrou?        ~
- Se ouvi? - pergu
- Quero dizer, quvi~~
O sacerdote encolheu dia
- E ele ficou de ln~~
- Minha filha ... eu bem ateno a essas coisas. ~ ~ P a verdade, nem olhei quan fechados, rezando.
Luzia insistiu :        D ~
- Mas depois, quand

de fora?        ~ ~aD
O padre voltou a cabe( constrangido
A curiosidade das
No esprito de Winter nueldade. Luzia positiva Agora a nvoa se havia di
~ Tragdia com toda a ~G a~ ol
A mulher do juiz, afli"/ OQ outro, sem conseguir ouvis/ ~~ b
O Dr. Nepomuceno c~/
#388        O CONTINENTE
alto, com o jeito de quem procura alguma coisa no crebro e depois disse:
- Essa execuo vai custar ao governo .. , deixe ver .. , mil e quinhentos mais oitocentos e cinqenta ... - Tinha a fama de ser muito bom no fazer contas de cabea. 
- Vai custar exatamente cinco mil e duzentos e noventa e um ris.
Via-se que dizia isso porque estava contrafeito e achava que tinha de dizer alguma coisa.
Luzia sorriu.
- Morre-se barato - dsse ela. - Viver  que custa caro.
O Pe. Otero olhava fixamente para o seu clice de licor. Tinha a testa franzida, o ar preocupado.
- Que bicho le mordeu, padre? - perguntou Aguinaldo. - Ficou impressionado com a coisa?
- No fim de contas, no foi nenhuma festa ... - replicou o sacerdote.
.Winter tomou um gole de licor e sentiu que o lquido doce e grosso lhe descia, ardido, pela garganta, como um filete de fogo.
- Mas no acha, reverendo - perguntou - que indo ver a morte do negro seus paroquianos no se portaram dum modo muito cristo?
-        padre cruzou as pernas, tornou a olhar para o clice e respondeu
- . O espetculo no foi nada edificante. Mas o senhor sabe, doutor, o fato deve ser olhado como um exemplo.
- Mas a sua igreja no condena a pena mxima? Temos o direito de tirar a vida dum ser humano, mesmo em nome da justia?
O Pe. Otero remexeu-se na cadeira, numa visvel sensao de mal-estar. O Dr. Nepomuceno voltou vivamente a cabea na direo do mdico.
- sacerdote tirou do bolso um leno muito encardido e passou-o pela testa num gesso largo e depois respondeu, com sua voz lenta, escandindo bem as slabas:
- A Igreja  de Deus e o reino de Deus no  deste mundo. Os homens podem errar, mas Deus nunca erra. No fim os pecadores sempre so punidos e os justos recompensados. 
E aqueles que so condenados por um erro da justia dos homens, no cu sero exaltados e redimidos .. .
Winter sorriu.
- Acha ento possvel que no caso de Severino tenha havido um erro da justia?
-        padre empertigou-se de repente, como se lhe tivessem alfinetado as costas.
- Eu noo dsse isso.
- Acredita ento que o negro matou mesmo os tropeiros? - Tambm no afirmei tal coisa.
A TEINIAGUA        389
_. Qual  a sna opinio sobre o caso?
- Como sacerdote de DRus noo me .cabe criticar a justia do estado. Cristo disse: "A Csar o qne  de Csar. A Deus o que 
de Deus."
O juiz de direito franziu o sobrolho e foi com uma gravidade ressentida. que disse:
- E um caso lmpido. ~ um caso lmpido.
Winter emborcou o clice de licor, lanou um olhar para Luzia, que seguia a discusso com interesse, e perguntou com ar agressivo:
- E quem me prova que no foi o prprio dono d olaria que matou os seus hspedes. Quem me prova?
- "No levantes falso testemunho contra o teu prximo" - sentencou o vigrio.
-  uma hiptese .. .
- Que no deixa de envolver uma calnia - retrucou o Dr. Nepomuceno.
- Pois bem. En posso me retratar duma calnia ... duma afirmao leviana. Mas o que fizeram com Severino  irremedivel. E uma retratao da justia no devolveria 
o negro  vida.
- Mas  m caso lmpido - afirmou outra vez o juiz. - Um caso lmpido. Doze, digo: onze juzes de fato reconheeram a culpabilidade do ru.
E comeou a rememorar o processo, a repetir trechos do depoimento de Bolvar e do prprio amo de Severino.
Luzia afastou-se do consolo e foi sentar-se no sof.
- O Dr. Nepomucno me deixou ler o auto do corpo de delito - contou ela. - Eu at decorei ... Querem ouvir? Havia uma _parte assim: "Passando os ditos peritos a 
examinar os cadveres, declararam .estarem ambos deitados e com a cabea bastaniemente moda de maneira que espirraram os miolos, sendo a pancada recebida do lado 
esquerdo na altura da orelha e a contuso mostrva ter sido feita com pau ou outro qualquer instrumento contundente. Declararam mais no encontrarem papis nem outra 
qualquer coisa que indicasse o nome ou residncia dos ditos mortos, que- eram ambos jovens, brancos, cabelos crespos, feies regulares e urrt parecido com o outro, 
presumindo-se por isso serem irmos."
Winter notou que Luzia repetia aquelas palavras como se recitasse um poema lrico.
Fez-se um silncio de constrangimento em que apenas Aguinaldo mostrava uma face desanuviada e alegre. Tinha ofgulho da neta, das coisas que ela sabia e fazia.
- O senhor examinou as vtimas, doutor? - perguntou a moa.
- Sim. Foi um dos meus primeiros "casos", em Santa F.
- E verdade que mesmo com as cabeas esmigalhadas eles viveram ainda muitas horas?
#39O        O CONTINENTE

- r. Por que pergunta?
- Vosmec acha que eles tinham ainda conhecimento das coisas ?
- Claro que no.
- Ento no sofriam?
-  muito difcil fazer uma afirmao positiva, mas creio que no sofriam mais.
- Uma vez quando menina eu vi uma cozinheira decapitar uma galinha, e o bicho .mesmo sem cabea continuou de p e depois saiu caminhando e entrou direitinho no galinheiro. 
Nunca mais me esqueci- disso.
O vigrio fez um gesto de impacincia.
- Mas por que no mudamos de assunto.? - perguntou. ~ Basta de sangue, de cabeas cortadas, de enforcamentos. - E para comear um novo tpico de conversao, voltou-se 
para o dono da casa e perguntou. - Ento, Sr. Aguinaldo, como vo os negcios?
- De mal a pior - respondeu Aguinaldo, que comia vorazmente uma talhada de melancia. Cuspinhou as sementes no prato e continuou: - A guerra estragou a cavalhada, 
reduziu a gadaria. Os garanhes que sobraram no valem dez ris de mel coado.
Era sempre o que acontecia em tempo de guerra - refletiu Winter, - morria .a flor das naes no s em homens como em cavalos. Ficavam os velhos, os doentes, os 
incapazes.
Wnter tinha ouvido contar que na Provncia se matavam guas aos milhares para aproveitar a graxa. E que os estancieiros vendiam para as charqueadas at as vacas 
de cria. Sabia tambm que desde 1823 as gentes de S. Pedro do Rio Grande haviam abandonado a cultura do trigo para se dedicarem  pecuria. Ora, as guerras peridicas 
dizimavam a cvalhada e o gado, ao passo que a .agricultura continuava decadente ou quando muito estacionria. Os campos se achavam despovoados e ele tnfia a impresso 
de que ningum tinha plano, ningum pensava no futuro; os continentinos viviam ao acaso das improvisaes, confiando sempre na sorte. Por que no tentavam alguma 
coisa? - impacientava-se ele.
- O negcio de gado est liquidado - declarou Aguinaldo. E levou a talhada de melancia aos lbios, como se ela fosse .uma gaita de boca, e ficou a tocar uma msica 
feita das notas lquidas dos chupes.
- Nada est perdido quando a gente tem fora de vontade e amor ao trabalho - sentenciou o juiz de direito.
Luzia e a senhora surda ergueram-se e saram da sala. A mulher do Dr. Nepomuceno queria ver as toalhas bordadas que a moa recebera de Porto Alegre como parte de 
seu enxoval.
- Ainda por cima - acrescentou Aguinaldo - o governo probe a passagem do gado da Banda Oriental para c. Quando nem o governo ajuda, que .esperana podemos ter?
A TEINIAGUA        391

- No culpemos o governo de tudo - observou cautelosamente o juiz.
Winter ergueu-se e deu um puxo nos fundilhos das calas que se lhe colavam incomodamente s ndegas.
- Por que s fazendeiros noo mandam vir reprodutores estrangeiros para melhorar seus rebanhos? - perguntou, fazendo um. gesto largo como para dar a entender que 
o mundo era muito vasto e rico. - Importem cavalos da Inglaterra, da Alemanha, do Cabo da Boa Esperana. Mandem vir vacas da Holanda.
- Alguns estancieiros de Cruz Alta - informou Aguinaldo - receberam h pouco um lote de cavalos pampas.
Muitas das coisas da Provncia, Wnter ficava sabendo atravs de sua correspondncia com Carl vou Koseritz, ao qual ele chamava com afetuosa ironia "m ilustre 
bar ". Fazia pouco mais duma semana, escrevera-lhe uma carta em que dizia: "Tu ao menos tens como desabafar: s jornalista, escreves os teus artigos e de certo 
modo j pertences a esta. ptria: Quanio a mim, continuo a sec apenas o Dr. Carl Wnter, um exilado, um imigrante, um intruso; e tenho de calar a boca mesmo quando 
sinto vontade de sacudir esta gente de sua apatia exasperante. 141as  preciso reconhecer que essa apatia se revela apenas no que diz respeito ao trabalho metdico 
e previdente, pois quanto ao resto -nunca vi gente mais ativa. Esto sempre prontos a laar, domar, parar rodeios, correr carreiras e principalmente a travar duelos 
e ir para a guerra."
Agora o padre balanava-se de leve na sua cadeira e dizia:
- Ainda hoje o Cel. Amaral estava se queixando que o negcio de charque vai muito mal.
- Mas esta provncia noo pode depender eternamente do charque e do couro! - exclamou Winter. - Foi um erro terem abandonado o trigo. ~ uma insensatez no cuidar 
dos rebanhos.. . um crime no cultivar melhor a terra.
Havia. outros problemas srios: o da instruo pblica, por exemplo. Existiriam quando muito umas itenta escolas em toda a Provncia, e todas eram de primeiras 
letras. Havia uma assustadora escassez de professores.
Inflamado por suas idias, Winter ergueu o dedo e disse:
- Os senhores. ainda no. perceberam o grande perigo que correro no futuro ... ?
Conteve-se. O que ia dizer era muito ousado, talvez at ofensivo quela gente. Viu que os outros esperavam a terminao da frase. No teve remdio seno continuar.
- .. se noo promoverem  .progresso desta regio? Pode ser que algema nao estrangeira poderosa, de gente superior, volte um dia para c os olhos cobiosos. No 
ser a primeira vez na Histria. No basta ter uma terra -  necessrio meree-la.
O juiz ergueu para le os olhos mortios.
#392        O CONTINENTE

- O doutor quer insinuar que uma outra nao pode procurar
tomar posse da nossa terra pelas armas?
Winter ps as mos nos quadris, inclinou-se sobre o juiz e disse: - Exatamente.
Aguinaldo teve um arroubo patritico:
- Pois que venham. Havemos de expulsar essa estrangeirada a grito e pontao de lana.
- Que venham! - repetiu Nepomuceno, numa velada ameaa, como se dispusesse dum poderoso exrcito secreto pronto para qualquer emergncia. - Que venham!
O padre olhava para Winter dum modo estranho, e o doutor viu que se havia metido em terreno perigoso. Mas agora j no podia mais recuar.
Adoou mais a voz, deu-lhe um tom persuasivo para dizer:
- Esta terra  boa demais para ficar abandonada, despovoada de gentes, de gado e de lavouras ... lr incrvel que a Provncia tenha de importar os cereais que consome: 
noo s os cereais, mas at a farinha de mandioca.
Houve um silncio ressentido em que s se ouviu o rudo lquido que Aguinaldo produzia ao mastigar nacos de melancia, e o tan-tan da cadeira de balano do padre.
- Boa ou m - disse o Dr. Nepomuceno depois de alguns segundos de reflexo - rica ou pobre, esta terra  nossa, dos brasileiros. Havemos de defend-la contra qualquer 
invasor, venha ele de que quadrante vier, seja de , que raa for.
Olhou para o sacerdote como a pedir-lhe a aprovao para o que acabava de dizer.. O Pe. Otero sacudiu a cabea gravemente. De novo o juiz esparramou a papada sobre 
o peito e, com ar sonolento, ficou a brincar com a medalha do relgio.
Winter lanou o olhar para a janela. Fora, a luz se fazia mais cor de mbar e mais suave,  medida que entardecia. Na praa a multido se havia dispersado, mas viam-se 
ainda curiosos a conversar aos grupos nas proximidades da forca. Mentalmente o mdico escrevia agora uma carta ao seu "ilustre baro". Assim: Ainda
ontem no Sobrado com a mais s das intenes, eu disse umas verdades cruas ao dono da casa, ao vigrio e ao juiz de direito. Por um tolo sentimento de patriotismo 
mal compreendido parece que ficaram Zangados. Como resultado de tudo tambm fiquei irritado, e j que havia sado para a chuva e estava molhado, resolvi continuar 
enfrentando o aguaceiro e cheguei a sugerir queles senhores que.. .
- Mas no basta melhorar os rebanhos - disse Winter em voz alta. Aproximou-se do consolo e ficou a dedilhar distraidamente as cordas da ctara. - E preciso tambm 
cuidar dos homens...
- Cuidar dos homens? - estranhou o padre.
A TEINIAGUA        393

- Explique-se - pediu o juiz - explique-se.
- Calma - disse o mdico, fazendo um gesto de paz.
- Estamos perfeitamente calmos. Vamos!
- Quero dizer que seria melhor casar vossos homens e mulheres com os imigrantes alemes do que com negros e ndios. .
- O meu caro doutor acha nto que somos uma nao inferior?
Winter tirou um acorde dissonante da ctara, e olhou para o juiz.
- Eu no afirmei propriamente isso.. Mas se vosmec conhecesse a Alemanha teria uma idia do que  capaz o povo alemo.
- O que o doutor quer insinuar - observou o padre -  que os alemes merecem mais que ns este pas .. .
O juiz lutava com suas idias. Elas lhe ocorriam smpre tar-, diamente. Invejava os que tinham resposta sempre pronta na ponta da lngua. O ".padre sacudia a cabea 
devagarinho numa dvida taciturna. No eram aqueles alemes em sua maioria protestantes? Que aconteceria se casassem com brasileiros? Como iriam educar os filhos? 
Em que igreja? No amor e temor de que deus?
Finalmente o juiz onseguiu formar uma frase que lhe pareceu  altura do assunto, do momento e do interlocutor.
- Pos digam o que quiserem, eu c acho que um povo latino como o nosso deve .. .
O mdico soltou uma risada e avanou para o juiz:
- Latinos os homens desta provncia? - exclamou. - Ach mero lieber Gott! Acha ento o doutor que os gachos descendem dos romanos?
- Oral - fez o Dr. Nepomuceno, que estava muito vermelho. e agitado. - Ora!
- Preste bem ateno, Sr. Juiz. .Quem foram os primeiros povoaaores destes campos? Paulistas descendentes de portuguses. Pois bem. Os portugueses j tm uma boa 
dose de sangue mouro. Mais tarde chegaram aqui os casais aorianos, muitos dos quais eram de origem flamenga. Nesta provncia houve novas misturas cpm sangue ndio 
e negro. J v que de latinos tegdes muito pouco.
- Digam o que disserem. Somos latinos pela civilizaol .
Carl Winter sentou-se de repente, como se o peso da palavra civilizao fosse demasiadamente grande para ele suport-lo de p.
De que feitos espirituais se podia gabar aquela spera sociedade pastoril que florescia - se  que se podia no caso usar este verbo - no to gabado "Continente" 
de D. L.uia.ra? Onde estavam seus artistas, seus cientistas, seus pensadres? At aquela data Winter no vira um nico livro impresso na Provncia. Poderiam os continentinos 
a" ^gar que as guerras noo lhe davam tempo para as ativi- . dades do esp~.ito, e talvez a tivessem alguma razo. Mas quem no tinha razo era o Dr. Nepomuceno quando 
enchia a bca com a
#39~        O CONTINENTE
palavra civilizao. Lie e o padre pareciam estar convencidos no somente de que eram descendentes dos romanos como tambm de quc, por ipso, representavam a essncia 
da sabedoria, da espiritualidade e do progresso.
Tornou a erguer-se, aproximou-se da janela e ficou olhando para as campinas de Santa F. Que grandes coisas os homens de su sangue poderiam fazer naquela terra 
privilegiada onde noo havia.. angstia de espao, nem terremotos, inundaes ou secas calamitosasl Ali estava ela, generosa e mansa, oferecendo-se femininamente 
aos seus homens que pareciam recusar-se a fecund-la, preferindo transform-la em cancha para ses jogos, conflitos e andanas.
No silncio que se fizera uviu-se a voz de Aguinaldo:
- Mas ser que s eu  que estou comendo melancia? No quer uma- talhada, Dr. Nepomucen? E o Pe. Otero? E o Dr. Winter?
- Muito obrigado - respondeu o juiz. - No quero estragar o apetite. para o jantar.


Eram mais de seis horas quando o Dr. Winter deixou o Sobrado. Sabia que o padre e o juiz de direito tinham ficado magoados com suas observaces. Que fossem para 
a diabol Eram homens adultos, podiam muito bem agentar um bom par de verdades. Deu alguns. passos,- batendo forte com a ponteira da bengala no cho, ao mesmo tempo 
que lhe vinha  lembrana uma gua-forte que vira quando estudante em Heidelberg: Jesus diante de Pilatos. E ele "leu" a legenda que havia por baixo da gravura, 
em letras gticas: "Que  a Verdade? - perguntou Pilatos." Winter sorriu. Estaria ficando intolerante, o - pior ainda - convencido de ser o nico portador da Verdade, 
uma espcie de saco de absolutos?
Parou um instante na praa e ficou olhando para a forca. Pobre Severinol Tinha morrido por causa dum absoluto. Um absoluto que o Dr. Nepomuceno adorava, como a um 
deus. Encolheu os ombros como quem diz: "No sou daqui, no tenho nada com isso." E decidiu que o melhor que tinha a fazer era ir ver o pr de sol.
~A iuz da tarde era doce, e andavam por toda a paisgem uns lilases rosados positivamente fantsticos. Winter achava um grande encanto naqueles quintais quietos 
ao anoitecer. Um porco fossando na lama, uma galinha bicando o cho, um passarinho piando numa rvore, uma criana nua a brincar com um osso, um co vadio dormitando 
num vo de porta - tudo isso eram coisas que o deixavam inexplicavelmente enternecido.
Comparava o mundo em que nascera e vivera at os trinta anos com o mnndjmho de Santa F. Ali naquela vila perdida na extre
A TEINIAGU        395

midade sul do Brasil representava-se tambm uma comdia humana, que era uma pardia da que Winter vira na Europa. Os atores seriam menos consumados, o cenrio mais 
pobre. Mas os eternos elementos do drama l estavam: o amr, o dio, a cobia, a inveja, o desejo de poder e de riqueza, a sensualidade, a vingana ... e o mistrio.
.Caminhando na direo do campo, Winter pensava agora em Luzia. O que le vira aquela tarde deixara-o perplexo. No se achava preparado para comentar o caso nem 
consigo mesmo. O melhor era esqec-lo por enquanto ... Pobre Bolvar! Qual seria o destino daquele casamento? Fosse qual fosse, ele, Carl Winter, gostaria de ver 
o desenvolvimento da rstica comdia provinciana. No fim de contas, noo havia do outro teatro em Santa F .. .
9
Em parte como ator e em parte como espectador, Carl Winter pde realmente acompanhar o desenvolvimento da comdia.
Quando. por setembro de 1853 Bolvar Cambar casou com Luzia Silva, houve festa grande no Sobrado.. Aguinaldo mandou buscar gaiteiros e violeiros de Rio Pardo e 
Cruz Alta e fez matar trs novilhas. Danou-se o fandango  luz dama. grande fogueira acesa no mei do quintal. Luzia - acharam todos - estava linda no seu vestido 
branco de noiva. O Pe. Otero fez um discurso e perorou desejando aos noivos uma vida longa e feliz, e muits filhos. Em certa altera da cerimnia, D. Bibiana cutucou 
o Dr. Winter, que estava a seu lado na igreja e, olhando atravs das janelas as franas das rvores sacudidas pelo vento, murmurou: "Minha av costumava dizer que 
sempre est ventando quando alguma coisa importante acontece."
Em princpios do ano. seguinte ventava forte quando trouxeram do Angico para a vila, numa carreta puxada a bois, o velho Aguinaldo Silva agonizante, com a cabea 
enfaixada em panos. Tinha cado do cavalo e batera com o" crnio no solo. Chamado imediatamente para v-lo, o Dr. Winter verificou que no havia mais nada a fazer. 
Aguinaldo tinha fraturado a base do crnio: era nm caso perdido. Deu-lhe uma hora de vida quando multo. Mas o nortista viveu ainda quase trs. Viveu? No. Ficou 
em agonia, deitado de costas na sua grande cama, com os olhos vidrados, a boca aberta deixando escapar a respirao estertorosa. Luzia no se afastou um instante 
do leito do av. Ficou ao lado dele, com as mos do velho presas nas suas, os olhos fitos no rosto dele, como se no quisesse perder um minuto sequer daquela lenta 
agonia. Bolvar estava plido e de olhos midos. E quando Winter murmurou
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para Bibiana: "Agora  o fim. Questo de minutos" - julgou ver no rosto -dela uma expresso estranha que o deixou desconcertado. Os olhos da me de Bolvar brilharam 
com uma sbita luz de alegria que lhe _ iluminou o rosto inteiro por uma frao de segundo.
Winter tinha outras coisas que fazer, mas achou conveniente ficar no Sobrado para esperar o desenlace. Era noite e tinham trazido para a mesa de cabeceira de Aguinaldo 
um velho candelabro com cinco velas. Uma preta entrou e disse baixinho a Bibiana que o relgio grande de pndulo tinha parado de repente, e que isso era mau agouro. 
Como se algum bom agouro fosse possvel num caso daqueles - refletiu o mdico.
A notcia espalhou-se rapidamente pela vila. Comearam a aparecer amigos, conhecidos, curiosos - gente que vinha perguntar como "estava passando o velho". O Pe. 
Otero foi chamado para administrar a extrema-uno -ao moribundo. Puseram uma vela acesa na mo de Aguinald, e Luzia teve de apertar-lhe os dedos com. os seus para 
que o av pudesse sustentar a vela. No quarto silencioso ouviu-se a voz montona do padre, murmurando palavras em latim. Winter olhava para Luzia e via que ela estava 
gozando aquele mmento. Tinha a respirao fegante e um brilho meio embaciado nos olhos claros. Agora,  luz das velas, Winter via-lhes melhor a cor: eram verdes, 
noo havia a menor dvida, dum tom que o mar assume em certos dias de sol fraco.
Aguinaldo expirou poucos minutos depois que o Pe. Otero saiu do quarto. Luzia noo consentiu que lhe cerrassem os olhos, pois o velho sempre lhe dizia: "Quando eu 
morrer noo me fechem os olhos: quero entrar n outro mundo enxergando tudo." Luzia quis vestir o av com suas prprias mos. Quando a sogra se ofereceu para ajud-la, 
ela respondeu com uma voz que a Winter pareceu uma navalhada:
- No carece. Quem tem de fazer iss  um parente. Eu sou aqui a nica parenta dele!
Pediu que os outros sassem do quarto e fechou a porta a chave. Bolvar tinha j mandado fazer o caixo. Como no houvesse armador na vila, trouxeram um carpinteiro 
para o Sobrado e ali mesmo na despensa o homem ficou a trabalhar no esquife. E assim durante muito tempo, enquanto Luzia estava fechada no quarto com o cadver do 
av, os outros ficaram a ouvir os sons das marteladas que ecoavam pela casa toda. Winter procurava alguma coisa para dizer mas noo lhe ocorria nada. Bolvar estava 
visivelmente abalado. Bibiana, serena, j comeava a tomar providncias- para o velrio. Iam deixar o corpo na sala de visitas: podiam fazer o enterro s oito da 
manh seguinte. E o vento continuava a soprar, fazendo as vidraas trepidarem num rufar de tambores aflito.
A TEINIAGUA        397

Em dado momento, quando Bibiana veio trazer o chimarro para os primeiros homens chegados ao velrio, Carl Winter ouviu-a dizer em voz baixa ao filho:
- Tua mulher est de olho seco.
Olhando para as caras rudes e barbudas dos santa-fezenses que conversavam em surdina nas salas do Sobrado, Winter desejou a presena de Trude Weil que, em contraste 
com aquelas figuras sombrias, lhe pareceu uma imagem de cromo, toda feita de leite, ouro, mel e lpis-lazli. Mas qual! - refletiu ele em seguida - quela hora talvez 
sua bem-amada longnqua, gorda e desbotada, estivesse a vender salsichas atrs dum balco de mercearia, enquanto o filho do Burgomestre lhe dava palmadas nas ndegas, 
soltando grandes risadas que recendiam a chucrute e cerveja.
O mundo estava errado irremediavelmente errado. A teiniagu continuava l em cima fechada no quarto com o defunto. Bolvar tinha no rosto a marca da infelicidade. 
E a Trude Weil, que ele amara um dia, noo existia mais.


Florncio apareceu mais tarde, quando o cadver de Aguinaldo j estava dentro do esquife, metido na sua roupa preta .domingueira, as mos amarradas sobre o -peito 
de polichinelo, as pernas cobertas de flores. Quatro crios ardiam na sala e mais quatro dentro do espelho.
Pessoas comeavam . a chegar. Bento Amaral tambm compareceu - deu psames a Luzia, Bolvar, e cumprimentou Bibiana, que lhe negou a mo e virou as costas - e foi 
setar-se, taciturno, a um canto da sala, junto, do Pe. Otero. O Dr. Nepomuceno chegou com- a esposa por volta das nove horas, murmurand desculpas: s mui tarde 
ficara sabendo do triste evento, pus estivera fora da vila, etc ... , etc . .
No velrio os homens a princpio estavam meio bisonhos e silenciosos; mas comearam a animar-se aos poucos,  medida que o chimarro foi correndo a roda e as escravas 
iam trazendo roscas de polvilho, bolos de coalhada e finalmente licor de pssego. Um caboclo que Winter nunca vira - um tipo alto, muito trigueiro e de zigomas salientes 
- comeou a contar histrias do velho Aguinaldo: andanas, ditos e espertezas. Os outros puseram-se a rir baixinho, sacudindo muito a cabea. Bibiana mandou trazer 
para a sala morturia todas as escarradeiras que havia no Sobrado e espalhou-as pelo cho. Alvarenga puxou com o juiz de direito e o padre uma discusso sobre a 
imortalidade da alma. No seu caixo prto, de rsto descoberto - como a neta exigira - e olhos arregalados, Aguinaldo tambm parecia escutar.
Winter olhava para Luzia. Luzia olhava para o defunto. O defunto olhava para o teto.
#398        O CONTINENTE
1O
Depois da missa do stimo dia, $olvar, a mulher e a me foram para o Angico, resolvidos a ficar l at princpios do inverno. E quando Ooutono entrou, Carl Winter 
decidiu fazer uma excurso s misses. Seu interesse pelas runas daquela curiosa civilizao revivera de repente. E como no momento nenhum paciente necessitasse 
de sua presena em Santa F, e como os dias andassem -belos
- elmos, o mdico fez a mala, comprou um cavalo, contratou um vaqueano e ps-se a caminho. Partiram de madrugada, pouco antes d~ sol nascer. O ar estava frio e mido, 
galos cantavam nos terreiros. Como o guia - que era neto do Chico Pinto - fosse homem de pouca conversa, a primeira lgua foi percorrida quase em silncio. E como 
ao entrarem na segunda o moo ainda continuasse calado, Winter decidiu conversar consigo mesmo, e em alemo, coisa que o companheiro pareceu no estranhr muito. 
Quando, porm, o sol estava j a pino, o vaqueano voltou pax o mdico a face curtida
-        disse:
- Ainda.que mal pergunte, doutor, vosmec.vai procurar algum tesouro?
Winter soltou .uma risada. Um quero-quero gritou perto, como numa resposta.
- Est claro que no, amigo. Vosmec acrdita mesmo que h tesouros enterrados nas .misses?
O outro tirou detrs da orelh um toco de cigarro, batem o isqueiro com pachorra e depois de puxar a primeira baforada, quando Carl j havia quase esquecido a pergunta, 
respondeu:
- Pode que sim, pode que no.
Ao fim do primeiro dia de viagem, de rins doloridos, pernas dormentes,.Winter estava j arrependido de se haver metido naquela aventura. Era um homem curioso - no 
havia dvida - gostava de conhecer gentes e lugares novos; mas por outro lado -seu comodismo obrigava-o a ficar sempre no mesmo lugar, repelindo com certo horror 
a idia de mvimentar-se, vencer distncias, enfrentar as asperezas das jornadas, a intemprie, a mudana de regime alimentar, o desconforto das pousadas de emergncia...
Passaram aquela primeira noite na casa dum pequeno estancieiro, que os recebeu com a hospitalidade caracterstica das gentes da Provncia e lhes deu um bom churrasco 
com farinha, uma guampa de leite gordo e um catre sofrvel.
No dia seguinte ao entardecer chegaram s runas da reduo de Santo Angelo e Winter foi imediatamente olhar o que restara do templo.. Estava ainda de p o grande 
frontispcio, cuja porta principal era flanqueada por dois nichos, num dos quais Winter
A TEINIAGUA        3 9 9

viu uma imagem de pedra representando um sacerdote paramentado, com um livro debaixo do brao esquerdo. Devia ser Santo Incio de Loyola - refletiu o mdico. O santo 
do outro nicho estava sem .cabea, e no pedestal da esttua noo havia nenhuma inscrio esclarecedora. O vaqueano olhou para a imagem decapitada e disse:
- A la fresca, lo degolaram!
Winter sorriu e ficou a examinar as quatro grandes colunas derrocadas que se erguiam  frente do templo e que deviam ter servido de sustentculo ao prtico. Por 
toda a parte cresciam guanxumas, urtigas e marras-moles. Durante muito tempo o alemo ficou olhando o horizonte do anoitecer atravs das aberturas daquela fachada 
em runas. E quando a .noite caiu, sua impresso de soledade e abandono foi to profunda, que ele ficou meio deprimido. O vaqueano cozinhou arroz com charque, que 
ambos comeram em silncio, e depois preparou um chimarro, de que o mdico teve de participar, para no ofender o companheiro. Dormiram ao relento, sobre os arreios. 
Antes, porm, de fechar os olhos, Winter ficou deitado de costas, com as mos tranadas sob a cabea, pensando na singular civilizao que ali havia florescido e 
em como era estranho estar ele, Carl Winter, naquela terra remota  luz das estrelas, diante dum templo jesutico em runas. Comeou afazer consideraes sobre o 
tempo, a Histria e a Geografia.
De certo modo o tempo histrico dependia muito do espao geogrfico. Na Europa agora a humanidade se achava em ,pleno sculo xIX. Mas em que idade estariam vivendo 
os habitantes de Santa F e da maioria das vilas, cidades e estncias da Provncia do Rio Grande do Sul? Existiam vastas regies do globo que ainda se encontravam 
no terceiro dia da Criao. ,E o viajante que em meados do sculo XVIII visitasse os Sete Povos de 1VIisses, haveria de encontrar ali uma esqusita mistura de Idade 
Mdia e Renascimento, ao passo que se se afastasse depois na direo do nascente ele como que iria recuando no tempo  medida que avanasse no espao, at chegar 
ao Continente de So Pedro do Rio Grande, onde entraria numa poca mais atrasada em que homens vindos do sculo XVIII com suas roupas, armas, utenslios, hbitos 
e crenas se haviam estabelecido numa terra de tribos pr-histricas, onde ficaram a viver numa idade hbrida.
Dias depois Winter e seu guia chegaram a So Miguel, cujo grande templo em runas causou ao mdico um mpresso ainda mais funda que o de Santo Angelo. Carl passeou 
vagarosamente aa longo, das colunas corntias, agora dilapidadas e cobertas de parasitas, e que outrora, em nmero de dezoito, tinham sustentado um majestoso prtico. 
Tentou subir ao alto da torre principal, onde se via ainda o revestimento de madeira que protegia o maquinismo do
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grande relgio do templo - mas os degraus da escada do camvanrio, carunchados e podres, cederam a peso de seu corpo e partiram-se.
O vaqueano, que o observava, gritou:
- Cuidado, doutor, que vosmec pode cair e quebrar as guampas.
Quebrar as guampas! - repetiu Winter mentalmente, sem saber se devia zangar-se ou no. Que expresso! Mas sua experincia da maneira de falar das gentes da Provncia 
o aconselhava a nunca tomar aqueles ditos muito ao p da letra.
Continuou a andar dum lado para outro,  frente das runas, enquanto o guia lhe preparv o almoo e de quando em quando lhe lanava olhares furtivos e desconfiados. 
Pensa que ando procurando tesouros - refletiu Winter, que tinha agora nas mos um lpis e um caderno de notas no qual procurava reproduzir o desenho das cabeas 
de leo esculpidas em pedra e que encamavam os capitis das colunas, nos ngulos da torre principal. - -Que teria existido no alto do zimbrio? - perguntou ele a 
si mesmo em voz alta. Um galo de ouro - afirmavam os antigos.. E sobre a cimalha majestosa? As imagens de So Miguel e dos doze apstolos - informvam os cronistas. 
E Winter tomava notas, rabiscava desenhos. - Evidentemente o estilo lembra o Renascimento taliano ... - murmurou ele, umedecendo com a lngua a ponta do lpis.
E pisando em ervas daninhas e pensando vagamente na possibilidade de tropear. numa cascavel, Winter visitou o interior do .templo, onde ficou por algum tempo tentando 
reconstituir com a imagnao a pompa antiga dos nove altares, com seus candelabros, lmpadas de prata, imagens, vitrais e alfaias.
Depois foi examinar a grande muralha de pedra que circundava a quinta da reduo, atrs da igreja; estava ela toda coberta de trepadeiras e de rosas silvestres brancas 
e escarlates.  sombra dessa muralha florida, Winter sentou-se aquela tarde para ler o volume de poemas de Heine que havia levado consigo. E  noite ao deitar-se 
pensou em todas as criaturas que no passado tinham pisado aquele cho - ndios, missionrios, bandeirantes, aventureiros, cientistas, via jantes ... Aquelas pedras 
- refletiu ele - haviam sido envolvidas por melodias inventadas por compositores europeus e reproduzidas por jesutas e ndigenas em instrumentos fabricados na prpria 
reduo. Onde estavam agora as melodias do passado? Onde? Para se divertir fez em voz alta essa pergunta ao vaqueano. O rapaz mirou-o com ar srio e disse:
- Vosmec est mangando comigo, doutor.
- No estou, meu amigo! - protestou Winter, erguendo-se. -Pense bem. Os sinos da igreja badalavam, no badalavam? Os :ndios batiam tambores, no batiam? E tocavam 
instrumentos, no tocavam? Pois bem, onde est agora o som dos sinos, dos tambores, das cornetas, das clarinetas, das liras? Onde?
A TEINIAGU        4O1

Acocorado perto do fogo o rapaz encarou o companheiro por alguns segundos e depois respondeu
- O senhor,. que  doutor, deve saber. Eu sou um bagualo.
Winter tornou a deitar-se e ficu olhando para as estrelas: as mesmas estrelas que brilhavam neste mesmo cu no tempo da glria dos Sete Povos! Por aqui andou Sep 
Tiaraju, o santo ndio que tnha um lunar na testa. Foi na reduo de So Tom que a teiniagu desgraou um sacristo. O diabo - refletiu o mdico - era que tudo 
aquilo no passava de pura lenda, como a histria do anel dos Nibelungen e a da Lorelei. O mundo da realidade, meia lieber Heine,  muito prosaico! Como eu gostaria 
"de ver surgir daquele cemitrio abandonado ali a lado d igreja o fantasma de algum defunto -r padre ou ndio. Seria uma revelao, uma novidade, uma quebra de 
rotina,. o princpio de alguma coisa nova em minha vida.
Um cornj passou em vo rpido sobre a cabea dos dois viajantes e entrou no campanrio. As estrelas palpitavam. Wnter fechou os olhos e pelos seus pensamentos 
comearam a desfilar pessoas "e paisagens : Luzia, o qurteto de amadores, Trude, nm Biergarten de Heidelberg, um trechp do Rio Neckar, seu pai fumando cachimbo, 
Von Koseritz num leito de hospital, a figueira da praa, o vulto do castelo de Barbrroxa .. .
- Boa noite, doutor - disse o guia, estendendo-se sobre os pelegos.
- Boa noite. Durma bem e tenha bonitos sonhos.
- Eu nunca sonho.
Winter tornou a abrir os olhos e a fit-los no cemitrio. Se ele visse agora um fantasma sua vida mudaria por completo, ganharia um novo sentido. Seria melhor que 
encontrar o tesouro dos jesutas.


Voltou para Santa F em princpios de maio. Vinha cansado da solido dos campos e ansiso por cnvvio humano. Como OSobrado continuasse fechado, no teve outro 
remdio seno aceitar o convite de Alvarenga e freqentar-lhe os seres em que Florncio noivava insipidamente com Ondina, cada um sentada na sua cadeira e separados 
por lguas, e lguas de distncia,. sob o olhar fiscalizador de Fraca Alvarenga.
Em fins de junho, numa noite serena particularmente fria, Gregria, cuja autoridade em assuntos climatricos Winter respeitava profundamente, disse:
- Amanh vai gear.
Efetivamente, no dia seguinte ao levantar-se da cama o mdico viu que a relva, as rvores e os telhados achavam-se brancos de
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geada. O cu estava limpo e rtilo e comeava a soprar um ventinho frio e cortante.
Mais um inverno! - pensou Winter. E de novo perguntou. a si mesmo por que no se ia embora.. Von Koseritz continuava a insistir para que ele voltasse ao litoral 
e se instalasse em Pelotas.. Seu ilustre baro tinha planos grandiosos: ia fundar um jornal e uma escola, meter-se na poltica, naturalizar-se brasileiro e gror 
vvelmente casar-se com uma moa natural da Provncia.
Tremendo de frio Winter derramou a gua do balde na gamela, experimentou-a com a ponta dos dedos e gritou:
- Gregria!
" Pronunciava este nome com um excesso de emes. A escrava apareceu.. Estava mais molambenta que nunca e seus olhos continuamente vertiam gua. Winter contemplou-a 
com uma mistura de repulsa e piedade e disse:
-r Aquente um pouco d"gua para eu me lavar.
Ficou junto do espelho a passar os dedos pelas barbas ruivas, a examinar os prprios olhos. Estavam um pouco sujos e injetados de sangue. $orou a lngua para fora: 
saburrosa. Devia ser o fgado. Naquela excurso comera muito charque de qualidade duvidosa e vrias "vezes, depois ide tomar chuva, bebera cachaa. E o por de tudo 
- lembrou-se ele - foi que uma noite em que suas resistncias .morais estavam enfraquecidas e seu desejo exacerbado, dormira com uma ndia. Ach!
Enquanto Gregria fazia fogo na cozinha, Carl apanhou o violno e comeou- a tocar. Tinha. os dedos duros de frio. A voz do instrumento pareceu-lhe rouca, e lembrou-lhe, 
nas notas graves, a voz de Luzia.
De repente Winter sentiu saudade do Sobrado. Do Sobrado? Sim. No era propriamente das pessoas da casa. Admirava D. Bibiana. Tnha pena de Bolvar. Sentia por Luzia 
uma atrao estranha que no. chegava nunca a ser desejo de estar perto dela - mas que o compelia a olhar irresistivelmente para a moa, quando em sua presena. 
Gostava, porm do Sobrado como dum velho amigo calado e acolhedor, que tudo d e nada pede. Era a nica casa daquela vila que lhe dava uma impresso de conforto, 
de abrigo. Gostava dos seres do casaro, que cheiravam a acar queimado
-        defumao de alfazema.
Carl arranhava no violino um minueto de Beethoven, e quando Gregria apareceu trazendo a chaleira preta de picum e arrastando os ps de paquiderme, ele teve uma 
conscincia to aguda do contraste - o minueto e a figura da escrava - que soltou uma risada. .Gregria ficou parada no meio do quarto, de cabea baixa, humilde
-        calada.
- T aqui"a gua - disse ela com sua voz de areo.
A TEINIAGUA        4O3
11
Naquele mesmo dia Winter foi chamado para ver Juvenal Terra,
que estava de cama- com uma pontada nas costas.
- O velho no gosta de mdico - explicou-lhe Florncio no
caminho. - Parece que a coisa no  muito sria, mas  sempre
bom o senhor ir ver ele.
Caminharam alguns passos em - silncio e de repente Winter
perguntou
- Tem visto o Bolvar? - Tenho.
- Como vai ele?
-        outro encolheu os ombros.
- Bem. - E depois acrescentou, vago : - Eu acho .. .
-        o assunto ficou cortado.
Juverial estava deitado na-cama do casal, mas completamerite
vestido e de chapu na cabea. Era um homem ainda forte, de
rosto muito queimado, onde crescia em desalinho uma barba negra
com raros fios grisalhos.
- A bno - murmurou Florncio, beijando a mo do pai. - Deus le abenoe, meu filho.
Os olhos midos e meio oblquos de Juvenal fitaram-se no
mdico.
- U ... - fez ele, pondo-se de p.. - Que  que le traz
por estas paragens, amigo?
-        rapaz foi logo explicando:
- No v que o doutor ia passando, papai, e eu achei melhor
convidar ele para dar uma olhada em vosmec.
Juvenal apertou a m de Winter. - Mas eu noo tenho nada, doutor.
Carl sentou-se na beira da cama, suspirou de mansinho, esfregou
as mos e disse:
- Pois se noo tem, melhor. Vamos ento conversar. Florncio inventou um pretext e retirou-se. O mdico acendeu
um charutnho.
- Quer um dos meus mata-ratos? - perguntou, sorrindo. - No, gracias. Prefiro um crioulo.
Tirou da cava do colete um punhal com cabo de prata lavrada
e comeou a alisar com ele um pedao de palha.
- Ouvi dizer que vosmec andou viajando .. .
- E verdade - respondeu o mdico - andei visitando ss
misses. Runas de causar d.
4O4        O CONTINENTE
E comeou a contar das coisas que vira, dos lugares por ond andara e das pessoas com quem conversara; terminou dizendo:
- Mas cheguei meio adoentado, com umas dores do lado, a lngua suja.
- Isso acontece. Eu tambm tenho andado com umas pontadas .. .
Levou a mo esquerda s costas. Mas de repente calou-se, pois compreendeu que estava caindo em contradio. Winter desatou a rir.
- Seu Juvenal, uma das manias dos homens desta terra  acharem que noo podem adoecer. Sabe que isso  puro orgulho? - Qual nada, seu doutor.
- As mulheres so diferentes, essas sempre pensam que esto doentes e no podem enxergar um mdico que no comecem a queixar-se que sentem uma dor aqui que responde 
no sei onde .. . Mas os homens podem estar morrendo que nunca se queixam. Acham que doena  coisa de mulher.
-.Eno?
- ch! Est claro que noo. Os touros noo adoecem tanto
quanto as vacas?
- Adoecem.
- Os garanhes no adoecem?
Juvenal agora picava fumo calmamente, sorrindo um sorriso canino que lhe expunha os dentes fortes e amarelos.
- Vamos! - disse o mdico com ar trocista. - .Diga o que sente.
Com alguma relutncia Juvenal confessou que ultimamente andava sentindo dores no lombo. E antes do mdico dizer o que quer que .fosse, ele concluiu:
- Deve ter sido alguma friagem que apanhei.
Winter no respondeu. Tomou o pulso do doente, examinoulhe a lngua, auscultou-lhe os pulmes, fz-lhe muitas perguntas e depois tomou dum lpis e escreveu uma receita 
numa folha de papel.
- Mande comprar isto na loja do Alvarenga. Pea  sua mulher que lhe bote uns sinapismos nas costas. E se dentro de dois dias no estiver melhor... o remdio  chamar 
uma dessas negras velhas benzedeiras.
Juvenal riu, bateu o isqueiro e acendeu o cigarro. Falaram do tempo e da poltica local. E quando Winter mencionou o nome de Bolvar, teve a impresso de que o rosto 
do outro escurecia. Houve um curto silncio em que Juvenal ficou pitando e olhando para o cho.
- No sei se o doutor sabe - disse ele lentamente, depois de algum tempo. - Fui muito amigo do pai dsse menino. O Bolvar a bem -dizer se criou junto com o Florncio.
A TEINIAGU        4O5

Puxou um pigarro, como se estivesse constrangido e achando difcil falar naquelas cosas.
Winter sacudiu a cabea em silncio. Apanhou o punhal que o outro deixara sobre uma cadeira, ao lado da cama, e comeou a brincar distraidamente com ele.
- O senhor s vezes vai no Sobrado, no vai, doutor?
- Sim, vou.
Novo silncio. Outro pigarro.
- Doutor, vosmec  uma pessoa de fora, um estrangeiro... - Juvenal interrompeu a sentena para tossir uma tosse seca sem vontade. - Sou homem de poucas palavras,. 
gosto de ir direito ao assunto. Mas nem sempre  fcil. H coisas muito srias, negcios de famlia, e a gente fica meio desajeitado...
Winter largou o .punhal sobre a cadeira e disse:
- Refere-se ao casamento do Bolvar?
Juvenal apertou forte o cigarro entre os dentes e murmurou:
- Vosmec leu os meus pensamentos.
- Pode falar com toda a franqueza. Um mdico  como um padre: tem de guardar segredo. Diga o que  que h.
- Pois a  que est o difcil da coisa. Eu no sei o que  que h. S sinto que h qualquer coisa errada ... No quero me meter na vida de ningum; mas no final 
de contas o rapaz  meu sobrinho., Ando preocupado com o jeito dele. O Boli envelheceu dez anos depois que casou; anda triste como carancho em tronqueira.
- Vosmec tem conversado com sua irm a esse respeito?
Juvenal sorriu um sorriso descrente.
- O doutor no conhece bem os Terras. r uma gente rnui custosa.
- Tenho observado que os Terras so reservados.
- L isso. E meio teimosos tambm. No gostamos de discutir. Cada qual fica com suas idias. - Novo pigarro. - Mas para le ser franco nunca botei nem pretendo botar 
os ps naquela casa. Assim sendo, no. vejo muito seguidamente a mana Bibiana. s vezes ela aparece de visita, fica por a conversando com a minha velha, mas no 
fala na nora. No quer dar o brao a torcer, porque sabe que sempre fui contra esse casamento. Mas a gente v na cara dela que a coisa anda mal l pelo Sobrado. 
Conheo bem a minha irm.
Winter cofiou a barba e generalizou:
- Vosmec- sabe, sogra e nora nunca se entendem, principalmente quando moram na mesma casa.
- Mas noo  s isso. Deve haver coisa mais sria. Eu sinto. O Bolvar est se consumindo. Ser que...
Ia formular uma pergunta mas conteve-se. Moveu-se na cama, gemendo baixinho: a cama gemeu com ele. Winter esperava...
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- O Bolvar me apareceu umas doas vezes depois que casou continuou Juvenal. - Tomou uns mates, falou no Angico, n negcios que tinha em vista, mas nem chegou a me 
olhar direita: Estava- assim com um jeito assustado de negro fugido, era coma se andasse -acuado ... Que  que o senhor acha, doutor?
Winter encarou-o. A fumaa de seu charutinho casava-se com a do cigarro de palha do outro e juntas subiam no ar frio.
- Vosmec quer saber a minha opinio franca? - perguntou o mdica O outro sacudiu a cabea afirmativamente. Winter lanou um olhar para a porta, antes de responder. 
Vendo que noa havia ningum na pea contgua, disse, baixando a voz: - O Bolvar casou com uma mulher doente.
- Como doente?
- No  uma doena do corpo,. dessas que se curam com
cataplasmas, plulas ou poes. 1; uma doena do esprito.
Bateu. com a ponta do indicador no centro da testa- e repetiu:
"Do esprito."
- Quer dizer ento que ela noo  belo certa do juzo? - No  bem sso. 1; difcil explicar. - Sou um homem muito ignorarite. O alemo sorriu:
- No diga isso, seu Juvenal. Eu queria saber a metade do que vosmec sabe. H moitas coisas qu os livros no ensinam. A melhor. escola que h  a da vida e por 
essa escola o senhor  formado. ~ to bom doutor .que mesmo de longe percebeu que havia alguma coisa errada naquele casamento.
Juvenal ficou algum tempo em silncio, fitando no interlocutor seus olhos tristes e foscos.
- E o que " que a gente pode fazer? - perguntou.
- Por enquanto, nada. S ficar observando a coisa. Vosmec
compreende que s posso intervir quando Bolvar me pedir. Antes,
no. E em qualquer caso noo acho que possa fazer muito.. . - E ser que o Bolvar pede?
- Vosmec, que  parente,. sabe melhor. Ser que pede?
- Pode ser. O Bolvar sempre foi mais expansivo que a me, que eu on que o Flornco. Herdou um pouco o gnio do pai. Mas o senhor sabe duma coisa? Por falar em 
gnio, tenho muito medo que o rapaz um dia faa alguma loucura.
- Loucura ?
- Sim, que perca a pacincia e serre a mulher.
- Pois isso no faria nenhum mal.
Juvenal ficou pensativo por alguns instantes. Depois, tentando
em vo tirar uma baforada do cigarro que se apagara, disse:
- Parece mentira. Tanta moa boa por a e ele foi escolher
justamente aquela. Veja o que  o destino duma pessoa... - De
A TEINIAGUA        4O7

repente mudou de tom. - No princpio fiquei com medo que o Florncio andasse tambm enrabichado por ela. Mas graas a Deus ele vai casar com uma moa muito direita 
e trabalhadeira. A filha do Alvarenga, vosmec sabe .. .
Tornou a acender o cigarro e acrescentou
- Esse negcio de rabicho  muito engraado. - Fez uma pausa, meio relutante, e depois prosseguiu: - Vou lhe contar porque vosmec  um doutor, um homem de bem e 
de saber. A mnha mana Bibana quando era moa tambm se meteu na cabea de casar com nm homem contra a vontade do pai. Era um certo Cap. Rodrigo, que velo dessas 
guerras da Banda Oriental, passou por Santa F e aqui acampou. Pois olhe, doutor, essa menina nos deu o que fazer. Menina ... - Sorriu. - A gente continua a chamar 
as irms de menina mesmo depois que elas ficam avs. Pois a Bibiana foi um caso srio. O senhor conhece o Cel. Bento Amaral. Pois era um rapago vistoso, rico, disputado 
pelas moas. Estava louco pela Bibiana. Mas ela no quis saber dele. Queria Ooutro, o tal Cap. Rodrigo. Bateu p e casou. Meu pai lavou as mos.
Aquela gente - refletiu Winter com um sbito bom humor - parecia noo fazer outra coisa seno lavar as mos ante os casamentos dos parentes.
~- E ela foi feliz? - perguntou, s para fazer o outro continuar.
- Bom-. Diz ela que foi .. .
- Mas que  vosmec acha ?
- Eu? Pois, homem,  difcil dizer. Sei que a Bibiana passou o diabo com o marido. Ele era chineiro, jogador, gostava de empinar o seu copo, vivia metido em fandangos 
e noo era amigo do trabalho. Mas a Bibiana jura que foi feliz. Vosmec conhece o nosso ditado: "o que  de gosto regala a vida".
- L o amor, seu Juvenal.
- Pois . Uma coisa esquisita. O Cap. Rodrigo tinha um no sei qu aaquela cara, que deixava a gente brabo e ao mesmo tempo gostando dele. No primeiro dia quase 
brigamos a arma brana, mas depois ficamos amigos e at scios num negcio. -~ Fez uma pausa. - Mas acho que estou falando demais.
Calou-se, meio ressentido, como se tivesse adivinhado nos pensamentos do outro qualquer censura ou mesmo surpresa ante sua tagarelice.
- Por amor de Deus, seu Juvenal! Continue. Estou muito interessado nas coisas que o senhor est contando.
Winter calou-se. E de repente ele no estava mais em Santa F, conversando com Juvenal Terra e sim num caf de Berlim, dali a muitos anos, numa roda de amigos, recordando 
aquele momento: "Era um homem calado, muito discreto ... Mas en tinha certa
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ascendncia sobre aquelas criaturas e elas sempre me faziam confidncias. Eu s queria saber que fim levou Herr Juvenal Terra ... "
- Pra le ser franco - continuou Juvenal, remexendo-se na cama - eu gostava do Cap. Rodrigo. Achava que ele era valente, engraado, um bom companheiro pra tudo. 
Mas pra falar bem a verdade, nunca me senti  vontade perto dele .. .
- Tinha sempre medo que. ele fizesse uma das suas .. .
- Isso I E ele sempre acabava fazendo.. Depois que fazia, eu tinha vontade de ir pra cima dle de rebenque em punho. Mas isso era s no primeiro momento. Em seguida 
o homem desarmava a gente com uma risada, com uma palavra ou s com um jeito de olhar.
- Pois se vosmec, que  homem, sentia isso, como  que pode censurar a sua irm por ter amado um, tipo dessa tmpera?
- Pois . como le digo.. Isso de gostar  uma coisa engraada. A amizade tambm. Vosmec no acha que a gente pode querer bem at um homem sem-vergonha, um ordinrio, 
um patife?
Winter sacudia a cabea com uma gravidade de que ele mesmo achava graa.
- Claro. qne pode. Os patifes so em geral pessoas muito simpticas. No h nada mais aborrecido que um homem de carter.
- Nesse ponto no estou de acordo com vosmec. H homens direitos que d gosto a gente conhecer.
Winter deu "uma palmada aa prpria coxa e levantou-se.
- Boml Mande fazer a receita e bote o sinapismo. Amanh eu volto.
Juvenal quis levantar-se.
- No. No se levante. Vosmec precisa ficar de resguardo. - Mas ... doutor. Quando puder v ao Sobrado, bombeie e
veja o que  que pode fazer pelo Bolvar. Pode ser que o rapaz se
abra com vosmec. Pode ser que a Bibana deixe escapar alguma coisa. - Est bem. Prometo fazer o que puder. - Eu le agradeo muito.
Winter saiu do quarto. A mulher de Juvenal, que estava na cozinha, veio a seu encontro. Era uma criatura raqutica, de rosto ossudo e lbios muito finos. Tinha cabelos 
lisos, dum grisalho amarelado, e falava com as pessoas sem nunca encar-las.
- Que  qne ele tem, doutor?
- Nada de srio. Passei uma receita. Bote um sinapismo nele hoje mesmo. E no deixe seu marido se levantar nem apanhar frio. At logo, D. Marota.
Florncio esperava-o  porta: saram a caminhar juntos.
- Estivemos conversando sobre o Bolvar - contou Winter. Florncio nada disse por algum tempo. Depois desconversou - Eu ouvia o zunzum das conversas e estava admirado 
do Velho
estar falando tanto. O senhor pode se gabar de ter conseguido O
A TEINIAGUA        4O9

que ningum consegue. Por que ser que as pessoas se abrem com vosmec ?
- Deve ser por causa do meu chapu alto.
Winter caminhava com suas largas passadas de pernilongo. Voltou a cabea bruscamente para Florncio "e disse:
- ~. Algumas pessoas tm confiana em mim. Mas nem todas. - Olhou o outro bem nos olhos e repetiu : - Nem todas.
Florncio sorria um sorriso vago, mastigando um talo de capim. Mas continuava silencioso.
12
Carl Winter voltou ao Sobrado num domingo de fins de julho, para almoar. E quando se viu sentado na sala de.jantar. grande mesa que Aguinaldo sonhava encher de 
bisnetos, mas em torn da qual estavam agora apenas Luzia, Bolvar e Bibiana - o medic temeu que aquele almoo no passasse duma sucesso d. silnPos pontuados 
de pigarros, , suspiros e . tosses falsas. Em breve, porm, verificou que se enganava. Porque Luzia estava loquaz, amavel, simptica como ele jamais a vira. Parecia 
outra pessoa.. Tratava tanto o marido como a sogra eom naturalidade e quase com cordialidade. Isso facilitava tudo. E embora Bibiar<a passasse a maior parte do tempo 
dando ordens s escravas que servim a mesa, e Bolvar se mantivesse mergulhado nm silncio qne  Winter pareceu de ressentimento - -a conversa decorrem fcil desde 
a sopa at a sobremesa.        `
D. Bibiana mergulhou a colher grande - a que chamavam "cucharra" - na terrina fumegante.
- Gosta de canja, doutor? - perguntou Luzia.
- Se gosto de canja, meine liebe Frau Cambar? Isso nem se pergunta. A canja  uma. das delcias desta terra.. Num dia frio como este uma canja assim no s aquece 
o corpo como tambm a alma.
Luzia sorriu.
- Vosmec sabe, Dr. Winter, do que eu mais me admiro? p da maneira correta como vosmec se exprime em nossa lngua. Tem um pouquinho de sotaque,  verdade. Mas, 
fala .gramaticalmente certo e com um vocabulrio muito rico.
Winter tomou uma colherada de canja e respondeu:
- Muito obrigado pelo elogio. Acontece que sempre amei as lnguas e o latim  um dos meus fortes.
- Mas se o Pe. Otero, que tambm sabe latim, tivesse a facilidade de expresso de vosmec, ns teramos melhores prdicas.
Winter limitou-se a soltar uma risada. O luto sentava bem para Luzia - refletiu ele - realava-lhe a pele branca e oferecia
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A TEINIAGUA
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nas belo. contraste com os olhos verdes. Verdes? No. Agora estavam azulados... Or cinzentos?
O alemo olhou em torno. Gostava daquela sala com a sua moblia sevem, o grande retgo de pndulo e aquele lustre de cobre que pendia do teto, sobre a mesa. Pena 
era que noo houvesse ali bons tapetes e quadros. A nudez de soalhos e paredes parecia aumengr a sensao de frio que davam em geral as casas da Provncia.
- Mais suja, doutor?
Winter ergueu a mo num gesto que queria dizer: vamos devagar. - No. Obrigado. A sopa est deliciosa, mas quero reservar lagar para os outros pratos.
O frio lhe desaparecera do corpo e uma sensao de bem-estar agora o animava. E quando abriram a garrafa dum velho vinho portugus e ele viu o lquido vermelho cair 
no copo, ao mesmo tempo que aquele. cheiro agridoce e inebriante lhe entrava pelas narinas, Carl Winter se sentiu positivamente feliz. E depois que sorveu o primeiro 
gole, estalando a lngua, degustando bem o vinho, teve vontade de cantar.
- Os brasileiros no gostam muito de cantar ... - observou ele. - Por qu?
- Somos gente triste, doutor - observou Luzia. E seus dedos apertaram a haste do clice.
- Mas por qu? - perguntou. o mdico. - Por qu? Bibiana encolheu os ombros e disse: - Ns sabemos bem por qu.
- Ach, mene liebe Frau Cambar! No h um ditado que diz "Tristezas no _pagam dvidas" ?
Bolvar tornou a .encher seu copo, e bebeu-o em seguda dum sorvo s.
- 1~ mame sabe por que ela  triste - disse.
Winter coou o queixo. Quis dizer . alguma coisa mas achou melhor mudar de assunto. Sabia da vida que Bibiana levara: conhecia a sina das mulheres da Provncia.
- Traga os outros pratos - ordnou Bibiana  escrava que estava parada junto da porta.
Ela tomou conta do Sobrado - refletiu Winter. - Parece a dona da casa. Havia no rosto daquela mulher um ar to resoluto, que ele achou que a coisa no podia ser 
de outro modo.
- Recebi ontem jornais de Porto Alegre - disse Luzia. - O doutor depois quer ler?
- Claro! Quero ver o que est acontecendo por esse mundo velho.
Luzia pousou os cotovelos na mesa e uniu as mos como se fosse rezar.
Mas no  uma coisa horrvel a vida que a gente leva aqui? . perguntou ela, erguendo de leve as sobrancelhas.
Al sentada  cabeceira da mesa, parecia uma colegial que x esforava para representar o papel de mulher adulta num drama de amadores-
- No temos teatros - prosseguiu ela - no temos concertos. noo temos bailes, noo temos nada.
Sem olhar para a nora, Bibiana observou:
- H pessoas .que passam muito bem sem festas.
Luzia sorriu com doura.
- Eu sei que h, D. Bibiana. Mas  que eu gosto dessas coisas. Prinpalmente de msica.
Seca e brusca, a outra replicou
- Pois ento toque ctara.
Luzia sacudia a cabea com um sorriso indulgente, e o ar . de quem quer dizer: "Como  que se vai discutir com gente assim?"
- Vosmec tem razo - disse o Dr. Winter. - Devamos ter pelo menos uma banda de msica em Santa F. Pode ser que am dia en decida organizar uma.
Bibiana segurou a travessa de arroz que a escrava acabava de trazer, e retrucou
- Temos vivido muito bem at agora sem banda de msica.
- Mas deixe estar que era bem bom a gente ter uma banda - arriscon Bolvar. Winter notou .que o vinho deixava o rapaz com o rosto afogueado e os olhos brilhantes...
Inclinou-se, sorrindo, sobre a- mesa na direo de Bibiana, que estava sentada  sua frente, e perguntou:
- Mas no fim de contas, mene liebe Freundin, de. que  que vosmec gosta mesmo?
- De cuidar das minhas obrigaes - responder ela sem hesitar. E em seguda, dirigindo-se  escrava. - Depressa, Natlia, traga o resto, antes que a comida esfrie.
Entraram duas escravas com bandejas cheias de pratos. Bibiana os foi. enfileirando um por um em cima da mesa. Havia uma travessa cheia de arroz pastoso, levemente 
rosado e muito luzidio; uma terrina de feijo preto; um prato de galinha assada com batatas; outro de guisadinho com abbora e finalmente uma travessa de churrasco 
com farofa. Winter olhava admirado para aquilo todo. Era simplesmente assustadora a quantidade de pratos que havia nas refeies das gentes remediadas ou ricas da 
Provncia. Nana menos de seis, e s vezes at dez. No raro numa refeio serviam-se quatro ou cinco variedades de carne, e nenhuma verdura. Por fim, como um ps-escrito 
a uma longa carta, Natlia trouxe uma travessa com mandioa frita.
- Gosta de tudo, doutor? - perguntou Bibiana.
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Winter achava estpido encher o prato com todas aquelas co mas sacudiu a cabea afirmativamente: - Gosto. Muito obrigado.
Bibiana comeou a servi-lo. O mdico agora a observava
trs da tnue cortina de vapor que subia da travessa de arroz. A quarenta e oito anos tinha Bibiana Terra Cambar uma fisiono ainda moa, a pele lisa, e os cabelos 
aperras levemente grisalhos e seus olhos oblquos, achava Winter, davam-lhe uma certa graa, ao rosto. Deve ter sido uma moa bonita - concluiu.
J estavam todos com seus pratos cheios quando Luzia retomo o assunto de havia pouco:"
- Nunca me esqueo duma noite no Rio de Janeira, no Teatro D. Pedro de Alcntara. - Sorriu, -mostrando os dentes muito brancos e regulares. - Levavam a pera A Rainha 
de Chipre. Oh, isso faz j mais de trs anos... A prima-dona era Ida Edelvira. O senhor ouviu falar nela, doutor?
Winter sacudiu negativamente a cabea.
- L uma cantora. divina! - exclamou Luzia. - Quando a cortina se abriu fiquei. quase sem respirao vendo o cenrio. To lindo, to ... - Calou-se e baixou os olhos 
para o prato. - Quando a -lda Edelvira comeou a cantar senti uma coisa na garganta e rompi a chorar com tanta fora. que tive de botar um leno na boca para abafar 
os soluos.
E ao .dizer aquelas palavras os olhos de Luzia encheram-se de lgrimas. Com a cabea muito baixa, quase a tocar o prato, Bolvar comia com uma pressa nervosa. Lanou 
para a mulher nm olhar enviesado e disse
- No entanto vosmec noo chorou quando seu av morreu.
Bibiana voltou a cabea vivamente na direo do filho. Winter puxou um pigarro nervoso. Mas Luzia continuou com a expresso de xtase no rosto.
- Mas  diferente, Boli,  diferente. - Olhou para o mdico. -
Se eu lhe contar, doutor, que chorei como uma criana quando
soube da morte de Chopin, vosmec se admira? - Eu noo me admiro de nada.
- Que Chopin? - perguntou Bibiana.
Luzia, paciente, voltou-se para a sogra.
-  um compositor, D. Bibiana. Um homem que escrevia
msicas, lindas msicas. Aquela valsa que eu toco e que a senhora
gosta  dele .. .
Bibiana sorriu enigmaticamente.
- Pois chorei, doutor - continuou Luzia. - E sabe por que chorei mais? Porque Chopin morreu em 1$49 e s trs anos depois  que fiquei sabendo, por puro acaso. No 
Brasil a gente vive num Eim de mundo, noo  mesmo?
Winter estava pasmado. Lembrava-se das palavras da proptta
A TEINIAGU        413

Luzia no dia do seu contrato de casamento. Ser bom ou mau  uma questo de mais ou menos coragem.
_ ; realmente um fim de mundo ... - concordou ele. E olhou para a janela atravs de cujas vidraas via as vastas campinas onduladas que cercavam Santa F. Teve, 
mais que nunca, uma sensao de distncias invencveis e de irremedivel desterro. Pensou nas centenas de lguas que teria de percorrer para chegar ao mar, e nos 
milhares de milhas de oceano que teria de navegar antes de poder ver de novo a face de Gertrude Weil. Era assustador o isolamento em que viviam aquelas estncias, 
povoados, vilas e cidades da Provncia. As estradas eram poucas e ms. Em 1835 haviam comeado a abrir uma que ligaria Cruz Alta e Rio Pardo, passando por Santa 
F. A guerra civil, porm, interrompera o trabalho, que s ficaria pronto dentro duns cinco anos, no mnimo.
Luzia comia vagarosamente, levando  boca o garfo com minsculas pores de alimento.
- No hei de morrer sem conhecer a Europa ... - murmurou ela, descansando os talheres nas bordas do prato. - O senhor no pretende voltar, doutor?
- Um dia, quem sabe .. .
- Me diga uma coisa, amigo - disse Bolvar, voltando-se para o mdico. - O que  que vosmec acha dessas tais estradas de ferro?
- Acho que est nelas o futuro dos transportes. Um pas vasto como o Brasil no pode depender das carretas, dos cavalos e das diligncias.
- No sei, doutor. Posso ser muito atrasado, mas noo troco um bom cavalo por essas tais mquinas que cospem fumaa e fogo.
Winter riu. No era de admar que Bolvar Cambar reagisse daquela forma, pois ele vira gente letrada na Alemanha olhar com supersticiosa desconfiana para as locomotivas. 
O prprio Thiers, o grande Thiers, havia alguns anos, declrara que as estradas de ferro de nada serviriam  Frana.
- E o senhor viu mesmo alguma dessas engenhocas? - perguntou Bibiana.
Winter fez um sinal afirmativo, passou a descrever com mincias um trem de ferro, e acabou fazendo a lpis o esboo duma locomotiva numa folha de papel. Bibiana 
ouviu-o com um sorriso ao mesmo tempo divertido e descrente : era como se estivesse a es
cutar, com certa indulgncia, a narrativa das travessuras duma criana. E quando o mdico terminou o esboo e passou-lhe o papel,
ela o examinou com olho desconfiado e depois perguntou:
- E vosmec acha q~.~e um dia essas coisas vm aqui pra
Provncia ?
Winter ia responder quando Luzia o interrompeu:
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- Estile lendo nos jornais que vo inaugurar este ano a mera estrada de ferro no Brasil.
- Mas vai custar a chegar at aqui - observou Bolvar. Trado casta. Leva anos e anos.
- Quanto mais custar - sentenciou Bibiana - melhor p ns.
A estrada de ferro a que Luzia se referira pertencia a u companhia inglesa. Quando passara pelo Rio de Janeiro, Wint ficara surpreendido ante o nmero de firmas 
e agncias comerei britnicas que l existiam. O Brasil - refletira le ento - pr clamara sua independncia cortando as amarras que o prendiam Portugal, mas de 
certo modo continuara a ser uma colnia, e coln da Inglaterra.
Winter no podia disfarar sua malquerena pelos ingleses, q na sua opinio outra coisa no eram seno piratas que tudo faziam por parecerem gentlemen. Depois de 
encorajarem por muitos ane~ o trfico de escravos, agora haviam decidido proibi-lo, mandand sua esquadra policiar os mares  caa de navios negreiros. Depois de 
velha a prostituta esforava-se por parecer dama respeitvel - refletiu Winter, tomando um gole de vinho. Mas que grandes interesses estariam por trs daquele gesto 
aparentemente nobre? Que tremendos desgnios?
Pensou nos colonos alemes. Estava certo de que eles poderiam ajudar com seu trabalho e seus conhecimentos o progresso do Brasil. Os que ali haviam chegado at -ento 
lutavam com -toda a sorte de dificuldades: as distncias, a falta de meios de ~comunicao, a ignorncia dos nativos e a indiferena dos governos. Faziam, entretanto, 
o que podiam. Aos poucos iam realizando coisas, fundando colnias novas, cultivando a terra, exercendo, enfim, um aprecivel artesanato. Quando, porm, esse trabalho 
comeava a dar frutos, l viera aquela estpida guerra civil que atrasara a Provnca de muitos anos. Von Koseritz escrevera-lhe, havia pouco, certas cheias de entusiasmo 
pelo futuro da colonizao germnica. Contava-lhe, com orgulho, o que seus compatriotas j tinham feito. Ezstiam nas colnias alems da Provncia mais de trinta 
engenhos para a fabricao de aguardente, vrios teares para linho (linho que eles prprios, colonos, plantavam) , curtumes, engenhos para mandioca, serrarias movidas 
a gua, olarias, cervejarias e at uma oficina para lapidar pedras finas.
Pensando nessas coisas, Winter mastigava, observando Bolvar. Ali estava nm belo tipo. Era robusto, msculo, tinha coragem, conhecia as lidas do campo e as da guerra. 
Mas era homem de pontas letras, mal sabia ler e escrever e noo possua a menor noo de Histria ora Geografia. Havia anos que os santa-fezenses tinham pedido ao 
governo o provimento de escolas pblicas para as pargnias do municpio, a abertura de mais estradas e o estabelecimento
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de colnias. A indiferena da Assemblia Provincial ante aqueles pedidos era simplesmente pasmosa. No era pois, de admirar que as pessoas em Santa F crescessem 
e morressem analfabetas ... s vezes - refletiu Winter - parecia que a nica funo dos homens da Provncia- do Ro Grande do Sul era a de servirem periodicamente 
como soldados a fim d manterem as fronteiras do pas com a Banda Oriental e a Argentina. Numa carta recente ao seu lieber
Baron, ele escrevera: "Parece que a regra geral aqui  a guerra, sendo a paz apenas uma exceo; pode-se dizer que esta gente vive guerreando e nos intervalos cuida 
um pouco da atividade agrcola e pastoril e do resto; mas um pouco, s um pouco, porque parece que tudo  feito com o pensamento na prxima guerra ou na prxima 
revoluo. H nos olhos destas mulheres uma permanente expresso de susto."
A voz quente de Luzia tirou Winter de seu devaneio.
- ... no  maravilhoso, doutor? - Perdoe-me, mas noo ouvi.
- Estou dizendo que na Corte j foi inaugurada. a luminao
a .gs.
- Minha av morava num rancho perdido no meio do campo - disse Bibiana - alumiado de noite por uma lamparina de leo de peixe feita duma guampa. No acho que mais 
luz ou menos luz possa fazer uma pessoa mais feliz ou infeliz.
- Essas invenes trazem mais conforto  vida - replicou Luzia.
- Vosmec j pensou, D. Bibiana - disse Winter, descansando os talheres sobre a mesa - que um dia Santa F vai ser uma cidade, com muitas casas, lampies rias ruas, 
teatros, fbricas, e gente, muito mais gente que agora?
Bibiana, que olhava fixamente para o prato do mdico, perguntou:
- Quer mais. alguma coisa, doutor?
- No, minha senhora, muito obrigado.
- Pode tirar os pratos, Natlia! - gritou a viva do Cap. Rodrigo. E depois, entrelaando as mos e pousando-as sobre a mesa, olhou para Winter com seus olhos chineses 
e disse: - J pensi, sim, doutor. J pensei em todas essas coisas. Mas tambm pensei que quando Santa F ficar mais grande vai haver muito mais maldade, muito mais 
bandalheiras que agora. - Soltou um suspiro quase imperceptvel. - s vezes acho que at  melhor uma pessoa no ser instruda, no saber ler. Os livros esto cheios 
de porcarias e perversidades.
Winter compreendeu que aquelas farpas eram dirigidas contra Luzia..
- Nem tods os livros - disse ele.
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A TEINIAGLJ~        417
Natlia colocou diante de Bibiana uma pilha de pratos fundos um tarro de leite cru e frio.
- Quer mogango com leite, doutor?
- Se quero mogango com leite? Certamente) L das grande invenes desta Provncia. Gosto muito tambm de batata-doce com leite.
Bibiana sorria quando contou:
- Meu marido costumava. dizer que homem bem macho no come nenhuma coisa doce com leite.
- Na opinio dele - perguntou o alemo - qual  a mistura digna do homem forte?
Despejando leite no prato fundo, Bibiana respondeu:
- Marmelo assado, milho verde, farinha de beija... Era o que o capto dizia.
Pela primeira vez durante aquele almoo Winter_ -viu Bolvar sorrir.
- A mame s vezes me conta coisas do papai ... - disse ele. - Ele sempre. dizia que Cambar macho no morre na cama.
- Ser que queria dar a entender que o nico fim digno dum homem de coragem  morrer lutando? - perguntou Winter, rimado do bolso um charutinho _ e pedindo licena 
s damas . para acend-lo.
- Acho que sim - respondeu Bolvar ainda sorrindo e fazendo dstraidamente riscos na toalha com a lmina duma faca. Prosseguiu
- O papai tamban dizia que gostava de mulher de bom gnio, faca de bom corte, cavalo. de boa boca e ona de bom peso.
Winter estendeu o brao na direo de Bibiana, que .naquele momento lhe passava o prato com um pedao de mogango.
- Meu marido tambm gostav de dizer que quando falava com homem olhava prol olhos dele; e quando falava com mulher, olhava pra boca, e assim ficava logo sabendo 
com quem estava tratando,
- Se noo me engano - observou o mdico - isso quer dizer que o Cap. Rodrigo julgava tanto as mulheres como os cavalos pela boca .. .
Luzia, que at ento estivera com ar abstrato, falou:
- Mas, Dr. Winter, nesta terra os homens no fazem muita diferena entre as mulheres e ~ cavalos.
Bolvar de sbito empertigou o corpo e, sem voltar a cabea para a mulher, protestou
- Ora, vosmec nem devia dizer uma coisa dessas.
Bibiana sorria o sorriso misterioso de quem sabe mais do que diz.
- Mas  verdade, Bolvar! - replicou Luzia. - Veja bem. doutor; a idia dos gachos em geral  a de que o cavalo e a mulher
foram feitos para servirem os homens. E ns nem podemos ficar ofendidas, porque os rio-grandenses do muito valor aos seus cavalos .. .
Winter no fundo estava disposto a concordar com Luzia, mas achou melhor dizer
- Vosmec est exagerando um pouco.
- Um pouco, talvez, mas noo muito.
Todos estavam servidos de leite. Winter meteu a colher no bojo da metade de mogango que lhe coubera, e comeou a misturar a polpa dourada com o leite. Luzia prosseguiu
- Eu sei que sou censurada, que sou falada na vila s porque no quero ser como as outras mulheres que levam uma vida de escravas.
Outra vez Bibiana ficou tesa e tensa na sua cadeira. Tinha olhos e lbios apertados, o rosto contrado numa expresso de expectativa meio agressiva.
- Fui educada na Corte. Sei como vivem as mulheres nas grandes cidades do mundo.
Bolvar estava sombrio e mexia com mo distrada o seu leite com mogango. Winter sorvia a sua mistura com gosto e seus bigodes estavam respingados de leite.
- 1; por isso que eles no querem mandar as mulheres, para a escola - continuou Luzia.
- Na .escola noo ensinam a costurar, nem a cozinhar, nem a cuidar dos filhos - murmurou Bibiana sem olhar para a nora e mal descerrando os lbios.
Luzia sorriu para o mdico com indulgncia.
- Opinies - murmurou Winter, com a boca cheia. - Opinies .. .
Aquele leite com mogango estava delicioso, mas ele se sentia enfarado, com uma bola no estmago, uma preguia de pensar, um desejo de sair a caminhar ao ar livre. 
Mesmo assim continuava a comer, irresistivelmente, confirmando um ditado muito do gosto de D. Bibiana : "Comer e coar,  questo de comear."
- A Luzia ainda no se acostumou com a vida num lugr pequeno como Santa F - explicou Bolvar. - E a gente tem de compreender; pra uma moa educada em cidade grande, 
morar em Santa F no  fcil.
Luzia, que ainda no tinha tocado seu leite, disse com grande tranqilidade:
- Mas eu no moro em Santa F, Bolvar. Moro no Sobrado.
Winter sabia que Luzia no visitava ningum nem rceba visitas. Detestava o Angico e a vida do campo. Raramente saa de casa; e mesmo quando estava no Sobrado passava 
a maior parte das horas fechada em seu quarto de dormir.
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Eram quase duas horas quando deixaram a mesa. Luzia pediu licena ~ retirou-se para o andar superior. Bolvar comeou a fazer nm cigarro. Bibiana convidou o mdico 
para irem at o quntal e quando o filho fez meno de segui-los, ela o deteve com um gest, dizendo
- Fique aqui, Boli. Quero um particular com o doutor. O rapaz sacudiu a cabea em silncio e ficou.
Fora, fazia um frio -seco e o ar era lmpido. Bibiana e Carl Winter caminhavam vagarosamente sob as rvores. O cho de terra batida e avermelhada estava manchado 
de sombras e borrifado de sol. Por entre as folhagens das .rvores avistavam-se nesgas de cu, dum azul muito lavado e longnquo. Debaixo dum p de magnlia via-se 
uma carroa de varais cados. Penduradas duma taquara posta horizontalmente entre dois cinamomos, pendiam vrias lingias frescas. As laranjeiras estavm carregadas 
de frutos.
- Neste. quintal eu brinquei quando era menina ... - disse Bibiana.. Parou e apontou para uma rvore. - Essa foi a minha av que plantou. ~ um marmeleiro-da-ndia. 
Veja que bonita, doutor. D "uma fruta grande, amarelona.
- Comestvel?
- No. Mas mui linda.
Continuaram a andar.
- Est vendo aquele poo ali? - perguntou Bibiana, estendendo a mo. O mdico sacudiu afirmativamente a cabea. - Foi o meu pai que fez, com tijolo da olaria dele. 
Fez tudo. At o balde e a corda.. No  mesmo pra gente ter amor a estas coisas?
- A senhora deve estar feliz agora.
- Por qu ?
- Voltou para o seu cho.
Bibiana franziu a testa, ficou um instante num silncio rflexivo e depois disse
- Sim, mas no estou na minha casa.
Continuou a andar, calada, olhando para baixo. Winter acompanhou-a, tambm em silncio.
- Aquela rvore ali  uma goiabeira. No h muitas em Santa F. A outra, a pequena, de folha lustrosa,  uma pitanguera. As flores do jardim a geada matou. Mas 
quando chegar a primavera vo ficar lindas. Tem hortnsia, dlia, amor-perfeito, bonina, primavera, begnia .. .
Winter sabia que Bibiana no o levara at ali para falar em flores e rvores. Chegaram ao muro do fundo do quntal, janto
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do qual havia um galinheiro onde um esplndido galo branco de crista escarlate estava postado com certa imponncia em cima duma pedra, como que a olhar com superioridade 
para as galinhas em torno.
Bibiana ficou olhando por muito tempo "seus bichos", como que esquecida da presena do doutor. Aninhada num caixo cheio de palha, uma grande galinha branca estava 
no choco. De repente Bibiana disse:
- Ela vai ter um filho.
- Quem? - perguntou Winter quase sem sentir.
- A mulher do Boli.
O mdico meteu os dedos nas barbas e coou o queixo distraidamente. .
- Foi ela mesma que lhe contou?
Sem olhar para o interlocutor, Bibiana sacudiu negativamente a cabea.
- No. Mas eu vi. Tenho bom olho. Estou acostumada com esse negcio. O senhor notou alguma coisa?
- Para ser bem franco... s notei que ela hoje estava muito bem disposta e at agradvel.
- B. Mas tem andado plida, com tonturas e enjos.
Winter jogou no cho o toco do charutnho e ficou a esmag-lo com a sola da botina, demoradamente, de olhos baixos, como se aquele ato fosse duma enorme importncia 
para o assunto de que estavam tratando.
- O Bolvar j sabe?
- Sabe porque eu contei.
- Mas a Luzia no disse nada ao marido?
- No. E quando o Boli perguntou, el negou. O pobre do rapaz estava louco de alegria. Foi todo entusiasmado falar com a mulher, mas ela respondeu: "No seja bobo. 
N h novidade nenhuma." Foi mesmo que botar gua fria na fervura.
No galinheiro trs galinhas disputavam uma minhoca, cacarejando e bicando o cho freneticamente. O galo branco continuava impassvel.
- Mas quem sabe se noo h nada mesmo? - insinuou o mdico.
Bibiana ergueu os olhos para ele. Sua cabea mal chegava  altura do peito de Crl Wnter.
- Nessas coisas eu nunca me engano. Ela est grvida:
- Mas ento eu noo posso compreender.. .
Bibiana atalhou-o:
- Pois eu posso. Ela faz tudo isso de m pra deixar o pobre do rapaz louco da vida. Uma vez chegou a dizer que se ficasse grvida botava o filho fora. Imagine!
Calou-se de repente. Fez meia volta e disse:
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#42O        O CONTINENTE

- Quero lhe mostrar um p de magnlia que plantei o ms passado.
Winter seguia-a em silncio. Num dado momento sentiu uma vontade irreprimvel de falar claro. Falou:
- Pelo que tenho observado vosmec no morre de amores pela sua nora .. .
Disse isso e esperou uma exploso. Mas a voz da me de Bolvar veio calma:
- Nem ela por mim.
- Ento est tudo bem. Ou est tudo mal.
- Est tudo mal. Porque meu filho tem loucura por ela. Est ali a magnlia. Leva muito tempo pra crescer. Mas quando cresce fica uma rvore muito bonita. J viu 
alguma? D uma flor assim meio creme, muito cheirosa. Ah I Tenho jasmim-d-cabo e jsmim mido. E um p de primavera ali do lado. Tudo isto aqui era campo rso, 
pura barba-de-bode, quando meu pai veio pra c. No existe aqui um arbusto que no tenha sido plantado pela mo dum Terra.
De repente, sem mudar a entonao da voz, perguntou:
- Vosmec no acha que ela no  -bem certa do juzo? Winter ergueu o brao e arrancou uma folha de laranjeira e
comeou a mordisc-la.
- Bom, a Luzia no  uma pessoa normal, isso no  .. . - No acha que ela  capaz de botar o filho fora, s de malvada, pra nos fazer sofrer?
- L possvel... Mas no  provvel.
Bibiana ajeitou o xale sobre os ombros.
- Me diga uma coisa, doutor ... - Sua voz agora era um murmrio quase inaudvel. O mdico teve de inclinar um pouco a cabea .para ouvir melhor. - Se depois de ter 
a criana ela continuar com essas loucuras . .
Calou-se. Estava de olhos no cho, evitando encarar. o interlocutor. ~ Ouvia-se agora, vindo da rua, um tropel de cavalos e o badalar dum cincerro. Por cima do muro 
lateral erguia-se uma nuvem de poeira rosada.
- Pode falar, D. Bibiana. Pode dizer tudo com a maior confiana.
- ...no era o caso de se mandar essa mulher...
- Para um hospcio? - terminou Winter.
Bibiana sacudiu afirmativamente a cabea. Winter teve uma repentina sensao de frio interior. E refletiu imediatamente: "Com Luzia no hospcio, D. Bibiana completa 
a sua. conquista do Sobrado." Mau grado seu, sentiu-se chocado. Costumava cnsiderar-se um realista e encarar as criaturas humanas com cinismo, sem nunca esperar 
delas nobreza de sentimentos e altrusmo. Era em ocasies como aquela que ele via como estava ainda dominado pelos
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mus preconceitos cristos.. A sngesto de Bibiana deixara-o quas< espadalizado. I~abitnara-se a ver nela uma mulher de carter e _ oh, as frases feitas, os sentimentos 
feitosl - de corao bem formado. Via-a -agora como sob ama nova luz fria, crua e reveladora: tinha a medida ezata de sua capacidade de dio. Mas... por que no 
virar a coisa do lado do avesso e dizer - de sua capacidade de amor? No estaria Bibiana a sugerir aquelas coisas pelo mnto que amava o filho e o Sobrado? E aquela 
atitude no revelaria, ear $ltma anlise, o esprito prtico dama mulher realista que, no dizer do povo da Provncia, costumava, dar sempre nome aos bois?
- E vosmec teria coragem de fazer ao seu filho ama sugesto dessas? - perguntou el, com um sorriso que os bigodes .escondiam.
- O doutor  vosmec - responder Bibiana secamente.
- E qre  qre acha que ser filho faria se eu lhe aconselhasse mandar a mulher para rm hospcio?
Bibian teve nm rpido encolher de ombros.
- Decerto ele esgoelava vosmec.
- Ento? - sorria o mdico. - Quer que seu amigo seja esgoelado 7 ..
- No.. Mas tambm no quero que ela acabe aos pouquinhos com a vida do meu filho.
Winter atirou os braos para o ar e deixou cair as palmas das mos com fora. sobre os lados das coxas..
- Ento- que  que se vai fazer?
- En j -disse que o doutor  vosmec.
- Mas h moitas coisas qt<e um doutr no sabe.
Bibiana ajoelhou-se por um instante e arrancou do cho nm p de gnangnma. Para a sogra - refletiu Winter - Luzia no passiva dama erva daninha que vicejava maleficamente 
no jardim do Sobrado e que era preciso extirpar antes que ela sufocasse as plantas teis e belas.
- J conversor com o Pe. Otero a sse respeito? - perguntou ele, s para dizer algema coisa.
- J.
- Ele lhe der algum conselho?
- Den. Me pediu que tivesse pacincia e f. Prometeu falar francamente com Luzia. Mas sei que no fala.
- Por qu?
- Porque tem mdo dela. Todo mundo tem.
- Mas que foi que vosmec contou ao padre?
- Contei das malvadezas da ... dessa mulher. O senhor j vir como anda a cara do Bolvar? Toda lanhada, toda cheia de artanhes. Um dia amanheceu com os beios inchados, 
estava-se vendo que tinha sido uma mordida. Uma pouca vergonha I Ainda ontem descobri uma queimadura na mo do rapaz. "Que foi isso?" perguntei. Ele ficou meio desconcertado 
e respondeu:
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"No foi nada, mame. Me queimei no fogo." Mas sei que nio foi no fogo. - Bibiana estava de olhos baixos olhando uma fileira de formigas que saam dum buraco, 
ao p duma bergamoteira. - Essas malditas formigas me estragam as plantas. Ouvi dizer que o Cel. Amaral mandou buscar em Sorocaba umas for= migas midas que comem 
as formigas daninhas. Ele vai botar no quintal dele para ver se acaba com a sava. Vosmec acha que d
certo?
- Tudo  possvel, D. Bibiana, tudo  possvel.
Winter lembrou-se de ter lido num almanaque que em todo Oreino animal s os homens e as formigas  que tm o instinto da guerra.
- Vosmec nunca falou claro com seu filho sobre .. , esss coisas ?
Bibiana sacudiu a cabea com tristeza.
- Muitas vezes comecei o assunto: Ms ele nunca quis continuar. Sempre achava um jeito- de fugir. Ele anda diferente, doutor. s vezes chego at a acreditar em feitio. 
Aquela mulher enfeitiou ele. O Boli ... eu acho . , , o Boli j nem me quer, mais bem. Depois que casu, mudou de um tudo.. O Florncio tambfon tem estranhado 
ele. Eram to amigos. Agora ele parece que deu pta ter cimes do prima J no trata ele como dantes. O pobre rapaz nem aparece mais no Sobrado. So histrias que 
essa mulher mete na cabea do Boli.
- Mas como  que o padre explica essas coisas todas que a Luzia faz?
- Diz ele que h pessoas assim no mundo porque_ os demnios. entram no corpo delas. Diz que nas Escrituras Sagradas h muitos casos como esse e que Jesus Cristo 
expulsou o demnio do corpo de muita gente.
Winter cuspinhou os pedaos. de folha de laranjeira que tinha na boca.
- No acredite, dona. No h tal coisa.
- Eu sei que no h. No acredito no diabo nem em lmas do outro mundo. J visitei muitas vezes o cemitrio de noite: No vi nada de mais; s um lugar muito quieto, 
muito triste, nde a gente pode se sentar e ficar pensando em paz, porque ningum vem nos incomodar. Sou como o meu pai. S acredito no que vejo. Meu pai no acreditava 
em almas do outr mundo. O senhor acredita?
- Positivamente no.
Bibiana comeou a caminhar lentamente na direo da Winter seguiu-a.
- Ento, D. Bibiana, que  que quer que eu faa? .
- Se puder, doutor, fale com ela, Dga que ela precisa tet esse filho.
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- No  fcil, mas prometo fazer isso quando houver ocasio.
- Se vosmec soubesse como eu quero um neto! Sempre tive vontade de ter a casa cheia de crianas. Minha filha, a Leonor, mora em Cruz Alta,  casada com um fazendeiro, 
mas no tem filhos. Como  que eu podia imaginar que Luzia era assim? A gente s vezes ouve contar coisas esquisitas de certas pessoas, mas acha que  inveno, 
exagero.
- Vosmec  uma mulher que viveu e lutou muito. Devia estar habituada a tudo.
Bibiana soltou uma risadinha seca. .
- Habituada? Haver coisa. mais corriqueira que a morte? Desde criana a gente sabe que um dia xem de morrer. Toda a hora ouve falar em, morte. Mas a gente se habitua 
com a morte? No. Quando ela chega sempre  uma surpresa.
Uma grande nuvem branca, que lembrou a Winter um iceberg, agora se erguia no cu, por cima do Sobrado.
- Tenho a impressao - disse ele, em parte para tranqilizar D. Bibiana, em parte para dar voz a um pressentimento - que a Luzia vai ter esse filho.
- Vosmec acha mesmo?
- Acho.
- Deus le oua.
- Vosmec acredita mesmo em Deus, D. Bibiana?
- s vezes.
Disse isto e entrou no Sobrado.
lq.
A fresca luz dourada daquela manh de princpio de primavera entrava pelas jnelas da casa de Carl Winter, que, sentado  sua mesa, escrevia a Carlos von Koseritz:

"lblein lieber Baron. Faz hoje quatro anos que estou em Santa F. J no uso mais chapu alto, minhas roupas europias se acabam e eu desgraadamente me vou adaptando. 
Isso me d uma sensao de decadncia, de dissolugo, de despersonalizao. Sinto que aos poucos, como um pobre camaleo, vou tomando a cor do. lugar onde me encontro. 
J aprendi a tomar chimarro, apesar de continuar detestando essa amarga beberagem. (Pode algum. compreender as contradies da alma humana?) Eu vivia em castidade 
forada por falta de mulheres de que eu gostasse e que quisessem dormir comigo. l~leus sonhos erticos eram povoados de fmeas louras e eu tinha de me contentar 
com esses amores onricos, mas agora, "meu caro, de vez em quando, este esprito i vacilante cede aos gritos
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desta carne fraca - que, diga-se de passagem, continua muito magra sobre a ossatura - e trago para a minha cama, altas horas da noite, com a cumplicidade soturna 
da bela Greyria, chinocas, ndias, e at mulatas. Depois dessas orgias, tiro o violino do estojo e tomo um banho de msica.. O ento abro o meu Heine e me encharco 
de poesia. E nas muitas semanas de castidade que se seguem volto a sonhar vagamente com mulheres brancas e germnicas. Ah, meu amigo, sou personagem dum drama que 
Goethe no escreveria nunca, um drama que no daria glria a ningum porque  srdid, sem propsito e vazio. ll~ias  um drama ou, melhor, uma comdia. Por que 
no me vou daqui? Por qu? No sei. Alguma coisa me prende %~ esta terra. No  propriamente afeio, no  amor.  hbito, e o hbito  como uma esposa que cessamos 
de amar e que j aborrecemos, mas  qual estamos apegados pela fora... do hbito, e por preguia. A inrcia, Catl, tem muita fora. A rotina  uma balada inspida 
de rimas bvias.
"A vida aqui  montona. Nunca acontece nada. De vez em
quando sou chamado a atender um homem que foi estripado por outro num duelo por causa de pontos de honra, discusses em carreiras, jogos de osso, cartas ou chanteira. 
Mas mesmo isso se transforma em rotina, porque um intestino  igual a .outro intesno; as reaes das pessoas em tais ocasies so mais ou menos as mesmas. Os pacientes 
agentam os curativos sem gemer. .Os outros nunca esto de acordo sobre quem provocou a briga ou quem est com a razo.
"Raramente aparece uma cara nova n vila. Um dia  igual a outro dia. O correio chega uma vez por semana, quando chega. Uma carroa leva uma eternidade para ir ao 
Fto ~ardo e voltar. As pessoas em geral so boas, mas duma bondade meio seca e spera. Os assuntos, Imitados. Fala-se em gado, em cavals, em tropas invernadas, 
comidas, campos "ou ento em histrias de brigas, guerras e revolues passadas ou guerras e revolues que esto para vir.
"Ah! Ia esquecendo de te participar um grande acontecimento. Luzia, a minha Melpmene, teve um filho. Deu-lhe o nome de Licurgo, no porque admire o estadista espartano, 
mas porque (confessou-me ela com um sorriso anglico) ` o nome tem um som escuro, um tom dramtico. V bem: Licetrgo.  realmente um nome noturno. No me chamaram 
na hora do pacto; preferiram uma negra velha parteira que bota a criana no mundo com mos sujas mas hbeis. Regozt jei-me com isso pois no queria por nada mo mundo 
ver minha lusa da Tragdia naquela conjuntura tragigrotesca. Vi-a poucas horas depois que a criana nasceu. Estava mais bela que nunca e seu rosto parecia irradiar 
luz e bondade. Sim, bondade, Carl. Depois de tudo que te tenho contado dela, isso parece absurdo. Mas estou te dizendo exatamente o que senti. Nesta hora, mein lieber 
Baron, eu a amei. j, Amei-a com ternura pela primeira vez, e
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esse amor durou precisamente o tempo que passei naquele quarto que cheirava a incenso. A me no tem lute; mandaram buscar uma preta da estncia para amamentar a 
criana. O pai, de to orgulhoso, chega a estr pteta. A av se est contente, sabe esconder seus sentimentos debaixo daquela mscara de pedra.
"E agora, meu amigo, as coisas parece terem melhorado l pelo Sobrado. Fao as minhas visitas- quase dirias, como mdico que sou da casa. Melpmene se tem revelado 
uma me mais carinhosa do que eu esperava, mas seu carinho se revela em gestos e palavras pois ela olha para o filho com a mesma falta de expresso com que fita 
um objeto, uma coisa.  um olhar vazio, um olhar de esttua.
"Ser que por um desses mistrios da natureza o cheque do parto restituiu a sade quele esprito doentio? Possvel,, mas no provvel. Como a Medicina est atrasada, 
meu amigo! E como neste fim de mundo, sem livros nem colegas cultos com quem trocar idias, eu vou ficando para trs mesmo dessa Medicina atrasada! s vezes, pura 
explicar a epilepsia e certas formas de loucura, chego quase,a aceitar a teoria dos antigos, que falvam em demnios e possessos.  uma explicao pitoresca, alm 
de cmoda, e~ que nos permite a ns, pobres mdicos, lavar as mos diante desses casos, transferindo-os para feiticeiros, sacerdotes e taumaturgos.
"`Mudando de assunto direi que estes invernos rigorosos de Santa F, em que s vezes sentimos mais frio dentro .das casas. que fora delas, me ensinaram a beber uma 
mistura deliciosa, que mein lieber Baron deve j conhecer. ~ cachaa com mel e suco de limo. Positivamente divino! Se te contarem. Carlos, que morri embriagado 
numa sarjeta em Santa F, podes acreditar na histria, apenas com uma restrio:  que em Santa F no tem sarjetas pela simples razo de que no tem caladas, como 
no tem tambm lampies nas ruas, e como, em ltima anlise,- no tem nada. Talvez seja essa carncia de tudo que me fascina e prende.
"Para no deixar de falar em poltica, o meu amigo no acha que  muito mau para todos ns que a Frna tenha agora um novo Napoleo? Sinto maus pressentimentos, 
Carl, muito maus pressentimentos.
"Manda-me notcias de teus planos. Quando sai o jornal? E a escola? J encontraste a brasileira do teu corao? Quando puderes, manda-me livros e jornais. Os jornais 
podem ser at bem antigos, porque nesta vila esquecida de Deus e dos homens, estou me convencendo cada vez mais de que o tempo, afinal de contas, no passa duma 
inveno dos relojoeiros suos para venderem suas engenhocas. Manda livros, seno vou acabar esquecendo at o alemo. J li -mais de mil vezes meu volume de Heine. 
E o meu Fausto est inutilizado, porque a bela Gregria deixou-o cair dentro da gua da tina de lavar roupa."
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Tinha essa carta a data de 25 de setembro de 1855, o dia em que Florncio Terra casou com Ondina, a filha do Alvarenga. A cerimnia realizou-se na intimidade e toda 
a gente na vila comentou o fato de Luzia noo ter comparecido  boda.
Foi tambm nesse ano que a Assemblia Provincial autorizou o estabelecimento duma colnia alem, a trs lguas de Santa F. Os primeiros colonos chegaram em carroas 
com suas famlias. Traziam seus tarecos, seus instrumentos agrcolas e suas mulheres e filhos. Winter recebeu-os com uma certa m vontade que ele mesmo noo sabia 
explicar. Alm dele, at ento os nicos alemes que viviam naquele municpio eram os Schultz e os Kunz, que haviam chegado ali pouco antes da Guerra dos Farrapos.
O Cel. Bento Amaral reunia os colonos em sua casa e fez-lhes uma preleo na presena de Winter, para o qual ele olhava de quando em quando com o rabo dos olhos. 
Tinha uma voz gutural, falava alto, com ar patronal. Os colonos o escutavam numa atitude entre respeitosa e assustada. Havia entre eles um tal Otto Spielvogel, um 
alemo corpulento da Renonia, de quase dois metros de altura, com grandes manoplas sardentas recobertas de pelo ruivo, nariz vermelho e fino, e olhos de pupilas 
.to claras que chegavam quase a parecer vazios. Era uma espcie de chefe natural daquele grupo: e era a ele que Bento Amaral principlmente se dirigia:
- E tm de obedecer s autoridades - discursava o chefe poltico de Santa F. - No queremos badernas nem anarquia. E .quem sair fora do regulamento, tem de se entender 
comigo.
Deram  colnia o nome de Nova Pomerna, porque a maioria dos imigrantes tinha vindo daquela regio. Os recm-chegados comearam a abrir picadas e a construir 
casas. A cada famlia coube um lote de 1OO braas de frente por 15OO de fundo.
De tempos em tempos Wnter montava a cavalo e ia visit-los. Fazia isso ou porque o chamavam par atender algum doente ou ento porque desejava ver como ia marchando 
o trabalho. Ficava surpreendido com o que via. A regio transformava-se dia a dia, tomava j um jeito de povoado, e por toda a parte viam-se valos, lavouras, cercas, 
roados, sinais, enfim, de que aqueles estrangeiros comeavam a dominar a paisagem, que de resto ali era suave e submissa. Haviam construdo uma ponte sobre um riacho 
que cruzava aquelas terras e Otto Spelvogel j tinha posto a funcioar seu moinho d gua. Era curioso - refletia VGnter - ver aquelas caras e ouvir aquelas vozes 
alems sob o cu de Santa F. De quando em quando passava a cavalo um caboclo moreno, de olhos e cabelos negros, parava, olhava para os colonos por muito tempo, 
sem dizer nada, depois esporeava a cavalgadura e seguia caminho. Carl noo conseguia ler nem aprovao nem censura naquelas caras inestratveis.
Um dia quando Wnter fazia uma sangria num dos colonos.
A TEINIAGU        427

apareceu em Nova Pomerna Bento Amaral montado em seu gvalo branco, com aperos chapeados, e grande- botas de couro, mnto pretas e lustrosas., Trazia na cabea 
um chapu de abas largas e seu pala de seda creme esvoaava ao vento. Alguns colonos vieram a aen encontro. O Cel. Amaral -noo quis apear. Falou .com a "alemoada" 
de ama do cavalo, lhou em torno, fez perguntas e deu conselhos. Depois, se foi. Da janela da casa do paciente, Winter ficou a contemplar o Junker de Santa F, que 
se afastava ao trote faceiro e majestoso de seu cavalo - o busto muito ereto, o rebenque pendente do pulso por uma presilha de couro. Winter sorria.  tardinha, 
em certos dias, Bento Amaral costumava passear a cavalo pelas roas de Santa F. "Boa tarde, coronel, como le vai?" - pergnntavam os santa-fezenses, descobrindo-se. 
lrle se limitava a bater mau o dedo na b do chapu e continuava seu passeio. Se encontrava nm desconhecido, fazia o cavalo estacar e gritava : "Ainda que mal pergunte, 
quem  o senhor?" Fosse qual fosse a resposta, a segunda pergunta era- "Que  que anda fazendo por aqui?"
Naquele dia os colonos fiaram a seguir o Cel. Bento com o olhar at que ele se sumiu atrs duma, coxilha. Wnter esperava ouvir deles algum comentrio. Os homens, 
porm, no disseram nada- voltaram discretamente para o trabalho.. Winter achava-os ignorantes e ponto simpaticos. Em sua maioria tinham vindo para o Brasil porque 
achavam os impostos demasiadamente pesados em sena_ prinpados. Havia entre eles alguns que esperavam enriquecer dentro em ponto para depois voltarem para suas aldeias 
natais na esperana de l ocuparem uma posio social melhor que a primitiva. Dentre_ todas aquels colonos Winter gostava especialmente de Jacob Vogt, um velho 
d oitenta anos, natural da Vestflia. Tnha longas barbas dam branco .amarelado, que lembravam as macegas dos campos em derredor da Nova Pomerna. Completamente 
desdentado, ~ de lbios cor-de-rosa, pele dum creme seco de marfim, olhos muito azais, o velho Vogt morava com o filho, que era canado e por sua vez tinha oito filhos. 
Um dia, quando VJ"inter veio vet ama das crianas da casa, que estava com catapora, Jacob aprozimon-se dele e perguntou-lhe em alemo, com sua voz fina e Eras, quase 
inaudvel:
- H broxas nesta terra?
- Brazas? - estranhou o mdico.
- Sim, feiticeiras. - E contou : - Quando eu era mocinho vi queimarem viva ama bruxa na minha aldeia.
O filha de Jacob esclareceu
- Essa  ama histria que papai conta, mas que no sei se  verdade ora adngnice.
Wntr sabia que os camponeses da Vestflia eram muito supersticiosos e quando adolescente ele ouvira falar num caso parecido com o que o velho Vogt lhe contara.
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- No. Em Santa F no h bruxas ... - disse ele. E achou melhor acrescentar - :.. que eu saiba.
Por uma inquietadora associao de idias pensou em Luzia. Aa coisas no Sobrado ultimamente pareciam ter-se azedado ainda mais que antes. Quando l ia nas suas visitas, 
Winter percebia os ressentimentos nos silncios, nos olhares, nas indiretas. O pequeno Licurgo _crescia com sade, graas ao leite da ama preta. Bibiana encarregava-se 
do resto. Luzia vivia a ler e a tocar ctara, e isso parecia enervar a sogra. Contava-se que havia dias em que as duna mulheres se fechavam, cada qual num quarto, 
e l ficavam durante largas horas. Passavam dias e dias sem se falar, ao passo que, plido e infeliz, Bolvar andava de uma para a outra como uma mosca tonta.
Um dia Florncio encontrou Winter na rua e lhe contou com calma e mscula alegria que esperava o primeiro filho para julho do prximo ano. E quando o mdico lhe 
falou na gente do Sobrado. Florncio pigarreou, desviou o olhai e murmurou, sombrio:
- Aquilo vai de mal a pior.
E por mais que se esforasse, Winter noo lhe arrancou nem mais uma palavra.


15
Quando, ao levantar-se uma manh e ao ver da sua janela a paineira do quintal do vigrio toda cheia de flores cor-de-rosa, o Dr. Cari Winter compreendeu que mais 
um outono estava por chegar. Gostava daquela estao porque descobria sempre nela uma dignidade que as outras no possuam.
De meados de maro a meados de junho a luz era madura e cor de mbar, e o ar, morno ao sol e fresco  sombra. O vento. que ele tanto detestava, o enervante vento 
que s vezes o fazia praguejar, amaldioando aquela terra e aquele clima - cessava pr completo. Os crepsculos faziam-se mais .ricos e longos, .como se Deus ou 
l quem quer. que fosse dispusesse de mas tinta, de mais tempo e de mais arte para pintar o cu do anoitecer. Nos quintais faziam-se fogueiras com folhas secas, 
e a fumaa que delas se evolava, invadindo o ar, tinha um perfume que para Winter possua uma qualidade nostlgica. No outono as moscas diminuam, oa mosquitos comeavam 
a desaparecer e aquela luz generosa parecia deizar menos feias as pessoas e as coisas.
Quando Gregria apareceu aquela manh com o chimarro, encontrou o mdico  mesa escrevendo uma carta. Winter apanhou a cuia, distrado, levou a bomba aos lbios, 
enquanto a negra depunha a chleira chamuscada ao p da cadeira do amo.. Chupando metodicamente o chimarro, Winter releu o que havia escrito:
A TEINIAGU        429

"No outono, meu caro haro, fico em permanente estado de poesia.  quando me lembro mais de Eberbach e de Trude. Mas tanto a aldeia como a moa~me parecem agora 
fices, elementos dum conto de fadas to distante como a histria de Hnsel und Gretei que ouvamos no tempo de meninos. Se h coisa que lamento  no saber pintar. 
Tenho visto crepsculos incrivelmente belos, to belos que  uma pena que se percam. Algum devia prend-los numa tela.        .
"Jogo partidas de gamo com o juiz de direito e me divirto duplamente: com o jogo e com a cara de meu parceiro. O Pe. Oteco, que parecia to meu amigo, ultimamente 
deu para reprovar a vida que levo, pois no vou  missa, noo contribuo com dinheiro para as obras da igreja e de vez em quando externo minhas idias herticas. E 
sabes como se desforra? Recomendando aos paroquianos que procurem o Clotrio da homeopatia ou o Z das Eruas, o curandeiro. Continuo nas boas graas do Junker. O 
velho Amaral tem sete filhos, dois homens e cinco mulheres, "de sorte que no casaro sempre h algum. doente, o que me obriga a visitas quase dirias.
" "Quero dar-te notcias da "minha comdia", cujo desenvolvimento acompanho com interesse de espectador que s vezes  obrigado a entrar em cena como ator. A pea 
tomou um novo rumo ou, melhor, mudou de cenrio. Como Luzia andasse irritadia e inquieta, recomendei a,Bolvar que a levasse numa viagem de recreio qualquer. A 
sugesto foi uretra. D. Bibiana me apoiou, pois a pobre criatura estava cansada, queria respirar um pouco em paz. Depois de aYguma selui&uris, Bolvar decidiu levar 
a mulher a Porto Alegre. Luzia exultou. Vivia numa permanente saudade de concertos, y estas e teatros. Desde o . momento em que, a viagem foi resolvida, ela como 
que se transfigurou. Naturalmente comeou a tocar ctara; e tocou as puas mais aleg"res de seu repertrio. Os preparativos foram frenticos. Iriam de jardineira, 
pelo Rio- Pardo, levariam uma mucama e dois homens"de confiana na bolia. No preciso dizer que a noricia se espalf:ou rapidamente pela vila e que na hora da partida 
da cameagem, em princpios de paneiro ltimo;. meio mundo estava na praa, d frente do Sobrado, _olhando. o grande acontecimento. 14fuitos vieram despedir-se. O 
padre, o juiz, o Alvarenga. Florncio no se fez visvel. D. Bibtana abraou e beijou longamente o filho e dei a ponta dos dedos  nora, que para surpresa minha 
e dos outros se inclinou sobre ela e lhe beijou as faces. D. Bibiana, porm, fieou imvel, de lbios apertados. Confesso que naquele momento tip vontade de beijar 
a teiniagu. Estava linda, o contentamento dava-lhe coces vivas s faces. Houve muitos adeuses, acenos e gritos de boa viagem. E l se foi a jardineira, levantando 
p pela r+ua em fora: Quando ela desapareceu na primeira esquina, D. Bibiana traou o xale e antes de entrar no Sobrado me disse: `Nesta provncia, doutor, quando 
uma mulher se despede do
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marido, do filho, do irmo ou do noivo, nunca sabe se  por pouco tempo ou para sempre."
"E sabes, meu cato baro, o que me impressiona nesta gente? L~ o ar natural, terra-a-tetra com que dizem e fazem as coisas mais d~amticas. Estou comeando j a 
descobrir diferenas entre os habitantes das- vrias regcces desta provncia. Os da fronteira so mala dramticos e pitorescos que os desta regio missioneira. Gostam 
de .lenos de cores vivas, falam mais alto, contam bravatas e amam os gestos e frases teatrais. Se e& tivesse de eleger o homem re~esentativo desta regio, no escolheria 
Bento Amaral nem Bolvar, mas Florncio, o meu bom, discreto e bravo Florncio Tetra.
"Perdoa-me estas mincias. Quando vivemos por muito tempo num mundo to limitado e pobre como este, acabamos conferindo s suas intrigunhas, s suas pessonhas 
e s suas coisinhas uma importncia universal.
"lf~las este outono, meu caro Carlos,  grande aqui como seria em qualquer outra pane do universo. Aristteles haveria de gostar de dias e campos como estes para 
as suas dissertaes peripatticas. Estou certo de que houve um erra qualquer na distribuio das raas. Quando Deus criou o mundo, Ele destinou a esta terra outras 
gentes que no estas. Haver ainda um meio de corrigir esse erro? Eis aqui uma pergunta perigosa, que nos poder levar a complicaes tremendas."


Foi nesse outono de 1856 -que passou por Santa F nm mascate judeu vendendo bugigangas. Era um homem retaco, muito vermelho, de nariz adunco e barbas louras. Alegre, 
conversador e bem informado, conto, no seu portugus arrevesado mas fluente, coisas das tersas por" onde tinha andado. Conhecia o Oriente, a frica e tinha visitado 
.recentemente os pases platinos.
- Sabem da ltima novidade? - perguntou ele nm dia a nm grupo na botica do Alvarenga. - Terminou a Guerra da Crimia.
A notcia foi recebida com indiferena. Ningum tinha ouvido falar nessa guerra. Ningum sabia onde ficava a Crimia, a no ser talvez o juiz de direito e o padre, 
que nessa hora estavam ambos -distrados a jogar xadrez. Por isso ningum se interessou pela notcia.
Em fins daquele mesmo outono o Dr. Winter foi chamado s pressas a Nova Pomernia para atender Otto Spelvogel, que, tendo fincado nm prego enferrujado na perna 
- fazia j duas semanas - estava agora ardendo em febre e com muitas dores. O mdico pegou a malet, montou a cavalo e partiu a todo galope para a colnia. Examinou 
a perna do paciente e concluiu: Starrkrampf. Chamou os membros da famlia e disse:
- Se noo cortarmos a perna do homem imediatamente ele morrer.
A TEINIAGLJA        431

A choradeira comeou. Todos, poxsm, puseram-se de acordo em que se devia fazer a amputo. Winter pediu gua fervente num tacho e dois homens decididos para o ajudarem. 
Mandou amarrar Otto Spielvogel fortemente a uma mesa e deu-lhe uma bebedeira de gchaa que o deixou quase inconsciente. E depois, asando o prprio, serrote com que 
um colono estivera aquele mesmo dia a cortar barrotes para a casa, am atou-lhe a perna  altura do joelho, enquanto a mulher e os fios do paciente choramingapam 
no quarto contguo.
Ao anoitecer do dia seguinte, voltou para casa, pois nm dos filhos de Beato Amaral estava de cama e o Junker exigia sua presena  cabeceira do doente. Montou a 
cavalo, .acendeu a vela da lanterna e ps-se a caminho: Como no havia lampies nas roas de Santa F, sempre que saa  rua em noites sem lua o Dr. Winter levava 
sua lanterna acesa.
Durante todo o trajeto da colnia  vila desejou chegar ao quarto para tomar uns bons goles. de cacha com mel e limo. O inesperado ~ frio mido na noite lhe penetrava 
at os ossos. A garoa gelada lhe respingava o rosto, a barba, as roupas: e seus dedos estavam entanguidos sob as luvas de l. Winter tinha ainda nas narinas o cheiro 
de sangue.. Sentia-se como um carniceiro e amaldioava sua profisso. Perdera os ferros cirrgicos no Rio Grande: tinha de operar agora com os instrumentos mais 
rudimentares. E como a Medicina estava atrasada ! Naquela segunda metade do sculo XIX eles sabiam pouco mais que os .curandeiros da Idade Mdia. Qne era que cansava 
as doenas? Que era que originava o ttano? Ningum podia dizer. Algumas vezes ele, Winter, dera como perdidos paaentes que depois se erguiam da cama, curados com- 
mezinhas caseiras ou chs fornecidos por negras velhas curandeiras.
Perto de Santa F a cavalgadura estacou diante dum vulto. Winter erguer a lanterna, num sobressalto, e gritou: `.`Quem  l?" Era uma vaca que ruminava placidamente, 
atravessada no caminho. O mdico soltou uma blasfaua. O Cdigo de Posturas Municipal dizia claramente: 8 proibido ter vacas soltas em noites escuras, salvo se levarem 
lanternas presas aos chifres."
Eatron em Santa F no pir estado de esprito possvel. Desejava calor, uma cama limpa e quente e uma boa companhia. humana. Sabia que noo encontraria em casa nada 
disso. O remdi+5 era em
bebedar-ae. podia ser indigno, podia ser brutal, podia ser srdido.
Man era nm narctico. Bbedo, esqueceria a perna de Otto Spiel
vogel, que. ele vira cair pesadamente num balde com um rudo medonho; esqueceria aquele. tempo horrvel, e esqueceria principalmente
que ele, Carl Winter, nm homem de trinta e cinco anos, formado
em Medicina pela Universidade de Heidelberg estava preso, irreme
diavelmente preso a Santa F, sem coragem de abandonar aquele
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vilarejo marasmento e sair em busca duma vida melhor... Poe
qu? Por qu? Por qu? Winter fez essas perguntas em voz alb.
O cavalo seguia a passo pelas ruas. Seriam umas onze horas da noite e as casas estavam todas fechadas. Ao passar pela frente do Sobrado, Carl Winter pensou em Luzia. 
Havia j quatro meses que o casal tinha partido para Porto Alegre. Fazia uma semna, o estafeta que trazia a mala do Ro Pardo contara na venda do Schultz que havia 
irrompido em Porto Alegre uma epidemia de clera-morbo. Clera-morbo I Era s o que faltava I Se a peste chegasse at Santa F, morreriam todos como ratos - conduin 
Winter. E de sbito ocorreu-lhe uma idia : se Luzia morre de clera o problema est resolvido, a comdia. acabada. Sim, era nata soluo. Bolvar sofreria muito 
a princpio, mas com o- passar_ do tempo a esqueceria. Era moo, tinha a me para o amparar, o filho para criar. Sim, seria uma soluo de mau gosto, de mau autor, 
mas o problema daquela gente ficaria resolvido .. .
Foi no momento em que pensava essas coisas que Winter viu luz numa das janelas do andar superior do Sobrado. Fz parar a cavalgadura e ficou , olhando. Avistou um 
vulto de mulher. com uma vela na mo. Devia ser D. Bibiana. Que estaria acontecendo l dentro? Algum doente? Algum ladro? Achou que seu dever era bater  porte 
para ver o que se passava. Decidiu, porm, no fazer nada disso. Fincou os calcanhares nos flancos do animal e f-lo seguir a trote rumo. de casa.
16
Parada no centro do patamar da escada; com uma vela acesa na mo, Bibiana escutava... Julgara uvr um pesado .arrastar de ps no casaro e sara do quarto. para 
ver de onde vinha o rudo. A ama de Licurgo dormia no quarto contguo ao seu. As outras negras estavam alojadas no poro. Um peo do Angico, homem de confiana, 
dormia na despensa.
D. Bibiana esperava,, imvel, de ouvido atento. O silncio agora era absoluto. Decerto est trovejando - concluiu ela. E resolver voltar para o quarto. Nesse momento 
o relgio grande l em baixo cmeou a dar as horas. Com no esperasse aquilo, Bibiana teve a impresso de que as pancadas soavam no apenas em seus ouvidos, mas 
tambm dentro de seu peito. A primeira delas lhe causou um estremecimento. Comeou a contar mentalmente. Duas... Trs.-. . Cada batida ecoava. pela casa, parecia 
deix-la ainda maior do que era, como se em vez de dezoito peas o Sobrado tivesse cem. Quatro ... cinco ... Bibiana sentia que o corao lhe pulsava um pouco mais 
forte e vi a vela tremer-lhe na mo... Seis... Sete.. .
Oito ... Nove ... Tinha agora a impresso de que alguma coisa ia acontecer. Dez ... Devia ser meia-noite. As negras diziam que a alm do velho Aguinaldo costumava 
passear pela casa depois que o relgio grande dava a ltima badalada da meia-noite. Onze .. . Doze... O som se desfez no ar e Bibiana ficou ali com aquele pequeno, 
e dbil foco de luz na mo, esperando ... Seu olhar dirigiu-se para a porta do quarto que fora de Aguinaldo, e que estava fechado desde o dia da morte do velho. 
Foi um olhar duro e decidido, como se ela estivesse desafiando a alma do morto a aparecer. Uma viga do tet rangeu, e foi como se o silncio subitamente se trincasse 
como um prato de loua. Por um momento Bibiana teve a sensao de que havia algum s suas costas. Fez uma rpida meia volta, mas s viu a solido e a penumbra do 
patamar e sua prpria sombra refletida na parede branca. Lembrou-se das palavras de Natlia - "O velho aparece de noite, anda por tda a casa arrastando uma corrente 
e gemendo: Rezem por mim. ~ Rezem por mim." Havia de ter graa -refletiu Bibiana - que nem depois de morto Aguinaldo abandonasse o Sobrado. Mas quem morre se acaba. 
"Vassunc viu mesmo a alma d velho, Natlia?" A voz da escrava era um ronco medroso: "Por esta luz que me alumeia, juro que vi. Foi numa noite de tormenta. Primeiro 
pensei que fosse o vento. Depois ouvi a voz do velho. Rezem poc mim. Rezem por. mim." Quem gostava daquelas histrias era- Luzia.  noite fazia as criadas repetirem 
todos os casos de assombrao que conheciam. Ficava arrepiada e com md de subir szinha para .o quarto. Mas subia, de vela na mo, tremendo, e parece que at achando 
gostoso aquele medo.
Bibiana voltou para seu quarto lentamente. No temia as almas do outro mundo.. Tinha medo, isso sim, das almas deste mundo. Lembrava-se das noites em que Luzia se 
metia em seu quarto de dormir, fechava a porta a chave e no deixava o marido entrar: o pobre rapaz ficava vagueando a noite inteira pela casa, como uma alma penada. 
Dessas almas  que ela tinha medo.
Entrou no quarto, fechou a porta de mansinho, aproximou-se do bero onde Licurgo dormia e ergueu sobre ele a vela. No sono a criana movia os lbios rosados e midos, 
como a procurar o bico dos seios da me preta. O comilo ainda mamava no peito, apesar de j ter feito nm anoI - socou ela. Ficou por longo tempo contemplando o 
neto. Aqule ser pequenino _um dia havia de crescer, fazer-se homem - um belo homem como o pai ou como o av. (E Bibiana apressou-se a acrescentar mentalmente: av 
por parte do pai.) De sbito, numa esquisita sensao de desfalecimento, que era ao mesmo tempo desagradvel surpresa, apreenso e piedade, ela pensou: O Licurgo 
 bisneto daquele_ corcunda. Odiou Aguinaldo por isso. E a figura do velhote desenhou-se-lhe no pensamento: l estava ele com sua barba de chibo, a cabea chata, 
s
A TEINIAGUA        43 3
#434        O CONTINENTE
olhinhos de bicho... O sangue daquele monstrengo coma nas
veias da criana I Bibiana aproximou mais a vela do rosto do neto.
No, no havia naquela carinha mimosa nenhum trao de Agui
naldo Silva. Licurgo podia parecer-se com a me, que era bonita,
on com o pai, mas nunca com o Velho. E quem garantia que Luzia
en neta mesmo de Aguinaldo? A mulher do nortista no o enga
nava? Bibiana apegava-se agora a essa possibilidade, esforando-se para transform-la numa consoladora certeza.
Licurgo ergueu de repente a mozinha e deixou-a air com fora sobre o cobertor, Um gluglu se lhe escapou da boca, e em seus lbios se formou uma bolha d saliva.
Quem vai criar esse menino sou u - disse Bibiana para si mesma. Se quiserem me tirar ele, eu brigo, como uma galinha defendendo seus pintos. Comeou a fazer clculos 
... Tinha cinqenta anos: podia bem durar mais vinte... ou vinte e cinco, e assim veria Licurgo homem feito, encaminhado na vida. Aquele menino que tinha o sangu 
do Cap. Rodrigo Cambar, ia ser o dono do Sobrado, dos campos do Angico e de milhares de cabeas de gado. Sen peito inflou-se de contentamento e de esperana.
Bibiana olhou para a cama grande, ao .lado do bero. No estava com sono. Sentia no peito uma coisa esquisita que no a deixava .dormir. Desde que soubera da notcia 
da peste em Porto Alegre ficara apreensiva. Por que Bolvar no viera embora imediatamente ao saber que o clera tinha irrompido na cidade? Por qu I Era uma peste 
brrba, pior que o tifo e a bubnica. Bibiana cevou os olhos e viu em seus pensamentos .Luzia morta em cima duma mesa, ladeada por quatro crios, Bolvar chorando, 
gente cochichando: "Morreu do clera. Morreu do clera." De repente a cena mudou: a jardineira chegou a Santa F, levantando poeira.. . Bolvar desceu da carruagem, 
todo de preto, a barba crescida, os olhos vermelhos. "Mame!" Atirou-se nos braos dela. E ela abraou e beijou o filho, dizendo: "No h de ser nada, Boli. Vassnnc 
 moo ainda. Pense no Licurgo. No  nada." Bibiana abriu os olhos, confrangida inopinadamente pela sensao de frio deixada por uma idia terrvel que acabava 
de cruzar-lhe a mente. Bolvar podia morrer. Nesse caso, quem voltaria para o Sobrado era ela. Ela ... toda de preto, mas de olhos secos - aqueles olhos maus de 
gata. Morto Bolvar, a outra podia mudar-se pata Porto Alegre ou para a Corte, levando consigo Licurgo ... Venderia o Sobrado, o Angico ... No tinha apego  casa 
nem  estncia. E mesmo que ela ficasse no Sobrado, .como ia ser a vida das doas naquele casaro, odiando-se dia a dia, hora a hora, minuto a minuto? Que ia ser 
do menino entre aqueles dois dios?
Bibiana apagou a vela e sentou-se na sua cadeira de balano. O quarto ficou alumiado apenas pela lamparina que com tbia chama ardia junto do bero da criana.
A TEINIAGUA        435

De braos cruzados sob o xale, os olhos cerrados, Bibiana balouava-se devagarinho e pensava. Tinha pago pelo Sobndo um preo demasiadamente alto. Mas agora era 
tarde: o mal estava feito. Voltar atrs no s sria pior como tambm impossvel. Por assim dizer, tinha perdido o filho. Desde que casara. Bolvar no en mais o 
mesmo. Andava arisco, j no se abria com a me, noo dependi mais dela, noo lhe pedia conselhos em nenhum assunto. Vivia enfeitiado, dominado pela utra. Se a 
mulher foasc m sempre, todos os dias, poderia haver alguma esperana de o npaz um dia compreender com quem se havia casado.. Mas o diabo en que em certas horas 
- s vezes durante dias inteiros - Luzia mostrava-se amvel e atenciosa no s com ~ o marido como tambm com os outros. Depois; tinha estudado na Corte, sabia falar 
bonito, contava casos da Europa, ou ento histrias que tinha lido em livros. s vezes at recitava versos enquanto tocava ctara. Bolvar ficava olhando para ela, 
de boca.. meio aberta, e via-se que ele estava perdido de amr, que era capaz- de fazer tudo que ela pedisse. Nessas ocasies ele ficava bobo de contentamento, era 
o homem-mais feliz do mundo, chegava at a cantar e assobiar. Mas l de repente a mulher de novo fazia das suas. Muitas vezes ela, Bibiana, acordara no meio da noite 
ouvindo gritos no quarto do casal. Saa para o corredor de camisolo; ps descalos, para ver o . que tinha acontecido. Nunca vira mas adivinhava o que se estava 
passando l dentro. As malvadezas de Luzia no tinham mais conta. Fechava a Dita. a negrinha filha de Natlia, no sto durante dias, sem gua nem comida, e de vez 
em quando ia l em cima .para espiar a rapariguinha pelo buraco da fechadura. Quando Bolvar ia para o Angico, ela aproveitava a ocasio para fazer essas coisas. 
Depois de ver bastante tempo a criaturinha sofrer, ela descia e. ia tocar ctara. "Negro  bich " - ela dizia. "Negro no tem sentimento.."
Bibiana balouava-se na sua cadeira e pensava ... Sim, tinha pago caro demais pelo Sobrado. E s Deus sabia que ela no queria aquela casa para si mesma, mas sim 
para Bolvar e para os filhos de Bolvar. No fim de contas .aquela terra pertencia de direito a seu pai. Se havia algum intruso no caso, esse intruso en a neta de
Aguinaldo Silva.
Bibiana ouvia agora o fofo tamborilar da chuva nas vidras. lrncolheu-se toda, de frio e de tristeza.
17
Conheciam-se agora notcias mais detalhadas da epidemia de clera-morbo. Tinha sido trazida do Rio por passageiros do vapor Imperatriz, que ancorara em fins de 1855 
no porto do Rio Grande.
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A TEINIAGUA        437
A peste comeara nas charqueadas de Pelotas, alastrara-se pela loalidades vizinhas e atingira Porto Alegre onde se dizia que o nmero d casos fatais ia alm de 
mil. As carroas da municipalidade andavam pelas ruas a recolher os cadveres, que na maioria dos asos estavam de tal modo desfigurados, que se tornava impossvel 
identific-los. Coutavam-se pormenores horripilantes. Havia pessoas que eram ateadas subitamente pelo mal e caam fulminadas nas ruas: Temia-se que moitas tivessem 
sido enterradas vivas, pois os mdica, os enfermeiros e os funcionrios municipais estavam de tal modo cansados,. tresnoitados e nervosos que nem tinham tempo para 
maiores verificaes. Recolhiam-se os mortos s carroadas. Abriam-se no cemitrio valas comurts onde os corpos eram despejados  em seguida cobertos de terra~~O 
xodo da udade era enorme. Quem podia fugir, fugia. Havia pavor em todas as caras e em algemas pessoas a palidez e a algidez do medo eram confundidas com os sintomas 
da peste asitica. O Baro de Muritiba, chefe do governo provincial, estava .tomando providncias para evitar que. o mal se alastrasse pelo resto da Provncia. Contratava 
mdicos e enviava-os para vrios municpios. "
Mandos para Santa F o Dr. Homero Viegas, que chegou um dia de diligncia, reuniu imediatamente a Cmara Municipal e sugeria uma medida que foi aceita por unanimidade: 
fechar a estrada da serra e evitar qu por ela passassem gentes e animais vindos das cidades oade grassava o clera.
Bibiana andava agoniada. Bolvar ainda no voltara. .Suas ltimas cartas eram lacnias, mas at certo ponto tranqilizadoras: Luzia e le estavam bem de sade e 
voltariam para casa "assim que fosse possvel"".
- L ema loucura, doutor! - disse ela um dia a Winter. - En no posso compreender. Por que  que no vieram embora. logo que comeos a peste?
Winter encolhes os ombros:
- Nunca se sabe, D. Bibiana, nunca se sabe. Talvez tivessem surgido dificuldades.
- D caldades? Numa hora dessas ningum pensa em dificuldades. A gente bota o p ao mundo. O medo da peste  mais forte qae fado.
- H coisas mais fortes... - retrucou o mdico, sem saber muito claramente a que coisas se referia. Estava um pouco despeitado, mas grado seu, por no ter sido convidado 
pelo Dr. Viegas a tomar parte na reuno da Cmara.
- E agora," se lea fecham. a estrada ... - perguntou Bibiana - como  que o Boli vai passar?
- Vosmec sabe que essas coisas levam tempo. )g bom no
perder a esperana.
Estavam os dois migos na sala de visitas do Sobrado e Bibiana tinha os olhos voltados para as janelas.
- Esperana? - repetiu ela, sem tirar os olhos da rua. - Esperando vivo eu h muitos anos.
- Vosmec no acredita no destino? No acha que o que tem de ser traz fora?
- Acho.
- Pois ento? Tenha pacincia. H um ditado latino que diz que o destino conduz os que querem ser conduzidos e arrasta os que noo querem.
- Eu tenho andado mais ou menos de arrasto. Nem sempre quero ir pra onde o destino me leva. - E imediatamente, sem mudar de tom: - Toma um licor?
Winter disse que no, agradeceu e se foi.
Naquele mesmo dia, ao entardecer, postada na janela da guafurtada do Sobrado, de onde se avistavam os campos em torno de Santa F, Bibiana viu poeira na estrada. 
Seu corao comeou a bater num ritmo entre alegre e medroso. Pouco depois avistou uma carruagem que parecia vir das bandas do Rio Pardo. S podia ser a jardineira 
de Bolvar - garantia ela para si mesma. Nunca se enganava em seus pressentimentos .. .
Era quase noite fechada quando a carruagem parou  frente do Sobrado. Curiosos vieram para a praa e ficaram olhando de longe, sem coragem de ir apertar a mo daquela 
gente que chegava da zona da peste.
- No deviam ter deixado a diligncia entrar - murmurou um dos filhos de Bento Amaral, que estava ali por perto em cima de seu cavalo. Disse essas palavras e saiu 
a todo o galope na direo de sua casa.
Bolvar deu a mo  mulher para ajud-la a descer da diligncia. Luzia estava toda vestida de preto. Depois del desceu a mucama.  bolia vinha s um dos homens: 
soube-se mais tarde que o outro morrera de peste.
Parada ao portal do Sobrado, Bibiana abraou e beijou o filho e deu molemente a mo  nora, que mal a apertou. Entraram. Cinco velas estavam acesas num candelabro 
no vestbulo da escada grande. Luzia limpou com palmadas impacientes a poeira do vestido.
- Como vai o Licurgo? - perguntou.
- Vai bem - respondeu Bibiana secamente.
- Onde  que est ele?
- Dormindo.
Luzia tirou o leno que lhe envolvia a cabea e sentou-se numa poltrona com um suspiro de alvio.
- Que viagem horrvel? - exclamou.
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A TEINIAGU
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 luz das velas "Bibiana viu a cara do filho e ficou alarmada.
Bolvar estava duma palidez esverdeada e tinha os olhos no fundo.. - Est sentindo alguma coisa, meu filho? Ele sacudiu negativamente a cabea. - No. Estou s um 
pouco cansado. Evitava encarar a me.
- O jantar j est pronto - avisou ela. - No estou com fome.
- Tem um bom churrasco de ovelha, Boli. - Gritou para a outra sala : - Natlia, pode servir 1
- Mas eu preciso me lavar um pouco antes de ir para a mesa... - disse .Luzia.
- Pois v. Ningum est atacando vosmec.
Bibiana estava ansiosa por ficar a ss com o filho. Luzia ergueu-se e, apanhando um castial com uma vela acesa, dirigiu-se para a escada.
Sentado numa cadeira. Bolvar descalava lentamente as botas.
Houve um longo silncio. De p na frente do filho, Bibiana espe
rava, e como ele continuasse calado por vrios segundos, ela disse: - Pensei que noo quisessem voltar mais. Bolvar. permaneceu muda
- Com essa peste horrorosa foi uma loucura terem ficado tanto tempo l. As autoridades no deixaram vosmecs sarem? Houve algum impedimento?
Sem olhar para a me, irritado, Bolvar respondeu:
- No houve nada. Era uma _coisa. e outra e a gente ia ficando .. .
- Mas no tiveram medo?
- Tivemos, me, tivemos.
- Sou capaz de apostar como foi ela que quis ficar. - Ora, mame ... .
- S de maldade. Decerto queria que vomec pegasse a peste. Assim ela ficava viva, vendia o Sobrado e o Angico ia morar na Corte com o Licurgo.
Bolvar entesou o busto e tomou uma atitude agressiva:
- Nem diga uma coisa dessas! A Luzia tambm estava se arriscando a pegar o clera.
- Mas ento por que  que no vieram antes?
Bolvar de novo se fechou no seu silncio soturno.
Depois de algum tempo, com voz mais tranqila, perguntou - Vai tudo bem por aqui?
- Vai.
- Nenhuma novidade?
- Nasceu o filho do Florncio. L homem. - E no Angico?
- Nada de novo. No tem morrido gado. Vai tudo bem.
Bolvar sacudia a cabea, devagarinho. Ficaram num longo
silncio: Bibiana contemplando o filho, Bolvar olhando para o
soalho.
Luzia desceu, tornou a entrar na sala e aproximou-se da sogra: - O Licurgo no est no quarto ... - estranhou ela. Bibiana ficou imperturbvel.
- Eu sei.
- Onde botaram o menino? - Na gua-furtada. - Na gua-furtada? - Vai ficar l uns tempos. - Mas por qu ?
- Vosmecs vieram dum lugar que tem peste. No quero que
o menino pegue.
Luzia parecia ainda no compreender. Lanou para o marido
um olhar que foi um pedido de esclarecimento. Bolvar olhou para
a me.
- Quanto tempo ele tem de ficar l? - perguntou. - Quant tempo for preciso. Bolvar ergueu-se.
- Mas a criana vai ficar sozinha l em cima?
- A ama est junto. No vai faltar nada pro menino.
- Mas  uma bobagem, mame. Ns noo pegamos a peste. - Pod.ser, Boli. Mas sempre  melhor esperar. - Foi g Dr. Winter que lhe aconselhou fazer isso? - pergun
tou Luzia.
Sem olhar para a nora, Bibiana respondeu:
- Tenho juzo suficiente pra resolver essas coisas sem precisar
do conselho de ningum.
Bolvar e Luzia entreolharam-se de novo.
A negra Natlia apareceu  porta da sala de jantar. - A comida est na mesa - roncou ela.
- A comida est na mesa - repetiu Bibiana. Fez meno
de se encaminhar para a outra" pea, mas Luzia deteve-a.
- E vosmec pensa que vou chegar de viagem e noo ver o meu
filho? Pensa que vou passar dias sem ver o Licurgo?
- Penso.
- Pois est enganada. Vou j j subir  gua-furtada. Encaminhou-se de novo para a esada.
- No adianta - disse a outra. - Fechei a porta a chave. - Onde est a chave?
- .No digo.
- Bolvar! Obrigue sua me a me Bolvar ergueu-se.
- Mame .. .
- No adianta, meu filho. No dou.
dar essa chave.
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- Bolvar! - exclamou Luzia. E na penumbra da sala seus olhos fuzilaram como os de uma gata. - O filho  nosso!
Bolvar aproximou-se da me, pegou-lhe da mo, tentou falar com calma. Mas havia em sua voz uma falsa doura que mal encobria a raiva crescente.
- Escute, mame. No vamos brigar. A Luzia quer ver o menino. B s por um momento, no , Luzia? - Lanou um olhar para a mulher, que no fez o menor sinal de assentimento. 
- Ela promete no pegar o Licurgo, s olhar .. , olhar de longe, noo , Luzia?
Luzia estava parada junto da porta do vestbulo, com o castial na mo. Nos seus olhos havia uma expresso de frio dio:
- A comida est na mesa - repetiu Bibiana, esforando-se por falar com naturalidade.
Fz meia volta e dirigiu-se para o cmedor.
- Diga pra essa velha amaldioada que me d a chaveI
Luzia no pronunciou estas palavras: cuspiu-as. A sogra, porm, continuou a caminhar, sem -voltar-se, e foi sentar-se  mesa. Descalo, os braos cados, um pouco 
encurvado, Bolvar encsminhou-se tambm para a sala de jantar. Luzia continuou na outra pea por alguns instantes: a vela tremia-lhe na mo, o espermacete pingava 
no soalho. De repente ela gritou:
-- Bolvar, v j arrombar. aquela porta!
Ele no respndeu.. Sentou-se  mesa, de cabea baixa.
- No seja covarde, Bolvar.l No se deixe dominar por essa mulher.
Bibiana tinha as ms cadas sobre o regao. Seus lbios tremeram por um instante.
- Quer sopa, meu filho?
- Esta casa-  minha - dizia. agora Luzia com uma fria que quase no lhe permitia completar as palavras. - Foi -feita com o dinheiro do meu av. Vocs so dois 
intrusos! Intrusos! O filho tambm  meu. Os. mveis so .meus. Tudo que est aqui dentro  meu. En odeio vocs! Odeio esta vila! Odeio esta provncia!
A vela que , Luzia tinha na mo apagou-se. Ela arremessou o castial contra um vidro da vidraa, que se espedau. Bibiana ergueu os braos, destampou a terrina 
de sopa e tornou a perguntar:
- Sopa, meu filho? ,
Bolvar no respondia.
Luzia avanou at a porta da sala de jantar. A raiva desfigurava-lhe o rosto, cmo se ela tivesse sido subitamente atacada duma peste. Bibiana nem sequer ergueu 
os olhos para a nora. Luzia gritou:
- Me d imediatamente essa chave, sua cadela!
Bolvar ergueu-se to abruptamente que a pesada cadeira em que estava sentado tombou para trs com um rudo surdo. Deu dois,
A TEINIAGUA        441

passos rpidos na direo da mulher, agarrou-a violentamente pelos braos e sacudiu-a.
- Cadela  tu!  tu!  tu!
E repetindo essas palavras, continuava a sacudi-la. Luzia esforava-se por desvencilhar-se do marido..Ergueu os braos e fincou as unhas no rosto dele que comeou 
a sangrar.
Enfurecido pela dor, Bolvar esbofeteou a mulher, uma, duas, trs, muitas vezes, alternadamente com as costas e a palma da mo. Luzia deixou cair ambos os braos. 
Seus joelhos se vergaram e ela foi deslizando devagarinho para o cho, at ficar sentada, com nm lado da cabea e o brao direito encostados no encaixe da porta. 
A expresso de dio que havia em seu rosto deu lugar a uma serenidade triste :. agora as lgrimas lhe rolavam pelas faces, os soluos lhe sacudiam os ombros e ela 
ali estava como uma menininha que acabasse de ser injustamente castigada pelo pai. - Bolvar olhava estupidamente. para a mulher, arquejante, a baba a escorrer-lhe 
da boca entreaberta.
- Meu filho! - exclamou Bibiana pondo-se de p e encarando o rapaz com um olhar duro. - Isso noo se faz! Onde se viu um homem bater numa mulher ?
Por alguns segundos Bolvar ficou assim como que acuado, a olhar aflito da me para a esposa. Por fim fez meia volta e saiu a correr na direo . da escada, onde 
seus passos soaram fortes e apressados.
Bibiana olhava para a nora sem saber que fazer nem dizer. Botar-lhe arnica na cara? Dar-lhe um ch de folhas de laranjeira? Quis adoar a voz e dizer-lhe uma palavra 
de consolo..Mas quando deu acordo de si estava dizendo:
- Quem semeia ventos colhe tempestades.
Virou-lhe as costas e saiu tambm da sala.
18
Na manh do dia seguinte correu pela vila uma notcia sensacional: a Cmara Municipal, por sugesto do Cel. Bento Amaral, declarara o Sobrado de quarentena, isolando-o 
da cidade; seus moradores, desde os patres at a negrada da cozinha, foram notificados de que estavam positivamente proibidos de deixarem a casa durante quarenta 
dias a contar da noite anterior. Para que a quarentena fosse observada com rigor, postaram-se guardas armados ao redor do casaro, com ordens - murmurava-se - de 
atirar aa primeira pessoa que sasse pelas portas ou janelas do Sobrado, ou que tentasse saltar seus muros.
Os santa-fezenses em sua maioria aprovaram a medida.. Bolvar
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A TEINIAGUA
443
- diziam - tinha procedido mal, pondo em risco a segurana d+e Santa F. pauis ter ficado no Rio Pardo, ora ento, em ltimo asq, seguido para o Angico. Mas na loja 
do Alvarenga comentou-se que todo agnlo era apenas uma "bina do velho Amaral". No fundo a coisa no passava dum acinte, duma provocao. Ele ainda noo esquecera 
que Bolvar era filho do homem que no s lhe roubara a rr~alher que ele amava como ainda por cima lhe deixara a marca na cara. Tambm noo perdoava ao falecido Aguinaldo 
o ter construdo um sobrado to grande e confortvel que deixara o seu famoso casaro "achicado", num segundo plano.
Muitas pessoas vinham agora para a praa olhar. o Sobrado. Reconheceram nos gnards que o cercavam, pees da estncia do velho Amaral. Estavam eles sentados debaixo 
das rvores, conversando, com o olho posto ria casa de Bolvar, cujas janelas e portas permaneciam fechadas.
No segando dia de quarentena o Dr. Carl Winter, depois de muito instar com o senhor de Santa .Fr conseguiu licena pau entrar no Sobrado. Seu melhor argumento foi 
o de que algum, no fim de enatas, tinha de ir ver se havia algum pesteado l dentro, e que, a pessoa mais indicada para isso era ele, o mdico da famlia.
O sino da capela batia as primeiras badaladas da ave-mana quando os curisos viram o doutor atravessar a praa com seu andar de girafa e bater  porta do Sobrado. 
Viram tambm quando a porta se abriu e o alemo entrou.
- Suba, doutor - disse Bibiana.
Subiram lado a lado os degraus que levavam do portal ao
soalho de vestbulo. Winter tirou o chapu.
- Vim ver se esto precisando de meus servios aqui. - Esto.
- Algum doente?
- Do clera, noo. Mas passe aqui pra sala. Sente-se.
O mdico sentou-se. A sala estava sombria, de ar enfumaado, e cheirava a incenso.
- Onde est o Bolvar?
- L em cima, no quarto dos fundos. Est l desde ontem, fechado a chave. No come, no bebe, no -fala com ningum. - Mas que foi que aconteceu?
Bibiana contou-lhe em voz baixa, sem omitir nada, tudo quanto se passara ali no Sobrado aps a chegada do casal. Winter escutou-a em silncio, com ar reflexivo, 
e de quando em quando coando Oqueixo.
- E o diabo - murmurou ele; mais para si mesmo que para a interlocutora.
- Qae foi que vosmec disse?
- Digo que  o diabo .. .
. Agora noo adianta chorar. r preciso a gente fazer alguma
coisa-
Como vai a criana?
Bem. Contnua encerrada na gua-furtada.
E a me?
- Est no quarto dela, tambm fechada a chave. Hoje de
manh desceu, me deu bom dia e me pediu desculpa das coisas que
me disse ant"ontem. Eu respondi: Palavras loucas, orelhas moucas."
O mdico sorriu.
- Moucas? Que  isso?
Bibiana encolheu os ombros.
- Sei l3  um ditado. Quer dizer que a gente no deve dar ouvidos quando os loucos falam. Mas como eu ia dizendo, ela pediu caf pra Natlia e depois voltou pro 
quarto. Levou a ctara. De vez em quando toca. No  bem louca mesmo? .

Winter sacudia a cabea dum lado para outro, perdido em dvidas. A situao cmplicava-se. E com que freqncia na vida o dramtico e o grotesco se juntavam e saam 
a pular de mos dadas!
- Nenhum deles viu ainda o filho?
- Nenhum. Eu noo deixo. A-vida da criana  mais importante que tudo mais.

- E que  que vosmec quer que eu faa?

- Quero que fale com o Bolvar. Pode ser que ,ele le ona. Tenho muito medo que -ele faa alguma loucura.  genioso como Opai. Tenho tanto medo que de hora em hora 
vou bater na porta. e s fico sossegada quando ele me responde l de dentro.
Winter habituara-se a sempre falar claro com Bibiana.
- Quer dizer que vosmec tem medo que ele se mate?
- ~. Que se enforque. Desde que enforcaram o Severino ele vive com essa .idia na cabea.
- A idia de se enforcar?

- No. A mania de falar em forca. Sonha com gente enforcada.
Winter pediu licena para acender um charudnh. E quando j o tinha aceso e apertado entre os dentes, disse:
- O Bolvar  um homem que gosta muito da vida. Pessoas assim noo se matam. Alm de tudo, ele tem loucura pelo filho e h de querer pelo menos ver o menino crescido.
Bibiana fez uma careta de dvida e perguntou:
- O senhor acha mesmo ou est dizendo isso s pra era fiar sossegada?
- Est claro que acho.

Por que estou metido nisso? - perguntou Winter de repente a si mesmo.
Bibiana olhou para os lados com ares misteriosos e disse em voz baixa:
+44
O CONTINENTE

- Doutor, alguma coisa aconteceu em Porto Alegre que deiz
o pobre rapaz desnorteado. Depois dessa viagem parece que ficou pior. E en tnho medo que el acabe ficando com dio mim. porque afinal de contas foi por minha causa 
que ele a mulher.
Winter ergam-se.
- Acho melhor eu ir conversar com ele. - Qacr ir agora?
- .Vamos.
Encaminharam-se para a escada e subiram os degraus em silnci No patamar, l em uma, Bibiana fez" com a cabea um sinal ireo duma porta fechada.
- Ela est l dentro.
Seguiram pelo .corredor mal-.alumiado e finalmente chegaram uma. ostra porta.
- Eu vou descer, doutor. O senhor bata, entre, fale com ek d conselhos, veja se pode fazer algema coisa:
Winter limitou-se a sacudir a cabea, num assentimento, depois que viu a mt de Bolvar afastar-se no corredor -bateu porta. No teve resposta. Tornou a bater. De 
dentro do quarta
veio uma voz abafada.
- Qnem ?-
- Soa en. O Dr. Winter.
- Que  que quer?
-~ Faa o favor. de abrir.
O mdico ouviu soas de passos que se aproximavam da porta. De repente eles cessaram e Winter teve a impresso de sentr a presena do outro atravs da madeira chegava 
quase a ouv-lhe s respirao ansiada. Teve receio do que ia ver.. Qaase se arrepender de ter vindo. Aquela gente era teimosa,. difcil; seu raciocnio sem sutilezas 
seguia uma inflexvel linha reta, era como um boi enfarecido gne.leva tudo por diante. Selvagens! Eis o que eram. SelvageasI Mas no fundo Wintr sentia que seu refinamento 
europeu ao passava dam eterno assobiar no escuro, dum permanente fugir aos problemas. Aqueles homens rudes da Provncia pelo menos davam nome s coisas e noo se 
envergonhvam de sena sentimentos.
- BolvarI - tornou a dizer. - Faa o favor de abrr. S por nm instante.
A maaneta movem-se e a porta entreabriu-se. Na .fresta aparecem em penumbra metade do rosto de Bolvar. . - Que  que o senhor quer?
- Duas palavras.
Houve uma leve hesitao do outro. Por fim ele abriu a ~ porra por completo e disse:
O alemo entrou. As janelas estavam fechadas, o quarto escuro, e andava no ar viciado um cheiro azedo de suor humano muitas vezes dormido.
Winter caminhou para uma das janelas, abriu os postigos e ergueu a vidraa. A luz e o ar frio da tard entraram no quarto. Era uma pea quase nua, onde havia ums 
cama-de-vento, duas cadeiras e um velho ba de lata. A um canto se via uma roca antiga, de pedal quebrado.
- Quem foi que mandou abrir a janela? - perguntou Bolvar.
Estava de barba crescida, olhos injetados, em mangas de camisa, ps descalos, as bombachas brancas amassadas. Envelheceu vinte anos - pensou Winter, contemplando 
o rapaz.
_Foi com voz calma que disse
- Um mdico nunca pede .licena para fazer essas coisas.
- Mas en no mandei chamar nenhum mdico.
Winter respirou fundo, como para dominar seu. desejo de dar uma resposta violenta.
- Olhe, Bolvar, no vamos .perder tempo com bobagens.
E ao dizer essas coisas notou que quando se comovia seu portugus piorava, seus erres se faziam mais rascantes, ele trocava o b pelo p e por nada deste mundo conseguia 
pronunciar direito o o. Mas prosseguiu
- Sei de tudo que se passou nesta casa. Sua me me contou.
Bolvar olhava-o, num desafio, como quem diz: "Contou? E da?"
- Vosmc talvez no saiba - prosseguiu Winter - que quando ns recebemos o diploma, fazemos um juramento solene de guardar o segredo profissional. Nada do que um 
cliente me diz ea posso contar a outros. Nada. Estou aqui no sb . como seu , amigo, mas principalmente como mdico da casa.
Deu dois passos na direo do rapaz. Sentia agora que o hlito do outro cheirava a cachaa. Com o canto dbs _ olhos viu uma garrafa junto da cama.
- Por que no vamos nos sentar  conversar com calma, h? Por qu? H?
Puxou uma cadeira e sentou-se. Bolvar hesitou nm instante e depois se recostou- na cama.
- Vamos fumar? - convidou o mdico.
- No tenho fumo nem palha.
- Eu tenho - replicou Winter, tirando do bolso um mao de palhas e um pedao de fumo em rama.
A voz de Bolvar mudou por completo, tornou-se calma,.riataral e - estranho! - quase trocista quando ele perguntou:
- Ento sempre resolveu fumar os nossos crioulos?
Winter soltou uma risadinha rpida.
- A crente se habitua a tudo.
A TEINIAGUA        445
- Entre.
#~F46        O CONTINENTE
Bolvar pegou o fumo que o mdico lhe dera, apanhou  qac tinha debaixo do travesseiro, e comeou a fazer nm ci Winter observava-o com o rabo dos olhos, enquanto 
fingia exa
-        quarto.
- Vosmec e sua mulher tiveram sorte ... - disse ele, de, algum tempo.
- Sorte? Por qu?
- Andaram no meio dos pesteados e no pegaram a doe Bolvar baixou os olhos.
- ); melhor a gente noo falar nisso.
- Mas ns temos que falar em alguma coisa 1 - exdamoa mdico, quase exaltado. - Ser que lhe falta coragem para enfren
-        assento?
- No  questo de coragem. - Ento de que ?
- L que no adianta falar.
- Adianta, sim.
Winter bateu a pedra do isqueiro e quando o pavio estava a aproximou-o do cigarro que o outro tinha pzeso entre os dentes.
Guardou no bolso o pedao de fumo e o pacotinho de palha fez uma pergunta brusca
- Por que  que est metido neste quarto?
- Porque quero.        ,
- Era essa mesma a resposta que era esperava. A resposta dum homem macho. Estou porque eu quero. Mas isso no esclarece nada. As crianas tambm respondem assim. 
Vamos, fale com franqueza. .Fugir a nm problema noo  resolver esse problema. Por que  que est metido neste quarto? No v que noo pode passar o lesto da vida 
assim? Mais cedo ora mais tarde tem de descer. Vosmec8 precisa comer, beber, fazer as suas necessidades. Vosmec  o chefe desta casa. No compreende que essa atitude 
noo resolve nada?
Bolvar sacudia a cabea com impacincia. Tiroe uma baforada de fumo e depois cuspiu no cho com fora.
- En sei, eu sei. Mas  que soe nm homem de vergonha. Ontem bati no rosto da minha mulher. Entoe envergonhado. Homem noo d em mulher. S nm covarde. Me portei como 
nm covarde. En devia mas era queimar estas mos.. .
Abrie ambas as mos, de palmas voltadas pau o alto, e mirou-a oom rancor, como se s elas doessem culpa de fedo quanto atoa Leem.
Winter sacudia a cabea e coava freneticamente o queizo.
- Vosmec no conhece ainda a mulher com quem vve? No
sabe que ela  doente e que sente prazer em fazer os outros sofrerem? Apontoa para a cicatriz de queimadura aa mo de Bolvar. - Isso a, por ezemplo .. .
- Me queimei no fogo .. .
A" TEINIAGUA        4f7

No  verdade. En sei de tudo, Nio se esquea que sou mdico e no nasci ontem.
A voz lhe sara incisiva e tine. Ergueu-se e foi at a janela. Olhou pau as- rvores do ptio, to calmas e belas quela fiou, e ficou am instante a aspirar o cheiro 
leve e claro da tardinha.
- Por que foi que demonnm tanto em Porto Alegre? - pagnnton Winter de repente, sem se voltar pau o interlocutor.
Porque era quis.
4 mdico fez meia volta:
- Diga antes: porque Luzia quis.
- Pois se o senhor sabe de fado, por que  que pergunta?
Winter tentou ontn ttica.
- Seja homem. Bolvar, encare o seu problema de frente. Fiar babo no adianta nada. Os homens desta provmcia parecem achar que podem resolver todo a gritos, tiros 
ora facadas.
Bolvar pitava em silncio, olhando para o cho. Por muito tempo ficou assim. como que esquecido da- presena do mdico. Depois mudou. de posio na cama, cruzou 
as pernas e disse com voz magoada
- L ema histria muito triste e muito compnaa, doutor.
- Um mdico est habituado a ouvir histrias tristes. No tenho nenhuma pressa. Pode contar.
- Por que vosmec abriu tanto a janela?
- Pata entrar ar fresco e um pouco de sol.
- No podia. fechar nm pouquinho?
Winter compreender. Erguem-se e fechou os postigos, deixando apenas uma fresta por onde entrava agora uma estreita faixa de sol.
- H coisas que um homem tem vergonha de contar, doutor.
Honra e vergonha ... - pensou Winter. Como os homens do Rio Grande falavam em honra e vergonha) Honra manchada lavava-se com sangue. Havia uma lei que proibia os 
duelos, mas os duelos se realizavam assim mesmo, a tiros, a espada, a adaga. O Dr. Nepomnceno falava com solenidade em Justia, mas aqueles homens realistas no 
confiavam em juzes e tribunais. Resolviam suas pendncias pelas armas: faziam justia pelas prprias mos.
- Estafe aqui. Bolvar. Se vosmec tivesse uma dessas deenas ... pegadas ... compreende? ... dessas que a gente tem vergonha de contar, que  que fazia? Sofria 
calado e ficava estragado pau o resto da vida ora ia contar tudo ao mdico?
- Contava todo ao mdico. Mas o caso aqui  diferente, doutor.
- No  muito. Vej bem. Luzia  uma mulher doente, doente do esprito. E vosmec vai. acabar tambm doente da cabea se continuar nessa atitude.
- Que  qqe vou lhe contar? Vosmec pelo jeito j sabe de todo. .
- De tudo no. Conte o que foi que aconteceu em Porto Alegre.
448        O CONTINENTE
A TEINIAGUA        449
Bolvar mordia com fora o cigarro apagado. Depois deizoa cair no cho, apertou uma mo contra a outra, entrelaou os
- S depois que comeou a peste l em Porto Alegre  qne
vi com quem tinha casado. Dizem que o pior cego  o que quer ver. Eu andava cego, assim como enfeitiado. Muitas v quando Luzia brigava com a mame eu ficava do 
lado de Luzia. Cheguei at a ficar meio indiferente. como Florncio por causa dela; Agora o Florncio nem entra mais nesta casa.
Calou-se, como que engasgado. Vendo que o outro noo proa seguia, Winter quis ajudar a narrativa e antecipou:
- Vosmec descobriu que todas aquelas coisas horrveis, gente sofrendo e morrendo nas ruas, tudo aquilo para sua mulher eras mesmo que uma festa, no foi?
Bolvar sacudiu a cabea numa lenta afirmao.
- Logo que ficamos sabendo da peste, eu quis wir embora. Ela ficou furiosa. Disse que no tinha feito aquela viagem cansativa s pra passar um ms em Porto Alegre. 
Quando, falei que a gente podia pegar - o clera, ela me chamou de covarde. Assim, fomos ficando. Eu andava desnorteado, desconfiava da gua qne bebia, das coisas 
que comia. No podia dormir de noite. Sentia por todos os lados cheiro de morte, de podrido. Mas Luzia andava contente. Ficava na janela olhando as pessoas que 
caam na rqa. s vezes ia pra fora pra esperar a carroa que vinha recolher os defuntos, ia olhar de perto a cara deles ... Uma vez chegou a entrar numa casa onde 
estavam velando um morto; no conhecia ningum mas foi direito. ao caixo e tirou o leno .da cara do defunto e ficou olhando. Fazia tdas essas coisas .mas de noite, 
aa camas tremia e chorada de medo. E quando eu convidava pra vir embra, ela no queria. `"S mais uns dias, Boli" - ela dizia - "s mais uns dias".
- E que era que vosmec achava de tudo isso?
- Ora,. doutor, s vezes eu tinha vontade de surrar ela, de pegar ela  fora, botar dentro da jardineira e vir embora. Outras vezes ficava com pena, principalmente 
quando de noite ela se agarrava em mim, comeava a tremer e a choramingar.
Winter sacudia a cabea. Tudo aquilo parecia puro melodrama.
- Foi ento que me convenci que tinha casado com .uma mulher louca. E o pior era que eu continuava louco por ela. Vosmec noo pode imaginar como os homens l em 
Porto Alegre olhavam pra Luzia. Uma noite no teatro um capito dos Dnges no tirava os olhos dela. Eu at quis ir tirar uma satisfao~ . .
Winter aprendera que naquela provncia a expresso "tirar uma satisfa " eqivalia quase sempre a um desafio para duelo.
- Pos esse homem depois vivia rondando o hotel onde ns estvamos parando. Fiquei sabendo que o tal capito se chamava Paiva... No .sei,,o que Paiva. Descobri 
que morava na Rua da
Olaria ... Eu estava disposto a ir falar com ele pra acabar duma vez com aquela histria. Foi quando a peste comeou forte. Por fim eu j noo sabia o que fazer. 
Um dia comecei at a pensar qne a Luzia no queria vir embora por causa desse capito. Senti o cime assim como uma facada no peito.
- Mas vosmec acha que ela estava. interessada no capito?
- Camo  que a gente vai saber o que uma mulher como a Luza est sentindo? No teatro- vi que ela tambm olhava pra ele, que estava gostando de ser olhada. Um dia 
peguei ela perto da janela do quarto, olhando pra rua, e vi o capito parado numa esquina. Desci como uma bala. Quando cheguei l em baixo ele tinha desaparecido. 
A se passou um coisa engraada. Depois disso quem no queria vir embora era eu. Precisava primeiro agarrar o tal: capito .. .
Bolvar calou-se. Winter esperava, com o toco de charuto apagado no canto da boca.
- En no devia lhe contar essas coisas, doutor.
- Por que no?
- Porque h coisas que um homem no conta nem pro pai, nem pra me, nem pro melhor amigo.
Ergueu-se de repente, caminhou at um ngulo do quarto, ficou junto da velha roca e su mo distrada comeou a fazer a roda girar. Era um canto sombrio. Como que 
se sentindo protegido pela penumbra, Bolvar continuou:
- Mas eu preciso contar isso pra algum. Preciso desabafar. No  mesmo? Uma tarde a Luzia saiu e disse que ia na costureira. Mas quem  que se lembra de fazer vestido 
no meio da peste? Todo mundo andava louco de medo. Quem podia fugir, fugia. As casas de negcio estavam fechadas. Ningum queria sair na rua de medo de ter um desmaio, 
cair e ser levado como morto pro cemitrio. Pois Luzia nessa tarde saiu. Menti que estava me sentindo mal e disse que ia ficar no hotel. Mas na verdade fui seguindo 
a minha mulher. seguindo. Ela entrou na Rua da Olaria. Vai se encontrar com o
capito - pensei. Vi que tinha de matar os dois. Vosmec noo
imagina como meu corao batia. Mil vezes uma guerra, um entre
vero, uma carga de lana ... Mil vezes um combate bem brabo do
que aquela situao. Porque eu vi que podia cortar o corpo do
capito em mil pedaos, mas que noo ia ter cragem de fazer nada
pra Luza. E que i~ continuar vivendo com ela depois de tudo.. .
Para deixar o outro mais  vontade, Winter noo olhava para ele.
- Pra encurtar a histria, doutor, a Luzia parou na frente
duma casa cor-de-rosa da Rua da Olaria. O senhor sabe, l na
Capital as casas tm nmero. Era o 165. Me lembro bem. O 165.
A port estava meio aberta. A Luzia entrou. Esperei um pouco.
entrei tambm. O corredor estava esuro. Subi a escada devaga
rinho, com a cabea latejando, a meio catacega, meio transtornado.
45O        O CONTINENTE
Primeiro no entendi o que estava acontecendo. Tinha muita gente por ali, conversando baixinho.. A Luzia estava de branco. Vi aquele vulto claro na sala meio escura. 
Depois ~ que compreendi que era um velrio. Espiei por cima do ombro dum homem e vi quando a Luzia chegou perto do caixo, tirou o leno do rosto do defunto e ficou 
olhando. Custei um pouco a reconhecer o Cap. Paiva. Estava muito desfigurado. Fiquei com as pernas moles, fiz meia volta e at agora noo sei com sa daquela sala. 
Naquele dia tomet uma bebedeira braba, dessas de cair. Quase me levaram na carroa, pensando que eu estava pesteado. - Bolvar fez uma pausa. Entostou-se na parede, 
como que subitamente cansado. - Dois dias depois foi a Luzia que me convidou pra vir embora. Disse que estava com saudade do Licurgo.
Winter ficou por um instante num silncio reflexivo. perguntou
- E qu foi que vosmec disse a sua mulher, depois que ela voltou para a penso naquela tarde?
- Nada.
- E ela no sabe que vosmec a seguiu? - No sei. Acho que no.
- E at hoje noo tocaram no assunto?
- At hoje... Agora eu me arrependo de no ter falado. Porque desde ontem estou aqu sozinho pensando, matutando. Passei a noite de olho aceso, me lembrando daquilo. 
Luzia olhando pro morto ... Se ela sabia onde o capito morava era porque tinha estado l antes, vosmec no acha? Rua da Olaria, 165... vosmec no acha?
- )r possvel at que ela nunca tenha falado com esse homem.
Decerto ouviu dizer que o capito tinha morrido e teve vontade de ir ver o corpo dele .. .
- Pode ser. Mas no sei. Quero deixar de pensar nisso e no posso.
- Sabe o que estou pensando?  que Luzia fez tudo isso de pura malvadeza. Ela sabia que vosmec ia segui-la. Viu quando vosmec entrou na casa .. .
Bolvar tornou a dar um tapa brusco na roda da roca.
- O doutor quer dizer que ela nunca teve nada com esse tal Cap. Paiva?
- Exatamente.
Bolvar sacudiu a cabea.
- Isso  bom demais pra ser verdade. Mas de qualquer jeito eu devia ter falado com ela naquele dia. Agora  tarde. No tenho nem coragem. Mas essa coisa no me sai 
da cabea.
Winter aproximou-se da janela e jogou fora pela fresta o tco de charuto.
A TEINIAGU        451

- Mas essa noo  a pior parte do assunto, Bolvar. Faa o possvel para esquecer isso.
- Mas ela  louca, noo , doutor? - perguntou Bolvar de repente, e no tom de-sua voz havia como que uma splica: era como se implorasse uma resposta negativa.
- 13 uma pessoa doente e como tal tem de ser tratada.
.- Mas en gosto dela, no posso viver sem ela, nunca vou ter coragem de mandar a minha mulher pra um hospcio.
Winter estava perplexo. No sabia que dizer. Era uma situao com que nunca se havia defrontado em toda a sua vida. Poderia a propsito dela fazer reflexes filosficas, 
recorrendo a um palavrrio bonito. Mas para um homem como Bolvar, tinha de dar uma soluo prtica, concreta, clara.
- Temos que pensar ... - disse, ao cabo de alguns segundos de reflexo. - Temos que pensar ... - E achou-se tolo, ignorante e impotente. - Mas a primeira coisa que 
vosmec tem a fazer  deixar este quarto e retomar sua vida. No se esquea que  o homem desta casa, o chefe. Com o tempo havemos de descobrir uma soluo .. .
Aquilo era uma promessa v, uma mentira. Sabia que acharia paliativos para aquele problema, mas nunca uma soluo. Se a cincia curava casos como o de Luzia, essa 
cincia noo estava a seu alcance; ele a ignorava.
Com o tempo? - repetiu Bolvar, saindo de seu canto escuro. Por um momento ficou dentro da fita luminosa de sol, que lhe acentuou a palidez amarelada. - Mas vosmec 
no compreende que est tudo de pernas pro ar? O menino fechado l na gua-furtada, a casa de quarentena .. .
- A quarentena h de passar.
- Mas  um abuso! O Bento Amaral fz isso porque no gosta de mim. Era inimigo de meu pai. Tem raiva do Sobrado.
- O Dr. Viegas concordou com a medida.
- O Dr. Viegas j est dominado pelo velho Amaral. Todo mundo aqui diz amm a esse patife.
- Tenha pacincia, Bolvar. No junte mais esse problema aos outros que so muito mais srios.
- Mas  que preciso sair daqui, ir ao Angico ver como esto os meus negcios. Muita coisa pode acontecer em quarenta dias. E vosmec j pensou no que  a gente ficar 
aqu fechado dentro de casa, depois de tudo que aconteceu? J pensou?
Winter ergueu-se.
- Vou falar com o Cel. Amaral e dizer que noo h perigo de vosmecs terem pegado a doena. Todo mundo sabe que tem chegado gente do Rio Pardo todos os dias. Vou 
pedir que acabem com a quarentena.
- No peo favor pr"aquele canalha.
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A TEINIAGUA        453
- No se preocupe. Farei o pedido em meu prprio nome. - E se ele noo atender?
- O remdio  esperar com pacincia. A usa est orada de guardas.
- So os bandidos do Bento Amaral, os capangas dele. Eu conheo.  o bentinho de Ouro, que matou trs homens na Soledade. ir o Quinzote, que degolou um velho na 
Vaaria. Conheo bem essa corja. Esto armados e de guarda por a. O Bento Amaral pens que tenho medo dos apaniguados dele.
Winter ps a mo no ombro de Bolvar.
- Olhe aqui, meu amigo. Desa, tome um banho, um bom chimarro e alimente-se direito. Sua me est aflita por sua cansa. Ela tem medo .. .
Calou-se abruptamente.
- Medo que eu faa alguma loucura?
- Medo de que vosmec se enforque.
- S se eu estivesse louco. Preparar uma corda, fazer o lao, escolher um ramo de rvore, botar o pescoo na corda e depois .. . No. Leva muito tempo. S se eu 
estivesse louco. - Encarou o doutor bem de frente. - Vosmec acha que estou correndo o perigo de ficar louco?
- Absolutamente. Vosmec  um homem normal. S est um pouco apaixonado. Ias isso passa. Principalmente se -fizer o que digo._ Reaja, pense assim: sou moo, noo 
estou em nenhuma dificuldade financeira, tenho um filho bonito e so .. .
- Tudo isso  fcil de dizer, doutor. Mas mo sou nenhuma criana que o senhor pode engambelar pra fazer. tomar leo de rcino.
- Quer dizer ento que vosmec acha mais fcil entrar numa carga de cavalaria e atirar-se em cima dum quadrado de soldados de baionetas caladas?
- Acho, doutor. Vosmec disse uma coisa agora que... Pois . Uma guerra resolvia tudo. Se houvesse uma guerra eu ia. Era o mesmo que deixar a coisa correr. O destino 
que resolva. Men pai tinha razo. Guerra  remdio pra tudo.
- No diga tamanho absurdo!
- Eu digo o que sinto. Mil vezes uma boa guerra.
E dizendo isso dava tapas nervosos e repetidos na roda da roo, fazendo-a girar.
Alguns minutos depois Winter descem. Bibiana esperava-o aa sala de visitas.
- Ento? - perguntou ela.
- No tenha medo - respondeu o mdico. - O Bolvar mo vai se enforcar. No fundo ele ama a vida. Tenha pacincia. Va
mos dar tempo ao tempo, como se diz por aqui. O tempo  um remdio infalvel.
- Tempo  remdio de pobre.
Winter apanhou o chapu e j no vestbulo disse:
- 81e prometem descer e fazer o -possvel para encarar a situao com calma. Vou pedir ao Cel. Amaral que acabe com a qua
rentena. No h razo para isso.
- Vosmec acha que ele acaba.?
- Acho.
- Pois eu duvido.
O mdico estendem a mo para Bibiana, que a apertou de leve. rapidamente,  maneira das mulheres da Provncia, que pareciam temer que as mos de home~ps estranhos 
lhes transmitissem alguma doena.
Vinham agora l de cima os sons da ctara de Luzia. A teiniagu toava uma valsa. Meo desconcertado, Winter lanou um olhar
rpido para Bibiana, abriu a porta e saiu.
19
Por aqueles dias Carl Winter escreveu a Von Koseritz: "Espero que o meu caro baro tenha realizado os seus sonhos, que seu jornal seja um sucesso e a escola outro. 
Quanto a mim, sou um fracassado. O mdico da municipalidade tem agora as preferncias do nosso Junker local. O Sobrado continua de quarentena, j vai para uma semana. 
Devo dar graas por me permitirem entear e sair de l  vontade.. Bolvar anda irritado, considera-se vtima duma intriga poltica e j fala, em duelo. Falei com 
Florncio, perguntei-lhe que podamos fazer para evitar um conflito. `Nada" - me respondeu ele. E explicou que se um Terra  teimoso, um Terra com sangue de Cambar 
 uma mula, e uma mula coiceira. (Foi essa a expresso que ele usou.) Parece mesmo que da parte do velho Amaral o que h mesmo  birra, desejo de desmoralizar Bolvar. 
O Dr. Nepomuceno recusou-se a interceder em favor do rapaz. O Pe. Otero nem quer ouvir as minhas razes. E l est aquela gente filhada no Sobrado e, pior que isso, 
filhada cada um em si mesmo. O meu caro amigo j reparou- que, em ltima anlise, uma pessoa no passa duma poro de paixes, cercada de incompreenso por todos 
os lados? Este pequeno arquiplago de Santa F no est propriamente no Mar Tenebroso, -mas sob sua aparncia de quietude e rotina tem tambm seus dramas. E eu, 
como mdico, fao o curioso papel de lanadeira, indo e vindo a conduzir a frgil linha que costura esse tecido dramtico. Creio que estou ficando literato, to 
literato que no~se admire o meu om amigo se um dia eu lhe mandar sonetos ou
#454        O CONTINENTE
A TEINIAGUA        455
pensamentos filosficos para seu jornal. Pois dramas no falt por aqui, meu caco. Eu os vejo, eu os cheiro, eu os ouo, eu os apal H dramas no casaro do velho 
Amaral. Dramas nas casas d colonos da Nova Pomernia. Drama at no quintal do vigrio, vizinho e inimigo. Drama h tambm no peito encatarroadp do Dr. Nepomuceno. 
l~as o maior drama de todos est no Sobrado,. Como mdico - ah, a nobre, a sublime profisso mdica! - na devo quebrar o sigilo sagrado; mas como velho tagarela 
que aprecia: o espetculo da vida, fico ardendo por cont-los ao mundo. Um dia ainda nos havemos de encontrar para uma longa palestra. Falaremos de tuas realizaes, 
Carl, de teus projetos. Falaremos um pouco tambm sobre o passado. Diremos mal de Napoleo III, da Inglaterra e pcincfpalmente dessa augusta vaca, a Ranha Vitria."
Winter interrompeu a carta. Olhou o relgio. Eram quatro e meia da tarde e ele tinha prometido ir ao Sobrado para ver Licurgo, que estava um pouco febril. Vestiu-se,. 
pensando nas muitas outras coisas que .diria ao baro no restante da carta. Ia perguntar-lhe como conseguia ele escrever to bem em portugus, se no sentia saudade 
da Ptria; se sabia o preo duma passagem de vapor do Rio de Janeiro a Bremen .. .
Botou o chapu na cabea, acendeu um charutinho e saiu.
O cu estava limpo, o ar parado, o sol morno.. Ao passar pela
casa de Florncio, Winter aproximou-se da janela e gritou: - D. Ondina l
A mulher apareceu, vindo do fundo da casa, com o filho no solo.
- Boa tarde, dutor.
- Como vai o menino?
- Vai bem. Tem andado com uns sapinhos na lngua, mas j est melhorando.
- Onde est o Florncio?
- Anda pra fora, fazendo uma tropa.
- Est bom. Precisando de alguma coisa  s mandar me chamar.
- Muito obrigada, doutor.
Winter lanou um olhar de soslaio para o ventre de Ondina. A rapariga estava outra vez grvida. Sorriu ao pensar na histria que Bibiana lhe contara um dia sobre 
uma famosa tesoura de podar
da velha Ana Terra.
Atnvesson a praa em passo lento. No tinha pressa de chegar. Ultimamente achava opressiva a atmosfera do Sobndo - opressivz e rida.
Lnza andava paradoxalmente humilde, terna e submissa. Passava como sempre muito tempo fechada no quarto, tocando ctan ou lendo, e quando descia falava pouco. Bibiana 
desvelava-se em
cuidados para com o neto e tomava conta da casa. Vinham mantimentos da estncia ou da venda do Schultz; os sacos e pacotes entravam pelo porto dos fundos, sob o 
olhar fiscalizador dos capangas de Bento Amaral. Bolvar andava cada vez mais impaciente, fumava cigarro sobre cigarro, e ultimamente (contara-lhe Bibiana. apreensiva) 
dera para passar os dias a beber cachaa. "~ essa maldita quarentena" - queixara-se ela.
No. Ele no tinha nenhuma pressa em chegar. A praa estava bonita. Poucas eram as rvores que o inverno despira. L estava a grande figueira, muito copada, dum 
verde-garrafa sombreado de negro, e com seu tronco e galhos que pareciam membros humanos. Ela tambm era comparsa daquela comdia - refletiu Winter - mais do que 
mera parte do cenrio.
Comeou a atravessar a rua.
- Boa tarde, doutor!
O mdico voltou a cabea na direo da voz. O bentinho de Ouro estava sentado debaixo do cinamomo da praa que ficava fronteira ao Sobrado. Tinha o chapu atirado 
para trs, deixando descoberta a testa curta e bronzeada. Seu dente de ouro luziu quando ele arreganhou os beios para o alemo. Este se limitou a bater com o dedo 
na aba do chapu, lanou um rpido olhar para o homem e continuou seu caminho.
Ouviu de novo a voz do capanga:
- Sete dias, dontorl Faltam ainda trinta e trs!
No respondeu nem se voltou. Mas bentinho de Ouro tornou a gritar:
- Hoje. termino o meu trabalho. De tarde vou pra estnci do coronel. O Man Borba vem me render.
E eu com isso? - pensou Winter, batendo na porta do casaro. Uma das negras escravas veio abri-la e ele entrou. O cheiro do Sobrado - madeira, poro, cozinha, defumao 
- envolveu-o. Agora para ele aquilo era "cheiro de drama", uma emanao dos problemas mesmos daquela casa e de seus moradores.
Bibiana levou-o imediatamente ao quarto de Licurgo. O mdico aproximou-se do bero, pousou a mo na testa do menino e disse :
- Est fresquinha. Acho que a febre se foi.
Ps o termmetro na axila da criana. Pouco depois tirou-o, leu-o e murmurou:
- Temperatura normal.
Naquele momento ouviram-se passos pesados no corredor. Era Bolvar. Ao ver o mdico, atravs da porta, parou e disse:
- Foi bom vosmec ter vindo.
Havia em sua voz um tom que Winter no gostou. Era algo de apertado, gutural e ameaador.
- Est sentindo alguma coisa?
45        O CONTINENTE
As mos do rapaz tremiam e seus olhos tinham um brilho anormal.
- No. ~ Estou bem. Muito bem at. Bem demais.
- Ele anda nervoso por causa da quarentena, doutor .. . explicou Bibiana.
Bolvar voltou, brusco, a cabea para ela e disse; - No se meta, mame, noo se meta. Tornou a encarar o mdico:
- Vosmec  testemunha. Tive muita pacincia at agora. Mas estou resolvido a noo .agentar mais. ~ um desaforo. Eu...
- No se exalte, no h         omeou Winter. Mas o outro cortou-lhe a palavra:
- Meus negcios andam de pernas pro ar. Na vila todo Omundo se ri de mim, encurralado aqui dentro, como um bicho, s porque o Bento Amaral deu uma ordem. Quem  
ele pra se meter na minha vida? Quero botar a mnha marca no outro lado da cara desse canalha!
- Espere um pouco. Posso falar de novo com o homem .. .
- No espero nem mais um dia nem mas uma hora. No quero ficar louco .fechado aqui dentro.. Vosmec como pode andar livre por toda a parte no sabe o que estou 
sofrendo. - Calou-se, ofegante. Olhou o mdico bem nos olhos e disse: - Desa comigo. Quero que seja testemunha.
- Mas testemunha dv qu .... ? - principiou o outro. - Venha I
Encaminhou-se para a escada e desceu apressado. Winter e Bibiana o seguiram.
- Que  que vai fazer, meu filho? - perguntou ela. - Vosmec j vai ver.. .
Aproximou-se da janela que dava para a praa, ergueu a vidraa de guilhotina e gritou para fora:
- bentinho de Ouro! V dizer pro seu amo que eu vou sair!
Aquela voz positivamente noo era de Bolvar - refletiu Winter. O dio a desfigurava.
Winter aproximou-se da janela e olhou para fora por cima do ombro do rapaz. Viu o capanga erguer-se, sob o cinamomo, aproximar-se lento do meio da rua. e perguntar:
- Que tem ?
- V dizer pro seu patro que eu, Bolvar Cambar, vou j j sair do Sobrado.
L de baixo Ooutro gritou:
- Temos ordens de no deixar ningum sair, moo.
- V chamar o Bento Amaral. Diga pr"aquele comoduma
figa que venha me atacar se ele  homeml
E ao dizer isto Bolvar espumava na comissura dos lbios e seu
A TEINIAGU        457

corpo inteiro trepidava. Winter estava simplesmente imbilizado pelo espanto.        . .
O capanga teve um momento de hesitao, mas depois replicou sem rancor:
- ~ melhor vosmec no experimentar. Ns estamos armados.
- Eu tambm estou!
Voltou-se, enfiou o chapu na cabea e disse:
- Chegou a guerra. Agora no tem mais jeito. Eu j disse que saa e saio mesmo.
- Rodrigo! - grtou Bibiana. Imediatamente corrigiu=se: - Bolvar!
Agarrou o brao do filho, mas este se desvencilhou dela com um repelo. -
- No deixe ele sar, doutor! Por amor de Deus, no deixei Vo matar o meu filho.
Winter tentou deter Bolvar, mas o .rapaz o empurrou com tanta violncia que o mdico perdeu o equilbrio e caiu de costas.
Bolvar precipitou-se para o vestbulo de pistola na mo. Desceu em duas largas passadas a escada que ievava  porta, abriu esta com um safanoo e saiu.
- Volte, moo! - gritou bentinho de Ouro "do meio d rua, comeando a recuar devagarinho na dreo do cinamomo. -Volte que eu no quero le lastimar..
-.Que venha o Bento Amaral! - gritava o filho do Cap. Rodrigo. - Que venha esse canalha ladro cachorro covarde corno! Que venha se  homem! , Que venha a capangada!
- No atirem no menino! - suplicava Bibiana, aos gritos, debruada na janela.
De pistola erguida Bolvar caminhava devagar mas impladvelmente, olhando sempre para bentinho de Ouro.
- Pare, senoo eu atiro! - gritou ste ltimo..
- Pois atira, capachoI Atira, pstula!
E continuava a avanar. bentinho de Ouro recuou ainda. uns trs passos: estava agora com as costas tocando o tronco do cinamomo. Vultos apareciam s janelas das 
casas prximas. Mulheres que andavam por ali deitaram a correr em pnico, aos gritos. Homens escondiam-se atrs de rvores. Um velho que ia atravessando a praa 
naquele momento atirou-se no cho e ficou como que costurado  terra.        "
Bolvar estava agora no meio da rua a olhar fixamente para o capanga:
- Onde est o comoladro .que noo- vem?. Chama esse wvardeI Que venha toda a corja dos Amarais2
- Volte seno eu atirol - ameaou ainda o outro.
Dsse isso e levou, brusco, a mo  cintura. Bolvar fez fogo e
458        O CONTINENTE

bentinho de Ouro tombou de joelhos, segurando Oombro es querdo onde o sangue comeou a escorrer. - Que venha mais um! - gritou Bolvar, triunfante.
Mal tinha pronunciado essas palavras quando se ouviram novos disparos: dois outros capangas dos Amarais haviam aparecido e alvejavam de alguma distncia: um deles 
atirava protegido por um dos pilares do porto do Sobrado; o outro achava-se ajoelhada atrs dos degraus da capela. Bolvar no se moveu de onde estava e comeou 
a fazei fogo tambm para a direita e para a esquerda, gritando:
- Que venham mais! Dois  pouco! Que venham!
Para afastar Bibiana 8a janela o Dr. Winter teve de segur-U pelos pulsos e arrast-la at uma cadeira; obrigou-a a sentar-se e ficou a fazer-lhe presso nos ombros 
para que ela ficasse imvel. Por alguns segundos Bibiana relutou, tentou desvencilhar-se do amigo: mas de repente teve um relaxamento de msculos e ali se quedou 
de olhos vidrados e fixos, a boca entreaberta, os braos cados, a respirao arquejante.
Por alguns segundos ficaram os dois a ouvir o tiroteio. Num dado momento os tiros cessaram e fz-se um silncio pressago. Bibiana deixou cair a cabea para trs. 
Trmulo, engasgado, sentindo que o corao queria saltar-lhe pela garganta, Winter aproximou-se da janela e olhou.
Bolvar estava cado de borco no meio da rua, com a cara metida numa poa de sangue.
S dois dias depois  que o Dr. Winter terminou a carta para Von Koseritz. Depois de narrar-lhe a cena da morte de Bolvar, acrescentou: "Havia muita gente no enterro. 
O corpo do rapz foi sepultado entre o de Ana Terra, sua bisav, e o do Cap. Rodrigo, seu pai. Luzia parecia inconsolvel, chorava como uma criana a quem tivessem 
roubado o brinquedo predileto. No cemitrio, antes de descerem o caixo  cova, ela pediu para ver uma vez mais o
marido. Abriram o esquife. Eu no quis olhar o rosto do morto, mas olhei o da viva: No saberei descrever-te a expresso daquele semblante. No era de gozo mrbido, 
como eu esperava e temia, mas sim de dor, de profunda dor. Houve, porm, algo mais que me deixou com uma sensao de frio interior e de repugnoncia por mim mesmo.. 
Naquele momento, meu caro, tive um vislumbre da besta que dorme dentro de cada um de ns, e o que senti me assustou, e at agora no momento em que te escrevo ainda 
me perturba.  que me surpreendi a desejar violenta e carnalmente Luzia Cambar, ali
no cemitrio, naquele momento mesmo em que ela contemplava pela ltima vez o rosto do marido defunto. E de mistura com ess desejo eu senti nusea, como se meu sexo 
se tivesse transferido para a boca do estmago. Fiz meia volta e ..sa do cemitrio apressadamente."

Carl Winter releu o que acabara de escrever e depois concluiu que uma confisso de tal natureza era grande demais para se fazer numa carta. Rasgou o papel em muitos 
pedaos. foi at a cozinha e atirou-os no fogo, concluindo: Uma confisso dessas a gente no
faz nem a si mesmo.
A TEINIAGUA
459
#- sonho de 161ingote Car era ter um cavalo.
-        dia a tentao foi maior que o medo e ele roubou um tordilho numa est8ncia da fronteira.
filas no teve sorte: a peonada saiu-lhe nas pegadas e agarrou-o.
Est aqui o ladro, coronel, que  que fazemos com ele?
-        estancieiro estava furioso, vermelho que nem gringo.
Botem a minha marca no lombo desse bandido. Depois the apliquem trezentos e sessent e cinco aoites, um pra cada dia d an. Sou homem de bem e justia: se no 
procedo com energia, esses abusos no acabam.
Deixaram 161ingote nu, amarrada a um palanque.
-        quando lhe encostaram o ferco em brasa na paleta, o coronel gritou:
Isso  pra tu aprenderes a respeitas a propriedade alheial

1~lingote foi atirado na estrada, marcada como uma rs.
Sai a andas estonteado, com o lombo ardendo e sangrando, e como a dor o cegJSSe, invadiu sem saber outra propriedade alheia.
Tinha febre e em seu delrio era o Crioulo do Pastoreio, repontando campo em fora trinta cavalas de fogo.
Por fim caiu sem foras no cho duma est8ncia porrgntosa que comeava em Bag e entrava Uruguai adentro: diziam que o dono dela podia ir de sua casa at lf~lontevideu 
sem sair de suas terras.

Base foi o fim de hlingote, mas noo o de sua raa. Porque havia outros Cars espalhados pelo Continente.
461
O Lulu, por exemplo.
Vivia sozinho, era barqueiro, e andava por muitos daqueles rios
-        Ca
-        Jacu
-        Taquasi
a cujas macgens agora colonos alemes estavam erguendo casas,
abrindo picadas, fazendo. roas.
Um dia Lulu Car viu quando os ndios saram do mato, ataca
ram um desses povoados e mataram muitos colonos.
Ficou de longe, denrco do barco, olhando de olho pacado. No fez um gesto, no de um passo, s disse Ch gua!
No rinha nada com aquilo e afinal de contas, pra falar a vec
dade, a terra era mesmo dos bugres.

Havia tambm o Jos Cac, por alcunh Juca Feio.
Nunca dobcou a espinha diante de ningum, sempre estava contra
o governo.
Contam que rinha cavalo, boas botas e pistolas na cinta, Usava chapu de barbicacho e cabeleira to comprida que dava
at para fazer trana.
Era inditico, carrancudo, mal-encarado e de fala fina.
(Com cavalo de olho de porco, cachorro calado e homem de fala
fina... de celancina.)
Tinha a cara to riscada de cicatrizes que parecia um campo
lavrado.
Perguntavam.
l~le diga uma coisa Juca, onde foi que te deram esse talho que
te vai de orelha a orelha, cheio de voltas que nem o Rio Camaqu? No combate do Poncho Verde.
-        esse nos beios?
Na tomada de Caapava.
-        esse no meio da testa?
A baioneta dum cocrentino, na guerra contra Rosas.
-        esse no pescoo?
Juca Feio fechava a cacranca e cornava lesse  um talho particular.
-        no dizia mais nada.

De todos os Cars o que tinha famlia maior era o Chiru.
Dez filhos, sem contar os mortos.
Depois de muo andar com a mulher e as crias batendo estradas
e cruzando invecnadas, conseguiu licena paca erguer um rancho nos
campos do Angico, no municpio de Santa F.
Quando a casa ficou pronta, olhou para a mulher e suspirou Queira Deus que agora a gente fique sossegado no seu canto.
#462
Por algum tempo Deus quis.
Viviam dos restos da cozinha da estncia
tinham licena de trazer para casa a fressura das reses carneadas. E D. Bibiana Terra Cambar, senhora do Angico, deu-lhe de
presente uma vaca leiteira.
Tudo corria to bem que Chiru comeou a desconfiar, porque a experincia lhe dizia que
laranja madura na beira da estrada ou est azeda ou tem marimbondo,
Um dia apareceram pelo rancho dos Cacs um sargento e duas praas, montados em bons cavalos:
andavam recrutando gente
pois tinha rebentado outra guerra, Chiru no ouviu direito con
tra quem, mas desconfiava que era outra vez contra os castelhanos. Disse adeus  mulher e aos dez filhos e seguiu a p os homens do governo.

Aprendeu a dar tiro de espingarda
a marchar
a entender a lngua dos superiores, das cornetas e dos tambores.
E quanto se viu de uniforme ficou faceiro como potrilho novo. Pela primeira vez na vida andava completamente vestido.
Generais de uniforme bonito bandeiras, espadas, clarins e cargas de lanceiros lembrando as cavalhadas
dos cristos contra os mouros.

Foi tambm na guerra que Chiru pela primeira vez na vida
ouviu uma banda de msica.
Ficou meio louco, com vontade de chorar.
Mas ficou mais louco ainda quando espetou o primeiro para
guaio na ponta da baioneta.
Teve tamanha alegria que chegou a soltar um urro. Estava acostumado a matar passarinho para comer
mas nunca matara bicho maior que um veado dos pequenos. Via agora que matar homem era bom, porque enchia mais o peito. Da por diante s pensou na hora do entrevem. 
Derrubar paraguaio de longe a tiro no tinha graa
-        bonito era carga de baioneta.
Vrias vezes foi repreendido pelos superiores
porque era muito afoito e no esperava a ordem de avenar.
Os batalhes ganhavam fama e com a fama apelidos:
-        2. era o Dois de Ouro
-        12. o Treme-Terra
-        13. o Arranca-Toco
-        16. o Glorioso
-        o 1. de artilharia, o Boi de Botas.
Uma coisa Chiru nunca entendeu:
Por que era que os argentinos e os orientais estavam agora do
lado dos brasileiros?
Ficava tambm meio confuso quando conversava com os camara
das doa batalhes que vinham do Norte.
Eram homens de fala esquisita
de pouca comida mas muita coragem bons na arma branca, ligeiros e ladinos. S no tinham era resistncia para o frio. Aquele inverno de 65 foi brabo.
Muito nortista baixou enfermaria encarangado. Alguns morreram de doenas dos bofes.
Chiru deu o Capote a um soldado do Par e trocou com um ans
peada da Bahia os seus coturnos por um pedao de fumo em rama. Gachos galhofeiros recitavam versinhos
463
Correame negro e paramentos carabina com bandoleira sabre-baioneta
patronas, bornal e cantil cartucheiras na cintura mochila s costas coturnos nos ps.
E na manga da tnica um
Imprio e trs palavras Voluntrio da Ptria.
Eu s queria que minha gente me visse agora!

Chapu de fltro com barbicacho:
na aba levantada, o tope nacional e o verdes
numero
do batalho.
emblema cor de ouro com a coroa do
Chiru Car gostou da guerra.
Nunca pensei que fosse to linda!
Era mesmo que uma festa: fandango ou puxiro. 16luita gente bem fardada muito cavalo e canho
muito barulho, tiro e grito muito sangue pelo cho.
#464
1~landai, 161e de Deus, mais uns dias de minuano Pra acabar com tudo que  baiano.

No cerco de Uruguaiana Chiru viu o Imperador que passava em revista as suas tropas.
Ficou petrificado, de boca aberta.
Quando eu contar isto pra minha mulher e meus filhos, vo dizer que sou mentiroso.
lulas por esta luz que me alumeia, juro que vi D. Pedro II, Pai de todos ns, passar na minha frente em cima dum cavalo branco com arreios de ouro e prata.

Doutra feita Chiru avistou o grande Osrio montado no seu ginete
com o pala-poncho batendo ao vento seu chapu preto de copa redonda
sua famosa lana de bano com lavores de marfim. Era natural do Continente
tinha brigado nas Guerras da Cisplatina e na doa Farrapos. Contavam que havia sido o primeiro soldado brasileiro a pisar terra .paraguaia,  frente de seu piquete.

Era por coisas assim que Chiru gostava. da guerra.

lulas foi uma campanha comprida e custosa.
1lonia mais soldado de peste que de bala, metralha ou armo branca.
No houve praga ,que no atacasse aqueles exrcitos. Veio a bexiga negra.
Chiru carregou muita padiola com camaradas agonizantes, de
cara enegrecida, a pele se descolando e toda coberta de pus. Veio o clera        " Vieram mil febres
-        as cibras de sangue.
Era gente a tombar por todos os .lados, retorcendo-se de dor, com  cara mais branca que papel.
No inverno marchavam debaixo de chuva
ou com o minuano na cara
e muita vez Chiru ajudou os companheiros a empurrar canhes t
canetas que se atolavam na lama. No vero marchavam na soalheira
-        soldados caam de insolao.

Foi uma campanha comprida e custosa.
1~Ias Chiru Cac andava contente
porque em tempo de paz sua vida nunca fosa melhor.
465

Agora ao menos comia carne, tinha amigos, uma carabina com baioneta
e matar homem era bom
enchia o peito.
Um dia descobriu que seu companheiro de arcaca era um tal de Florncio Terra, natural de Santa F, sobrinho da velha Bibiana, dona do Angico e do Sobrado.
1~iundo velho bem pequenol

Vassuncs no acreditam?
Por Deus Nosso Senhor: sobrinho da velha Bibiana! Dormia perto de mim. e nunca gritou comigo me tratava de igual pra igual.
Um dia caiu ferido, com um balao na perna, e ia ficando pra
trs ...        -
Se os paragaios pegassem ele, adeus tia Chica! Vai ento corri
pro homem, botei o bicho nas minhas costas e voltei a meio galope
pra dentro das nossas trincheiras..
O mo perdeu um pouco de sangue, mas quando entreguei ele
prol padioleiros, inda teve fora pra arreganhar os dentes e me dizer
baixinho
Obrigado, companheiro.
Quem havia de dizer!. Sobrinho da velha Bibiana, dona do
Angico e do Sobrado.

Foi por tudo isso que Chiru Car gostou daquela. campanha. Na paz vivia como um bicho. Na guerra era. um homem.
#O S O B R A D O
26 de junho de 1895: Manh


Quando o dia amanhece, Curgo sobe  gua-furtada para falar com o homem que passou a noite de viglia. Encontra-o enrolado no poncho, sentado junto da janela, a 
espiar  praa- e arredores atravs das vidraas meio embaciadas.
- Que tal, Ernesto?
- Nada de novo. Estou aqui desde as duas da madrugada. L pelas quatro mais ou menos vi gente safado da cidade a cavalo pras bandas de Passo Fundo. Acho que os maragatos 
j comeanm a se retirar.
Licurgo olha pra fora e murmura
- No sei, no sei ... Pode ser uma cilada pra fazer a gente sair do Sobrado. 1; bom noo arriscar...
- Pode ser ... - repete o outro, abrindo a boca num largo bocejo.
- Desa, que eu fico aqui por enquanto. Quando o Damo acordar, diga pra ele que suba. V comer alguma coisa. Tem muita laranja e bastante gua. Nossos companheiros 
passaram a noite caminhando pelo quintal, trouxeram quanta gua quiseram. Chegaram at a tirar o Aflauto de cima da tampa do poo e entemram ele atrs do marmeleiro.
-  engraado. Os federalistas estes dois ltm~ dica . aio deram nenhum tiro. Acho at que noo ficou ningum na torre esta noite.
- No sei. Fs,~ negcio aio me cheia bem. A corja decei.o est_ ,..preparando algema tnio.
Ernesto pe-se de p, espreguiando-se num estralar de junina: encaminha-se para a escada e dentro em breve seus passos comeam a soar surdamente nos degnus. Cargo 
abre de par em par a janela da gua-furtada, senta-se num mocho janto dela e debrda-se nobre o peitoril. A brisa mida da maahi o envolve, dando-lhe a impreaso 
de que mergulhou a cabea na gaa fria dum aude. Aa faces e as orelhas lhe ardem, e ele aspira com fora o ar que cheira a setcno e a campo. Pensa no Angico e em 
Ismlia com uma saudade impaciente. Onde estar ela agora? Qne lhe ter acontecido? Talvez
#f68        O CONTINENTE
tcnha conseguido fugir... Mas fugir para onde? O mais provi. vel  que haja sido presa e obrigada a ir para a cama com aqueles maragatos do inferno. Por alguns segundos 
Licurgo fica a ruminar o prazer carnal que tantas vezes a rapariga lhe deu ; lembra-se do: olhos dela, da voz dela, das formas- e do contato do corpo dela - tudo 
isso, porm, dum modo remoto, apagado, frio. Talvez a esta hora Ismlia esteja morta, enterrada e podre. E Licurgo pensa na filha recm-nascida, dentro da caixeta 
de marmelada, e como que sente de novo o cheiro da terra mida e limosa do poro, ao mesmo
- tempo que se imagina a enterrar Alice naquele cho negro: em aegaida  um dia de sol e de paz, num outro tempo, e vozes cochicham nas roas: ".`Aquele que ali vai 
 o Cel. Licurgo Cambar. Uma feral Na revoluo de 93 os mangatos cercaram o Sobrado, mas ele ao se entregou. Sacrificou a filha, a mulher, os amigos, mas no 
afrouxou. Uma fera!" Ele reconhece as vozes: gentes de Santa F. Que vo todos pro diabo I
Dirige o olhar. pesado de sono para a graa, que uma luz plida comea a iluminar. As rvores, os telhados e a terra esto midos de rocio e prateados de geada. 
L do outro lado. continuam fechadas as janelas. e as portas do edifcio da Intendncia. Nenhum galo canta. No se enxerga viva alma nas redondezas do Sobrado. Santa 
F parece uma cidade de taperas.
Curgo olha para o alto do campanrio. E se neste momento um maragato estiver fazendo pontaria na minha cabea? Dessa distncia-  tiro certo ... Mas que me importa? 
Deixa-se ficar onde est, com o queixo sobre os braos, os braos sobre o peitoril, as plpebras_ pesadas, a , cabea oca, uma broca fria a verrumar-lhe o estmaga 
Por sua mente desfilam imagens de pessoas, trechos de conversas, cenas dum passado recente - e de sbito Licurgo torna a sentir, omo em tantas outras vezes desde 
que comeou o cerco de sua casa, a impresso de que foi vtima duma terrvel, colossal ira justia. "Fazerem isso pra mim, Logo pra mim ... " - murmura ele com os 
olhos postos na figueira grande, como se a ela ~estivesse dirigindo a queixa. .
Desde que se proclamou a Repblica foi ele sempre a autoridade mxima de Santa F. Com a queda da monarquia os Amarais perderam os cargos pblicos e o prestgio. 
E desde 89 ele. Cargo, no fez outra coisa sento trabalhar pelo progresso e pela felicidade de sua terra. Foi eleito intendente municipal de Santa F pelo voto livre 
da populao e por uma maioria inapelvel. No pediu nem comprou votos, noo coagiu eleitores. Aos prprios pces, agregados e amigos ntimos disse: "Votem em quem 
quiserem, pois esta vai ser a - primeira eleio livre na histria do municpio." Depois de eleito, recusou-se a receber seus honorrios. Muitas vezes chegou a tirar 
dinheiro do prprio bolso para custear bras pblicas: construir pontes, reparar estradas e ruas. Tratava toda a gente com
O SOBRADO - V        469

afabilidade, recebia a todos. ouvia a todos. Os colonos de Garibal
dina e Nova Pomerfnia obtinham dele tudo quanto pediam. A n
tendncia era a casa do povo. No entanto, muitos dos homens a
quem prestou favores se voltaram contra ele, esto agora atirando
conte esta casa a cuja mesa tantas vezes comeram, esta casa onde sem
pre foram recebidos por assim dizer como pessoas da famlia. Mas de
todas as mgoas a que mais lhe di  a que lhe causou Torbio Rezende, seu melhor a~ngalidade de GaspardSilvei~ra gMartins, uTo~bio Fascinado pela penso
abandonou os companheiros de ontem, fz-se parlamentarista, tarou- fileiras com os maragatos, afastou-se aos poucos do Sobrado e por fim chegou at a escrever vemnas 
contra Jlio de Castilhos, chamando-lhe ditador. Castilhos ditadorI Era o cmulo do absurdo chamar tirano a um homem que para evitar a guerra civil abaadonoa voluntariamente 
o cargo de presidente do Estado para o qual fora legalmente eleito. E quando a revoluo rebentou, Tonteio uniu-se s foras de Jaca Tigre, convencido - o idiotal 
- de que os federalistaa queriam salvar o Rio Grande da ditadura, no compreendendo - o infelizl - que por trs daquelas conversas de parlamentarismo e liberdade, 
o que os maragatos queriam mesmo era restaurar a monarquia, destruir a repblica pela qual o prprio Torbio tanto se batera.
Mas agora; - reflete Licurgo - aprozima-se a hora do ajuste de contas.. Gnmercindo Saraiva est morto. O Alm. Saldanha. da Gama aceda burlequeando pelo Estado com 
seu batalho de marinheiros sobrados da revolta da Armada. e que nada podem fazer em terra firme sen3o fugir e evitar os combates.. Muitos dos chefes federalistas 
j comeam. a emigrar para o Uruguai e a Argentina.
Talvez dentro de mais um dia ou - quem sabe? - de poucas horas as foras de Firmiao de Paula estejam entrando em Santa F. E nunca - pensa Licurgo, olhando pau o 
casaro dos Amarais, l do outro: lado da praa - nunca Alvarino Amaral poder dizer: "Perdi a revoluo .mas tomei Santa F e tive o gosto de entrar: no Sobrado 
de chapu aa cabea e fazer o Licurgo. dobrar a espinha." Nunca. Quando no futuro se falar na .Revoluo de 93, ho de dizer: "O Sobrado agentou um cerdo de mais 
de dez dias. e no se rendeu." Ton~io e Rodrigo crescero ouvindo essa histria e aprendendo com ela a dar valor  casa onde nasceram - a am-la, respeit-la e defend-la: 
e compreendendo acima de fado que existem na vida dum homem de honra duas coisas sagradas que ele deve fazer respeitar  casta de todas os sacrifcios: a cara e 
a casa.
A luz do sol noa pontos vai ficando mais viva e dourada e os campos ao redor da cidade lentamente emergem _ da sombra gris e ganham tons esverdeados. A geada brilha 
como vidro modo.
Licargo passa os dedos eatanguidos pelos . cabelos. A vontade de fumar d-lhe uma ardncia na lngua. Torna a pensar em Ismlia
47O        O CONTINENTE
e em Alice, mas entre as duas surge em seu esprito a figura de Valria. Cadela ! Aquela solteirona seca e antiptica a meter-sr onde noo  chamada! Torna a ouvir-lhe 
a voz: "Ento podemos fazer trs enterros. O da criana, o do Tinoco e o da Alice." No. Alice no pode morrer, noo deve morrer. A morte da coitadinha dt nada servir 
aos maragatos nem aos republicanos. Ser, isso sim, mais uma injustia dolorosa.. Mas acontece - reflete Cargo engolindo a saliva grossa e amarga - que este mondo 
parece andar mesmo sem governo. No h bom-xnso, no h justia. pessoas direitas sofrem; canalhas gozam. Inocents pagam pelos pecadores, Nem sempre o justo e o 
bom triunfam. E nesta revoluo cruel bandidos sao glorificados. Diz o Pe. Romano que, a verdadeira jaatia est no Cn e noo importa muito o que acontece neste 
mundo. Mesmo quem observar a revoluo com caidado achar difcil dizer de que lado est Deus. Duma coisa era sei - pensa ele -  que oe Deus est do lado dos fedenlistas 
o melhor  Ble ir tratando desde j d emigrar para a Banda Oriental.
O sol agora bate em cheio ao rosto de Licargo Cambar, que de novo apia os buos no peitoril, descansa sobre eles uma das faces e cerra ce olham.
Liroa est de novo no aen posto, no alto da torre. Deitado nas lajes, ele espia o Sobrado atravs da seteira. Faz, alguns minutos qae acordou, enanngado de frio, 
trmulo de fome, doido de vou-~ fade de tomar uma coisa gneste, mate ora. cachaa. Ao despertar olhou para o Sobrado e viu nm homem 3 janela da gua-fartada; reconhecer 
Licnrgo. Teve uma vontade danada de gritar: "O" Curgol Ento como vai a caixa por a?" Mas ficou calado, porque inimigo  inimigo. Qual! Se fossem inimigos de verdade 
sua obrigao tn meter ama bala na cabea do outro. Muito fcil: bastava dormir na pontaria e - pi! - era uma vez nm tal de Licnrgo Cambar. Muito bonito. O Rodrigo 
e o Tordo ficavam rfas, D. Alice enviuvava, Maria Valria perdia o cunhado. E ele, Jas Lrio, a carregar pelo resto da vida o peso daquele removo. MaUr nm homem 
em combate era uma coisa; matar de tocaia. 3 traio, era am crime, nm assassinato.
Lima saspin. Est fado agora caminhando pau o fim. O Cel. Alvarino j comeos a retirar saa gente ds adade; e oorn  boca pequena que ele est preparando todo #xira 
emigrar pau o outro lado do rio. O bom. mesmo, condo Leoa,  era levantar uma bandeira buas, correr pros pica-pari e me entregar.
Passou a noite a ver o movimento dos repablianos no quintal do Sobrado: iam e vinham do poo pau a asa carregando gaa. A princpio andavam de rastos, depois escarvados, 
por fim j aminhavam naturalmente. Chegaram at a tirar o ala bnna de
O SOBRADO - V        471

cima do poo. E ele, Lroca, nem teve coragem de atirar. Teve, isso sim, foi vontade de gritar
"Andem ligeiro! Levem gua pras crianas, pras mulheres! E dem lembrana pra Maria Valria!"
Se ela aparecesse agora assim de repente a nina das janelas, ele noo resistiria  tentao de lhe gritar alguma coisa que lhe desse a entender que enquanto Jos 
Lrio estiver de vigia na torre da igreja os republicanos podem ir e vir no quintal sem serem molestados. Mas qual! Maria Valria no vai aparecer... Ningum sabe 
aqui fora o que est acontecendo l naquele casaro. Pode ser at que a moa esteja doente ora ferida... Ningum est livre dama bala perdida. Guerra malvada! Guerra 
tirana!
Liroa acaricia a coronha da Comblaia, como s ela fosse o ombro da mulher amada. Encosta depois uma das faces na pedra fria do parapeito e fica mirando com olho 
triste as jazrelas do Sobrado.


Maria Valria acha-se ao p da caria de Alice com a mo
espalmada sobre a testa da rm, que tem ainda os olhos cerrados.
Graas a Deus a testa so est to quente, a febre deve ter baizado.
Se ao menos agora o stio terminasse e o Dr. Winter pudesse vir
com remdios ... Ou ento se Cargo abafasse seu orgulho e pedisse
uma trgua ... Ela sabe que  costume fazer isso at mesmo nas
guerras grandes entre naes.
Alice abre os olhos e fia por algum tempo a fitar a irm com
uma expresso estonteada. Depois seus lbios que a febre crestou,
se movem, procurando formar uma palavra.
- Fica quieta, Alice.
- Os meninos? - balbucia a doente. =- Espera .. .
Maria Valria sai do quarto e volta aps um breve instante tra
zendo os sobrinhos, que ficam parados em silncio junto do leito
da me. Primeiro os olhares de ambos fixam-se no rosto dela, mas
depois descem-lhe pelo seio e demoram-se sobre o ventre. Por fim
os dois meninos se entreolham significativamente.
- Beijem a me de vocs - ordena a tia.
Bles se inclinam sobre Alice e beijam-lhe chdumente a testa.
Ela continua com os braos estendidos ao longo do corpo, sob aa
cobertas, e seus olhos se enchem de lgrimas.
- Agora saiam - diz Maria Valria. - E noo faam barulho. - Podemos ir l pra baixo? - pergunta Torbi. - No. Fiquem no quarto. E no abram a janela. - Por que, 
madrinha?
- Porque no.
As duas crianas lanam mais um olhar para a me e saem do
quarto na ponta dos ps.
X72        O CONTINENTE
O rosto ~ Alue est crispado numa expresso de pesar e as lgrimas lhe acorrem pelas Enes afogueadas. Sem dizer palavra, Maria Vakria toma dum leno e comea a enxugar 
o rosto da irm com mais eficrencia do que ternura. Podia tentar consol-la com mentiras - reflete. -Mas  intil. Por mais qne se esforce no conscgair pronunciar 
a menor palavra de esperana. Porque a rq~lidade  s rama, dan, fria e triste. O Sobrado continha cercado. A comida se acabou. A criana nasceu morta. E se o stio 
se prolongar, ningam sabe quantas coisas horrveis podem ainda acontecer.
Maria Valria cruza os braos, aperta-os contra o estmago, que lhe di desde a noite anterior. Quantas horas faz que no come? Vinte e quatro? TrinU? Mas o pior 
de tudo  no poder dormir, despnaar. esquecer...
"Tio agento mais. Acho que vou acabar louca, abrir a porta da rua e sair correndo e gritando ... "
Tem de sbito a impresso de que uma terceira pessoa acaba de entrar. Volta a cabea e v a prpria imagem refletida no espelho do lavatrio: um fantasma de xale 
nos ombros.
Do quarto vizinho vm agora as batidas da cadeira de balano d D. $ibiana. A velha j comeou a funcionar ... - pensa Maria Valria. E fica a escnUr o ban-ban cadenciado 
e surdo, que lhe parece rama voz. 1: como se Bibiana Terra Cambar estivesse procurando dizer-lhe alguma coisa. E Maria Valria, sem saber claramente como nem por 
.que, enche-se aos poucos dum nimo novo, ao mesmo tempo qne diz para- si mesma: Se ela que tem noventa anos pode agentar todo isto, eu tambm posso. E atira um 
olhai de desafio para a mulher cadavrica do fundo do espelho.
Quando Licurgo desce da gua-furtada para a sala de jantar. encontra seus companheiros a comerem laranjas com rama voracidade raidasa de porcos esfaimados. No se 
pode fartar a am sentimento de mal-estar e impacincia. Esquece por nm instante que estes homens so sena correligionrios, seus amigos, qne no somente esto partipando 
com ele das perigos e dnrezaa desU gnem civil como Umbm esto defendendo o Sobrado. E nesse rpido instante de untado esgnaimento sente-se ofcndido por ver aquelas 
gentes - entn as grama se acham nco pces do Angico - rasarem as salas de sua casa daarimoniosamente. cuspindo e esamndo no cho, encostando nas paredes as nbeas 
sebosas. riscando o soalho com a tnseta de suas esporas. empestando o ar com o cheiro azedo de seus corpos sejas. E Licurgo. qne suba de vir l de cima, onde respirou 
ar paro. fnnzc o nariz e tem mpetos de mandar escancarar imediaUmente todas as janelas.
A luz do sol bate em cheio no rosto do velho Fandango, que dorme senUdo numa ader. a cabea cada sobre o peito. Curgo
O SOBRADO - V        473
olha-o por alguns segundos, num vago .temor de que ele esteja morto. Tem a impresso de que seu peito no se -move. Pousa-lhe a mo na testa: fria. Comea ento 
a sacudir o velho. pelos ombros. Fandango abre os olhos e pe-se de p como um automato:
- Que foi? Que foi? - pergunta ele, atarantado.
- Nada - responde Curgo - nada. ~ que te vi meio parado e fiquei pensando...
-        outro esfrega os olhos, ,boceja e estende os braos, espreguiando-se.
- Pensou que o velho tivesse morrido?
- Pensei.
- Ch gua? J te disse miles e miles de vezes que o Fandango pode morrer um dia, mas noo sentado. H_ de ser em cima do lombo dum cavalo ou ento de p, danando.
-        esfregando as ndegas com as palmas das mos, ele sai no seu tranco de cavalo marchador na direo da cozinha, a gritar:
- Que  que .tem pra se comer, Laurinda?
Neste mesmo instante Florncio. Terra sai. da despensa, aproxima-se rengueando do genro e diz-lhe em voz baixa:
- O Tinoco morreu.
Curgo franze a testa.
- Quando?
-        sogro encolhe os ombros.
- No sei. Decerto esta noite .. .
Licurgo fica a olhar para Florncio, perdid. Tinoco lhe havia sado por completo do pensamento. As outras preocupaes eram tantas e to fortes, que ele nem sequer 
se lembrava do pobre-diabo que agonizava na despensa. Seja como for, sente-se agora aliviado. Morto Tinoco, ele fica livre da responsabilidade de fazer alguma coisa 
por ele: cortar-lhe a perna ou meter-lhe uma bala na cabea para abreviar-lhe o sofrimento.
Florncio resmunga
- Morreu como um cachorro sem dono, abandonado, sem um cristo que botasse uma vela na mo dele. Todo o mundo se esque
ceu do coitado .. .
Curgo toma essas palavras como uma censura e fica logo espinhado.
- Que era que o senhor queria que eu fizesse? Que ficasse l dia e noite lambendo o ferimento dele?
Florncio no responde. Fica cofiando os bigodes com seus dedos magros e amarelos, os olhos baixos. E como o genro nada mais lhe diz e continua a mir-lo com olhos 
agressivos, ele torna
a falar:
- 1; preciso enterrar ele o quanto antes. J estava meio po.. .
- Chega! - vocifera Curgo. - Eu sei.
-        velho faz meia volta e encaminha-se para a escada.
474        O CONTINENTE

Erguendo a voz, Licurgo anuncia:
- O Tinoco morreu.
Os homens nada dizem. Agachado a um canto, Antero comea a fungar ao passo que as lgrimas lhe vo brotando nos olhos. Um dos companheiros lana-lhe um olhar enviesado 
e estranha
- U ? Que  isso ?
Cuspi na cara dele - pensa Antero. - Fui um prevalecido.
A bem dizer cuspi na cara dum defunto.
- Precisamos enterrar o corpo duma vez - diz Curgo. Jango Veiga, que est  porta da cozinha, pergunta: - Onde?
- No quintal, perto da parede da casa. Acho que no h perigo. No tem ningum na torre.
- Poz que no no poro? - sugere o outro.
- No! - apressa-se a responder Curgo, quase ofendido. A simples sugesto de enterrar Tinoco no mesmo cho onde est sua filha, lhe  to repugnante que ele a repele 
como uma ofensa pessoal.
- Se esto com medo de sair pro quintal, deixem que eu mesmo fao o servio sozinho.
Jango Veiga cerra os dentes e diz com voz apertada:
- Ningum est com medo de coisa nenhuma, seu! Se quiser podemos r enterrar o Tinoco at l na frente da Intendncia. Quer?
Por um instante os dois homens se miram com rancor. Curgo sente gana de esbofetear Jango Veiga, mas contm-se, e com voz alterada diz:
- Enterrem onde quiserem, menos no poro. Jango Veiga volta-se para os companheiros e grita:
- Vamos buscar o Tinoco! Podemos enterrar ele debaixo da escada da cozinha.
Ao anoitecer rompe inesperaaamente um tiroteio. Os homens correm para seus postos de Comblain em punho. Curgo, que estava deitado a dormir um sono leve, de superfcie, 
desperta sobressaltado, salta da cama, apanha a espingarda e desce as escadas a correr.
- No atirem sem primeiro ver o inimigo! - grita. - No desperdicem munio.
Algumas vidraas das janelas que do para o norte se partem.
Uma bala entra por uma das bandeirolas e vai cravar-se no teto. - Acho que esto atirando da casa do Naziazeno. Esse tiro
veio de baizo - grita Joo Batista, olhando para o teto.
O choro dera menos dum minuto. Cessa de repente. Curgo
s~^be pau a gua-fartada.
- Que foi que houve. Damio?
O caboclo est ajoelhado junto da janela semi-aberta, com a espingarda apoiada no peitoril.
O SOBRADO - V        475

- Ainda no sei - diz ele, sem erguer a cabea. Curgo ajoe
lha-se junto dele.
- Donde vieram os tiros?
- L do outro lado da praa. Ouvi um barulho de cascos.
Acho que atiraram de cima de cavalos a galope.
- Deve ser algum grupo que est se rettrando.
- Pode que sim, pode que no.
Curgo olha a praa deserta.
- Tem algum na torre? - pergunta.
- No v ningum.
- Fique de olho na estrada. Acho que no demora muito as tropas republicanas aparecem.
Lcurgo ergue-se e desce para o primeiro andar, sentindo que o corao lhe bate, acelerado, que a ao lhe fez bem, deu-lhe. nm calor bom ao corpo. Ahl 1; mil vezes 
mais fcil suportar o stio lutando!
Sentado numa cadeira, de faca em punho, para se distrair Florncio tira lascas duma vara de marmeleiro, e as esqurolas se vo acumulando a seus ps. Curgo olha 
para o sogro com m vontade. e seu sentimento de culpa, longe de torna-lo humilde e conciliador. predispe-no  agressividade. Ele sabe ,exatamente o que Flornci 
est pensando, conhece as queixas que ele recalca no peito. Seria melhor que o velho falasse claro e alto, pois assim ele tens tambm a oportunidade de desabafar, 
de dizer-lhe um bom par de verdades. Sim, ele respeita o sogro. ~ seu prente de sangue, primo-irmo dt seu pai. Um homem de bem no h dwida alguma, mas no nm 
homem de ao ou princpios polticos. No fundo ainda suspira pela monarquia, e foi s forado pelas circunstncias que tomou partido nesta revoluo... Curgo tem 
o olhar fito em Flornco. espera que ele erga a cabea para provoc-lo a uma discusso. O velho, porm, continua entretido a tirar lascas da vara, como se disso 
dependesse a sorte do Sobrado.
Antero est acocorado a nm canto da sala, o busto encarnado. a cabea metida entre os joelhos. Os outros homens mmeaut a reunir-se ao redor do fogo, pois com o 
cair da noite o frio aumentou. Sobre suas cabeas soa a cadenciada e mansa trovoada produzida pela cadeira de balano de Bibana.
Aos ouvidos de Curgo chega a voz alegre de Fandango, que conversa ao p do fogo:
- Aquilo  que foi guerra braba.
#A
1
aquele dezembro - o sexto dezembro da Guerra - j no
havia em Santa F famlia que no chorasse nm morto. Desde o incio da campanha a vila fornecera ao exrcito nacional seis corpos de voluntrios. Os que noo morriam 
ou desertavam, voltavam feridos ou mutilados, e em sena. rostos os outros podiam ler todo o horror da guerra. As mulheres j no tiravam mais o luto do corpo: viviam 
a rezar, a fazer promessas e a acender velas em seus. oratrios.
Durante aqueles cinco anos de campanha, Santa F noo apenas estacionara: mostrava mesmo sinais de decadncia. As obra, da igreja nova, iniciadas em 1,863, foram 
interrompidas por falta de dinheiro e de braos.- Os homens vlidos da vila estavam em terras do Paraguai - em cima dela lutando on debaixo dela apodrecendo. Os 
campos do municpio achavam-se quase despovoados: o governo. fizera pesadas requisies de cavalos e reses; e os pees em idade militar haviapi-se apresentado como 
voluntrios. As lojas viviam s mercas; fazia-se pouco negcio. O correio chegava com irregularidade, quando chegava. As residncias conservavam suas janelas quase 
sempre fechadas, e as que. ficavam desabitadas dentro em ponto se transformavam em runas. Durante todos aqueles anos poucas vezes se ouviu som de gaita on canto 
em Santa F; nem houve ali fandango. quermesse, cavalhadas ou outra festa qualquer. Ningum tinha vontade de se divertir nem nimo para cantar, danar ou brincar, 
sabendo que parentes e amigos estavam na guerra. E por mais que ae dissesse que Solano Lopes estava perdido, nenhuma esperana havia de paz prxima.
No entanto, numa manh de princpios de 1869 o sino da igreja repicara, festivo, para anunciar que a paz fora finalmente assinada. Um estafeta, vindo de Rio Pardo 
com a mala postal, fora o portador da grande notcia. Houve risadas, dioros de contentamento, gritos e vivas. Os santa-fezenses saam para a rua e abraavam-se; 
velhos inimigos, estonteados de alegria,. reconciliavam-se. Janelas abriamse e as mulheres preparavam-se para pagar as promessas feitas aos santos de sua devoo.
#478        O CONTINENTE
No dia seguinte a .Cmara Municipal mandou rezar uma
em ao de graas pela . terminao da guerra. A igreja ficou guante de gnte: homens, mulheres e crianas amontoavam-se dentro, sentados nos bancos on de p nos 
corredores; havia at soas escarranchadas nas janelas.  frente do templo uma multid enchia a rua e ia at quase o meio da praa. Gente que em t
sua vida nunca tinha ido  missa, naquele dia se encontrava igreja. Na hora do sermo o Pe. Otero estava de tal forma com vido, que quase noo pde falar. "Meus irmos 
..." - balbucio "A guerra terminou. Deus, na sua infinita bondade e sabedoria . , . Ento ouviu-se um zunzum de vozes abafadas  porta da igre O . padre calou-se. 
O murmrio continuou, cada vez mais fo Algum fez - cht! "Deus na sua infinita bondade e sabedoria. : - repetiu o .vigrio, olhando alarmado a entrada do templo 
od cabeas se agitavam e o vozerio se fazia cada vez mais alta sacerdote tornou a calar-se. Do meio da multido, l fora,_ va -.uma voz de homem: "Chegou um ofcio 
pra Cmara. Foi tn boato. A guerra ainda continha 1" Estas ltimas. palavras for berradas com raiva, numa .espcie de repto. ao Deus sbio e misen cordioso de que 
o vigrio acabava de falar. Houve uma pausa atnita, como se a respirao de toda aquela gente ficasse subitamente cortada.. Mas em seguida romperam .gritos e choros, 
e os fiis pre apitaram-se para fora, numa pressa aflita, quase em pnico, como se algum tivesse gritado - "Incndiol" O padre desceu do plpito e encaminhou-se 
para o meio da rua, onde os membros da Ctri~ra Municipal estavam reunidos. Havia realment chegado um ofcio do governo da Provncia prevenindo contra as falsas 
notcias da terminao da guerra e pedindo mais cem voluntrios, cem cavalos e duzentas reses.
Foi como se uma sombra casse sobre a vila. As mulheres . passaram a olhar com pena e temor para os filhos adolescentes. "Se a guerra dura mais uns anos, eles. ficam 
homens e tm de marchar pro Paraghai." E de novo se puseram a rezar, e dia e noite ardiam velas no altar de Nossa Senhora ~ da Conceio e em todos os oratrios 
de Santa F. E o primeiro inverno depois daquela falsa notcia parecer-lhes mais frio, mais escoro, mais duro de suportar que todos os outros. Quando soprava o mnhano 
ou chovia, elas pensavam nos seus homens que estavam longe, lutando. E quando ao despertar pela manh viam a geada nos telhados, lembravam-se num arrepio dos soldados 
que tinham passado a noite ao relento, e choravam.
Velhos quietos pitavam sentados  tardinha na frente de shas asas, pensando. nas guerras em que haviam tomado parte, e nos tempos d"antanho quando tinham a fora 
da mocidade e andavam a fazer tropas ou a amperear. Agora no prestavam mais para as lidas do ~ampo nem para as da guerra, e ali estavam parados,
Foi naquele quente e abafado dezembro de 1869 que chegaram de volta a Santa- F alguns voluntrios que a guerra deixara invlidos. Entre eles estava Florncio ferra, 
que recebera hm balao no joelho. Desceu da carroa apoiado em muletas. Estava to ba;budo, to magro e sujo, que a prpria mulher no o .reconheceu no primeiro 
momento. Ficaram os dois frente a frente, parados, mu~os, a olhar estupidamente um para o outro. De repente ela se atirou nos braos de seu homem e .desatou o choro. 
Florncio abraou-a, m pouco desajeitado por v-la fazer aquela cena no meio de tanta gente. Ao redor deles havia uma grande balbrdia, mistura de risadas, de choro 
e tambm de silncios : o silncio pesado das mulheres e dos velhos cujos .parentes tinham morado, e que ali estavam ,para ver a felicidade. dos outros.
Ondina soluava,. com a cabea encostada ao peito do marido.
- No chore - disse ele, acariciando de leve os cabelos da mulher. - No  nada. Voltei vivo.
Ela queria dizer alguma coisa mas no podia.
- Como vo as crianas? Por que  que no vieram?
Finalmente Ondina conseguiu falar. Contou que os filhos o esperavam em casa,- e que estavam todos bem.
Fazia quatro anos que no via Florncio. Um dia. no inverno de 66, correra por Santa F a notcia de . que ele tinha morrido. Ela, porm, tivera o pressentimento 
de que aquilo no era verdade, e nunca deixara de esperar a volta do marido.
Caminharam para casa, parando aqui e ali quando conhecidos vinham cumprimentar Florncio.. Qeriam saber onde e como tinha sido ferido; se a coisa era grave; como 
ia a guerra; quando vinha a paz; se era verdade que Solapo Lopes eslava morto.:. Florncio respondia na sua maneira lacnica, constrangido por estar sendo alvo de 
tantas atenes. Caminhava apoiado nas muletas, com  perna esquerda, dobrada e rgida, o p no ar. O ferimento lhe ardia: o
corpo todo lhe doa e ele tinha uma desagradvel sensao de febre.
A viagem at ali fora to dura como a prpria guerra. Eram quinze
homens imundos e doentes amontoados numa arroa. Um morrera
no caminho, outro estava agonizando. Tinham toanado chuva e
passado fome na estrada..
Ondina no dizia palavra. Chorava mansamente, sena rodo e
j nem mais se dava o trabalho de enxugar as lgrimas. Florncio,
que tanta saudade sentira de sua terra naqueles anos de ausna.
agora nem sequer olhava para as casas. Era. como se temesse, ena-
A GUERRA        479
inteis, fracos como mulheres. Olhavam melancolicamente as outras pessoas, meio envergonhados, como a pedir desculpas por terem envelhecido. E ningum ficava sabendo 
se tinham os olhos lacrimejantes de velhice ou de tristeza.
#48O        O CONTINENTE

r-las, como se elas fossem pessoas e lhe pudessem fazer alguma per;. gunU embaraosa. Quando chegou  praa, fez alto e olhou pn
        melro para a figueira e depois para o Sobrado. L estava o casara com su fachada caiada a reverberar a luz da tarde. Florncio sentr um aperto no corao. 
Lembrou-se de , Bolvar, de Bibiana, de Luzia e todo o- passado pareceu cair sobre ele como cinza fria. Um pergunta se lbe formou no esprito: chegou a descerrar 
os lbios para a- formular, mas cnteve-se em tempo. Era melhor no reme zer naquelas coisas ..:. Continuou a andar.
Os filhos. o esperavam  .frente da casa.. Juvenal, Maria Valri e Alice..: Flrncio parou a ~ alguns passos deles sem saber q fazer nem dizer. Estava contrafeito, 
como se defrontasse estranhos. Olhava as trs caras morenas, e tristes que  miravam com expreasao bisonha. Teve mpetos de apert-los todos num longo abrao, de 
beijar-lhes ce rostos muitas, muitas vezes. Mal, porm, nasceu ase deRejo,..uma vergonha antecipada desse gesto o congelou. Continou parado,. olhando .. , Mas precisava 
dizer alguma coisa. I pergantar. "Se .portaram direito quando o papai noo estava em casa?" - quando Ondina falou:.        -
- Peam .a.. bn.
Primeiro veio Juvenal. Tinha quase quatrze anos e um ar oblquo de bugre. Beijou a mo do pai e ergueu. para ele os olhos muito pretos e lustrsos. Florncio pousou 
a mo na cabea" do filbo e disse:
- Deus -te abenoe e guarde, Juvenal
Depois veio Maria Valria, que ele. achou magra e alta demais para. seus nove anos.
- A bno.
Florncio sentiu na mo os lbios miios e frescos da menina. - Deus te crie pro bem, minha filhe ,Quando chegou a vez de Alice, a criana rompeu a chorar,
agarrou-se  - saia da me, gritando
- Esse homem no  meu pai ! No  meu pai ! No  meu pai ! f Desconcertado, Florncio lanou um olhar pattico para Ondin . e entrou em casa de cabea baixa, 
arrastando as muletas no cho.
Na manh seguinte foi com a mulher ao cemtrio levar flores aos tmulos dos pais, que haviam morrido ambos de bexigas pretas ponto antes de ele" partis para a guerra. 
Ficaram longo tempo em silncio a olhar para as duas sepulturas rasas. O cemitrio estava completamente abandonado. Ervas cresciam por entre .os tmulos,
A GUERRA        481
os muros de pedra caam aos pedaos e joos-de~-barro tinham feito seus ninhos no telhado do jazrgo da famlia Amaral.
Eram dez horas e o sol brilhava num cu limpo. Florncio olhava para as duas cruzes e pensava nos pais. Mas era a imagem do velho Juvenal que ele guardava na memria 
com mais nitidez. Sua me j era to apagada mesmo em vida, a coitada! Na cruz estava escrito: Juvenal Terra, 18O3-1864. Paz  Sua Alma. Sim - refletia Flornci 
- paz era o que o Velho sempre desejara. Era um homem direito que gostava de viver em paz com as outras criaturas e com- sua conscinci~ Nunca tinha feito mal a 
ningum, era trabalhador, cumpria suas brigaes, no era homem de violncias, mas quando era necessrio brigar, brigava mesmo. Deus tinha feito bem em levar o 
casal na mesma semana. Agora ali estavam os dois, lado a lado, dscansando na terra onde tinham nascido, na terra que haviam cultivado e amado. E Florncio, pensou 
: um dia hei de vir descansar aqui. E a Ondna tambm. E mais -tarde at as Crianas. E os filhos dos meus. filhos . .
Uma grande pergunta de repente cresceu dentro dele. Para qu? Para que tudo isso? Para que tanta trabalheira, tanta doena, tanta desgraa, tantas andanas, tanta 
aflio? Para que, se um dia a gente vem parar mesmo numa cova de sete palmos onde fica servindo de comida aos bichos da terra?
Apoiado nas muletas, Florncio olhava fixamente para a sepultura do pai e lembrava-se agora daqueles dias horrveis do ano de 64, quando a bexiga grassava em Santa 
F. O primeiro caso tinha aparecido num rancho- no fim da Rua da Independncia, e depois se alastrara por toda a vila. Sua me fora das primeiras a serem atacadas 
: ficara com a garganta cheia de pstulas e s podia se alimentar de leite, s colherinhas. U rosto da coitada tinha ficado completamente prto e as solas de seus 
ps comearam a cair assim como casca de marmelo cozido. O Dr. Viegas mandava conservar- os doentes num quarto escuro completamente fechado. O velho Juvenal foi 
atacado em seguida e morreu sufocado em menos de vinte e quatro horas. Como tinha sido duro e cruel aquele fim de ano! Ir quando a cidade comeava a convalescer 
da peste, chegou a notcia de que havia arrebentado a guerra. E algumas pessoas emendaram o luto pelos parentes mortos de peste com o luto pelos parentes mortos 
na guerra. A casa dele, Florncio, havia sido milagrosa mente poupada pela doena. E no dia em que partiu para o Para
guai ele disse  mulher:
- Deus noo me matou de bexiga decerto pra me matar na guerra. Ningum foge  sua sina.
Mas Deus tambm noo consentira que ele morresse na guerra. E agora ali estava ele, decerto aleijado para todo o resto da vida. Procurava interessar-se de novo pelas 
pessoas e pelas coisas, mas nio conseguia. Queria pensar em plantar, em criar gado, em reco-
#482        O CONTINENTE

mear a vida de qualquer modo, mas noo sentia a menor vont
de trabalhar, s queria ficar parado, calado, pensando, lembrando das coisas do passado, e concluindo sempre que nada, nada valia a pena. Nem mesmo quando olhava 
para a mulher e para filhos que agora estavam l em casa quase nus, comendo pouco mal, nem quando pensava no futuro da famlia sentia nimo paq~ lutar. Tinha passado 
o diabo naquela guerra, onde noo s se morram varado de bala, de baioneta ou lana, mas tambm de tifo e cmara de sangue. Tinha visto coisas de arrepiar. E a idia 
de q com suas prpnas maos matara outros homens - pessoas que nem conhecia e que antes noo lhe tinham feito nenhum mal deixava-o perturbado, com a sensao de ter 
cometido vrios crim Trazia ainda nas ventas o cheiro da guerra : suor de homem e tk cavalo misturado com cheiro de pus, de podrido e morte. No ar livrara ainda 
das. muquiranas que trouxera das trincheiras e daR acampamentos. Muitas vezes, naquelas terras estrangeiras, quandq, conseguia repousar por algumas horas entre um 
combate e outro ficava deitado de costas no cho, olhando para o cu, pensando em Santa F, na sn,t casa, na sua gente, nas campinas ao redor da vila, imaginando 
tomo seria bom voltar, dormir de novo numa cama limpa, comer um bom churrasco numa mesa decente, tomar nm banho no Lajeado do Bugre Morto, conversar com os parentes 
e os amigos. Que era que ele estava fazendo ali no meio daquela soldadesca, com a carabina ao lado, esperando e temendo que o clarim de repente rompesse. num toque 
a rebate? Nessas horas lhe vinha um desejo enorme de desertar. Mas em seguida envergonhavase s de pensar naquilo. S um covarde seria capaz de fazer uma coisa daquelas 
uma traio to grande aos companheiros. Pensando melhor, acabava achando que era preciso mais coragem para desertar do que para continuar pelejando. Finalmente 
dormia, porque o cansao era grande. E muitas vezes em sonhos se via a si mesmo voltando para Santa F, conversando com Bolvar debaixo da figueira ou ento caminhando 
como uma alma penada pelos corredores infindveis dum casaro.
Desde sua chegada Florncio ainda noo falara no Sobrado. Era um assunto que sempre evitava. Desde o dia da morte de Bolvar ele nunca mais pusera os ps naquela 
casa. Havia, porm, uma coisa que ele ardia por perguntar  mulher. Ondina ali estava a seu lado, calada, arrumando as flores sobre as duas sepulturas.
Deixando Oolhar fugir por cima do muro de pedra na direo do horizonte, Florncio perguntou:
. - Vassunc entrou alguma vez no Sobrado quando eu estava na guerra ?
Ondina continuou muda a mexer nas flores. - No ouviu o que lhe perguntei?
- Ouvi - respondeu ela, levantando-se, limpando as mos no vestido mas evitando encarar o marido.
- Esteve ou noo?
- Estive.
- Mas noo devia.
- Ora, Florncio, tia Bibiana vivia me chamando.
- Mas noo devia.
- Ela mandou me chamar tantas vezes que . no fim eu j nem tinha mais desculpas pra dar.
- No  por causa da tia Bibiana. r por causa da outra.
- A outra nem vi. Sempre que eu ia l, estava fechada no quarto.
- Foi melhor assim.
Ondina apanhou do cho. um toco de veia e comeou a limp-lo distratdamente na ponta da saia, ao mesmo tempo que perguntava:
- E vassunc? No. vai visitar tia Bibiana?
- Ela sabe que noo boto os ps naquela casa.
Ondina olhou para o marido e disse:
- Vassunc est ficando cada vez mais parecido com o seu pai.
- Com quem mais eu havia de estar parecido? Qnem me dera que eu fosse como ele. Meu pai era um homem de bem.
Por um rpido momento Florncio teve a impresso de que Juvenal Terra o estava escutando, e isso o deixou um pouco desconcertado, pis ele sabia que, se havia coisa 
que o Velho detestasse, era que lhe fizessem elogios assim  queima-roupa.
Saiu a visitar outras sepulturas, e ao ver a prpria sombra no cho - um homem de muletas com a perna dura e. o p no ar comeou apensar em que talvez no futuro 
ele viesse a ser conhecido na vila como o "Florncio Pep". Anteouvia cochichos: "L vai o Florncio Pep. Foi na Guerra do Paraguai, cotadol Uma bala no nervo. 
Lembrava-se dum tipo de sua infncia, o Joca Madureira, que tinha uma perna mais curta que a outra. Muitas vezes ele e Bolvar, trepados na figueira e escondidos 
entre seus ramos, viam o homem atravessar a praa rengueando e gritavam: "doca Pep!" Joca voltava-se para todos os lados, noo enxergava ningum mas gritava, cuspindo-se 
de raiva: "Pap  a me."
Florncio parou diante da sepultura de Bolvar Cambar. Era toda de alvenaria e tinha em vez de cruz uma esttua de mrmore, uma mulher de asas - um anjo - tocando 
lira. Florncio sempre achara aquilo uma ostentao de que Boli no havia de gostar. Alm disso, aquela esttua parecia Luzia ... Era por isso que agora Florncio 
fazia o possvel para noo olhar para o anjo: lia apenas a inscrio na lpide de granito. Mas a inscrio tambm lhe dava um certo mal-estar, porque era um epitfio 
em verso, feito por ela. Com todas aquelas coisas em cima, o pobre do Bolvar estava mais morto do que se repousasse numa sepultura rasa.
A GUERRA        483
#4E4        O CONTINENTE
A GUERRA        f85
Florncio comeou a lembrar-se de outros tempos. Viu cria brincando debaixo da figueira grande, seus ps de menino es vam figos verdes no cho a fumaa cheirosa 
duma fogueira .ramos secos subia para o cu. Viu tambm o lajeado, ouviu o ru
da gua, sentiu cheiro de sabo preto e de mato. Bolvar na
em largas braadas, fazendo muito barulho. "Vamos jogar carreira!" - gritou. - "Barro!" E perto dele, num contr surgiu o corpo negro e lustroso do Severino .. .
Florncio teve a sensao de que todos os amigos que posa
ao mundo estavam mortos. Pior que isso: tinham-se matado .aos outros. Meu lugar tambm  aqui no cemitrio - pensou.
tambm estou morto. Teve vontade de dizer  companheira:
pra casa, Ondina. Eu fico, porque o meu lugar  aqui."
porm, pensou essas palavras, a imagem do pai se lhe desenhou esprito e ele lhe ouviu a voz descansada e grave: Quando a seca gcande no h nada como tocar fogo 
no past ruim pra que vera o bom. Era assim que Juvenal Terra costumava falar quando acontecia alguma desgraa. Ele no desanimava nunca, estava s pre pronto a recomear.
Florncio suspirou, olhou para a mulher e convidou - Vamos pra casa?
No dia seguinte, por volta das trs da tarde, Florncio foi visit o Dr. Carl Winter, que .agora morava numa meia-gua na Rua d Farrapos, na quadra que dava pata 
a Praa da Matriz. Fazia muit calor - e o mdico, que havia pouco - despertara da sesta, recebu completamente nu, e s depois de cumprimentar o visitante  q se 
lembrou_ de amarrar na cintura uma toalha de algodo. Florn estranhou que o alemo noo lhe fizesse as perguntas habituais sob a guerra. Notou tambm que o Dr. Winter 
envelhecia e que havia. fios brancos em suas barbas e cabelos ruivos.
- Sente-se, sente-se, - disse o mdico, mostrando uma ca deis. - Toma nm mate?
- Aceito.
- Heinrich Reine!
Do fundo da casa surgiu um negrinho de canela fina, cabeorr oval e grandes olhos- de jabuticaba.
- Senhor I
- V fazer um mate. Schnell
- Jau~ohl.
O moleque fez meia volta e tornou a desaparecer. Florncio estava admirado.
- Ble fala mesmo alemo? - perguntou.
- No. S sabe dizer sim senhor.
i- E como E mesmo o nome dele?
~- Foi batizado como Sebastio. Mas eu o chamo Heiarich Reine.
Florgncio olhou para o mdico sem compreender. Tinha a vaga suspeiq de que o homem no eabva muito bom. do juzo.
Wtnter 3cenden uan cigarro de palha, lanou nm olhar enviesado para F1o~+Encio e ezplicon:
Reine  o nome dum grade. poeq alemo. - Apontou parr nm volume: enadernado em touro que esgva em cima da mesa. - Foi o homem que escreveu aquele livro:. Se era 
tvesse um filho. poria- mele o nome de Heinrich Hene em homenagem a um dos meus poetas favoritos. Como raso tenho, dou esse nome a meu escravo.
Mao confaso, sem saber que dizer, Florncio remeaen-se na pdein e observoa:
- Pelo que vejo, o doutos" at agora noo quis saber de casamento .. .
Wiater comeou a. coar a coza peluda.
- D muito trabalho, Florncio,- d muito trabalho.
- 8. H pes ozs que ao contra.
O dono da casa sentou-se, de pernas muito abertas, os braos uazados .sobre o tnz -.onde se via o relevo das costelas. Fcon (amando em silncio e a pergangr a 
si mesmo se a visiq de Flo
rncio era. de carter. aocal -ou profissional.
- Que fim levou a Gregria?
Wiater .fez am gesto vago.
Entrou na fresca noite...
- Como?
- Kaputt: Morreu. - E para si mesmo recitou baixinho: - "Der Tod, das. iat die "kcihle Nacht."
~ae foi que o ,senhor. disse?
- Nada. Esgva recitando nrri verso de Heiae sobre a morte.
Ah.
~lorno achava um ponto difcil entrar no assento que o levara  casa do mdico. Sempre lhe fora desagradvel pedir t muito mais desagradvel ainda colocar-se numa 
situao de inferioridade perante outro homem. No era orgulho: era ... nem mesmo ele sabia qu.
Pazott um pigarro, agarrou as muletas que tinha posto horizontalmente sobre as_ cozas, e comeou:
- Doutor, era vim pra vosmec dar uma olhada na minha perna.
- Qae  que h com a sua . perna ? - perguntou winter sem olhar pau o outto.
- Como vosmec sabe, fui ferido num combate, e fiquei com a perna encolhida e dera.
- E -que  que quer que eu faa?
#486        O CONTINENTE
Florncio ficou chocado com estas palavras, o sangre lhe s ao rosto, as orelhas lhe arderam; e por um instante, penar no achou as palavras de que precisava. Por 
fim, tartamudeou:
- Bom. Queria que vosmec me examinasse . ,. , pois . me dizer se h esperana ....
Winter levantou-se e caminhou para o outro. - Deixe ver.
Florncio arregaou as alas at acima do joelho, que esta envolto em ataduras. Winter acocorou-se ao lado dele e comeou desfazer as ataduras. Ficou longo tempo 
olhando o ferimento; a panda a perna, e fazendo perguntas ao paciente. Depois ergueu foi at a gamela e comeou a esfregar as mos cm sabo de sem dizer palavra. 
Florncio esperava.
- Ento; doutor?
Winter meteu os dedos pelas barbas e coou o queixo.
- No precisa mais usar esses panos. A ferida. est ciatrizada, Florncio olhava o outro bm nos olhos. - Ser que vou fiar com a perna dura pro resto da vi
doutor?
Winter continuava a coar o queix sem dizer palavra, lanandp olhares enviesados para a perna do outro.
- Talvez no fique bem como ntes - disse, ao abo. de. alguma reflexo. - Mas com um pouco de exerccio sua pesca, vai ficar quase ba.  preciso fazer umas massagens. 
Vou ensinar` a D. Ondina como se faz.
O moleque ntrou com a cuia e a chaleira d"gua quente, entre gou-as ao amo e retirou-se sem fazer o menor rudo.
Winter encheu a cuia d"gua e deu-a a Florncio; que comeou chupar na bomba melancolicamente. Estaria o doutor dizem aquelas coisas s para o animar? Ou poderia 
ele mesmo um di caminhar sem muletas?
- Experimente andar sem muletas, s com um basto. Fa fora para endireitar a perna, mesmo que da. E procure aminhar, caminhar bastante.
Winter. comeou a andar dum lado para outro, e quando Florncio lhe vn as ndegas muito bramas, recobertas dum pelo fulvo. ficou tomado dum certo constrangimento 
e temeu - ele mesmo na: sabia ao certo por que - que algum entrasse naquele momento e os visse em to grotesa situao.
Passou a caia para o outro. Winter comeu a tomar o seu mate. Estava agora dominado pelo hbito do chimarro,, que sempre achara eive grose Schweinerei, uma grande 
porcaria.
Florncio ardia por saber como iam as coisas no Sobrado, mas noo queria principiar o assunto. Como se estivesse a ler-lhe os pensamentos, o outro perguntou:
- J viu D. Bibiana?
- No. Vosmec sabe que na entro naquela casa.
- Sei. , Mas vai contiawr sempre assim? - No h nenhuma razo pr"eu mudar.
- H muitas. Uma delas  que o menino precisa de sua
amizade.
- Mas noo acha que o que aconteceu  bastantt p en nana
mais btar os ps no Sobrado?
Winter deu una tapa "no vcuo.
- ch! ,Isso aconteceu h muito tempo. - Foi ontem, doutor:.
- Pois acho que vosmec devia quebrar ser. orgulho .. . - No  orgulho.
- Qne  entro? Teimosia? - )~ vergonha.
- Vergonha de qu? Vosmec no vai pedir nada. Vosmec
rio tem. do que se envergonhar.
-.Aquela mulher... - principiou Florncio, mas no pde
continuar. O que ele na verdade sentia no podia -dizer a ningum.
Winter terminou a frase duma maneira para o outro inesperada e
choante.
- Aquela mulher no tem vida pra muito tempo! - Como assim?
- Um temor maligno no estmago! - exclamou o mdico,
quase com raiva. As vezes perdia a pacincia com . aquela comdia
provinciana que de quando em quando queria tomar- o carter" de
tragdia. No era tambm muito tolerante para com suas rudes
personagens, que noo podiam compreender certas sutilezas da vida.
E desforrava-se delas falando-lhes com -uma franqueza que s vezes
chegava a ser brutal..
Florncio ficou silencioso por um instante. E depois
- Ela sabe?- - perguntou. - Sabe.
- Vosmec falou -franco ~ Disse que ela tinha vida pra pouco
temo?
- Disse. Uma mulher como Luzia tem mais coragem que
muito homem que conheo. - E isso noo tem cura?
- No.
- Nem em Porto Alegre? Nem. na Corte?
- No.
- Tia Bibiana tambm sabe de tudo?
- Sabe.
- Que  que el diz?
Winter encolheu " os ombros angulosos. - Nada. Que  que podia dizer?
A GUERRA        487
#488        O CONTINENTE
Florncio brincou um instante com as muletas, pigarreou, mei embaraado, e depois perguntou:
- Como  que elas vivem naquela casa, doutor? - Odiando-se.
- Mas como  que duas pessoas que se odeiam assim podem viver debaixo do mesmo teto?
- Esto jogando uma carreira.
- Como?
- Sim, uma carreira. No em cancha reta, mas numa cancha cheia de curvas. A raia da chegada  a morte. S que nessa carreira quem chegar primeiro perde .. .
- Perde?
- O Sobrado e o menino.
Florncio olhou para o mdico com olhos vazios. - Vosmec me desculpe, mas no cmpreendo.
- O que mantm aquelas duas mulheres juntas na mesma casa
 a esperana qu uma tem de que a outra morra primeiro.
- No acredito, doutor, vosmec me desculpe, mas no acredito. - Por qu?
- Tia Bibiana no  capaz duma coisa dessas.
Winter soltou uma risada seca e falsa.
- Sua tia  capaz de muito mais coisa do que vosmec ima
gina. Ela odeia a nora com a mesma -fra com que amava o filho. - E a nora odeia ela! - retrucou Florncio, como se estivesse
num duelo d sabre e revidasse um golpe do adversrio com outro
golpe imediato e igualmente .vigoroso.
- Exatamnte!
- Mas eu no compreendo ento por que ela continua no Sobrado.
- Muito simples. Se ela deixa o Sobrado, perde o neto. Pense bem, Florncio. Se Luzia morrer, o problema se resolve. D. Bibiana fica com o menino e com o Sobrado 
e pode assim governar os dois- como bem entender.
Florncio sacudia a cabea com obstinao.
- Vosmec est enganado. , Tia Bibiana  uma mulher de bom corao.
- D. Bibiana  uma mulher prtica. Aguinaldo Silva tomou a terra do pai dela por meio duma hipoteca. Ela recuperou a terra por meio dum casamento.
De novo Florncio sentiu um formigueiro no corpo, um mpeto de erguer-se e comear a gritar desaforos. Mas conteve-se. Ac nele homem branco, magro, estrangeiro e 
nu desconcertav-o um ponto. Se um compatriota seu lhe tivesse dito aquelas mesmas palavras, ele j estaria de faca desembainhada, pronto para brigar. Mas. o diabo 
do doutor tinha um jeito de dizer as coisas... Limitou-se a retrucar:        "
A GUERRA        489

- Vosmec est s imaginando .. .
- A coisa  to clara que s noo v quem noo quer.
- No acredito.
- Vosmec noo quer acreditar. Porque tem medo. E sabe por qu? - Aproximou-se tanto de Florncio que este sentiu no rosto Ohlito morno do mdico e o seu cheiro 
de desinfetante. - ~ porque, se acreditar nas coisas que estou lhe dizendo, vosmec acabar se desiludindo de todo o mundo. H quase quatorze anos vosmec perdeu 
Bolvar, o seu melhor amigo. Depois perdeu seu pai, o nico homem que vosmec respeitava e admirava de verdade. S lhe resta agora D. Bibiana, que vosmec sempre 
se habituou a ver como uma mulher decente, de bom corao, incapaz dum sentimento de maldade. Agora noo quer matar a sua ltima iluso e por isso se esfora para 
no acreditar .. .
Winter calou-se, fez meia volta e foi at a janela dos fundos da casa. Por que- dissera aquelas coisas brutais? Estava torturando o pobre homem. Florncio era uma 
alma simples, acreditava que as pessoas podiam-ser ou absolutamente ms ou absolutamente boas. Tinha um cdigo rudimentar e rgido de comportamento e dispunha duma 
nica medida para avaliar as criaturas. Voltara da guerra invlido, estava desiludido, cansado e triste. Era uma malvadeza-dizer aquelas verdades a uma pessoa em 
tal estado de esprito e de corpo. Mas j agora Winter noo via mais jeito de parar. Andava amargurado, cansado daquela vida e impaciente at consigo mesmo. Toda 
vez que pensava em deixar Santa F e voltar para a Alemanha ou para qualquer outra parte da Europa, surpreendia-se a sentir uma preguia invencvel, uma abulia que 
acabava chumbando-o quela terra cuja gente ele aborrecia ,e em certos momentos chegava a odiar - quela terra absurda que apesar de tudo o prendia poderosamente, 
como pela ao dum sortilgio malfico. Desabafava em suas cartas a Von Koseritz. Seu lieber Baron agora era uma figura pblica importante, escrevia belos artigos 
em portugus, fzia jornalismo, metia-se em poltica e interessava-se pelas colnias alems - das quais era uma espcie de maioral. Seu amigo Carlos
von Koseritz; que ele no vira mais depois do primeiro encontro
em 1851, era praticamente a nica pessoa com quem ele podia desa
bafar., Acontecia, porm, qne numa conversa epistolar o mterlo
..-
cutor " no est presente, no pode fornecer a resposta ao p da letra. a fim de animar a polmica, de avivar a discnsso. Ali em Santa F, Winter se ressentia da 
falta de bons interlocutores. Discutia com o padre, e para exasper-lo exagerava seus pontos de vista ateus. O Dr. Nepomuceno envelhecia e estava envolto numa to 
espessa carapaa de estupidez, que suas farpas irnicas nem lhe chegavam a arranhar a pele. O Dr. Viegas o pobre Ur. Viegas, que fora trazido a Santa F para combater 
o clera-morbo e acabara estabelecendo-se na cidade, era duma burrice dolorosa: desperdiar ironias
#49O        O CONTINENTE
com ele seria, para usar uma expresso da Provncia, "gastar plvora em chimango". Winter sentia agora uma necessidade permanente de agredir, e sua arma de agresso 
mais contundente era a franqueza, a verdade. Dizer verdades desagradveis tinha-se-lhe tornado ultimamente um hbito que lhe valia muitas inimizades e desconfianas. 
No entanto os dientes continuavam aparecendo: os colonos de Nova Pomernia e de Garibaldina no queriam saber do Dr. Viegas.
Florncio permanecia num silncio reflexivo. O que o Dr. Winter acabara de dizer era a pura verdade. Ele admirava, a tia, tinha-a como uma dessas mulheres raras. 
Era-lhe difcil acreditar em que ela realmente tivesse feito o filho casar com Luzia s para se apoderar do Sobrado. Sentia que era seu dever replicar ao doutor 
com veemncia, defender tia Bibiana. Mas no. encontrava argumentos.
Foi Winter. quem falou primeiro:
- Vosmec est enganado se pensa que por ter procedido assim sua tia se revelou uma mulher m. No! Ela , sem a menor dvida, uma mulher prtica. No s recuperou 
as terras de seu pai, que o nortista espoliou, como tambm garantiu o futuro do neto. Licurgo agora  o dono do Sobrado e do Angico.
Florncio suspirou de leve.
- Mas o preo foi muito caro.
- Nem sempre se pode fazer pechinchas com a vida, meti amigo - retrucou o mdico, tornando a encher a cuia d"gua.
- Como vai o Licurgo? - perguntou Florncio depois duma longa pausa.
- No viu ainda o menino?
- No. Ele e a tia Bibiana andam agora l pelo Angico. - Licurgo est quase um homem.
- S no tamanho?
- No. Em tudo. Um homem segundo o conceito que vosmecs nesta provncia fzem de homem.
- Sempre tive medo da criao desse menino. Por causa da me.
- No se impressione. Quem toma conta dele  a av. -Eame?...
- Sei l !
- E o Curgo gosta muito dela?
Winter fez um gesto evasivo.
- L difcil dizer.
Winter j notara que Bibiana e Florncio nunca pronunciavam o nome de Luzia. Era como se a palavra fosse um cido que lhes corroesse a lngua.
- Ser que o menino percebeu que a me  ...  uma mulher doente?
- Quem sabe? Agora  que ele est chegando  idade de compreender melhor as coisas.
A GUERRA        491

- E impossvel que ele noo tenha notado qne a av e a me no se falam, no se gostam.
- A verdade  que Licurgo est demasiadamente interessado na estncia para se preocupar com outros assentos. Luzia nunca vai ao Angico e o rapaz passa l todo o 
vero e boa parte do outono em companhia da av. Vem no inverno para estadar. ~ possvel que nem tenha percebido nada. No fim de contas, a gente desta terra noo 
 l muito conversadora .. .
- Mas mais cedo ou mais tarde o Curgo vai compreender todo, descobrir o que houve entre a me e o pai. H muita gente malvada no mundo. Algum pode contar...
- A prpria av pode encarregar-se disso..
Florncio recebeu essas palavras como ema bofetada.
- Vosmec no tem direito de dizer- ema coisa dessas.
Winter avanou resoluto dois passos na direo do outro e, tirando a bomba de prata da boca, perguntou:
- E ,por qu?
- Porque tia Bibiana no  capaz de tamanha maldade.
- Um dia ela ser abrigada a isso.
- Obrigada?
- 1; a carreira, Flornrio! Vosmec sabe qne h corredores qn so capazes de tudo pra ganhar a carreira ... -
Florncio sacudia a cabea, rel-atando em aceitar  ponto de vista do alemo.
- Olhe, preste ateno no que lhe voe dizer. D. Bibiana vive atormentada, roda de medo. Tem medo qne esta guerra dure mais trs ou quatro anos e o Licurgo acabe 
se apresentando como voluntrio. Vosmec reparou no gtte isso significa? Se Licurgo morre, acabam-se os Cambars. Licurgo  para sua tia a contnnao de Bolvar, 
assim como Bolvar eia a continnao do Capa Rodrigo. Se Licurgo morre, tudo se acaba para ela. - Mndon de tom. - Heinrich Heine! - berrou. E quando o negrinho apareceu 
com ar assustado, o mdico disse: - A gua esfriou. V aquentar mais. Schnell!
Tornou a encarar Florncio:
- O outro medo no  menor e faz sua tia perder muitas noites de sono. ~ o medo de que Lnza nm dia resolva vender o Sobrado e o Angico e mudar-se com o filho para 
a Corte.
- E vosmec acha que ela pode fazer isso?
- Agora no, porque est doente, noo tem parentes, e o filho- est ainda muito novo para tomar conta dela.
- E mais tarde, quando o Curgo ficar homem?
- Mais tarde, talvez. Mas todo vai depender da espde d homem que Licurgo sair. Acredito qne, criado pela av, ele no pensar nunca em se desfazer do : Sobrado 
nem do Angico.
- Essa  a minha esperana.
f92        O CONTINENTE
Houve um silncio. Wnter olhou para a sua estante, que estava agora cheia de livros alemes e franceses que ele encomendara do Rio de Janeiro. Entre o mundo de 
que tratavam aquelas obus e o mundo de Florncio, havia uma distncia abismal, que no ~ media s em espao, mas tambm e principalmente em tempo.
- Doutor :.. - principiou Florncio, pigarreando. - Onvi falar umas coisas .. .
- Que coisas?
- Um tal major que anda por . a .. .
- Sim... - Winter olhou com o rabo dos olhos para o interlocutor.
- Estiveram me contando que .ele anda- apaixonado pela .. . por ... pela me do Curgo.
- Pode ser.
- Dizem que vai muitas vezes visitar ela no Sobrado e que ficam horas e bons conversando .. .
- E verdade.
- Qnem  ele, doutor ?
- Um tal Maj. Erasmo Graa, do Rio de Janeiro. Por qu? - En s queria saber. - Pausa. - Que  que anda- fazendo Por aqui?
- Veio tratar dumas requisies do governo. 1? um homem muito insinuante e simptico. Tem uma comenda da Ordem da Rosa e dizem que  valente como nm leo,
RTinter pronunciou estas ltimas palavras num- tom de pardia. FlOrnciO %tou por alguns segundos alado e depois:
- Vosme acha que ela gosta dele? - perguntou.
- No sei. Mas s gostar no  de admirar. O Maj. Graa  nm homem e tanto.
- Mas no ser que ele. est interessado mais no dinheiro del do quc nela mesma.?
- No creio. Luzia  uma mulher apaz de inspirar paizes, no acha?
E ao fazer esta pergunta, Winter olhou firme nos olhs do outro. Florncio piscou, tomado dum mal-estar. .Quem estava nu agora era ele, completamente nn :.. Desviou 
os olhos e prosseguiu
- Se eles asarem ...        -        .
- Rase  outro medo que ri as entranhas. da velha - interrompeu-o o mdico. - O medo de que Luzia venha a asar-se. Nestes ltimos .anos apareceram vria homens 
que foram ao Sobrado e fiaram apaizonadoa por ela. D. Bibiana andou pisado em brasas todo o tempo.
- E o senhor acha que agora h perigo dela se apazonar por este?
- Franamente: acho.
A GUERRA        493

- Mas  uma barbaridade!
- Barbaridade? Por qu? Luzia tem apenas trinta e cinco
anos e est viva h. quase quatorze. No vejo nada de mal em
que ela se case. No ser a primeira viva a dar esse passo.
- Mas  uma injustia! Por causa do menino.. .
Winter encolheu aos ombros como a dizer: "Seja como for, o
problema no  meu.
Florncio ergueu-se e de novo apoiou-se nas muletas. - Bom, doutor, vou andando. Wiater acompanhou-o at a porta.
=- Faa bastante exererio e mande sua mulher fazer-lhe mas
sagens na perna.
Junto da porta Florncio ainda perguntou: - Quando  que ele vai embora? - Ele quem?
- O tal major.
- Dentro duns cinco ou seis dias. - Ainda bem. Volta pra gnem?
- Volta. No se apoquente. Pode ser que ele morra ou ento
que ela morra. Deus  grande.
E foi emperrando Ooutro para a rua com certa impacincia.
4

Aos quinze anos Licurgo Cambar era j um homem. Usava faa na ava do colete, fumava, fazia a barba e j tinha conhecido mulher. Estudava Histria e Linguagem com 
o Dr. Nepomuceno, Aritmtia e Geografia com o vigrio, e Cincias com o Dr. Wiater. O resto - que pau ele era o prindpal - aprendia com a prpria vida, com a .peoaada 
do Angico e prinpalmente com o velho Fandango, o apataz. O portugus que o Dr. Nrpomuceno lhe ensinava era um idionu estranho que muito ponto tinha a ver com a 
lngua que s falava no galpo e aa cozinha da estncia. Fandango achava que- o coahccimento da Aritmtica no fazia nenhuma falta a praaoaa. Tinha uma teoria prpria. 
sobre ap quatro operaes. "O homem trabalhador - dizia ele, pisando Oolho - soma; o preguioso diminui: o sbio multiplia e s o bobo divide." Nunca frcgnentan 
escola, e no entanto era apaz de, numa passada d"olhos, dizer quantas abeaa de gado havia numa tropa.
Geografia? Fandango tinha toda a geografia da Provncia na abca. Desde meninote vivia viajando, conduzindo arritas, fazendo tropas, e no havia cafund do Rio Gnade 
que de ao conhcceasc to bem como as palmas de sena prprias mos. Sabia. onde fiavam as agnadas, onde os rios davam vau, onde havia
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melhor pasto ore melhor pouso. Parecia noo existir em todo o territrio do Continente rancho, estncia, povoado, vila ou cidade onde ele no tivesse nm conhecido. 
"At as rvores e os bichos me conhecem por onde passo" - gabava-se ele.
Certa vez no galpo, meio por caoada e meio a srio, reco peo lhe perguntou:
- Por onde  que a gente sai pra ir pra tal de Europa?
Fandango olhou primeiro para a direita, depois para a esquerda, fechou reco olho, ergueu o brao na direo do norte e disse com ar de entendedor:
- Sai-se aqui direito por Passo Frendo.
Histria? Fandango sabia as melhores histrias do mando- casos de assombrao, lotas de famlia, guerras, duelos, lendas .... Com dezesseis anos vira sua primeira 
gnerta, e era por isso que costumava dizer: "Ds que me conheo por gente ando brigando com esses castelhanos."
Os livros de Histria falavam em generais, governadores, lagares, datas e coisas difceis de entender. Curgo achava mais fcil acreditar nos "tansos" de Fandango, 
qu se referiam a gente e lugares conhecidos ali da Provncia "Csar conquistou a Glia" - lia o Dr. Nepomuceno. Cargo escutava-o sem o menor interesse; ficava porm, 
de olho aceso e ateno alerta quando o velho Fandango se acocorava ao p do fogo e comeava uma histria : "Pois diz-que uma vez o Xax Pereira resolveu r visitar 
um compadre . que ele tinha na Soledade ... " As conquistas de Napoleo Bonaparte descritas pelos livros e comentadas pelo juiz de direito empalideciam ante as proezas 
de Bento Gonalves narradas pr Fandango.
Corgo gostava mais das aulas do Dr. VJinter que das do padre ore as do Dr. Nepomnceno. O vigrio tinha um cheiro azedo e uma voz desagradvel. O outro - pobre do 
velho! - cochilava durante as lies e lmtava-se a Ier com sua voz arrastada o que estava escrito nos livros.
O Dr. Winter era diferente. Nunca fiava parado dentro de usa com o aluno. Levava-o a passear pelo empo, explicava-lhe que a Terra era redonda como uma laranja e 
achatada nos plce. Apontava  noite para as estrelas e dizia-lhes os nomes e as distncias a que se encontravam da Terra. E quando dava lies de Botnica era mostrando 
plantas de verdade e no apenas as gravuras dos livros. Tinha uma magnfica lente de -cabo de madre
prola com a qual fazia o aluno examinar flores e folhas, talce de relva ore gomos de laranjas e bergamotas. De que so feitas as nuvens? Por que  que quando a 
gente solta reco livro que tem na mo o livro cai? Como  que a gua se transforma em gelo? Por que  que ezistem o dia, a note e as estaes do ano? O Dr. Winter 
explicava todas essas coisas a Licurgo, que as achava fantsticas, impossveis - "invenes de estrangeiro pra fazer a gente de bob ".
Sempre que ia para o Angico o rapaz pedia a opinio do capataz sobre os ensinamentos do alemo.
.- Patacoadas! - exclamava Fandango. - Patacoadas! Estrangeiro  bich besta. Esses negcios que aparecem nos livros so bobagens. No hai nada como a experincia 
do indivduo. Pra ver se vai chover esses doutores da mula rua olham numa engenhoca parecida com um relgio. Gacho noo. precisa disso.
-"- Elp sabia ver sinais de chuva no cheiro do vento ou no jeito das nuvens. Havia um certo- lado do cu - opoente - que ele chamava de chovedor, pois quando as 
nuvens preteavam para aquelas bandas, era chuva na certa. Existiam ainda outras maneiras dum campeiro prever o tempo sem precisar olhar naquelas geringonas de gringo.
Havia um ditado que Fandango repetia com freqncia no inverno: "Geada na lama, chuva na cama." Um dia Curgo perguntou:
- Por que "na cama", Fandango?
- Pra rimar, hombre.
Em suas muitas andaas guerreiras pel Banda Oriental, e principalmente depois duma famosa viagem que fizera a Concepcia do Paraguai - onde fora levar uma tropa 
de mulas - Fandango incorporara a seu vocabulrio vrios termos castelhanos. Nunca dizia homem, mas sim hombre; em vez de chapu ".usava sombreio, e empregava com 
freqncia palavras como - despacito, calavera, muchacho, iemprano...
s vezes para mangar com Curg, quando-o menino lhe perguntava se a chover ou no, "o velho gacho olhava grave para o cu, consultava as nuvens e respondia: - 
Cu pedrento, chuva ou vento ... - Fazia uma pausa breve, soltava sua risadinha seu e acrescentav : - ou qualquer outro tempo.
Quando andavam os dois pelo campo sob a soalheira e, sentindo sede, ficavam a buscar ansiosamente uma aguada, Fandango fazia o cavalo parar e comeava a fungar com 
fora, cheirando Ovento. Ao cabo de algum tempo dizia:
- Tem gua perto. E  pr"aquele lado!
Dirigiam-se para o lado indicado e encontravam gua. .
- Como  que tu sabes essas coisas? - admirava-se Curgo.
O outro respondia:
- Sou ndio velho mui vivido.
Fandango estava chegando  casa dos sessent, mas era reco homem vigoroso e desempenado, e tinha mais resistncia para o trabalho do que muitos dos pees mais moos 
do Angico."
Para Licurgo, Fandango era uma espcie de orculo - o homem que tudo sabe e tudo pode. Um peo era um peo, uma pessoa que hoje podia estar aqui e amanh na estrada 
ou no galpo de outro estancieiro. Mas com Fandango a coisa era completamente diferente. O velho se achava mais preso s terras do Angico. do que aquelas
A GUERRA
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#X96        O CONTINENTE
rvores que tinham razes profundas no cho. ilesde que nascem, burgo se habituara a ver o capataz ali na estncia, como um elemento mesmo da paisagem. Era inconcebvel 
o Angico sem Fandango ora Fandango sem o Angico.
Um dia nupia aula o Dr. Winter dissera a Curgo alga qne o dtizan intrigado. Com nma pequena bssola de bolso na mo, o mEdico falava do globo terrqueo e dos plos.
- Sua vida, Curgo - disse ele - oscila entre dois plos magnticos: Fandango. e D. Bibiana.
O qne o capataz do~ Angico e sua av tinha a ver com a bssola foi coiaa que Curgo no pde nem procurou compreender. O doutor 3s .vezes parecia que no era muito 
bom do juzo!
Era Jos Fandango um Homem de estatura me, pele tostada de aol, olhinhos pretos e pcros metidos no fundo de rbitas ossudas, bigodes e barbicha grisalhos,  bochechas 
dum corado de goiaba madura. Tinha nma voz de cana rachada, que lembrava muito Opalrar dum papagaio, e que ficava pastosa quando o velho comia carne gorda e falava 
de boca cheia.
Costumava ele resumir seus gostos e desgostos numa frase que j corria mnnd:: "Trs coisas hai nesta vida que me fazem muito mal: mulher velha, noite escura e cachorrada 
no quintal."
Sen nome verdadeiro. era Jos Menezesmas quando mocinho era to grande sua fama de trovador-  bailarico, que os amigos acabaram por dar-lhe o apelido de Fandango, 
A alcunha pegou de tal modo que ele reslveu adot-la cmo nome. Vivo, sua famlia x resumia no filho, conhecido por Fandango Segando, e num neto, o Fandanguinho, 
rapazola de treze anos e "amigao" de Licurgo.
Era voz . geral que "onde est o Fandango tem sempre fandang ". Quando lhe perguntavam de onde vinha e quem eram seus pais; o capataz respondia em verso:
Eu no tenho pai nem me, Nem nesta terra parentes. Sou filho das guas claras,
Neto das guas .correntes.
Mas o verso de que Fandango mais gostava de recitar continha, por assim dizer, uma declarao de princpios
ndio velho sem governo 1~linha ler  o corao. Quando me pisam no poncho Descasco logo o faco, E se duvidam perguntem
A moada do rinco.
A GUERRA        497
Era verdade. Ningum duvidava disso. Contavam-se proezas de Z Fandango. Duma feita, quando moo, tinha acabado um baile a faco. Como a filha do dono da casa se 
recusasse a danar com ele, Fandango sem se perturbar lhe gritara: "No  a primeira gua que me nega estribo. Um irmo da moa estava perto e puxou a adaga. "Fechou 
o tempo" - contava Fandango. "A primeira coisa que fiz foi dar um pontap no candeeiro. Da por diante brigamos no escuro." Dizia-se tambm que de 35 a 45 Fandango 
fizera coisas do arco-da-velha como oficial de lanceiros dos Farrapos.
O prato que ele mais apreciava era arroz com guisado de charque - arroz-de-carreteiro - e sua sobremesa predileta: canjica com leite. Para Licurgo era dia de festa 
na estncia quando o velho resol
via ir para a cozinha preparar a comida.
Num dia de inverno, depois do almoo, Fandango ficara a tomar sol sentado no portal da casa do Angico. Curgo aproximou-se dele
-        perguntou:
- Lagarteando, noo, Fandango? E o gacho respondeu:
- O sol  o poncho do pobre, hombre.
Curgo gostava dos ditados do capataz. Para tudo tinha um
provrbio. Uma vez uma china solteira da estncia apareceu grvida
-        todos ficaram curiosos por saber quem era o pai da criana. Um
dos pees perguntou:
- Fandango, quem foi que emprenhou a Dica?
O velho gacho fechou um olho, encarou o interlocutor e res
pondeu:
- Vaca de rodeio no tem touro certo, menino.
Tinha tambm ditados misteriosos, cujo sentido Curgo no
conseguia penetrar:
- A pedra grande faz sombra, mais a sombra no pesa nada. Um dia o rapaz perguntou:
- Que  que quer dizer isso?
- Quando vassunc for mais velho vai compreender sem nin
gum. explicar. Agora  mui temprano.
Em sua vida andarenga Fandango conhecera muita gente em
muitos lagares. Tinha nma memria prodigiosa, nunca esquecia
nomes, datas`,-caras ou pormenores. Uma noite no galpo do Angico,
quando os pees e um forasteiro conversavam e pitavam ao redor
do fogo, algum perguntou:
- Que fim levou o Man Tarum?
- Foi morto por um cunhado no Poncho Verde - respondeu
o capataz.
- E o tio dele, o Antnio Tarum? Fandango pensou um ponto e depois informou:
Foi degolado em 68 pela gente do Jota Brabo.
    Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a
inteno de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma
manifestao do pensamento humano..
498        O CONTINENTE
- E aquele tropeiro de olho torto ... como era mesmo o nome dele?
- O Mingote Fagundes? - Isso!
- Foi morto por um gaiteiro num baile.. Deixe ver... Faz uns dois anos.
O estranho - um tropeiro paulista que escutara a conversa em silncio - observou
- Pelo que vejo por aqui ningum :morre de morte natural.. . Fandango cuspiu no fogo e replicou: -  meio difcil, moo. Mas alguns morrem ...
Com Fandango, Curgo aprendeu sobre as plantas coisas que os livros no ensinavam e o Dr. Winter parecia ignorar.
- O melhor pasto pro gado  a grama rasteira ou o capimminoso. Capim-limo no presta. P-de-galinha e milh? S pra gado manso. E Deus me livre dum campo de barba-de-bode!
- Est vendo aquele umbu ali? - perguntou um dia o gacho ao menino, quando este tinha apenas oito anos.
- Estou.  muito lindo.
- Pois o umbu  como certas pessoas : s estampa. - Por que, Fandango?
- Porque a madeira no vale um caracol. Curgo sacudiu a cabea. O capataz prosseguiu:
- Agora, tu quer ver madeira bem boa mesmo? Pega o cambar ou o angico ...
Licurgo sorriu com certo orgulho. Seu nome era Cambar: Angico era o nome de sua estncia. Todas essas coisas lhe davam uma sensao de firmeza, de resistncia, 
de fora.
- E depois, menino, no  s a madeira. Folha de cambar ou de angico  muito bom pra tosse.
E ensinava-lhe outros remdios. Urinas presas? Ch de ervade-touro. Priso de ventre? Batata-bariri. Fraqueza do peito? Agrio. Lombrigas? Mastruo. Contra mordida 
de jararaca? Trazer em qualquer parte do corpo um toco de cip-mil-homens.
- Conheci um carreteiro - contou Fandango noutra ocasio - que estava com os dentes frouxos. Queria ir ao dentista mas eu disse pra ele: No faa isso! No bote 
fora o seu dinheiro. Tome um ch de molho. O homem tomou e ficou bom.
Fandangd ensinava tambm a Licurgo coisas a respeito dos bichos.
Para descobrir o sexo dum terneiro que ainda no nasceu, a gente examina a cauda da vaca que est para dar cria, se sua ponta for aguda, vem macho; se for arredondada, 
vem fmea.
- Matar corvo - explicou Fandango - traz m sorte, porque esse bicho tem parte com o diabo. Arma que mata corvo fica
#A GUERRA        499

estragada, no pra de verter gua. Devemos tambm respeitar o joo-de-barro, muchacho, porque foi ele que ensinou o homem a fazer casas de barro. Depois, esse bichinho 
todas as manhs acorda o gacho com seu canto.
- E tu sabe duma coisa, Curgo? Joo-de-barro,  um passarinho mui engraado. Nunca trabalha nos domingos. E quando a companheira dele morre, tu sabe o que ele faz? 
Empareda ela dentro de casa. Pois . No presta matar joo-de-barro. Traz desgraa.
- E bem-te-vi?
- Onde tu enxergar um bem-te-vi, trata uma pedrada nele. O lo bicho simbergenza!  um passarinho amaldioado por Deus, porque quando a Virgem Maria fugiu pro Egito 
com o Meniro Jesus; os judeus saram atrs dela. A Virgem se escondeu, os judeus iam passando sem enxergar nada, mas o diabo do passarinho comeou a gritar: bem-te-vi! 
bem-te-vi! E ainda por cima soltou uma risada.
- E coruja?
- No presta matar coruja. Ela limpa o campo de cobra e de outros anieetos. Mas coruja tambm traz mau agouro. Quando canta de noite perto da casa da gente  pra 
anunciar a morte duma pessoa da famlia.
- E grilo?
- No se deve matar. Traz prejuzo de dinheiro ao matador. - E sapo?
- Tambm no presta. Traz chuva.
- Ento o que  que presta?
- Matar correntino quando ele passa a fronteira pro lado de c.
Fora tambm com Fandango que Curgo aprendera a nadar, laar, curar bicheira, e parar rodeio. Mas de todos os conhecimentos que o velho lhe transmitira os de que 
Licurgo mais se orgulhava eram os que se referiam aos cavalos. O rapaz os absorvera atravs de aulas prticas, durante viagens, rodeios e domas em que ele observava 
de perto as manhas e hbitos dos cavalos, as peculiaridades de cada raa e de cada pelo. Depois, nas conversas de galpo e nas horas de folga, Fandango lhe dava 
por assim dizer as aulas tericas, em geral resumidas na forma de ditados que corriam de boca em boca por toda a Provncia, nascidos da experincia de gachos annimos 
em dezenas de estncias.
Se Licurgo perguntava ao capataz sobre as qualidades dos cavalos tostados, ele fechava um olho, mirava o menino por algum tempo e sentenciava
- Tostado? Antes morto que cansado.
- E tordilho, Fandango?
- N"gua  melhor que canoa.
- E baio?
- Se encontrares um viajante na estrada com os arreios nas
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O CONTINENTE
costas, pergunta logo: "Onde ficou o baio?" - E sempre que prevenia os outros contra as traies dos cavalos desse pelo, acrescentava: - Uma vez, l pras bandas 
de So Sep um baio me deixou a p.
Ningum nunca ficou sabendo se a coisa tinha acontecido mesmo "pras bandas de So Sep" ou se Fandango escolhera esse povoado s por causa da rima.
Havia outros conselhos que Licurgo no esquecia:
"Se tens :pela frente viagem larga, no faas pular teu ca"alo. Sai no tranquiloo at o primeiro suor secar; depois ao trote at, o segundo; d-lhe um alce no terceiro 
e ters cavalo pro dia inteiro."
Quando certo dia Licurgo teve de escolher um cavalo para seu uso, aproximou-se de Fandango e perguntou:
- Que pelo vou escolher?
Fandango estava picando fumo para fazer um cigarro. Tinha a palha enfiada atrs da orelha, a perna direita dobrada em repouso, o peso do corpo sobre a esquerda, 
o busto um pouco inclinado para a frente, o olhar vago posto nos largos horizontes do Angico. Ficou por um instante calado, como se no tivesse ouvido a pergunta. 
As partculas de fumo caam-lhe no concavo da mo. Com as abas do sombrero quebradas na frente, o sol a bater-lhe em cheio no rosto, Fandango ali estava na frente 
da casa da estncia, imvel como um tronco de rvore. E quando Lcurgo ia repetir a pergunta o velho lhe deu a resposta. Falava descansadamente, escandindo bem as 
slabas, dum jeito quadrado e meio seco. E o que ele disse foi um resumo de sua experincia pessoal:
- No te fies em tobiano, bragado ou melado. Pra gua, tordilho. Pra muito, tapado. Pra tudo, tostado.
Diante desse conselho, Licurgo ficou indeciso. O velho, porm, sorriu, acrescentando:
- Mas cavalo  como gente. Uma pessoa tem seus dias bons e seus dias ruins, no tem? Pois com o cavalo se d o mesmo. Tudo  bom e tudo no presta.
Dentre os outros conselhos que Fandango lhe dava com relao aos cavalos havia um de que o rapaz gostava particularmente: "Doma tu mesmo o teu bagual. No enfrenes 
em lua nova, que ele fica babo. No arreies na minguante, que te sai lerdo."
Aqueles homens do campo costumavam fazer comparaes entre o cavalo e a mulher. Fandango aconselhava aos pees que casassem com moas conhecidas, se possvel com 
meninas que eles tivessem visto crescer. E aplicava o ditado : "Cria perto de teu olhar a po tranca pro teu andar.
- Com mulher sardenta e cavalo passarinheiro - prevenia tambm - alerta, companheiro!
Pelas quadras populares e pelas modinhas que ouvia recitar ou cantar, Licurgo aprendera a classificar as mulheres de acordo com o
#A GUERRA        5O1

"p21o"". Conclua que as morenas eram mais constantes que as claras: e que as ruivas eram geniosas e as de cabelo preto, sinceras:

Vou escolher uma dona No rebanho das formosas, Escolherei trigueirinhas, As claras so enganosas.

"Mulher, arma e cavalo de andar        lembravam elas - nada de emprestar."
Mas, para aqueles vileiros e .cantadores, a mulher era principalmente uma tirana

Eu amei uma tirana,
E ela no.me,quis bem, ai!

Passei pela tua porta
Dei de mo na fechadura; E no me quiseste .abrir, Corao de pedra dura.

Nunca vi mulher bonita Ter cabelos no nariz, Nunca vi mulher alguma Ter constncia no que diz.

Licurgo ouvia essas cantigas e rimas. e ficava pensando. Era engraado... As mulheres que ele conhecia estavam longe de merecer aquelas quadras. Eram quietas, trabalhadoras, 
srias, mal ousavam erguer os olhos para os homens que no fossem seus maridos ou parentes muito chegados. Decerto as "tiranas" falsas de que falavam tais versos 
eram as mulheres de cidade" grande. E por mais que se esforasse, sempre que ouvia quadras e modinhas sobre mulheres malvadas que tinham desgraado a vida de homens, 
ele no podia deixar de pensar na me. E ficava perturbado.
Muitas vezes pensara: "Quando eu fizer vinte e dois anos, me caso." Havia na vila algumas meninas que ele achava bonitas, embora no chegasse a gostar de verdade 
de nenhuma delas. A av vivia a dizer-lhe que um homem para ser bem completo tem de casar e ter filhos, muitos filhos. Os trovadores do galpo, porm, recomendavam

Todo o homem quando embarca Deve rezar uma vez. Quando vai  guerra duas Quando se casa, trs.
#5O2        O CONTINENTE
Fosse como fosse, ele teria ainda muitos anos para pensar em casamento. A lida da estncia enchia-lhe as horas e os pensamentos. Mal anoitecia, Curgo ia para a cama 
cansado e dormia sono solto at o amanhecer do dia seguinte. Mas em certas noites em que lhe vinha um desejo de mulher, ele acabava encilhando Q seu cavalo para 
ir at o rancho da china Rosa. Voltava de l de madrugada ao trote do animal, ouvindo os grilos, mirando as estrelas e saboreando seu cigarro de palha.
Aos quinze anos Licurgo Cambar era j um homem.
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Muitas vezes olhando os campos do Angico de cima do seu cavalo ou da porta da casa da estncia,. e pensando em que eram suas aquelas terras que iam muito alm do 
ponto at onde a vista alcanava, Licurgo sentia, inflar-se-lhe o peito numa sensao de orgulhoso contentamento. Isso s vezes chegava a tirar-lhe o folego. Os 
meus campos, os meus pees, a minha cavalhada, o meu gado... O rapaz enchia a. boca e o esprito comm essas palavras e com o mundo de coisas em que elas implicavam. 
.
Gostava da vida campestre, e quando estava no Angico no tinha nunca um minuto sequer de aborrecimento. Despertava antes de raiar o dia, pulava da cama. e ia para 
a mangueira, levando uma guampa com bocal,de prata onde a av mandara gravar seu nome. Os galos cantavam, como se quisessem acordar o sol com sua balbrdia. Licurgo 
tinha um prazer especial em caminhar descalo sobre a grama ainda mida de sereno. Empoleirava-se depois nos troncos da mangueira e gritava para-a escrava que ordenhava 
as vacas:
- Buenos dias, Luciana?
- Bom dia, s Curgo - resmungava a preta.
Seus dedos escuros apertavam as tetas da brasna ou da malhada o leite esguichava no balde com um rufar de tambor, Como era bom ficar ali vendo o horizonte clarear 
aos poucos e aspirando os cheiros da mangueira - esterco mido, leite morno, pelo de vaca.
Depois de beber duas ou trs guampas de leite, quando o sol comeava a apontar por trs da Coxilha do Coqueiro Torto, Curgo ia para o galpo comer um churrasco mal 
passado nas brasas, seguido dum amargo bem quente. A essas horas j o gado mugia, os passarinhos cantavam nos cinamomos,  frente da casa, e os quero-queros andavam 
a gritar pelo campo.
Comeava ento a faina do dia e Curgo acompanhava Fandango e a peonada que saam a percorrer as invernadas. Sabia laar, parar rodeio, marcar, e seu maior sentimento 
era o de no saber domar potros, pois a av no lhe dera ainda permisso para apren
A GUERRA        5O3

der. Temia que ele rodasse do bagual, quebrasse a cabea e morresse "como aconteceu com o falecido seu bisav". Como o rapaz vivesse insistindo, ela prometia com 
certa relutncia
- Quando vassunc fizer dezoito anos eu dou licena.
Curgo voltava do campo com o sol j a pino: vinha com uma fome to grande que se sentia capaz de devorar um boi. Segundo Fandango, era ele "um garfo de respeito". 
Comia com prazer e muitas vezes, de olho contente diante dum bom churrasco de costela ou duma sopa de mocot, filosofava: "Uns comem pra viver, outros vivem pra 
comer, mas eu como porque gosto." A av sorria
- murmurava : "Puxou ao av. Pra o Rodrigo, comer era mesmo que uma festa." Entre os pratos prediletos de Licurgo estavam o arroz-de-carreteiro, o matambre, a morcilha 
e o fervido. Uma vez por semana mandava fazer uma feijoada com bastante toicinho, lingia e charque, e esfregava as mos quando via a panela fumegando na mesa. 
Nessas ocasies desprezava os outros pratos e comia feijoada at empanturrar-se. Por fim, "pra feijoada no sentar mal", bebia um copo de cachaa. Erguia-se da mesa 
"empachada", lerdo, sonolento, com a impresso de ter engolido um tijolo,
- atirava-se na cama como um peso morto, para uma sesta longa de sono inquieto, do qual despertava com a boca amarga, a cabea dolorida, irritado e infeliz. Quando, 
porm, chegava a hora do jantar j estava pronto para limpar vrias costelas de assado, e mais um prato ou dois de mondongo com farinha ou gusadinho com abbora. 
Nunca deixava de tomar, aps cada refeio, uma tigela de leite com marmelo cozido ou milho verde. Suas sobremesas favoritas eram pessegada e rapadura com queijo.
"O Curgo no  homem de festas" - costumava observar Bibiana. E no era mesmo. Quando se via obrigado a ir a algum fandango, no se misturava com os outros, preferia 
ficar olhando os ,pares de longe. E olhava-os dum jeito esquisito assim como se estivesse reprovando o que via.
- Cai na dana, lorpa? - gritava-lhe Fandango, que no perdia marca.
- Me deixa - respondia o rapaz, esquivando-se.
Quando via os homens sapateando e rodopiando ao compasso da chmarrita, da tirana ou do tatu, ficava tomado dum certo malestar, como se danar fosse coisa indigna 
de macho. Por outro lado, encarava tambm com desconfiana e m vontade as jovens danadeiras, e prometia a si mesmo nunca se casar com mulher que ao danar meneasse 
as cadeiras, requebrasse o corpo.
Nas raras vezes em que os outros conseguiam arrasta-lo a festas onde havia jogos de prendas entre moos e moas, ele ficava a um canto, arredio, observando tudo 
de carranca cerrada, com olhos tristonhos e graves.
#XO2
Fosse como fosse, ele y casamento. A lida da est P6~, Mal anoitecia, Curgo a ~ `fie at o amanhecer do dia Goa" o", vinha um lese o de PO ~ d
para r at o rancho fio. ~"-- Oo~        o rocurou
ao trote do animal, ~ O~ e; ~!- o~~dP s        ~ p

do seu ci arro de ra d-Sd r~        o~ $ O~,
Aos quinze SO o$r," ~, e,O~        d o
~d ~ o d Ad ~;        usado se dei

`$~ i- A ~ ~        ~        ~(en - era sem

r- .,,o,~dd~~O~        (ratava-as com ris

NP~d oPr,~9,         e n.o pedindo favores.
G~de,~ ~o r ~~,~ P        fQo animal e a gravidade

r        d q. ~y .        por "precisar dessas piguan
Muita~ or~;~d ~ ~o d        ,~ juntava nem o esboo dum

cavalo o~ r~ ~ o        es "pagava o servio".

suas aqr ~~ ~P q        rar rodei, de curar bicheiras, de car

alcan~ dd, P -        tos de festa. Gostava de .montar a cavalo

orgul,~~, o        po, s pelo puro prze da corrida. Nessas

Os n Q        -fanfava, era feliz. Noutras ocasies, quando cor

O , ~        milhes verdes que cercavam a casa do Angico e pen

rn        tudo aquilo lhe pertencia, ficava tomado duma pro

lcida alegria. E seu grande sonho era -ter um dia mais

e mais gado que os Amarais.

mbora $ibiana lhe tivesse proibido meter-se em carreiras, quase todos os domingos ele levava seus parelheiros para correr em cancha reta com cavalos das estncis 
lindeiras do Retiro e do Rinco Bonito. No raro essas carreiras davam em briga, e duma feio. Curgo se pusera a discutir acaloradamente com um homem que devia ter 
o dobro de sua idde. Num certo momento o interlocutor lanou-lhe
um olhar de desdm e disse:

- Cala essa boca, guri.

Cargo ficou vermelho e retrucou, meio engasgado: - Eu te mostro quem  guri.

Tirou a faca da bainha e precipitou-se para cima do outro. Mais urde, a caminho do Angico, queixou-se

- Se tn no tivesse apartado a briga, Fandango, eu furava o bucho daquele patife.

- Furava coisa nenhuma! - troou o capataz. - Tu te borra todo quando v sangue.
Aquilo, claro, era uma brincadeira do velho, pois Curgo estava acostumado a ver sangre. Na primeira vez que vira abaterem uma rs, tinha ficad plido, tonto, e 
com engulhos. Mas depois se fora noa poucos habitaando quilo. Agora ele prprio sangrava bois e at , gostava de cheiro de sangue. Foi por isso que quando um touro 
bravo furp com uma chifrada os intestinos dum peo do
A GUERRA        5O5

Angico, ele pde ajudar Fandango a botar as tripas do homem para deatro da barriga sem sequer pestanejar. Era tambm por isso que quando ia caar bugios no Capo 
da Ona e os via cair. no cho ensangenados, com os corpos furados de chumbo, noo ficava nem nm poluo impreaeionadb. Fosse como .fosse, tinha de r-se habituando 
gneaa coisas, porque se a guerra - com o Paraguai durasse mais dois anos, ele tencionava apresentar-se como voluntrio.
Licrrgo gostava muito da casa da estncia, embora ela noo. pudesse comparai-se com o Sobrado ... Muito menor, de um andar a. noo tinha soalho nem vidraas, nas 
janelas. No entanto, sentia sempre nm alvoroo quando, ao chegar da vila, avistava aquela casa compnda, de trs portas e oito janelas, I no alto da coxilha e brangrejaado 
por trs dum renque de cinamomos copados. E de todas aa peas dessa casa ama das que ele mis gostava era a cozinha, onde a vzes ia conversai com as negrs, que 
lhe contavam histrias belas e terrveis da frica - uma frica que nada .tinha a ver com a dos livros de Geografi do Pe. Oter.
Ostro dos. grandes- prazeres do rapaz - e um dos que mais o prendiam ao Angico - era o de tomar .parte nas conversas do galpo  noite, depois do jantar. Reuniam-se 
os pees. ao redor do fogo e ficavam a coutar histrias. Eram "conversas de homem", quase sempre em torno de avalos, jogo, mulheres, duelos, revolues, heris e 
bandidos. E atravs dessas conversas Liciugo ia como que absor-vendo os artigos do cdigo de honra daquela gente - um cdigo que noo fora escrito mas que tomava 
corpo, fazia-se visvel em milhares de exemplos e casos que andavam de boca em boca. Segundo esse cdigo, nm homem para ser bem macho precisava ter barba e vergonha 
na cara. Ter vergonha na cara significava possuir .uma cara limpa em que nunca nenhum outro homem .tivesse batido. "Se am homem te esbofetear, finta o canalha no 
sufragante." Ter vergonha na cara significava tambm nunca faltar  palavra empenhada,_ tosasse o que custasse. Contava-se que na Provncia se faziam grandes transaes 
a crdito em que, em vez de assinar uma lem, o devedor dava ao credor um fio de barba, o qual para aqueles homens de honra valia tanto como um documento selado com 
firma reconhecida por um tabelio.
Licargo orgulhava-se de saber que o av e o pai tinham tido morte digna de homem: lutando de arma na mo. Era assim umbm ~.qre ele queria morrer quando sua hora 
chegasse.
Uma noite no galpo, como se falasse em homens valentes e generosos, Fandango tocou no ombro de Curgo e disse:
- Onve esta, que te interessa, menino. Passou-se com teu av, o finado Cap. Rodrigo Severo Cambar.
- Tr te lembra bem dele, Fandango? - perguntou o rapaz.
- Me lembrar noo me ltmbro, porque nunca nos encontramos. Man foi tua av, D. Bibiana, que me contou o caso.
o cc
~aas?
#5O2
E
um gole de mate. Um dos
a um inimigo, um tal de
deza muito grande. Bri
am a bala porque houve
a furioso e disse pra mu
o na garganta. Onde eu
e o rebenque na .cara."
ia nada. Pois um dia o
da e vai ento de repente
         , lha e v dois bandidos
_        _,. adaga atacando um hmem que se defendia com o cabo
~~ do rebenque. O pobre do cristo a recuando na direo dum valo, estava malito mesmo. O capito esporeou o ca"alo, chegou-se perto dos peleadores e viu que o 
que brigava sozinho era mem mais nem menos que o seu inimigo, o tal de Mrio Leite. Vejam s como so as coisas. Apeou ligeiro, j de adaga desembainhada, e entrou 
na briga, gritando:- "Cobardes! Atacarem um homem desarmado. E dois contra um!" Disse isso e atirou-se pra cima dos bandidos a golpe de adaga, como quem vai matar 
cobra. Os bandidos se assustaram e meteram o p no mundo. O capto enfiou a adaga na bainha, montou a cavalo e, sem -olhar pro outro, sem dizer uma palavra, foi-se 
embora.
Fandango fez uma pausa e depois rematou a histria
- Eram assim os homens de antigamente. -
Era assim o meu av - pensou Curgo. E ficou olhando refle
xivamente para o fogo.
Havia tambm histrias de bandidos famosos. Dentre elas a
favorita de Licurgo era a do Z Viau.
- Esses bandidos valentes e pcaros do tempo antigo esto se acabando - lamentou Fandango noutra noite. - Onde  que se encontra hoje em dia um homem como o Z Viau? 
Andava de flor no peito, sombrero de aba quebrada na frente, barbicacho nos queixos e espada na cinta. Vivia desafiando os milicos e era homem de entrar a cavalo 
num bolicho e levar doas chinas na garupa I
Contava-se que por volta de 183O aparecera por. So Borja nm cidado francs, uin certo Jean Vaud, que se dizia mdico formado por uma academia de Paris. Era um 
belo homem de maneiras fidalgas, barbas ruivas, olhos azuis e mos de moa: Costumava viajar pelas estncias, curando gentes e bichos e recebendo comp pagamento 
dos seus servios noo s dinheiro como tambm galinhas, porcos, roupas ou objetos para seu uso pessoal. Uma noite o francs pernoitou na estncia dos Belos, dormiu 
com a donzela da casa e no dia seguinte foi embora. Dois meses depois, quando desco
briram que a moa estava grvida, .seus irmos obrigaram-na a
dizer o nome do sedutor e puseram-se a campo para descobrir o para
deiro do infame. Encontraram-no finalmente em Rio Pardo, deram
lhe ~ uma sova de rabo-de-tatu em praa pblica, trouxeram-no
maneado para a estncia e fizram-no casar com sua vtima. O
casamento realizou-se em sigilo, com a presena. apenas dos pais e
dos irmos da noiva. A riana nasceu dali a sete meses, mas o
Dr. Jean Viaud, de belos olhos azuis e mos de moa, parece que
achou o casamento um peso .excessivo para seus ombros delicados.
Um da fez a mala s escondidas, montou a cavalo e fugiu. Nunca
mais ningum ouviu falar nele. Os cunhados encolheram os od
bros e disseram : "O mal foi reparado. ; at melhor que esse diabo
noo aparea mais: Seja como for, a criana tem um -pai." Era um
menino e haviam-lhe dado o nome de Jos. , Cresceu na estncia,
guapo e vivo. Com o correr do tempo os Belos peideram sua fortuna
e o menino criou-se ao deus-dar. Aos quatorze anos- fugiu de casa, e dizg que andou fazendo contrabando na fronteira com a Argentina. os dezoito matou o- seu primeiro 
homem. Parece que gostou, pois aos, vinte j .tinha cinco mortes nas costas. Aos porcos soas proezas comearam a ser contdas em toda a Provncia. Ora, como ningum 
lhe pronunciava direito o nome - pois em vez de vi, diziam viau - o jovem bndido ficou sendo.conhecido por Z Vian, nome que correu mundo e ganhou fama.
Fandango remexeu no fogo com nm pau.
- Hai uma histria dele que  mui linda - disse. -. Conhecem?
Ningum falou: todos ficaram esperando, pois sabiam que o capataz havia de cont-la, mesmo que eles dissessem que a conheam.
- Dz-que uma vez o Z Viau matou nm homem em Uraguaiana, e se bandeou para a Repblica Argentina. Os parentes do morto juraram que noo descansavam enquanto no 
matassem o Z Vau e deixassem ele estaquedo no meio da praa.
Fez uma pausa e "perguntou:
- Vassuncs sabiam que quando a gente Bota uma moeda aa boca dum homem que foi assassinado, o criminoso volta ao lagar do crime? Pois . Enterraram o homem com uma 
anceda de tosto na boca. Passou-se um tempinho e um dia qual noo foi a surpresa dum bolicheiro de Uruguaiana quando viu o Z Vian entrar na casa dele, todo lampeiro, 
de flor no peito, arrastando aa chilenas no cho. O coitado ficou branco de medo e comeou a gagncjar e olhar pra todos os lados. "Viu algema alma do outro mando. 
patrcio?" - perguntou o bandido. O bolicheiro contou a histria da moeda. Z Viau fechou a cara e indagou - "Ento~eles~un er; Taram aquele cachorro com uma moeda 
na boca? Espera Saiu da venda, montou a cavalo, foi ao cemitrio- deaenterroq o defunto, xrou a moeda da boca dele, voltou pro bolich, amou
O
A GUERRA
5O7
Fosse como fosse casamento. A lida ~ ~ Mal anoitecia, Cr " at o amanhecer  ~
vinha um dg- ~  ~
para r at ~ ~
ao trote d- i~ ~
do seu N ~ 
~ p
Aye~ov
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#5O2
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o de        aa, amigo!" ficou verde. dentes, sacudiu a cabea
eio passar dois dias na ecidin levar consigo O
at o fim do vero?
A GUERRA
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Fosse como fosse, casamento. A lida ~ p Mal anoitecia, Cr " at o amanhecei ~  ~ vinha um dg- ~  para r at ~ p        "
aU tfOCe d~A
do seu N  ~
A r~
ANA~
....~;pvr qae ~ que no pode?
- Tenho a que fazer no Sobrado.
O que. ela tinha a fazer em casa noo podia ontar a ningum: era vigiar a nora. Aquele maldito Maj..Erasmo Graa, freqentava o Sobrado, estava ~ perdido de amores 
por Luzia.. Smpre que o homem aparecia. Bibiana . plantava-se tambm ~ na sala de visitas, sentava-se numa cadeira t ali .ficava, -de mos no regao, calada. mas 
sem tirar oa olhos- do major. Era preciso noo deixar aqueles dois sozihos, noo dar aa forasteiro tempo de se declarar. Assim vigiados, eles se viam. forados a 
conversar sobre coisas que nada tinham a ver-com amor ou casamento. Agora Bibiana aproveitara
:ama ausncia temporria do major para vir at o Angico, porque lhe batera de repente uma .grande saudade do neto. Mas .era preciso voltar em segaida, pois fra 
informada de qae o "desgraad " dentro de dois dias estaria de volta a Santa F.
-~- Vamce sair de jardineira, de manh cedinho - isse ela ao neto. - Arinme as suas coisas.
- Est bem, v.
Naquela- noite Curgo procurou Fandango e contou-lhe suas mgoas.
- Faa a vontade da velha.
- Mas  que eu no gosto de passar o vero na vila!
- Tu tem ainda muito vero pela frente, mnchacho, muito vero.
Assim, no dia seguinte, mal. o sol rompeu, av e neto embarcarm na jardineira. Licurgo ia taciturno, de testa franzida. Bibiana mirava-o de soslaio mas no dizia 
nada. Sabia que o neto tinha sangre de Tena .e de Cambar. No seria por causa do sangue do Rodrigo que ele estava assim de cara fechada,-e bico calado. O capito 
era homem algre, conversador e andava sempre bem disposto. Agora ali na jardineira que ia sacolejando pelas estradas cheias de "costelas" e buracos, Bibiana reparava 
no quanto Licurgo se pare
cia com seu prprio bisav. Pedro Terra. Quando o menino estava "com os burros . o melhor era a gente nem falar com ele. E como um Terra sempre respeitava os silncios 
de outro Tema. Bibiana no disse palavra ao neto. durante muito tempo. Ficou a conversar com o boleeiro .sobre as vacas que iam dar cna, as colheitas e os calores 
daquele vero.
O sol j estava alto e soprava um ventinho de leste quando eles deitaram os campos do Angico e entraram na estrada real, que era to m como as da estncia. E como 
o silncio de Curgo se estivesse prolongando demais, e como ele no momento em que o boleeiro fechou a porteira lanasse um olhar triste para os campos que ficavam 
para trs, Bibiana deu-lhe uma palmadnha rpida no joelho e disse:
- No h de ser nada, Curgo. No ms que vem ta volta.
O rapaz ento sorriu um sornso rpido e meio triste:
- Vosmec sabe. vov, o que o Fandango disse quando se despediu de mim? - Ela. sacudiu a cabea negativamente. -Disse que nem por mil cruzados entrava numa jardineira.
- U! Por qu?
- Porque carro  conduo de mulher e criana de peito.
Gacho anda mas  a cavalo. - Velho desfrutvell
Na noite daquele mesmo dia, na sala de visitas d Sobrado, pela primeira vez em mitos meses Licurgo ficou a sos cm a me. Foi aps o jantar: as cinco velas do 
candelabro estavam acesas em cima do consolo, e Bibiana se encontrava no . andar superior a defumar os quartos com incenso.
Sentada junto da mesinha redonda, Luzia tocava ctara para o filho. Os cabelos lhe caam sobre os ombros cobertos por um xale de seda preta, que lhe acentava ainda 
mais a palidez: De vez em quando a dor crispava-lhe o rosto e ela comeava a gemer baixinho. Curgo, ento, desviava os olhos, todo perturbado.. A idia de que sua 
me sofria, de que tinha um tumor maligno, lhe causava uma grande pena e ao mesmo tempo um grande remorso, pois embora soubesse que seu dever era mostrar-se carnhoso 
e paciente para com ela, o que sentia mesmo era uma certa impacincia, uma vontade de fugir da presena "daquela mulher", como se pelo simples fato de no v-la 
ela cessasse de sofrer.
Luzia tocava uma barcarola e o rapaz escutava, olhando para os dedos que beliscavam as cordas do instrumento. Agora ele descobria por que era que. apesar de gostar 
do Sobrado no se sentia bem n casaro. Era porque sua me dava quelas grandes salas
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A GUERRA
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Fosse como fosse casamento. A lida r" ~ Mal anoitecia, Cr p1 at o amanhecer ~  ~
vinha um dgr ~ c ~ para r at ~ p " ao trote d~N ~ w M A do seu N ~ ~        " 
A^~p.~        ~~ o
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eus seios pontudos
uando desavisada
o compasso dama
no rego daqueles
_..a - a chave do quarto
_ ..moras fechada, fazendo ningum sabia
r, __~..~-~rve a curiosidade de ver o que havia dentro daquela
_ cvv-nde nenhuma outra pessoa entrara depois da morte do seu pai.
Curgo olhou para as mos de Luzia que se agitavam sobre a ctara e pensou em cavalos brancos a galope. Depois alou os olhos para o rosto dela. .Quando a me o acariciava, 
quando passava aqueles dedos frios pelo seu rosto e principalmente quando lhe fazia ccegas no lbulo da orelha, ele ficava todo encolhido e arrepiado, com um desejo 
de gritar, de dizer nomes, de fazer uma brutalidade.
Licurgo escutava. Luzia agora sorria para ele. Seus olhos muito grados e claros lembravam-lhe o poo da sanga do Angico onde  tardinha ele costumava nadar em companhia 
do Fandanguinho.
Par fim Luzia deixou cair os braos ao longo d corpo e disse:
- Meu filho, vou tocar uma msca e quero que prestes bastante ateno.
Curgo sacudiu a cabea num assentimento.
Vindo l de cima chegava at ele o cheiro da defumao, um. cheiro triste de igreja.  luz das velas o rosto de Luzia tinha um reflexo alaranjado como o das caras 
dos pees  noite. ao redor do fogo.
Luzia comeou a tocar uma msica multo lenta e suave, e enquanto tocava sorria um sorriso lento e suave como a msica.
- Em que  que ests pensando? - perguntou ela sem parar de tocar.
- Em nada.
- No. Eu quero saber o que  que a msica te evoca. - Evoca ?
- Quero dizer: quando .ouves esta msica, em que  que pensas? Curgo ficou um instante com ar reflexivo. - Na - estncia.
- A msica ento te faz pensar na estncia? .. .
- Faz.
- Que parte da estncia? - Todas as partes. Ela continuava a tocar.
- No, meu filho. Deve haver uma parte especial. No h? - H, sim senhora.
- Qual ?
- As coxilhas que a gente avista da porta da casa .. .
- Ests vendo agora esse campo ... quero dizer, no teu pen
samento ?
- Estou.
- No  uma coisa triste que ests sentindo? - E. sim.
- No sentes algo que te aperta o peito? - Sinto.
A msca continuava, calma e melanclica. Curgo agora estava
"vendo" as campinas do Angico.
- Ests pensando nesses campos de manh? ... de noite? .. .
ou de tardezinha?
- De tardezinha, assim ao anoitecer. - )r muito triste tudo, no ? - ~.
- No d vontade de chorar? Curgo hesitou por um instante. - ~ ... d.
- No est brilhando uma estrela no cu?  a estrela ves
pertina .. .
Licurgo lembrava-se agora duma tarde em que ficara olhando
o pr do sol sentado no portal da casa da estncia. Um negro que
vinha repontando um rebanho de ovelhas cantava uma toada tris
tonha, dessas puxadas do fundo dum peito dolorido.
- Presta bem ateno, meu filho. Ouve a msica. Agora tua
me vai te dizer bem. direitinho tudo que ests sentindo.
Os cavalos brancos galopz iam em cima da ctara. L em cima
soavam, surdos, os passos :e vov Bibiana. Um cheiro de igreja
enchia a casa toda.
Tomara que a vov desa - pensou Licurgo, olhando de vis
na direo da porta do vestbulo.
Luzia comeou a tocar em surdina e a dizer:
- Presta ateno. Ests sentado no portal da casa do Angico.
Est ficando noite e tudo  muito triste. A estncia est deserta.
A peonada foi toda embora, a negrada da cozinha foi embora.
Tu ests sozinho, olhando o descampado e pensando... Sabes o
que ests pensando? Ests pensando assim. Vivo s no mundo.
Tenho quinze anos. Mataram meu pai. ?Minha av morreu. Minha
me vai morrer, est na vila sentada numa cadeira esperando a hora
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la prpria en quase a o deixavam sempre esquisita sensaio de to pareciam sair no
de sua me. Dam , era como se aquela
estmago. Curgo asou em como sria da praa e ficar l
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Fosse como fosse        
casamento. A lida ~ ~        
Mal anoitecia, Cv "        O
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_ ..~ a.ru o anoitecer.
__-..~a~ ene i-oi to insuportvel que le decidiu
 ~rr. -~s-se de p subitamente e saiu quase a correr na direo da porta da rua. Mas ao passar por perto da me, esta agarrou-lhe a mo com fora, puxou-o para 
si, estreitou-o contra o peito e come~ou a beijar-lhe o rosto, a beber-lhe as lgrimas, a chorar tambm com ele e a murmurar coisas muito ternas e lamurientas.
- Vou morrer, meu filho, vou morrer. Tu vais ficar, vais esquecer a tua me,. todos vo esquecer. A vida  triste, meu filho, eu vou morrr.
Apertava o rapaz contra os seios. A chave - pensava Curgo - a chave dourada. Mas outro pensamento fazia-o esquecer a chave; a ferida ... E ele queria acariciar a 
me, dizer alguma coisa, mas seus lbios continuavam apertados, os braos cados. Por fim, num grande esforo levantou a mo e passou-a desajeitadamente pelo rosto 
dela: sentiu-o frio e mido e isso lhe lembrou o rosto dum afogado que uma vez ele tocara. O corpo da me era morno e cheirava a essncia de rosas. Por cima dos 
ombros dela Licurgo olhava a sombra de ambos projetada na parede da sala. Luzia apertava o filho contra o peito, e o rapaz tinha medo de machucar com a presso de 
seu corpo a ferida do estmago. Pensava em alguma coisa para dizer mas no lhe ocorria nada. , Por alguns instantes Luzia ficou acariciando os cabelos do menino 
e por fim afrouxou a presso dos braos e comeou a falar num cochicho:
- Curgo, quero que prometas uma coisa pra tua me. Prometes ?
No esprito do menino o velho Fandango ergueu-se e falou
"No faas promessas no escuro."
Ele no respondeu. , Uma lgrima entrou-lhe, salgada, na boca. - Prometes?
A GUERRA        513
Curgo tinha medo de falar, pois se falasse talvez noo lhe sassem da boca palavras, mas sim soluos. Homem no chora. Homem
n chora. .
- Prometes?
Luzia sacudia q filho com ambos os braos. Curgo aproximou os lbios do ouvido da me e perguntou baixinho:
- Prometer o qu ?
- Prometes que noo vais passar toda a tua vida aqui em Santa F nem no Angico?
O corpo de Licurgo de repente enrijeceu. Ele ficou de msculos retesados numa atitude de defesa, como se de repente tivesse avistado
um inimigo inesperado.
- Prometes, meu filho?
Silncio. Luzia apertou os braos do rapaz com mais fora.
- Fala, Curgo 1
Agora as unhas dela apertavam as carnes do rapaz. Curgo continuava calado.
- Olha, men amor, no quero que sejas como esses homens brutos que no sabem ler- nem escrever, que vivem como animais, no meio de cavalos e bois. - Calou-se, como 
..que afogada pelas prprias palavras. -.Prometes?
Nenhuma resposta. Curgo adivinhava onde a me queria chegar e esperava com uma rigidez de corpo e de esprito.
- O mundo  muito bonito, meu filho. Tem cidades com teatros, circos de cavalirhos, bandas de msica 1 Olha ... - E de repente a voz dela ficou quase risonha. - 
Em Londres uma vez houve uma grande exposio, tu nem eras nascido ... Foi num palcio maravilhoso todo feito de vidro e de ferro.
Curgo recusava acreditar naquelas palavras. Palcios de vidro s existiam nos contos ~ da . carochinha.
-~ Um dia ns vamos embora daqui, Curgo. Tu e eu. Os dois juntos. Me e filho. Vamos de diligncia, depois tomamos um trem e finalmente o vapor ... No tens vontade 
conhecer o mar, no"tens?
Ele noo respondia. Estava vendo as campinas do Angico, escutando a voz dum tropeiro que conhecia o mar e que lhe dissera
"O mar  lindo, mas noo troco estas coxilhas nem por tudo quanto
 mar deste mundo."
- No tens? - repetia Luzia.
- No.
- No digas isso, meu filho. O mar  uma beleza. O Dr. Winter te explicou tudo na aula de Cincias. Tem uns peixes muito bonitos, outros muito engraados. O mar 
muda de cor, s vezes  verde. outras  azul, outras cor de cinza. No tens vontade de ver o mar"
- No.
Sou um pobre

ginava no Angico incenso. do - prosseguiu s que tm pai e es. Mas eu estou
cinco velas enanhas lhe subia
aflitivamente na pensou : esfortou num soluo, m frescas pelas s mos e tapar o, continuou a
E
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Fosse como fosse casamento. A lida ~ ~ Mal anoitecia Cr at o amanhecer vinha um dgr para ir at ~ p ao trote d~ ~ do seu N  ~
p$  
_ ado.
___,,,~ a chorar de novo, mansammtc, _ .-_. -=annmas pingarem no cho. Luzia contemplava-o,
m_ ~_-~~...__._
ornndo.
- Posso ir agora, mame? - perguntou ele ao cabo de alguns segundos.
- Ir aonde?
- Passear l fora.
- No. Fca aqui. ,
S a av o poderia salvar - pensava Licurgo, agoniado. - Que  que a srihora quer?
- Conversar contigo. Senta-te.
Ele obedeceu, limpando as lgrimas com a manga da camisa. - Olha pra mim, Curgo.
Ele fitou os olhos no rosto de Luzia.
- Por que  que no gostas de tua me? - 1VIas eu gosto!
- No gostas, no.
Ele tornou a baixar o olhar.
- Olha pra mim. Por que ?
- Eu gosto, me. Mas gosto tambm do Angico, do Sobrado, dos outros .. .
- Tua av algum dia te disse que noo devias gostar de mim?
A GUERRA        515

Luzia de novo entesou o busto, tirou alguns acordes da ctara e comeou a tocar uma valsa lenta.
- Se tu tivesses de escolher entre tua me e ela, qual era qne escolhias? - perguntou, sem interromper a msica.
O menino noo respondeu. Havia em seus olhos uma expresso de animal acossado.
- Qual era? - repetiu Luzia.
- As duas.
- Mas- se um dia eu chegasse e dissesse: "Curgo, tua me vai embora. Queres ir com ela ou ficar com tua av?" Que era que respondias?
No seu esprito Curgo berrava: "Ficar! Ficar! Ficar?" Mas no tinha coragem de dizer aquilo. Se dissesse era quase.- o mesmo qne dar um sco no estmago d me. 
Ela ia morrer. Todos sabiam que no tinha vida para muito tempo .. .
- Fala a verdade, Curgo. Ias ou ficavas?
Ele olhava para a porta,  procura dum pretexto para sair.
- Mas aonde  que a senhora ia? - perguntou.
- Embora.
- Embora pra onde?
- Pra Crte.
- Mas por qu?
- Pensas ento que Santa F  o nico lugar do mundo onde a gente pode viver?
= Mas foi aqui que eu nasci.
- Pois eu no.
- Aqui  que esto os meus parentes, os meus amigos, tudo.
- No tenho amigos. Meu nico parente vivo s tu. E tn sabes - acrescentou ela, parando de tocar - que se eu quiser te levar, eu te levo, porque a lei est do meu 
lado? Tu s meu filho e s tens quinze anos, sabes?
O rosto do rapaz ganhou de repente uma dureza de pedra. Como nica defesa fechou-se num silncio ressentido e feroz. No diria mais nada, acontecesse o que acontecesse. 
Luzia pareceu compreender isso e mudou de tom
- )rs ainda muito novo, meu filho. Um dia vais crescer e ento te lembrars - do que eu te disse. Mas a ser tarde demais, muito tarde. Eu estarei morta e podre 
debaixo da terra. Mas tu estars apodrecendo vivo aqui em Santa F ou com os animais l no Angico. Apodrecendo vivo, ests ouvindo?
Curgo no respondia. Tinha no rosto uma tal expresso de horror que ao chegar naquele momento  porta da sala, Bibiana olhu
para o neto e compreendeu o que se estava passando.
- Venha lavar os ps, Curgo - disse ela com voz calma. -
Est na hora de ir pra cama.
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a me. Comprem_ ngco, da rompadecerto ia mesmo
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- Nao.
- No mesmo? -.No.
- Juras por Deus? - Juro.
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Fosse como fosse . casamento. A lida d ~
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=QuJo simblico, Achou absurdo que seu
__...~~n de feltro fosse tambm ficar ali ao lado dos outros. Que representava ele? Nada. Nem o colono alemo que havia quarenta e tants anos se estabelecera na 
Feitria do Linho Cnhamo s margens do Rio dos Sinos. Era simplesmente um indivduo, o Dr. Carl Winter. E se quisesse ser bem honesto para consigo .mesmo, teria. 
tambm- de chegar  concluso de .que _no representava nem mesmo a Medicina. Naquele fim de mundo ele ia de tal modo" perdendo contato com a literatura mdica, 
que nm dia talvez chegasse a descer a nvel dos curandeiros da terra.
Olhou-se no espelho. Na penumbra do vestbulo no .pode ver mais que ama silhueta. Atirou o chapu em cima do quepe francs do Maj. Graa - um quepe que lhe lembrava 
desagradavelmente o de Napoleo III, segundo nm retrato a bico de pena que vira reproduzido numa revista - e encaminhou-se para a sala de visitas, onde a conversa 
comeava a acalorar-se. Quando o Dr. Winter entrou, fz-se nm. sbito silncio.
- Continuem, senhores! - pediu o mdico, apertando a mo de Bibiana e depois a de Luzia.
O Maj. Graa levantou-se e ficou perfilado. Era um homem alto, de barbas e cabels castanhos, e estava metido em seu nmforme azul-escuro, de tnica com ombreiras 
e gales dourados, e calas debruadas duma fita carmesim. Estendem para o mdico a longa mo energia, que Winter apertou. O Pe. Otero permaneceu sentado. limitando-se 
a, dar ao recm-chegado um boa noite indFerente. E como o juiz de direito comeasse a erguer-se do fendo de sua ordeira, o Dr. Winter apressou-se a dizer
A GUERRA        517

- Nio se incomode, doutor.
Aproximou-se dele e tomou-lhe da mo flcida.
O Dr. Nepomnceno perdera a mulher havia dois anos e agora levava ama -vida solitria de vivo sem filhos. A velhice fazia-o mais sonolenE e tardo ore movimentos.
- Estvamos "discutindo - explicou le ao mdico - o Maj. Graa e en. L, estvamos discutindo...
Winter seaton-se, cruzou as pernas e disse
- Pois contianem, senhores..
- Discutamos a questo Zacarias - esclareceu  major.
Tem uma voz de poeira - pensu Winter. Sim. Ali estava a comparao que ele buscava para descrever a voz do major. Uma voz de poeira, inesperada naquele corpanzil 
militar: uma voz sem msica nem ressononcias, esfarelada. e farfalhante. Tuberculose. da laringe? On cordas vocais gastas de"tanto gritar ordens de comando?
- Senhores - confessou Winter - no se esqueam de que em matria de poltia nacinal, como .em quase tudo o mais, sou duma: ignorncia colossal.
- O que vosmec acaba de dizer - observou o Pe. Otero, balanando-se na su cadeira -  nm sinal de modstia. No entanto suas opinies sbre a Religio, Cincia 
e Filosfia so as dum homem que sabe todo e c~ue no. tem dvidas sobre coisa alguma deste mando ou do outro.
Carl Winter soltu uma risada.
- Meu. caro vigrio -.replicou - no quero com a minha chegada desviar o ramo da discusso. Para encenar o assunto admito que eu seja um poo de vaidade e presuno. 
Mas, pelo amor. de Dns, esclaream-me a respeito do caso Ananias!.
.- ~aorrias - corrigia o Dr. Nepomuceno, com um ar de mestre-escola..
Winter. lhon para Luzia. L estava ela na sua cadeira de respaldo- sito, jnnt da mesinha redonda sobre a qual se achava o estojo da ctara. Tinha no rosto emagrecido 
a palidez cor de palha que AVinter to bem conhecia. Ali imvel, toda vestida de escoro, parecia ama figura de cra com olhos . de- vidro. O sofrimento e a maturidade 
lhe haviam marcado o .rosto, tirando-lhe a dureza de ntros tempos, dando-lhe at um certo encanto lnguido e ama dignidade que talvez lhe viesse da vizinhana da 
morte. No en coisa agradvel para ,nenhum mdic ver um cliente finar-se sob sena olhos sem que ele pudesse fazer alguma coisa para salv-lo. O mas que Winter 
conseguia era aliviar-lhe as dores com gotas debeladona. No se atrevia a dizer-lhe palavras de esperana e conforto porque estava certo de que Luzia. mo as tomaria 
a serio. De resto ela gostava de falar da morte que se aproximava ; era com gozo qae, numa antecipao, descrevia-se a si mesma metida numa mortalha negra, dentro 
dam esquife, ladeada por quatro crios. En
do Sobrado para disposto e em r baixinho um ateira da benveio abrir-lhe
#518        O CONTINENTE
sorrindo que antevia o velrio, descrevia as pessoas qae chegavam e mencionava as coisas que iam dzer ou pensar da defanta. Em pensamentos acompanhava o prprio 
enterr at o cemitrio, via guando desciam o caixo ao fundo da cova, ouvia o rudo cavo da terra a cair na tampa do esquife. Winter estava presente quando um dia 
ela repetiu essa estpida histria diante do filho com tanU riqueza de detalhes mrbidos, que o rapaz rompeu a chorar e acabou fugindo da sala.
-        Dr. Nepomuceno comeava a explicar quem era Zacarias.
- Vosmec, Dr. Winter, deve estar lembrado dele. Zacarias de Gis e Vasconcelos. Em 62 derrubou os conservadores do poder e formou um gabinete seu.
- Mas ficou s seis dias no poder - observou o major.
-        magistrado daquela vez foi pronto na resposta:
- Era bom demais para durar, mjor, era bom demais.
- militar lanou um olhar clido na direo de Luzia. Winter percebeu que Bibiana o vigiava. S no pde descobrir para onde olhava a teinagu - para o espelho? 
para a porta? para o major? on para parte nenhumai"
- Mas noo estvamos discutindo a queda dos conservadores em 62 - continuou o jiz. - No_ estvamos. Isso so guas passadas.
A voz do Dr. Nepomuceno sumiu-se, afogada, e por nm imfan~e ele ficou de olhos semicerrados, como num sbito cochila Com_ alguma impacincia o major resumiu a histria:
- O caso  o seguinte, doutor. Vosmece deve estar lembndo que depois que expulsamos-os paraguaios da Provncia, a coisa toda parecia que ia ser muito fcil.. Fomos 
empurrando o inimigo pau dentro de seu prprio temtrio e todo mundo esperava que a gnern terminasse em poucos meses. Mas as tropas de Solano Lopes sc entrincheiraram 
em Curupati e esistiram. Vosmec sabe como ao essas coisas. No h nada pior. pau nm exrcito do que a certrrs da vitria fcil. Quando levamos a coisa na certa, 
qualquer resistncia do inimigo nos desnorteia. Foi o que aconteceu. Nosso ezrcito comeou a se desorganizar, a desanimar e nossos comandantes comearam a se desentender 
.. .
Ele est se .dirigindo  mim - refletiu Winter - mas mantm os olhos fitos em Luzia. Mesmo agonizante a teiniagu noo ptrde o seu feitio
- O imperador ento - interveio o Dr. Nepomuceno - achou que a guerra tinha chegado a nm ponto crtico, e que s nm homem podia salvar a situao.
- Esse homem - disse o ma jor, sempre olhando pau Luzia - era Lima e Silva.
O padre, que ainda se balouava na sua cadeira, sorria e avisou: - Esse nome no deve ser pronunciado nesta casa. - Fez um
A GUERRA        519

sinal na direo de Bibiana. - Ela no esquece que Caxias era um legalista que combateu os Farrapos. O marido de D. Bibiana, capito dos rebeldes, foi morto no princpio 
da guerra civil.
-        major voltou-se solene para Bibiana:
- Caxias  antes de mais nada um brasileiro e um patriota, minha senhora.
- Pra mim  um caramuru - replicou ela, seca.
-        major olhou para a ponta das botinas muito lustrosas, acariciou a barba e depois suspirou, dizendo:
- Vejo que muita gente nesta provncia ainda noo esqueceu a Guerra dos Farrapos.  lamentvel.. Nesta hora devemos deixar de lado todas as questes regionais. O 
destino da ptria comum est em jogo.
- ~ nm caramuru e basta - insistiu Bibiana, olhando para o Dr. Winter como a dizer: "Vosmec me entende, sabe por que estou. dizendo isto."
Winter sacudiu a cabe numa aquiescncia muda.
- Mas voltemos ao nosso assunto - pediu ele.
- Ficou ento resolvido entregar-se o comando de nosso exrcito a Caxias - continuou o Maj. Graa. - Mas aconteceu. que o ministro da guerra, Angelo Muniz da Silv 
Ferraz ...        .
- Um grande homem - atalhou o juiz - diga-se de passagem, um grande estdista .. .
O major encolheu de leve os ombros e prosseguiu:
- O ministro "da guerr teria dito: "Com esse homem noo sirvo."
O Dr. Nepomuceno pareceu animar-se de repente e interrompeu Ooutro:
Assim Zacarias ficou num dilema. Ou aceitava a nomeao de Caxias e perdia o seu grande, ministro, ou mantinha o ministro e
-        major quase chegou a dar um pulo na cadeira quando gritou:
- ...sacrificava a campanha!
- Mas Caxias no era o nico general em condies de assumir a direo da guerra.
- Era!" - O major lanou esta palavra como uma ordem de comando.
- Vosmec h de dzer que como militar entende melhor do riscado que eu. Concordo. Mas em matria de poltica, peo vnia para declarar que poucos, em que pese  
modstia, poucos como en .. .
- Mas noo devemos pensar em poltica quando a ptria est em perigo.
Winter j observara que s dois assuntos tinham a virtude de tirar o juiz de direito da sda apatia habitual: poltica e gramtica. Uma queda de gabinete ou a colocao 
dum pronome oblquo en coisa capaz de lev-lo a discusses calorosas e interminveis.
#52O        O CONTINENTE
- Vosmec, Maj. Graa, no negar que Zacarias  dos nossos maiores estadistas.
- ele provou que era acima de tudo um -homem muito apegado ao poder. Em vez de tomar nma das duas pontas do dilema, seguiu um terceiro caminho. Sacrificou o ministro 
ao general, mas no resignou.
O Dr. Nepomuceno. oitou uma risada inesperada que foi quase um ronco, e disse
- 8 a arte da poltica. A arte da poltica.
- Mas no da decncia - retrucou o major, dando um brusco puxo na tnica.
O Pe. Otero interveio:
- Poltica e decncia nunca andam de mos dadas. So inimigos .mortais.        -
O oficial, voltou-se para o sacerdote:
- Mas o nosso Imperador sabe fazer uma poltica hbil com nma decncia indiscutvel.
- O nosso Imperador  um homem excepcional... - observou o padre.
Winter simpatizav com aquele imperador barbudo e paternal. a respeito de quem se contavam tantas histrias e anedotas. Havia ao "redor dele uma aura de lenda. O 
mdico observara tambm como a reputao de integridade de carter do soberano influa poderosamente ma vida social, da nao. Era .um exemplo de honradez e bondade 
a ser seguido. D..Pedro II como que dava a nota tnica ao ambiente moral do pas. De certo modo = refletiu ainda Winter - $ua Majestade j fazia parte do folclore 
nacional como uma espcie de anti-Malazarte.
- Mas seja como for - prosseguiu o major - Lima e Silva foi nmeado, encontru nossas tropas desorganizadas e atacadas de clera-morbo, e- levou um ano no trabalho 
insano de reorganiz-las. Mas conseguiu. E se hoje a campanha se aproxima do fim  graas a        grande brasileiro!
~- Vou mandar servir o caf - disse Bibana, erguendo-se de " `s te  saindo da sala.
Luzia acompanhou-a com o olhar. Agora, pela expresso do rosto de sua paciente, Winter notava que ela sofria. Por que no se retirava? Por que no tomava as suas 
gotas? Seria que gozava tambm com o prprio sofrimento? Inacreditvel!
- Quer que eu v preparar o remdio? - murmurou, inclinando-se para ela.
Luzia sacudiu a cabea
- No. Obrigada. Estou bem.
E sorriu um sorriso doloroso e quase terno. Wnter no pde deixar de ficar perturbad. J no sabia mais ao certo o que sentia por aquela mulher. Logo que a conhecera, 
desejara-a fisicamente
A GUERRA        5 21

duma forma mrbida que o assustava um- pouco. Depois fugira dela cm certo horror. Agora o que sentia era pena mesclada de curiosidade. Sempre que a via pensava 
naquele tumor que lhe crescia uo estmago core o vio maligno duma flor que se alimenta de carne. Era-lhe inconcebvel a idia de desejar carnalmente uma mulher 
em tais condies, pois isso seria quase uma inclinao necrfila .. .
-        Pe. Otero, que na discusso parecia estar decididamente do lado do Maj. Graa, dizia agora:
- No entanto, as intrigas polticas contra Caxias continuaram no Rio de Janeiro.
-        major ergueu a mo com o dedo indicador enristado na direo do Dr. Nepomuceno:
- Agora vosmec veja a nobreza desse homem de prol. Tendo tudo na mo: prestgio, coragem, fora, um exrcito inteiro, ao invs de jogar todos esses trunfos na mesa 
em seu favor, preferiu escrerer nma carta a Paranagu, queixando-se amargamente desses homens que colocavam seus interesses pessoais acima dos da ptria e dizendo 
que, em vista de no lhe darem liberdade de ao, e . do governo no lhe mandar os homens e o material pedidos, preferia resignar. Estava doente, cansado e desiludido.
- A carta explodia como um petardo no Rio de Janeiro - ajuntou o Pe. Otero, dirigindo-se desta vez. ao Dr. Winter. - Todos sabiam. que Caxias era insubstituvel. 
Caxias valia mais que todo um ministrio
- No diga isso, padre! - protestou o Dr. Nepomuceno. - A guerra um dia termina e ns vamos precisar de homens da fibra de Zacarias e outros para reconstruir a nao.
- Mas seja como for - disse o major - essa carfa abalou o ministrio e Zacarias compreendeu que estava diante duma nova crise. Viu que o Imperador no hesitaria 
em sacrificar o ministrio para no perder o seu grande general, para noo perder a guerra l
- Mas Zacarias no quis ceder a uma imposio da espada - recitou o Dr. Nepomuceno com gravidade.
- Era preciso salvar as aparncias, achar um pretexto para renunciar.
- Sempre os interesses individuais! - exclamou o major. - O que importava noo eram os fatos, no era a soluo da guerra, eram as aparncias, o prestgio pessoal, 
a vaidade do Ministro Zacarias.
-        Dr. Winter no se pde conter:
- Mas o meu caro major no acha que a honra no  um
privilgio dos militares, e que um civil pode achar que sua sobre
casaca e suas calas merecem tanto respeito quanto a farda?
-        major mirou o mdico num silncio meio irritado. E na
#X22        O CONTINENTE
expresso do rosto do militar Winter leu tudo quanto ele queria dizer mas calava: "No se meta. Vosmec  um estrangeiro."
O Pe. Otero livrou o major de dar uma resposta, pois continuou a histria:
- Zacarias ento achou um pretexto para resignar quando Sales Torres Homem foi nomeado senador do Imprio. Esse tida_ do tempos atrs tinha feito grande oposio 
 famlia real em artigos escritos sob o pseudnimo de ... como era mesmo? Ah 1 Timandro. O pretexto era timo. Zacarias saiu de cabea erguida. No fora derrubado 
pela espada dum general mas. sim pela pena dum poltico.
- E perdemos assim -concluiu Nepomuceno - o nosso mais ilustre estadista 1
- Mas ganhamos a guerra - observou o major. - Ganhamos?
- Claro, Lopez est perdido. A vitria. agora  questo apenas de meses .. .
Winter viu corzi alegria entrar uma escrava com uma bandeja cheia de xcaras de caf fumegante. Apanhou a sua, serviu-se de acar e, enquanto mexia o lquido escuro 
com a colherinha de prata ("Maurcio de Nassau - afirmava Aguinaldo Silva - j tomou ch com estas colheres") perguntou:
- Mas vosmec noo acha, major, que quando Caxias voltar
da guerra triunfante e cheio de prestgio pessoal ele vai ser para
este pas o que Bismarck  para a Prssia?
- Que quer dizer o senhor com isso?
- Quero dizer que vai,ser a verdadeira fora por trs do trono,
o homem que daqui por diante governar o Brasil.. .
- Meu caro doutor, Caxias  um patriota e no um ambicioso! - 1VIas j se fala por a em repblica. Suponhamos que
Caxias .. .
- Ah, isso  que nunca 1 Seria uma traio ao Imperador e Caxias no  um traidor.
Winter achou melhor no continuar. Homens como o major no sabam discutir com calma. Tomavam tudo multo a peito, ofendiam-se com facilidade, s sabam discutir 
com palavras e sentimentos grandiloqentes: ptria, honra de classe, altrusmo,. nobreza, herosmo. Era impossvel esfriar-lhes o entusiasmo e traz-los a examinar 
os fatos com objetividade desapai~COnada.
- Nosso Imperador  um sbio e um santo - disse o militar. - Nossa monarquia  considerada no mundo inteiro uma verdadeira democracia. O prestgio do nosso soberano 
 conhecido nos pases mais civilizados do orbe. Falar em repblica nesta hora  um crne, uma traio que deve ser punida com fuzilamento.
L vem .ele com o seu peloto de fuzilamento - pensou o mdico. E por contraste lembrou-se de seus poetas. Por um instante
A GUERRA        5 23

Gocthe c Heinc estivmm naquela sala. visveis apenas para Winter. E geando ecos fantasmas se snminm, a mdico exclamou
- O caf est -uma delcial
Os antros, com as zcaras nas mos, fizeram um sinal de assentimento, menos o pr. Nepmnceno, que .nunca tomava cafs noite, pois sofria de insnia.
Bibiana entrou com ama bandeja cheia de bolinhos de polvilho e saia a distribu-los. O major olhava para Luzia com seus olhos clidos.
- Fala-sc em repblca, noo h dvida - concordou le, com mais alma. - Mas  meia dzia de mocinhos que andam com as rabtp cheias de leituras ezticas e idias 
eztravagantes.
- O mando inteiro anda cheio de idias eztravagantes - opiaon o Pe. Otero, crazando os baos e atirando a cabea para trs.
- O que  eztnvagante hoje - observou o Dr. Winter - pode ser mno natural e sensato amanh.
- E o progresso - concluiu o Dr. Nepomuceno, que mastigava am bolinho de polvilho. - E o progresso - repetiu, expelindo com a ltima palavra nm chuveiro de farelo.
O Pe. Otero fez nm sinal mm a cabea na direo de Bibiana:
- Aqui a nossa prezada amiga no se conforma com o sistema mtrico decimal.
Muito tesa em sua cadeira, e sem tirar os olhos do rosto da nora. Bibiana disse:
- L uma inveno triste. A gente estava muito bem como antes. Agora vem essa histria de metro e quilo e centmetro e no sei mais o qu ... Por que ser que vivemos 
sempre macagneando o que- esses estrangeiros fazem?
O -padre sorriu.
- Reformas como essas, D. Bibiana, no fazem mal- a ningum. O perigo est. em certas idias radicais que importamos da Europa. - E ao -dizer estas ltimas palavras 
olhou enviesado para o Dt. Winter.
- Um dia elas viro para ficar - retorquiu o mdico, sorvendo nm gole de caf - quer vosffec queira, quer no queira.
Nesse instante Luzia faloa pela primeira vez depois que Winter cerne:
- Vosmecs noo acham que estamos vivendo numa poca
muito interessante? - perguntou ela, passeando os olhos em torno
Qae se passa-com essa voz de viola? - perguntou o Dr. Winter
a si mesmo. No tinha mais a veludosa profundeza de outros
tempos: estava cansada e gasta.
- - En acho - respondeu ele em voz alta - que todas as
pocas so interessantes. O essencial  a gente estar vivo...
Luzia. pareceu animar-se.
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- Mas no, doutor. Veja bem. Quanta coisa est acontecendo no mundo hoje? Basta ler um jornal.
Assanhada! - dizia Bibiana em pensamento,- olhando para a nora. Esta doente, com um tumor na barriga, anda qne nem c?e dor e no entanto fica aqui em baixo conversando_. 
Por qu? S porque tem homem em casa.. Assanhada!
- A guerra civil nos Estados Undos ... - enumerava Luzia. - A libertao dos escravos, a morte de Abrao Lincoln .. . Ah? e a maravilhosa- histria de Maximiliano, 
mperador do Mfxico ... Ainda ontem estive lendo a respeito dele num almanaque.
- Mas que  que vosmec v de to maravilhoso aa aventura infeliz desse austraco? - perguntou Winter..- No passou. de um fantoche nas mos de Napoleo III, esse 
outro maluco. que est convencido de que  mesmo Napoleo Bonapart.
- Vosmec conhece bem" a histria de Maximiliano, doutor? "
- O suficiente para julg-lo um,idota.
Luzia sacudiu a cabea com ar de desaprovao.
- Pois eu gostava de ser a Imperatriz Carlota ... - murmurou.
Est louca-? - exclamou Bibiana em pensamento. Decerto Otumor j est atacando a cabea dela. Onde se viu? A Imperatriz Carlota!
O Maj. Graa olhava ..para Luzia com olhos cheios de apaizonada admrao..O Pe. Otero balanava-se na sda cadeira e escutava tudo a sacndr a cabea lentamente, 
numa silenciosa mas decidida reprovao. O ,Dr. Nepmuceno parecia ter mergulhado num de seus cochilos intermitentes.
- Pense bem na histria, doutor - continuou Lins. - Um arquiduque austraco que viajou por todo o mundo; um belo .omem de pele clara e olhos azais,., ura} , homem 
educado, um homem bom, e de repente se v imperador dum pas .de ndios de cara de bronze, um pas to diferente da ustria como. a noite do dia. E gomec j pensou- 
no~ papel da Imperatriz Carlota quando foi falar. com Napoleo III para lhe .pedir. que no .abandonasse MaXimiliano?
- Perdeu o seu -latim - itenompeu-a Winter.
- Mas que importa ?        .
- .E acabou transtornada do juzo - acreEaentou o doutor, tomando o ltimo gole de caf.
- E todo isso no  belo?
O Dr. Nepomnceno abriu os olhos e manifestou-se:
- No acho nada belo.. No h nada mais sublime qne o juzo perfeito, a lucidez das idias.
- Mas o mando dos sos  um mundo triste - sorria Luzia. - O mundo dos loucos, esse sim, deve ser maravilhoso e sempre cheio . de coisas novas e fantsticas.
Vosmec  que pode dizer - pensou Bibiana. E lanou para a .
A GUERRA        525

nora nm olhar carregado de censura e rancor. Achava quase indecente que uma viva ainda moa estivesse a conversar aquelas coisas com homens. Aquilo positivamente 
noo era assunto de mulher..
Via-se que o Maj. Graa estava fascinado; aquele sortilgio parecia roubar-lhe a voz.
- As pessoas normais - continuou Luzia - so as mais sem graa do mundo.
Winter olhou para o major e leu espanto e decepo em seu rosto. O Pe. Otero sacudiu a cabea, penalizado.
- Vosmec precisa vir  igreja, confessar-se e depois tomar a comunho, D. Luzia.
Havia. anos que o vigrio insistia em trazer aquela ovelha negra para o seu rebanho - refletiu o mdico. Luzia, porm, recusava-se, com uma obstinao e uma coragem 
que ele, Winter, no podia deixar de admirar. Sabia que ia morrer e seria natural que diante da incerteza do que pudesse haver para alm da morte, ela tentasse uma 
reconciliao com Deus atravs da Igreja.
- Fiz um donativo em dinheiro para as obras da igreja, padre - replicou ela. - L o mais que posso dar.
- Mas ns queremos tambm a sua alma, D. Luzia.
- Vosmec tem certeza de que eu tenho uma alma:
O major empertigou o busto e olhou para o padre com espanto. O Dr. Nepomnceno ficou de boca aberta a mirar a dona da casa.
- No- diga uma coisa dessas, ~ D. Luzia? - exclamou o vigrio. - Que Deus lhe perdoe? Nunca mais diga uma coisa dessas.
Por que  que ela. noo vai pra cama dormir! - perguntava Bibiana em agonia. Por qu? Por causa do major. Quer ficar aqui se mostrando pra ele. Por isso diz coisas 
que noo devia, coisas que s uma mulher perdida pode dizer.
Luzia levou os dedos  altura do estmago e ficou como que a. acariciar o tumor.
- E depois - continuou ela, como se no tivesse ouvido as palavras do padre - temos todos esses inventos maravilhosos: ,o vapor, a estrada de feno, o telgrafo.. 
.
- No sei aonde essas engenhocas todas nos vo levar - observou o .padre, com um gesto de quem queria empurrar para o futuro uma preocupao que ao faturo pertencia.
Winter sentiu que a conversa entrava num terreno que lhe era agradvel pisar. Por intermdio de Voa Koseritz recebia jornais da Alemanha e acompanhava com o interesse 
de quem l .uma novela fascinante, a marcha das idias polticas na Europa. E o fato de ele estar em Santa F - por assim dizer num outro planeta - tornava . todas 
aquelas coisas mais esquisitas ainda.
- H uma idia em marcha, senhores - disse ele. E, em seguida, percebendo que tinha falado com ar teatral, sorriu, achando-se ridculo. Ergueu-se, enfiou ambas as 
mos nos bolsos das_
#526        O CONTINENTE
calas, uminhon at a janela, olhou para fora, viu a figueira na noite morna e calma e lembrou-se duma madrugada em que encontrara ali Florncio e Bolvar a conversar... 
Os outros esperavam em silncio.
- Que idia? - perguntou o padre, com o ar provocador de
quem j sabia o que o outro ia responder. - Ainda a idia da Revoluo Francesa. - Ora! - fez o padre. -Ora!
- Uma idia cuja marcha - continuou o mdico - a vossa Santa Aliana se esforou por .deter.        "
-        major, que brincava distrado com a fivela dourada do cintaro, soltou no ar a poeira de sua voz:
- Vosmec no poderia esclarecer melhor seu ponto de vista? Na minha fraca opinio; a Revoluo Francesa...
Calou-se de sbito, fcm olhando para Luzia e no disse o que era a Revoluo Francesa na sua fraca opinio. O Dr. Winter interveio
- Napoleo Bonaparte atrasou o relgio da Histria com suas
guerras de conquista. Em soma: traio a Revoluo.
- No diga tamanho absurdo, doutor! - protestou Erasmo
Graa,. entesando o busto e ficando sentado na ponta da cadeira. Solidariedade de classe - pensou Winter.
- Deixem o doutor explicar seu ponto de vista - pediu Luzia. - O ponto. de vista no  propriamente meu. Mas en o aceito.
Li-o em algum livro ou artigo de jornal.
- Pe. OEero no perdeu a deixa e resmungou, irnico: - Se o ponto de vista no  seu, como pode ser bom? Wnter sorriu.
- Os outros s vezes pensam e dizem coisas inteligentes ... - replcon ele, inclinando-se numa pardia de mesura.
-        prosseguiu:
- Havia uma idia liberal nascida da Revoluo Francesa .. .
- Revoluo essa - atalhou o vigrio - que no passou duma conseqncia das idias herticas de livres-pensadores como Voltare, Diderot e outros.
- Vosmec me desculpe, padre, mas acho que o peso dos impostos influiu mais na balana que o das idias dos enciclopedistas. As causas de Revoluo Francesa foram 
mais polticas e econmicas do que propriamente intelectuais.
- Vosmec fala como se a poltica da Frana do scalo passado fosse a poltica local de hoje.
- A proximidade em que me encontro no tempo e no espao da poltica de Santa F s me confunde e prejudica a viso: A distncia geogrfica e histrica em que estou 
da Revoluo Francesa s pode dar-me uma perspectiva melhor, principalmente quando en a contemplo trepado nos ombros de gigantes como Carlyle e outros.
A GUERRA        527
Luzia apoiou-o
- Quando estamos diante dum quadro no nos afastamos dele para apreci-lo melhor?
- A est ... - disse Winter. E, mudando de tom, continuou: - A nbreza e o alto clero da Frana viviam  tripa forra. e quem pagava as contas era a burguesia: Os 
camponese"s vegetavam num estado de servido que no era muito melhor que o que prevalecia na Idade Mdia.
- O clero  sempre o bode expiatrio - exclamou o padre, dando uma palmada na coxa.
- Em suma - e neste ponto o Dr. Winter abriu ambos ,os braos, - descontados erros, violncias, matanas inteis, vinganas- e dios pessoais, dessa Revoluo sobrou 
alguma coisa. E essa alguma coisa sobreviveu tambm s guerras napolenicas. "
- E se me faz favor - perguntou Nepomuteno, olhndo significativamente para o Maj. Graa - que vem a ser essa "alguma coisa" ?
Winter esclareceu:
- Os Direitos do Homem, as liberdades inalienveis do indivduo, o direito que cada cid~do tem  liberdade,  propriedade e  segurana. A liberdade de imprensa, 
de. culto e de palavra para tods, sem nenhuma distino.
- Patacoadas! - exclamou o vigrio. - Liberdade? Para que  que o povo quer liberdade? Para ser ateu, herege, licencioso? Liberdade para tomar a mulher do prximo? 
Lberdade para caluniar, mentir, ofender? Liberdade para quebrar os mandamentos divinos? Libertinagem, isso "era o que queriam esses senhores da Revoluo Francesa.        .
- Eu noo esperava outra reao da parte- de vosmec - disse o Dr. Winter.
O major perguntou:
- E vosmec acha, doutor, que essas idias foram alguma vem postas em prtica?
- Eu j disse que Napoleo atrasou o relgio da Histria. Ainda h pases que no saram de todo das sombras da Idad Mdia. Mas em certos crculos do mundo floresce 
o pensamento liberal. A semente foi lanada. No resta a menor dvida.
- Mas o grosso do povo - interveio o Dr. Nepomuceno - esse continua no mesmo. -
,~- Exatamente.
- E h de continuar sempre - replicou o major.
- No vejo razo para fazer-se uma afirmativa to categrica.
- Essa igualdade com que os senhores liberais sonham = insistiu o militar - pode muito bem significar desordem, desrespeito e anarquia.
- Eu compreendo muito bem que vosmecs prefiram a idia
#52"8        O CONTINENTE
A GUERRA        529
da monarquia, da manuteno dos privilgios da Igreja e da nobreza, e da submisso do povo.
- E"para a mulher - interveio Luzia - uma posio idntica  qne ela tinha "na idade do obscurantismo.
Por que- que ela noo fica de boca fechada? - perguntava Bibiana a si mesma. A atitude da nora lhe dava uma vergonha to grande que ela como que" sentia formigas 
lhe passearem pelo corpo. Por que  que essa sem-vergonha no vai pra cama?
- Se o Pe. Otero pudesse - disse ainda Luzia, sorrindo - ele erguia uma muralha para evitar que as invenes e as dias novas da Europa entrassem no $rasil.
- No seremos mais felizes nem melhores - replicou o sacerdote - por adotarmos essas tais "idias novas" e essas engenhocas fedorentas, noo , major?
O militar fez um gesto de finde"so.
- No .vejo neahuma incomptibilidade entre o progresso, a
decncia e as nossas tradies polticas e relgiosas - declarou ele. - E quais so .essas tradies? ~ perguntou Carl Winter. O major hesitou por nm instante e 
depois dsse: - Na poltica, a idia conservadora. Na religo, o catolicismo.
De resto, noo estamos ainda preparados para ter todos esses inventos
e novidades.
- -Ainda teremos de esperar muito pelas estradas e feno e pelo .telgrafo. Pelo menos nesta provn"a.
- Graas a Deus I - egdamou o vigrio.
Winter deu de ombros. Fosse como- fosse, ele noo podia imaginar uma- locomotva entrando em Santa F, cortando o siln"o dos campos com seu apito e sujando aqueles 
belos cus com a fumaa escura de sua chamin.
- L uma pena ~ que a gente noo possa viver cem anos para ver tudo isso .:. - murmurou Luzia. E com estas palavras criou am silno de constrangimento.
Pouco antes daa dez horas o vigrio e o Dr. Nepomnceao fizeram suas despedidaa e retiraram-se. O Maj. Graa, entretanto, permaneceu sentado. A princpio fz-se um 
siln"o um pouco dif"l, como se todos os assuntos se tivessem esgotado. Bibiana noo tirava oa olhos da nora. Winter percebia claramente que o major ainda tinha 
esperana de poder ficar a ss com Luzia aquela noite, nem qne fosse por um breve momento. Sabia, porm, que Bibiana estava de"dida a no arredar p dali. O ofi"al 
pigarron, olhou para o mdico como para lhe pedir que comeasse um assunto, e
como Ooutro permanecesse calado, a mr-lo com seus olhos irnicos. ele olhou na direo da janela e disse:
- Est uma linda noite.
- E nem parece - observou Luzia - que a esta hora homens esto se matando em terras do Paraguai. No  extraordinrio? Neste exato instante, um soldado est enterrando 
a sua baioneta no peito dum inimigo. E numa sepultura perdida no campo o cadver dum oficial brasileiro est se decompondo. Estou vend as dragonas dele sujas de 
terra. - Luzia olhava intensamente para o major. - E os cabelos e as barbas dele esto ainda crescendo.  mesmo verdade que os cabelos da gente continuam a crescer 
depois que morremos ?
O major tinha agora no rosto uma expresso de perplexidade.
Em vez de responder, Winter disse:
- A esta hora em algum outro lugar do mundo algum pode estar compondo uma sonata ou escrevendo um verso.
- Ou fazendo alguma coisa que preste - atalhou Bibiana.
- Bom - disse o mdico de repente. - Preciso ir embora. p tarde.
- Fique- mais um pouco, doutor - pediu Bibiana. - Preciso falar com vosmec.
O major ergueu-se, deu um puxo na tnica e disse:
- Vou fazer as minhas despedidas. Volto amanh para o campo de batalha.
Winter achou a expresso "campo de batalha" um pouco teatral, mas perdoou ao major. Ele estava diante de sua bem-amada: precisava impression-la.
- Minha misso em Santa F est terminada - continuou ele. - Quero agradecer s senhoras. - Fez um sinal com a cabea - abrangendo sogra e nora - e a vosmec, "doutor, 
por todas as consideraes que me dispensaram .. .
Winter, repetindo uma frmula corrente na Provncia, disse:
- Vosmec  merecedor.
Bibiana permanecia de lbios apertados, sem tirar os olhos do oficial.
- Peo a Deus - prosseguiu ele - que um dia eu possa voltar a esta terra de onde levo as mais gratas recordaes .. .
Winter contemplava Luzia, que acariciava o tumor com a ponta dos dedos.
- D. Luzia - prosseguiu o major - no posso r-me embora sem lhe dizer da grande impresso que vosmec me causou. Confesso que nunca encontrei em toda a minha vida 
dama mais culta nem mais virtuosa, isso para no falar na sua formosura.
A emoo apagava ainda mais a voz de poeira. Bibiana trocou com o mdico um olhar travesso.
- Vosmec  muito bondoso, major - murmurou Luzia.
#53O        O CONTINENTE

- Diga antes que sou justo. H mais uma coisa que vou pedir a Deus. ir que no dia em que eu voltar a Santa F possa ter o prazer e a honra de rev-la.
Luzia estendeu ambas s mos sobre a tampa do estojo da ctara.
- No, major - disse ela. - Quando vosmec voltar da guerra e quiser me ver, no  nesta vila que deve me procurar. p num outro lugar, muito mais quieto e mais triste 
que este. Fica no alto- duma coxilha.
- O cemitrio - explicou Bibiana quase sem sentir, temendo
que o major noo compreendesse a aluso.
Erasmo Graa olhava com ar perdido para Luzia, que voltou a
cabea para a sogra e confirmou:
- p isso mesmo. O cemitrio.
- Por favor, minha senhora - exclamou o militar - no diga isso.
Os dedos de Luzia acariciavam as incrustaes. de madreprola do estojo.
- Todo mundo sabe que no tenho vida para muito tempo.
Se duvida, major, pergunte ao Dr. Winter.
Por um instante Erasmo Graa ficou sem saber que fazer.
- Deus  grande - disse ele por fim. - E Deus noo  cruel. Ningum ouviu a risada seca e sarcstica que D. Bibiana soltou ;
porque ela riu em pensamento, Ru como se s ela conhecesse o
carter de Deus.
Na expectativa de que algum ali dissesse-uma palavra de esperana, mesmo que fosse uma palavra hipcrita, o major olhava do mdico para a velha.
- Mas noo  possvel - tartamudeou le - deve haver um remdio ... Deve. haver recursos, em Porto. Alegre, no Rio, quem sabe se na Europa .. .
Luzia sacudia a cabea lentamente, numa serena negativa.
- Para meu mal no h remdio, major. Mas no se aflija.
A maior interessada no caso sou eu. Estou resignada.
O oficial olhava perdidamente para o bico das prprias botinas. - A vida  bem triste - murmurou ele. - Hoje estamos
aqui, amanh .. .
No completou a frase.
- Mas para quem mora em Santa F - replicou Luzia - tanto faz estar em cima da terra como debaixo dela,  a mesma coisa .. .
Louca varrida - pensava Bibiana. No sabe o que diz.
O major permaneceu um instante num silncio de constrangi
mento. P.or fim deu um passo na direo de Luzia e disse:
- Ento adeus, D. Luzia. Que Deus vos abenoe e guarde. Tomou-lhe da mo e beijou-a respeitosamente. Depois apertou
a mo de Bibiana e murmurou:
A GUERRA        5 31

- Muito agradecido por tudo, minha senhora. - Voltando-se para o doutor, perguntou: - Vosmec vai tambm?
- En fico, maior.
Apertaram-se as mos em grave silncio. Bibiana acompanhou Ooficial at a porta sem dizer palavra. Mas quando o viu sair para a rua, ainda de gnepe na mo, deixou 
escapar um quase involuntrio:
- V com Deusl
Atravs da fresta da porta ficou acompanhando com os olhos o volto de Erasmo Graa. que atravessava a rua na direo da praa. Um cheiro morno de vento que passou 
por muito campo lhe chegou s narinas. O volto do major sumiu-se nas sombras das rvores. Bibiana ficou olhando fixamente para o lugar onde Bolvar tinha cado morto 
.. .
Qaando voltou para a sala, Luzia j se havia recolhido e o Dr. Winter comeava a acender um de seus charutinhos.
- Ento? - perguntou o mdico, erguendo as sobrancelhas.
Bibiana sentou-se pesadamente numa cadeira e deixou escapar am suspiro de alvio..
- Desse estamos livres, pelo menos por enquanto.
Winter gostou daquele verbo no plural. O estamos de certo modo o ndna na grande conspirao.
- Sabe que estive na casa do Florncio hoje de manh? - pergnnton ela. Winter sacudiu a cabea negativamente. - Pois estive. Aquele menino  teimoso como uma mula.
- ~ um Terra.
- Est rceado nm osso duro mas no se entrega. L to orgulhoso- que no quis aceitar nenhum a~utono meu.
- Vosmec bem sabe por qu.,
- Se. Mas  uma bobagem. O dinheiro a bem dizer  do primo dele.
O dinheiro  do velho Agninaldo - pensou Winter - e, por sinal, dinheiro muito mal ganho. Mas no deu voz a essa reflexo. I.imiton-se a fazer um gesto vago.
- Eu quis emprestar um dinheirinho pro rapaz comprar noras cabeas de gado e comear uma criao. Tambm ofereci em arrendamento nm pedao do Angico. Ele s sabia 
era sacudir a cabea e dizer: "no carece, titia. No carece. J tenho um negcio em vista." Para inveno. No tem nada.
- Como  que . famlia tem vivido?
- A mulher faz renda de bilro pra fora e o Florncio faz uns laos, uns lombilhos e vende por a. Mas isso noo chega pra dar de comer pras cinco bocas que tem em 
casa.
Fez uma pausa durante a qual ficou alisando um friso maginro na saia. Depois
- E verdade que o Florncio vai ficar com a perna dura pro resto da vida?
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- Boa como antes a perna no ficar. Mas acho que ele poder andar, a cavalo e caminhar sem muleta.
Bibiana soltou um suspiro de pena.
- Coitado! Merecia outra sorte. E um homem de bem como o pai. Seja como for, voltou da guerra. Muitos no voltaram. Pois , doutor. s vezes eu penso que Deus escreve 
direito por linhas tortas. Se o Bolvar no tivesse sido assassinado pelos capangas do Amaral, ele decerto tinha ido pra essa guerra e talvez j tivesse morrido.
- Tambm podia ter morrido de clera-morbo em Porto Alegre...
- Ou podia ter nascido morto.
- 1: como lhe digo sempre. No adianta a gente se preocupar. O que tem de ser traz fora.
- As vezes, sentada nesta cadeira, fico pensando, pensando e no chego a compreender direito o que  que Deus quer da gente. - Talvez nem Ele mesmo saiba.
- Dizem que fez o mundo em ses dias e descansou no stimo. Ms por que foi. que fez o mundo? Pra ficar depois vendo a .gente . penar aqui em baixo? Ser que Deus 
 como ela, que gosta de ver o prximo sofrendo? Deus me perdoei
A religio de D. Bibiana - refletiu Winter - era muito curiosa. Tudo indicava que ela ia  missa por puro hbito, porque antes dela sua me e sua av tambm tinham 
ido. Tratava os santos de igual para igual e em certas ocasies revoltava-se contra eles com o _mesmo fervor com que noutras lhes invocava a ajuda.
De resto - sorria Winter para seus pensamentos - as relaes entre os habitantes da Provncia e os santos eram singularssimas. As solteironas que faziam promessas 
a Santo Antnio para que ele lhes desse um marido, quando no viam seus desejos satisfeitos tratavam de castigar o santo casamenteiro, pondo-lhe a imagem dentro 
d"gua, de cabea para baixo, e s livrando-a dessa penitncia quando um pretendente aparecia. Mais de um crente lhe assegurara que. no se devia nunca deixar bebida 
perto da imagem de Santo Onofre, ":pois o diabo do santo  achaceir".
- De vez em quando penso na minha me - prosseguia Bbiana com sua voz calma e seca - no meu pai, na minha av e no que eles fizeram e sofreram, e nos trabalhos 
que passaram. De que serviu tudo isso? Me diga, de que serviu? Aqui estamos ns sofrendo, considerando, trabalhando, esperando. Primeiro esperei o meu marido que 
foi pra guerra: e no dia que voltou s tive ele por uns minutos, e logo em seguida foi morto pelos bandidos dos Amarais. Esperei que o Boli nascesse, que ele crescesse 
e tivesse nm filho. Agora Boli est morto, o filho est crescendo e eu esperando que ele fique homem. Minha av esperou muitas vezes o filho que tinha ido pra guerra. 
Uma vez fiquei na minha cadeira me balanando
A GUERRA        533

dum lado pra outro e esperando o Boli que tinha ido brigar com os
antilhanos.. Agora est a essa oura guerra baba que no acaba
mais, Minha Nossa Senhora! .Faz mais de cinco .anos que comeou! Bibiana ralou-se e pensou naquele medonho julho de 1865.
As tropas pangwis tinham invadido a Provncia e saqueado So
Borja. Contava-se que passaram cinco dias a levar em canoas pau
o territrio argentino tudo quanto podiam roubar na vila brasileira.
Nio respitanm nem as igrejasl $nm uns ndios bandidos e quan
do bebiam cachaa ficavam .piores que demnios. Ante a notcia
de que unia coluna. paraguaia avanava rumo de Santa F, a gente
ali na vila comeara a preparar-se pau fugir. Durante muitos dias
mulheres, velhos e crianas estiveram- de trouxas feitas, os tarecos
dentro das carretas, os cavalos encilhados - todo pronto, enfim,
para a fuga. Haviam sido dias e noites de susto e agonia. Mas ela.
Bibiana, tinha dito desde o princpio: "."Da minha casa no saio."
Traava j seu. plano: mandaria Licargo .com Fandango para longe
e ficaria esperando os paraguaios sentada na sua cadera de balano
ali mesmo no meio da sala .. .
- Se esta guerra dura mais dois anos - murmurou ela - o
Cargo  capaz de se apresentar voluntrio. Quando penso nisso,.
sinto at nm frio na bamga.
- Nio tenha cuidado. A guerra no dura nem trs meses mais. - Quem sabe? Sempre acontece o pior. Esse Solaao Lopez
parece que tem sete flegos.
- Pois agora ele vai perder o stimo._
-~- Tomara que vosmeo tenha razo. Mas no sei .. . Bibiana voltou a abca e olhou demoradamente na direo da
cacada.
- Sabe da 6ltima, doutor?. - Baizou a voz. - Ant"ontem
ela conversou muito temp com o Curgo. Era nisso, que eu queria
lhe falar .. .
Vosmec ouviu a conversa?
~- No, mas ele me contou todo. Essa mulher perguntou se o
menino queria ir embon com ela.
- E que foi que ele respondeu?
- Respondeu que no, brm como eu esperava. Mas tanta coisa
ela_ fez que aabon fazendo o Cargo chorar.
- Mas Luzia pensarf mesmo em ir embora?
Bibiana ao respondeu. Ficou por nm instante a olhar, para o
soalho e depois, goaae num cochicho
- Ser que da vai dnnr muito ainda? - perguntou, sem
erguer a olhos.
Winter hesitou por breves segundos.
- Pode ser que dure ainda alguns anos, mas pode ser qce dure
apega: alguns meses.
- Dera me perdoe, mas .. .
#534        O CONTINENTE

Calou-se de sbito, como que se arrependendo em tempo do que ia dzer.
" - No precisa dizer o resto. Eu sei o que vosmec est pensando.
- Sou uma mulher muito malvada. no sou, dhtor?
- Absolutamente. Acho que vosmec  uma pessoa muito prtica e muito sincera.
- No. fica me querendo ml, ento? - Claro que noo.
- Mas  que noo me sinto bem quando penso essas cosasr - A gente no sente porque quer. Sente porque sente. Bibana sorriu.
- Engraado! Sabe quem costumava dzer isso? O faledo Cap. Rodrigo.
- Se ele estivesse vivo tudo podia ser diferente, no?
- Qual? Se  Rodrigo no tivesse morado na Guerra dos Farrapos, tinha morrido noutra. Decerto nesta. Ou em algum duelo. Ele gostava de comprar briga. Brigava por 
gosto. Quando no havia uma guerrinha, andava triste..:
O gato cinzento de Bibana entrou lento na sala e veio enroscar-se aos ps da dona.
" - Ah 1 - fez ela, como quem de repnte se lembn. - Quero lhe mostrar uma coisa.
Tornou a olhar furtivamente na direo da escada e ps em cima da mesa seu leno amrrado  feio de- trouza, desfez-lhe os ns, estendeu-o hrizontalmente e tirou 
do centro dele nm papelucho cor-de-rosa, cuidadosamente dobrado, que- ali estava junto com algumas moedas de cruzado e um naco de fumo de mascar. e deu-o ao mdica
- Leia isso, doutor.
Winter aproximou o papel da luz das velas e leu
placa filho, quando eu morrer Vai um dia a campo-santo E reza a Deus por algum Que em vida te amou tanto.
E lembra ento, meu querido, Que ali no frgido co Vermes me roem o corpo Podre est meu corao
- Que  isto?
- Versos. Foi ela que fez. Dca pro Cargo ler. Winter sacudia a cabea lcntamtate.
- Inda mais essa 1- comentou D. Bibiana, com surda ndignao. - Faz versos.
A GUERRA        5 3 5

O doutor devolveu-lhe o papel sem dizer uma palavra.
- Ento?
- Fazer versos no  o pior. Perto das outras coisas isso  .at inocente .. .
- Eu sei. Mas ela est judiando do menino. Faz agora dois dias que no olha pra ele, que noo fala com ele. L como se a criana nem existisse. Tudo por causa daquela 
conversa de ant"ontem.
- Por que vosmec no manda o Curgo para o Angico? L ele leva a vida que gosta e fica longe da influncia da me.
-  o que- vou fazer.
- E quanto ao resto... esperar.
Entreolharam-se em silncio por alguns segundos, ao cabo dos quais Bibiana murmurou:
- Deus me perdoe.
Inclinou-se para a frente e comeou a fazer cafun na cabea do gato, que cerrou os olhos num sonolento gozo.
Winter olhou em torno como se quisesse abnager com o olhar noo apenas aquela sala e aquele momento, mas tambm o espao de tempo que separava aquele minuto exato 
do dia em que Bibiana entrara pela primeira vez no Sobrada
- Quase dezessete anos, no, D. Bibiana?
Ela sacudiu a cabea, devagarinho.
- r verdade. Um tempo. Nenhuma guerra, que eu saiba, durou tanto.
Winter pensou na sua curiosa sithao de neutro; e reconhecer que naquele conflito ele mantinha uma neutralidade benevolente para com a sogra em detrimento da nora.
- E depois - continuou ela - se houvesse muitas pessoas nesta casa a coisa noo era to difcil. A gente se distraa mais, tinha com quem conversar. Quando o Curgo 
est no Angico ns duas ficamos sozinhas. Ela come os seus mingaus no quarto e eh como solita na mesa. Vosmec sabe, o prato e os talheres e a cadeia do Boli continham 
no mesmo lugar, como se ele estivesse vivo. E s vezes eh fao de conta que ele est, converso com o meu filho. As negras quando entram com os pratos olham pra mim 
e decerto pensam que estou louca ou caduca. Por falar nisso, ao princpio quase fiquei louca mesmo. Um casaro deste tamanho e eu aqui dentro sozinha andando dum 
lado pra outro, resmungando e procurando noo sei o qu. A sorte  que eu trabalhava o qhe dava o dia e noo tinha muito tempo pra pensar em coisas ruins. Ia de noite 
pra uma com o corpo modo, fechava os olhos e no gheria pensar. Me doam as cadeiras, os braos, as pernas, o corpo todo, mas muitas vezes, apesar de cansada, eu 
no podia dormir. Nunca lhe acontecer isso, doutor?
- J, muitas vezes. E nessas ocasies quando consigo dormir
#536        O CONTINENTE

 um sono cheio de sonhos aflitivos. No outro dia acordo cansado, como se tivesse levado uma sova.
- Isso mesmo. Pois eu ficava de luz apagada, ouvindo todos os barulhos do Sobrado, s ratos correndo pelos cantos, o teto estralando, um que outro grilo cantando 
dentro de casa ... Ficava pensando no que ia acontecer no outro dia. Le digo, doutor, passei o diabo. No princpio ela fez o possvel pra me obrigar a ir embora. 
Fez horrores. Mas eu finquei p. S por causa do menino. Se eu fosse embora, perdia le, perdia .tudo .. .
- Eu sei muito bem disso, D. Bibiana.
- E mesmo eu lhe contei muita coisa. Vosmec  a nica pessoa que me entende direito. Acho que nem o Florncio  bem do meu lado nessa questo. O pai dele nunca 
me perdoou por eu ter ajudado o casamento do Boli.
- E o que torna sua vida mais difcil, dona,  que por causa do gnio da Luzia pouca gente tem coragem de visitar o Sobrado.
Bibiana fez um gesto de resignao.
- Mas a gente se habitua a tudo. Converso com  negrada da cozinha, falo com o gato, e quando o Curgo est aqui a coisa toda muda de figura.
- Deve ser um alvio quando vosmec vai para o Angico. L pel menos fica sozinha com seu neto, longe dela .. .
- Em parte  um alvio mas em parte no . Porque chega uma hora que eu penso assim : "Que ser que ela est fazendo sozinha l no Sobrado? Decerto maltratando as 
negras." E comeo a ficar com medo de que ela prenda fogo na casa. No tenho mais sossego e acabo achando melhor voltar pra c. Ento volto e a luta comea de novo. 
Quase dezessete anos nessa campanha, doutor. No  nenhuma brincadeira.
- E uma situao terrvel ... que a beladona no resolve - sorru Winter.
E em pensamento completou cinicamente a frase: "Veneno resolveria." E ficou a brincr com uma idia. Um dia chamam-no s pressas ao Sobrado porque Luzia morreu repentinamente. 
Ele chega e descobre que ela foi envenenada. L est a teiniagu estendida na cama, o rosto esverdinhado e contorcido, os olhos vidrados e mais vazios que nunca. 
D. Bibiana e ele trocam por cima do cadver de Luzia um olhar carregdo de significao. No da velha h medo, dvida e uma interrogao ansiosa. E no seu? Uma benevolente 
promessa de silncio. Depois ele senta-se  mesa para lavrar o atestado de bito. Causa mortis? Ach! J bastavam os dramas da realidade, era pura estupidez ajuntar 
a eles os criados pela imagnao. Mas quem lhe garantia que os chamados dramas da vida real no eram tambm produto da imaginao? Fosse como fosse, o dio de D. 
Bibiana pela nora noo era to grande que pudesse um
A GUERRA        537

dia induzi-la ao crime ... Ou era? Nunca se sabe de todas as coisas de que um ser humano  capaz .. .
- De que  que est rindo, doutor?
- De nada. Dumas bobagens que estou pensando.. .
Por um instante ficaram ambos calados. Depois. Bibiana disse:
-  uma coisa bem triste ver esta casa vazia. Eu sempre quis ter um bando de netos e bisnetos..Acho que vou morrer sem poder
ver os filhos do Curgo.
- Vosmec diz isso de faceira. Tem uma sade de ferro. - Isso tenho. Mas acho que noo passo dos sessenta e oito." - Quer dizer ento que j marcou a data de sua 
morte?
-  um palpite .. .
- Qual! Aposto como vosmec chega aos noventa.
- Pois Deus lhe oua. No  que eu tenha .medo de morrer.
Ningum fica pra semente. Mas  qne noo costumo deixar nenhum
trablho pela metade. Quando comeo um bordado, termino. ele
nem qne leve dez anos. S eu morrer antes de ver o Curgo homem
feito, casado e com filhos, ento  porque no adiantou nada pra
ningum eu ter vindo a ste mundo.
- Garanto qne vai at passar dos noventa. Desde que estou
nesta vila nunca vi vosmec de cama.
- Minha av tambm nunca ficou doente de ir pra cama. E
passou o diabo.
-  porque  raa  boa, dona.
- Hum! Pergunte pra ela se  da mesma opinio.
- Talvez seja, D. Bibiana. A gente s vezes se engana com
as pessoas .. .
- O doutor est sempre disposto_ a desculpar os outros e achar
que todos so bons. ~ que vosmec tem bom corao.
- O que eu tenho  bons nervos.
- D no mesmo.. Ah! Por falar em nervos, a Leoaor, minha
filha, me escreveu dizendo que tem andado muito nervsa e me
convidando pra ir visitar ela na Cruz Alta.
- E vosmec vai?
- No. Como  que vou deixar essa mulher sozinha aqui?
E capaz de fazer alguma barbaridade. Vosmec sabe o que aconteceu
um dia destes? Pois descobriu que tenho um amor especial por
aquele p de marmeleiro-da-ndia e a malvada, sem eu saber, man
dou cortar ele .. .
- ~ E cortaram?
-  mais fcil me cortarem o pescoo. B que ando sempre de
olho vivo e p ligeiro. Cheguei bem na hora que o negro Faustino
estava de machado em punho, perto da rvore.. - E que foi que aconteceu?
#538        O CONTINENTE
- Vosmec vai dar risada se en contar.
Um risinho convulsivo sacudiu os ombros de Bibiana. - Diga l..
- En estava na janela do quarto dos fundos quando vi o negro se preparando pra cortar o marmeleiro. "Pra com issol" - gritei. "No corte essa rvorel" E ela, que 
estava perto da porta da cozinha, gritou tambm: "Corta, negroI" O pobre do Fanstino ficou olhando ora pra - mim ora pra ela, com ar de pateta. Ento ela teve um 
acesso de nervos. e comeou a berrar: "Corta, .negro sem-vergonha, seuao en mando te dar umas chicotadas e botar salmoura nas feridas!" O Faustino, coitado, tremia 
todo da cabea aos ps. Levantou o machado devagarinho e ento eu peguei a pistola do Bol e apontei pra ele: "L~rga esse machado e vai t"embora, senoo eu fao fogo!" 
O negro largou o machado e disparou. pro fundo do quintal. Vai ento en disse com toda a calma: "Quem encostar a mo em qualgner rvore deste _quintal leva bala."
Winter sorria.. O gato abriu os olhos e pareceu ficar .escutando tambm.
- E vosmec era capaz de atirar mesmo? - perguntou o mdico. Bibiana hesitou por um segundo.
- .No sei.. Mas acho que era. - Um brilho de malcia lhe passou pelos olhos.. - De qualquer modo, doutor, a pistola estava descarregada. E en nunca dei nm tiro 
em- toda a minha vida. Contam que minha av nm dia matou um bugre. Mas noo  uma histria engraada, essa que lhe contei?
- Engraada? Sim. E um _pouco dramtica tambm.
- Pois tansos como esse h muitos. Se eu quisesse contar todos, a gente" passava aqui a noite inteira. Birras, desaforos que ela me faz, indiretas, malvadezas fininhas 
.. .
.~ Encolheu os ombros.
- No princpio eu me incomodava. Agora noo. Estou acostumada. Ela faz as coisas e eu ... nem gua. E como se no fosse comigo. Sei que tudo  uma questo de tempo. 
Estou habituada a passar trabalho. A vida nunca foi fcil pra mim, nem pra minha me e meu pai, nem pra meus avs. Parece que a sina dos Terras  passar trabalho.
- Nesta provncia os homens em geral resolvem suas questes a arma branca ou a arma de fogo. O duelo dura poucos minutos, um dos adversrios fica estendido no cho 
.. .
- Ou os. dois .. .
- Sim, ou os dois. E a questo est resolvida.
- Mas ns mulheres noo somos assim. Ficamos com a nossa guerra miudinha, dia a dia, hora a hora .. .
A GUERRA        539

- E  preciso mais coragem pra esse tipo de guerra feminino do qqe pra um duelo a adaga ou pistola.        `
- A pacincia  a nossa maior arma, doutor.
Mais do que a pacincia - refletiu Winter - as mulheres tinham uma constncia feroz no dio. No era nm dio que se concentrasse todo num mpeto para produzir um 
gesto ~de selvagem violncia. Diferente do dio dos homens, que se fazia labareda devastadora, mas se extinguia logo, o dio das mulheres era uma brasa lenta que 
ardia, s vezes escondida sob cinzas, e que durava anos, anos e anos . .
- No final de contas, doutor, eu estou sempre arpolandoy o senhor com as minhas histrias. Mas tambm vosmec  a nica pessoa com quem posso me abrir. Que diacho, 
a, gente tambm cansa de falar sozinha.
Winter ergueu-se, abafando um bocejo.
- Vosmec j pensou - perguntu ele, espreguiando-se - que para ela tambm todos esses anos no tm sido nada agradveis? Ela odeia esta casa, esta vjla, esta vida. 
E tem vivido ultimamente roda de dio e roda ao mesmo tempo pelo temor .. .
Bibiana ficou -olhando por um instante, absorta, para o pedao de noite que a janela emldurava.
- .H males que vm pra bem, doutor. Se no fosse esse .tumor, decerto ela j tinha ido embora. Vendia a casa, o Angico e levava o menino.
= E eu no compreendo at hoje por que  que ela noo foi. J reparei que as pessoas podem ter um dio de morte a outra pessoa, . lugar ou situao, mas .quando tm 
uma oportunidade de fugir deles, no fogem. Vosmec se lembra daquele paulista fazendeiro de caf que passou por aqui e quis casar com ela?
Bibiana sacudiu a cabea, fazendo que sim.
- Pois eu estava certo de que a sair casamento. O homem andava entusiasmado. e parece que Luzia tambm no estava de tdo indiferente .. .
- U I Andava at bem influda. Ouviu dizer que  homem
tinha um palacete na Capital, carruagem com cocheiro de. libr e
no sei mais o qu .. .
- De repente o fazendeiro foi embora sem dizer nada a nin
gum ... e nunca mais voltou.
Bibiana sorriu enigmaticamente.
- E vosmec noo sabe por qul
- Porque Luzia no quis casar com ele?
- No. Foi porque um dia tive um particular com o homem
e contei tudo .. .
- Vosmec?
#54O        O CONTINENTE
- Contei que ela no  boa da cabea. Contei o que ela fez pro Boli ... No escondi nada. Fiquei com as orelhas ardendo de vergonha, noo tive nem coragem de olhar 
pra ele ... Mas confiei.
- E que foi que o homem disse?
- Ficou meio pateta.. de queixo cado. No outro dia montou a cavalo e foi embola. No voltou aqui nem pra dizer " `Adeus, cachorrol"
E Luzia percebeu alguma. coisa?
- Sabei-me ll Se percebeu noo deu demonstrao. Inclinou-se e acariciou a cabea do gato.
Eram quase onze horas quando o Dr. Winter se retirou. Bibiana mandou. Natlia fechar as janelas e portas e depois, como costumava fazer todas as noites antes de 
deitar-se, tomou dum castial, acendeu-lhe a vela e saiu a percorrer as peas do Sobrado. Aquela casa era como uma filha querida para a qual tinha cuidados e carinhos 
especiais. Sentia cada arranho na parede, cada falha no reboco como uma ferida aberta em sua prpria carne. Fazia as negras esfregarem o soalho com sabo e casca 
de coco todos os sbados, e lavarem as vidraas. pelo menos uma vez por semana: Os mveis andavam sempre reluzentes, sem o menor gro de poeira. E ai de quem_ entrasse 
no Sobrado com as botas embarradas!
Depois de revistar todas as peas d primeiro andar, Bibiana subiu para o segundo. At o ranger dos degraus da escada sob o peso de seu corpo era uma musiquinha 
familiar e agradvel para seus ouvidos. Junto da porta da sacada, parou e espiou a praa atravs das vidraas. L estavam as rvores, suas velhas amigas, imveis 
sob o luar; e o vulto escuro da igreja, com sua torre incompleta. Pela rua passava naquele momento uma vaca com uma lantrna acesa nos chifres. Bibiana pensou no 
Amncio Braga, .agente " do correio. Diziam que a mulher dele o enganava com um dos filhos do Bento Amaral. Imaginem o Amncio passeando de noite com uma lanterna 
presa nas guampas! Riu um risinho baixo de garganta e continuou a caminhar ao longo do corredor. Suas chinelas de l eram to silenciosas como as pisadas do gato. 
E na quietude do casaro ela ouviu sons estranhos vindos do quarto de Luzia. Parou e prestou ateno: eram gemidos trmulos e prolongados, de mistura com soluos. 
Ficou imvel, de castial na mo, a imaginar o que se estaria passando no quarto da nora. Decerto estava estirada na cama, com dor no estmago. Pensou em bater e 
perguntar se ela precisava de alguma coisa. Mas tudo isso ficou s em pensamento. No disse palavra nem se moveu. O que a gente faz de mal neste mundo, aqui mesmo 
paga. O sebo da vela escorreu
A GUERRA        541

e pingou na mo de Bibiana, que despertou do amargo devaneio e
continuou seu caminho: Depois de certificar-se de que l em cima
tudo estava em ordem, entrou no quarto de Curgo, fechou a porta
devagarinho, aproximou-se da cama do neto e ergueu a .vela. O
rapaz estava de olhos abertos.
- U ... - estranhou ela. - Ainda no dormiu? - No, v.
- Por qu?
- Perdi o sono.
- Ento acende uma vela pro Negrinho do Pastoreio pra achar
ele de novo.
O rapaz sorriu tristemente. Bibiana sentou-se na beira da cama "
e perguntou:
- Quer voltar pra. estncia?
Curgo soergueu o corpo, numa sbita animao. - Quero, sim. Quando? - Amanh.
A luz amarelada da vela alumiava em cheio o rosto do me
nino ... Por um instante ela viu todos os seus mortos queridos no
semblante do neto. Pedro, Ana, Bolvar.:. A maneira que Curgo
tinha de olhar as pessoas, com a cabea ugi pouco atirada para trs,
era francamente do Rodrigo .. .
- Pois encilhe o zaino amanh de manh e toque pro Angico.
O Faustino vai junto.
- O Faustino? Mas eu j sou homem, v, posso ir sozinho. Bibiana sorriu, sacudiu a cabea num assentimento e murmurou: - Pois sim, Cap. Rodrigo, pode ir sozinho. 
Av e neto ficaram a entreolhar-se por um instante em silncio.
Do quarto contguo, abafados e dolofosos, vinham .os gemidos de
Luzia: A testa de Curgo franziu-se, seus lbios tremeram, e por
"seus olhos brilhantes e midos passou uma sombra.
Bibiana fez com a cabea um sinal na direo da alcova da nora. -  por causa disso que tu noo podes dormir? - ~.
- No h de ser nada, Curgo. Isso passa. Deita e dorme.
Uma vez havia muito tempo, ela dissera essas mesmas palavras a
Bolvar... "Isso passa. Deita e dorme."
O rapaz obedeceu, puxou a colcha at, o queixo e sorriu para a
av. Em pensamento Bibiana deu-lhe um longo beijo na face. Mas
s em pensamento, pois na realidade limitou-se a bater-lhe trs vezes
no ombro com a ponta dos dedos. Ergueu-se e saiu serra fazer o
menor rudo.
Os gemidos de Luzia tinham cessado. Bibiana entrou no pr
prio quarto, despiu-se lentamente, enfiou o camisolo de dormir e
#542        O CONTINENTE
estendeu-se na cama. O bom mesmo seria dormir logo sem pensar, porque seus pensamentos sempre eram maus e tristes. Fechou os olhos. Pela sua mente passou o vulto 
do Maj. Erasmo Graa. Depois, o de Florncio, caminhando e puxando por uma perna. Viu tambm Bolvar cado de borco no meio da rua, tom a cara numa poa de sangue. 
Revolveu-se na cama, inquieta, e" por algum tempo ficou escutando o silncio. Diziam que a guerra estava por terminar: era questo de meses ou talvez at de semanas... 
Mas, fosse como fosse, quando terminasse a guerra contra Solano Lopes, a outra guerra ia continuar feroz ali no Sobrado.
Soltou um profundo suspiro, soergueu-se na cama e apagou a vela com um sopro.
Num vero mui seco Jos Fandango foi levar a tropa a So
Gabriel. "
Como sempre acontecia, a peonada. das estncias por onde ele
passava ficava alvorotada quando via o velho chegar
pois no havia quem no apreciasse seus ditos, chistes e histrias. Foi assim -,que numa bela noite, numa estncia de Tupanciret,
Fandango sentou no galpo perto do fogo e, enquanto o chimarro
andava  roda, ficou a solar
porque quando pegava a palavra no entregava a mais ningum. Disse:
Ds de gurizote ando cruzando e recruzando o Continente
-        no hai canto destes pagos que eu no conhea. diz muita tropa nos campos da Vacaria nos de Cima da Sena
nos de Baixo da Serra Andei pelo vale do Uruguai
-        muita areia comi nesse deserto brabo que vai do Mampituba
ao Chu.
Miles de vezes cortei a Serra Geral
-        outros tantos a Coxilha Grande.
Pela zona missioneira e pela Campanha, meu Deus, sou capaz at
de andar de olhos tapados.
Tenho conhecido gente de todo o jeito: estancieiro pequeno e grande tropeiro e carreteiro mascate e bolicheiro
doutor formado e curandeiro polcia e contrabandista padre e bandido soldado e paisano
ndio vago e juiz de roupa preta. Tambm tenho encontrado mulher de todo o pelo morocha, castanha, ruiva rica, pobre, remediada gorda, magra, alta, baixa moa de 
famlia, china campeira mulher com medo de rato
-        fmea que briga como macho. Mas fui aprendendo aos pouquinhos que hai moas e moas
-        que  sempre bom a gente atentar no que. diz a lngua do povo:

Em S Borja e So Vicente, _Pra casar no se demora Que as moas l desses panos Cortam a gente de espo-tal

L na terra de Pelotas
As moas vivem fechadas. De dia fazem biscoito, De noite bailam caladas.
 moo, se eu le contasse, Vanc diria que-eu _ minto: As moas de Livramento Usam pistola. no cinto!

Aprendi tambm que cada hombre, como o cavalo, terra seu lado de montar.
A quest  a gente descobrir...
Porque hai gachos e gachos, nem todo o nosso povo  igual. Os da fronteira s largados, falam sempre meio gritando e com
ar de provocao.        . Gostam de contar bravatas e de fazes gauchadas tm mo aberta e corao grande
e assim como se espinham poe qualquer coisa e querem logo brigar em seguida ficam amigos e do a vida por vassunc.
Os da zona missioneis so retrados, falam pouco, noo gostam
de ostentao.
545
Do um boi pra no entrar em briga, mas depois de entrar do
uma biada pra no sair.
Agora, o que eu acho_ engraado  esse povo que vive l Aras
bandas do mar, nos campos de Viamo, de Conceio do Arroio e
-        Santo Antnio da Patrulha.
Tm fala cantada que s galego so gente pacata e meio sovina
mas cumprideira de suas obrigaes. Uma coisa, patrcios, eu les garanto:
pra meu gosto o verdadeiro Rio Grande fica da margem direita
do Jacu, Aros lados de So Borja e pra baixo
na direo de Uruguaiana, Santana do Livramento, Dom Pedrito
-        Bag
principalmente na Campanha, onde sempre teramos armas com
os castelhanos.
Da margem esquerda pro norte e pro mar tem gringo demais.
No gosto de alemo. Falam uma lngua do diabo
olham pra gente com um ar de pouco caso. Tudo neles  diferente: as roupas, as danas, as comidas, as casas at o cheiro.
Quando vejo um homem de pele -muito branca cabelo de barba de milho e olho de bolita de vidro at me d nojo.
Se eu fosse governo, mandava essa alemoada embora. No  que eu seja mesquinho, somtico ou malevo: estrangeiro tambm  filho de Deus. Mas cada qual deve ficar 
sossegado na sua terra com seus parentes e amigos, seus costumes e .cacoetes.
Duns anos pra esta parte, tem chegado tambm muito italiano. Se empoleiraram na Serra, porque a alemoada, que chegou pri
meiro, pegou os melhores lugares na beira dos rios.
J andei por essas novas colnias da regio serrana. A fala deles tem msica
-         doce como laranja madura
-        meio parecida com a nossa.
Gostam de comer passarinho de fazer e beber vinho de cantar, de ouvir missa de padre e de procisso.
Vassuncs so muito moos, no pegaram a Guerra dos Farrapos. Pois o velho Fandango teve a honra de servir com Jos Garibaldi, que tambm era gringo
mas gringo de senhoria.
#546
B R A D O- - V I
Sabem o que foi que ele disse na sua lngua atrapalhada? Que com a nossa cavalaria era capaz de conquistar o mundo. Pois  como eu les ia dizendo:
do Jacu Aras bandas do mar tem muito estrangeiro. Na vida do continente
tudo anda demudado
quase ningum mais usa chirip
agora  s bombachos.:
Nos fandangos j no danam tanto
a chimarrita, o tatu e a meia-Ganha:
o que querem  valsa, chtis, mazurca, polca, essas bobagens estrangeiradas.
Se h coisa que me d guizlia  ver esses tais postes do telgrafo, quando ando viajando pela campanha.
Se eu fosse governo mandava derrubar tudo.
Onde se viu a gente passar bilhete pra outra pessoa por um arame? Iss at  uma: pouca vergonha, porque. se quero dar algum recado, justo um charque, arranjo um 
prprio ou vou eu mesmo.
Ainda no avio passado eu ia levando uma boiada pro municpio
de Uruguaiana quando pela beira da estrada vi passar um trem. O diabo da locomotiva vomitava fumaa e fogo, e parecia dizer j-te-pego .. j-te-largo ... , j-te-pego 
... j-te-largo .. . De repente soltou um apito,
a boiada meio que se assustou e quase houve um estouro. Fiquei fulo de raiva, tirei a pistola da cinta e troquei bala no trem. Vassuncs meninos so modernos
falam em metro, quilo e litro.
Eu sou homem mui antigo
do tempo da ona
do palmo craveiro e da bebida em quartilho. Pois  como estou dizendo
com tanto gringo, tanto estrangeiro
com tanta moda nova
com tanta gente morando em cidade
nossos homens esto ficando mui frouxos.
E se no hai logo uma guerra ou alguma revoluo vai tudo acabar maricas.
Nesse dia a castelhanada cruza a fronteira brincando e toma o Continente a grito.
lblas no h de ser nada, porque como diz o rifo
Em qualquer pocinho d"gua, Deus pode fazer um peixe. E uenha de l esse mate, que j estou de goela seca.
26 de junho de 1895: Noite


Maria Valria acende a lamparina no gaarto dos sobtinhs e retira-se, depois de recomendar:. - Fiquem bem quietos. J vou- trazer alguma coisa- pra .~
roerem.
Qaando aporta s fecha. Torbio e Rdrigo se entreolham.
- Vam~ brincar de voa-amarela? - pergunta o primeiro. - Vamos. En digo: " vaca-amarela cagou na panela, trs a
mexer, quatro a comer, . quem -falar primeiro come.
Ambos apertam os lbios para no falar, e a muito custo roa
tm o riso. Ficam assim durante vrios segundos, as bochechas
cheias de ar - um ar que ameaa sar-lhes na forma dama rs:da
explosiva. De repente a porta se abre e Fandango entra.
- U! Que  qe esto .fazendo a to quietos?
Os meninos rompem numa gargalhada, pulam~da cama e come
am a gritar:        "
- O Fandango comeu! O Fandango comem!
O velho baixa para -eles nm olhar desconfiado e pergunta:- Comeu o qu?
- Bosta de vaca ! - ezdamam os doa ao mesmo tempo. -
Bosta de vaca!
Fandango sorri mostrando os dentes escama e midos, senta=se
na cama e fica olhando- para o cho.
- B o que todos ns vamos acabar comendo se o stio con
tinha ... - mnnnuroa ele. - Bosta de vaca com farinha e caldo
de laranja!
Rodrigo e Torbio aproximam-se do velho: o mais moo mon
ta-lhe na perna, o outro fama-lhe do brao.
- Conta uma histria pra ns. - Estore mui cansado.
- U ... - faz Torbio. - Tn conta  com a boca ~ no com
a perna. Tua boca tambm est cansada?        . - Conta uma histria do Pedro Malazarte logrando o Joo
Bobo - sugere Rodrigo. = Aquela que o Pedro aquentou no fogo
ama panela de feno at que ela ficou em brasa e depois vendem ela
p S O
#546
p S O B R A D O- - V I
Sabem o que foi que ele disse na sua lngua atrapalhada? Que com a nossa cavalaria era capaz de conquistar o mundo. Pois  como eu les ia dizendo:
do Jacu Aras bandas do mar tem muito estrangeiro. Na vida do continente
tudo anda demudado
quase ningum mais usa chirip
agora  s bomachas.
Nos fandangos j noo danam tanto
a chimarrita, o tatu e a meia-ranha:
o que querem  valsa,- chtis, mazurca, polca, essas bobagens estrangeiradas.
Se h coisa que me d quizlia  ver esses tais postes do telgrafo, quando ando viajando pela campanha.
Se eu fosse governo mandava derrubar tudo.
Onde se viu a gente passar bilhete pra outra pessoa por um arame? Iss at  uma: pouca vergonha, porque. se quero dar olgum recado, justo um chasque, arcanjo um 
prprio ou vou eu mesmo.
Ainda no arfo passado eu ia levando uma boiada pro municpio .
de Uruguaiana quando pela beira da estrada vi passar um trem.
-        diabo da locomotiva vomitava fumaa e fogo, e parecia dizer j-te-pego .. j-te-largo ... , j-te-pego ... j-te-largo .. . De repente soltou um apito,
a boiada meio que se assustou e quase houve um estouro. Fiquei fulo de raiva, tirei a pistola da cinta e traquei bala no trem. Vassuncs meninos so modernos
falam em metro, quilo e litro.
Eu sou homem mui antigo
do tempo da ona
do palmo craveiro e da bebida em quartilho. Pois  como estou dizendo
com tanto gringo, tanto estrangeiro com tanta moda nova
com tanta gente morando em cidade nossos homens esto ficando mui frouxos.
-        se noo hai logo uma guerra ou alguma revoluo vai tudo acabar maricas.
Nesse dia a castelhanada cruza a fronteira brincando e toma o Continente a grito.
lias nt~ h de ser nada, porque como diz o rifo
Em qualquer pocinho d"gua, Deus pode fazer um peixe.
-        venha de l esse mate, que j estou de goela seca.
26 de junho de 1895: Noite


Maria Valria acende a lamparina no quarto dos sobrinhos c retira-se, depois de recomendar:_        _ - Fiquem bem quietos. J vou tnzr alguma coisa pra comerem.
Quando a _porta s fecha, Torbio e Rdrigo se entreolham.
- Vamos brincar de vaca-amarela? - pergunta o primeiro.
- Vamos. En digo:" vau-amarela cagou na lxinela, trs a mexer, quatro a comer.. quem .falar primeiro come.
Ambos apertam os lbios para no falar, e a muito custo contm o rso. Ficam assim- durante vrios segundos, as bochechas cheias de ar - um ar que ameaa sair-lhes 
na forma duma risada explosiva. De repente a porta se abre e Fandango entra.
- U! Que  gire esto .fazendo a to quit~?
Os meninos rompem numa gargalhada, pulam~da cama e comeam a gritar:        "
- O Fandango comem! O Fandango comeu?
O velho baixa para -eles nm olhar desconfiado e pergunta:
- Comera o qu?
- Bosta de vaca ! - exclamam os dois ao mesmo tempo. - Bosta de vau!
Fandango sorri mostrando os dentes escanos e midos, senta-se na cama e fica olhando- para o cho.
- ~ o que todos ns vamos acabar comendo se o stio comtinua ... - murmurou ele. - Basta de vaca com farinha e caldo de laranja!
Rodrigo e Torbio aproximam-se do velho: o mais moo monta-lhe na perna, o outro toma-lhe do brao.
- Conta uma histra -pra ns.
- Estou mui cansado.
- U ... - faz Torbio. - Tn conta  com a boca ~ no com a perna. Tua boca tambm est cansada?        .
- Conta uma histria do Pedro Malazarte logrando o Joo Bobo - sugere Rodrigo. = Aquela que o Pedro aquentou no fogo ama panela de feno at que-ela ficou em brasa 
e depois vendem ela
#548
O CONTINENTE
O SOBRADO - VI        549
pro Joo Bobo dizendo que era uma panela mgica que no previ siva de fogo pra fazer comida. Vai ento o Joo Bobo compra panela e quand ela esfria ele v que foi 
empulhado. Conta 1
- Pois tu j cntou, muchachol - boceja Fandango.
- Mas agra conta tu.
Torbio tira a pistola do cinto de Fandango e comea a brincar com ela.
Larga essa arma, menino, que ela pode disparar. Arrebata a pistola das mos do menino e torna a p-la cldre.
- Ento conta outra histra - pede Rodrigo. - A do Negrinho . do Pastoreio - refora Bio. - J contei essa mais de mil vezes. - Mas cnta outra vez.
Fandango sorri, faz Rodrigo sentar-se no cho e diz: .
- Muita histria_ contei pro Licurg quando ele era assim do tamanho de vassuncs .. .
E por um instante ele rev os campos da estncia em outros tempos, quando saa pelas. invernadas com o Gurgo de quinze anos, a ensinar-lhe coisas.
Um dia perderam no Angico um terneiro brasino da estima de Licnrgo, e o menino ao anoitecer acendeu um coto de vela e fez uma promessa ao Negrinho . do Pastoreio.. 
No . dia seguinte, mal rompeu a alvorada, l estava o terneir perdido, berrando na frente da case da estncia.
- Conta! - insistem os meninos.
- Est bem, xaroposos! _ Est bem. .
Fandango recosta-se na cama e com a sua voz especial de contar casos, uma voz pausada .de conversa ao p do fogo, comea:
- Era uma vez um estancieir podre de rico -e louco de to malvado... (Isso se passou nos tempos de dantes.) Pois diz-que esse hombre mato tinha at dinheiro enterrado, 
mas era to sovina q$e noo comia ovo pra no botar a casca fora. Na estncia dele no dava pousada nem comida pra ningum. Pra encurtar o caso, o diabo do hombre 
era to ruim que por onde ele andava nem os quero-queros cantavam. Pois essa peste tinha um filho, um menino, ruim como o pai, porque quem sai aos seus noo degenera 
.. .
O velh faz uma curta pausa, puxa um pigarro e prossegue:
- Tinha tambm nessa estncia um negrinho escravo, preto como fundo de panela, mas de dentes brancos que nem asa de gara. Negro lindo, .mesmo!
- Como era o nome dele? - pergunta Rodrigo.
- No tinha - Torbio apressa-se a responder. - Tu sabe. - I~ - confirma o velho. - No tinha. Quando "um padre
passou pela estncia e comeou a batizar quem ainda era pago, o
negrinho tambm quis um padrinho. Vai entonces o estancieiro gritou: "Negro noo se batiza!" O pobre do moleque baixou a cabea e resolveu que ia ser afilhado da 
Virgem Nossa Senhora.
- E foi?
- Foi.
De olhos acesos, os meninos escutam a histria com uma ateno fascinada, e com um gosto novo de quem ouve um belo conto pela primeira vez.
- Todo o mundo judiava do Negrinho naqueia estncia maldita, principalmente o estancieiro e o filho. Pois diz que um dia o hombre malo mandou o Negrinho pastorear, 
num potreiro enorme de trinta quadras, trinta cavalos tordilhos. O Negrinho montou num baio e se foi .. .
- E os cavalos fugiram - antecipa-se Rodrigo.
- Cala a boca !
- Pois  - continua Fandango. - Quando anoiteceu, o Negrinho ficou cansado, pegou no sono, deixando o baio  soga. Alta noite vieram uns guaraxains, roeram a soga, 
o baio fugiu, os tordilhos tambm se foram e, num abrir e fechar de olhos se sumiram na noite grande. Quando acordou, o pobre do Negrinho viu que tinha perdido o 
pastoreio. Entonces desandou a chorar.
- E quem  que foi contar pro estancieiro que os cavalos tinham fugido? - pergunta Rodrigo.
- Orat - faz Torbio. - Tu sabe. Foi o filho dele, no foi, Fandango?
- E, foi o filho da me do guri, xereta simbergenza. Foi contar ao pai. O pai entonces manda amarrar o Negrinho num palanque e aplica-lhe uma sumanta de relho dessas 
de tirar a alma dum vivente a guascaos. LeptI Lept! LeptI O Negrinho ficu chorando e sangrando. E como castigo o hombre malvado mandou o pobre do menino sair na 
noite escura pra campear o baio e os trinta tordilhos perdidos.
Fandango faz uma pausa para observar melhor os dois meninos, cujos, rostos a luz da vela tinge dum amarelo alaranjado. Do outro quarto vem o barulho surdo da cadeira 
de balano da velha Bibiana. Ela tambm sabe a histria do Negrinho do Pastoreio - reflete o velho - mas conta-a de outro modo. H mil modos de narrar esse mesmo 
"canso" Fandango ouviu um no galpo de certa estncia de So Gabriel uviu outro na Soledade e finalmente um outro muito diferente `em Vacaria. Bem diz o ditado: 
"Quem conta um conto aumenta um ponto."
- E da? - pergunta Torbio.
- Da o Negrinho teve uma idia. Foi ao oratrio da Virgem sua madrinha e tirou de l um coto de vela acesa e saiu com ela na mo pelo campo .. .
- E foi pingando cera no cho, no foi? - pergunta Rodrigo
#55O        O CONTINENTE
- Isso mesmo. Foi pingando cera e uda pingo quando n" fiava aceso e brilhando como uma ontn vela. E tinha tantos PinSd que o empo ficou todo alumiado, claro como 
o dia. Entonas o Negrinho achou o seu baio e os trinta tordilhos. Montou no bei e repontou a tropilha pn estncia, pi um lugar que o estancieis. tnha marcado. Mas 
de repente chegou a noite, o Negrinha fitos com sono, amarrou de novo o baio e dormia. E de noite o filho do estaneiro veio, o malvado, e enzoton os trinta tordilhos, 
e a tspilha ontn vez se perdem no campo.
- E-que foi que o estancieiro fez?
- Den outra sova no Negrinho, uma sova to forte que o desgnadinho dessa vez comeou a se esvair em cangar e a revim os olhos. Ento o estancieiro pensou: "O diabo 
vai morrer. 8 noite e eu no vou me dar o trabalho de abrir uma cova pra enterrar esse molegne~, -Vou botar ele dentro do panelo dum formigaeiro que tem no meio 
do campo. L as formigas comem as cernes dele e ficam s os ossos. ~ isso que eu vou fazer."
- E fez?
- Fez. Primeiro se quedou ali pra ver o que as formigas-faziam. Os . bichinhos se assanhaam e cobriam logo o corpo do Negrinho e comearam a comer as carnes dele. 
Entonces o estancieiro foi-st embora satisfeito, dando risada, o cachorrol
- E os cavalos?
- Os cavalos continuavam sumidos.
- E aonde  que foi o estancieiro?
- Foi dormir. Diz-que teve . sonhos de arrepiar o cabelo. t
que a noite ficou feia, e que veio uma cerrao da cor de pelo de
rato, e durou trvs dias e trs noites.
Fandango cala-se e fica olhando paa a chama da vela, que dana, fazendo danar tambm nas paredes caiadas as sombras das trs pessoas que ali esto.
-  depois?
- _Ora, um dia o estancieiro resolve ir at o formigueiro pra ver a calavera do Negrinho. Mas quando chegou l ficou de boca aberta com o que viu.
Fandango entesa o busto, ergue as mos ossadas e tostadas. Sua cace est sria, os olhos arregalados, como se ele fosse o prprio estancieiro no momento de fazer 
a descoberta espantosa. Torbio e Rodrigo esto pandos, de boca entreaberta, nm ar entre medroso e palerma e no qual, no obstante, h nm leve toque de maliciosa 
incredulidade.
- O Negrinho l estava de p - continuou o velho - dando uma risada, no meio do formigueiro, nnzinho mas inteirinho, tirando as formigas do corpo com os dedos. E 
ao lado dele, assim no ar, numa nuvem de luz, a imagem da Virgem Nossa Senhora, rindo pro afilhado. No muito longe do formigueiro, o cavalo baio pas
O SOBitADO - VI        551

cava e em roda dele os trinta tordilhos sacudiam as crinas. O estancieiro perdeu a fala e ficou ali duro como uma estauta.
"Nesse instante Maria Valria entra no quarto, abrindo a porta com um gesto brusco. Num sobressalto os meninos voltam a cabea para a recm-chegada e uma careta 
de contrariedade contorce-lhe os rostos.        `
- Venham comer - diz ela. - Laranja e farinha. Foi o que se pode arranjar.
- Espera, madrinha - diz Rodrigo. - O Fandango est contando a histria do Negrinho.
Maria" Valria faz que os sobrinhos agarrem os pratos, onde gomos de laranja descascada esto sobre uma camada de farinha de mandioca, empapada aqui e ali de sumo. 
Com os pratos nas mos, mas os olhos postos em Fandango, os dois rapazes esperam a continuao do "causo".
O velho ergue os olhos para Maria Valria e diz:
- J estou no fim, dona.
Ela fica de braos cruzados, imvel e tesa, esperando.  tbia luz da lamparina seu rosto est todo manchado de sombras que a envelhecem, e como que lhe tornam maior 
o nariz, . mais encovadas as faces:
- E depois, Fandango? - pergunta Rodrigo.
- O Negrinho solta uma risada, pula pra cima do lombo do baio .. .
- Em pelo?
- Em pelo no mais ... E sai _repontando campo fora os trinta cavalos trdlhos.
O velho faz uma pausa, respira fundo e a seguir, com voz mais macia, remata a histria
- Diz-que da por diante em mttos lugares do Rio Grande tropeiros, carreteiros, gachos andarengos e pees de muitas estncias comearam a ver o Negrinho passar 
certas noites montado no seu baio tocando por diante a cavalhada tordlha. Todos sabiam do causa do estancieiro melo e achavam que tudo tinha sido um milagre da 
Nossa Senhora. Diz-que agora tudo que se perde no mundo o Negrinho acha, mas ele s entrega os perdidos a seus donos se estes lhe acenderem uma vela. O Negrinho 
no quer vela pra ele, mas sim pro altar da sua Madrinha.
- E ele ainda anda por a, Fandango? - pergunta Rodrigo.
- Diz-que.
Torbio fica pensativo por um instante e depois indaga:
- E essa histria  de verdade ou de mentira?
Fandango ergue-se devagarinho, respondendo:
- ~ uma histria linda, chiquito.
Depois, dirigindo-se a Maria Valria, murmura:
#552        O CONTINENTE

- Acho que vou acender hoje uma vela pro Negrinho pra tle trazer de volta pra casa o meu neto qe se perdeu nessa revoluo. - Sorri. Fecha um olho. - E pr afilhado 
da Virgem me devolva outras coisas, muitas outras coisas que tenho perdido nesta vida.
Sai do quarto caminhando no seu tranco sutil e faceiro.
- Vamos, comam duma vez! - diz Maria Valria aos sobrinhos.
- Estou enjoado de laranja - choraminga Rodrigo. - D3 dor de barriga.
- 1: o que tem.
Bio esfrega um gomo na farinha e depois mete-o na boca, trincando-o; o sumo lhe escorre pelas comissuras dos lbios.
- Ento conta outra histria, titia.
- Chega de histrias. Comam e vo dormir.
De repente, numa invencvel sensao de cansao, ela- se senta pesadamente na cama e leva ambas as mos s tmporas. A cabea- agora lhe di tant que parece que 
se vai partir. Senhor, quando acabar este martrio? Quando? Quando? Quando?


P ante p Fandang entra no quarto de Bibiana, que est 3s escuras. O solho estrala.
- Quem  l? - pergunta ela.
- Sou eu.
- Eu quem?
- O Fandngo.
Na penumbra ele distgue a silhueta da - velha, sentada na soa cadeira. Por alguns segudos Bibiana permanece silenciosa.
- Ah! - faz ela por fim, como se s agora reconhecesse o capataz. - Que  que anda fazendo na cidadel Quem  que ficou tomando conta do Angico?
Fandango fica um pouco confuso. Valer a pena lembrar  pobrezinha do que est acontecendo?
- Vassunc noo se lembra mais? - pergunta ele. - A cevoluo .. .
Cala-se de sbito,. sem jeito de explicar.
- Ah ... pois . Os caramurus esto a. - Como  que vasunc vai passando?
- Como Deus manda. Me acabando aos pontos. Estou gaasc
cega. Ningum me cnta mais nada. Os Farrapos j chegaram? Pobre da velha, caducando!
- No - responde ele. - Mas vo chegar , logo, no sc preocupe.
- Se o Cap. Rodrigo voltar, diga pra ele que suba, que no repare eu no descer. Estou mui cansada e enxergando pouco. Nin
O SOBRADO - VI        553

gum me conta mais nada. Onde est essa gente toda? Parou o tiroteio? O Bolvar aind"agorinha esteve aqui conversando comigo. Me trouxe notcias da Leonor.
Fandango fica pensativo. Tenho s cinco anos menos que ela.
.,
Qualquer dia vou andar tambm por a caducando, dizendo bobagens, servindo de palhao pros outros. Mil vezes uma boa morte!" O melhor seria morrer num baile, com 
as idias ainda claras, cair de repente sem vida no meio duma tirana ou duma chimarrita, como uma vela nova de chama brilhante que o minuano apaga com um sopro, 
e no como um coto que se queima at o fim, numa agonia triste.
- Vassunc no quer nada? - pergunta ele.
A velha fica pensativa por um instante e depois diz:
- Quero que v amolar o boi, que tem o couro gross.
- Est bem, dona.
Fandango sai do quarto lentamente, caminhando- na ponta dos ps.
A noite avana e o silncio l fora continua. Os homens conversam em vz baixa na cozinha, onde Joo Batista conta casos do tempo da escravatura. Na sala de jantar, 
enrolado no poncho, Florncio senta-se numa cadeira e prepara-se para a viglia da noite. Em cima do consolo, ao p do espelho, arde a ltima vela.
Licurgo aproxima-se do sogro e pergunta
- Por que no sobe. pra deitar na sua cama?
- Estou bem aqui.
- No adianta nada o senhor se martirizar desse jeito. J ontem passou a noite a sentado. No tem comido. nada. Um homem da sua idade no pode agentar essas coisas.
Florncio cerra os olhos e no responde. Curgo recebe o silncio do sogro como uma bofetada.
Rudo de passos na escada. Maria Valzia entra na sala, aproxima-se de Licurgo e diz
- A Alice est de novo com muita febre.
Florncio continua mudo, sem sequer erguer a cabea para a filha. E como Licurgo tambm nada diz, Maria Valria traa o xale e encaminha-se para o vestbulo.
- Vou chamar o Dr. Winter - anuncia ela.
- O qu? - exclama Curgo, dando alguns passos na direo da cunhada.
- Se os homens desta casa vo deixar a Alice rlorrer por falta de recursos - diz ela, parando  porta do vestbulo - eu preciso fazer alguma coisa.
- Est louca!
Florncio levanta-se, aproxima-se de Maria Valria, toma-lhe do brao e murmura:
- Tenha calma, minha filha. Pense bem no que vai fazer.
#554        O COl`ITINENTE

Esta cena toda tem um tom herico-teatral que deixa Licurgo constrangido e ao mesmo tempo irritado. Est certo de que a cunhada no ter coragem de sair szinha 
quela hora da noite, sabendo que o Sobrado est cercado de inimigos. O que ela quer mesmo  pr em brios os homens da casa. Mas ele no se deixa levar assim to 
facilmente pot este ardil.
- A senhora no consegue dar nem trs passos na rua - diz ele sem encarar Maria. Valria. -` Tem um maragato de tocaia na torre da igreja.
- Que me importa? - exclama ela.
- E a senhora sabe onde est o Dr. Winter a estas horas? Florncio tenta puxar a filha para dentro da sala. - M largue, papai!
- Por favor,. no grite 1 suplica o velho num sussurro. - Os outros podem nos ouvir.
- Pois que ouam?  possvel grie algum deles crie vergonha .. . Aparece um vulto  porta da sala de jantar. Pela altura Curgo reconhece Antero.
- Que  que quer? - pergunta com rispidez. O homenzinho d alguns passos e pede- Vassunc me d licena?
- Licena pra qu?
- Para ir buscar o douto?
- Ningum .lhe encomendou sermo!
- Curgo! - exclama Florncio, - A inteno do homem  boa.
Antero continua parado, eN~olhidq dentro do poncho.
- Se vassunc d licena eu vou. Sou pequeno,  mais fcil pra mim sair sem ningum me ver.. .
Cala-se. Os outros esperam-
- Pois  - continua o "Nanico"". - Saio pelos fundos, pulo o muro, sigo de rasto. Dou volta pel as ruas de trs e entro pelos fundos dz casa do doutor e digo pra 
ele que D. Alice est passando mal e que o Cel. Licurgo .. .
- No meta o meu nome nesse negcio. No pedi nada a ningum.
- Est bem - concorda Antero oom humildade. - No meto o seu nome. S digo que D. AIice est passando mal e peo pro doutor vir.. .
- E depois - pergunta Flornc;io - como  que vassuncs vo voltar?
Antero encolhe os ombros magros .
- D-se um jeito ... - diz. ^- Podemo"s erguer uma bandeira branca. Sabendo que  um caso de doena, os maragatos no atiram e nos deixam passar.
O SOBRADO - VI        555

Por alguns instantes ningum diz palavra. Maria Valria  quem fala primeiro:
- Muito obrigada, moo. - E depois, dirigindo-se ao cunhado: - Ento? Qne  que diz?
Sem olhar nem para a cunhada nem para Antero, Curgo responde:
- V. Mas no peo favor pra maragato. No meta meu nome nesse negcio. E se receber algum balao noo me culpe. En no pedi nada. A lembrana foi sua.
- Mas a mulher  sua - replica Maria Valria.
Curgo explode:
- Cale a boca!
Antero faz meia volta. e encaminha-se para a cozinha. Flornco aproxima-se dele, pe-lhe a mo no ombro e diz:
- Deus le acompanhe. Vassunc  um homem de coragem e nm homem de bem.
Mas cuspi na cara do Tinoco - pensa Antero. Sou nm covarde, nm malvado. Decerto agora chegou a hora de Deus me castigar. Se eu tiver sorte e voltar vivo com o doutor, 
 porque Deus me perdoou. Mas acho que vou ficar mas  estendido no meio da rua com cinco balas no corpo, me esvaindo em sangue. Ser que morrendo en encontro no 
outro mundo minha. me. e meu irmo? .
Antero funga, e com -mo trmula pega o chapu e enfia-o na c~.bea. Na cozinha conta aos companheiros o que vai fazer. Um deles diz:
- Tn  bem louco, nanico.
Outro vem apertar-lhe a mo:
- Tu  mais homem do que eu pensava. Deus te guie.
O velho Fandango, que remexe nos ties do fogo, limita-se a dizer, sem olhar para Antero:
- Bem diz o ditado: "Tamanho no  documento".
~A voz do negro Joo Batista vem do fundo da cozinha
- Tn sabe, Antero, que se os maragatos te pegarem te tratam como espio?
- No . .
- E tu sabe o que  que eles fazem com espio?
Antero espera, de boca entreaberta, uma secura na garganta.
- Passam a faca no pescoo - conclui o negro, com voz risonha.
- No assusta o outro! - protesta Jango Veiga. - Seja feliz. companheiro.
Antero abre . a porta da cozinha. A noite entra no Sobrado num bafo glido. As rvores do quintal esto paradas no silncio azulado. Sem voltar a cabea e sem dizer 
palavra, Antero comea a descer lentamente a escada.
#556        O CONTINENTE

As conversas cessaram. Os homens acham-se deitados no cho da cozinha, ao redor do fogo onde as brasas ainda esto vivas. Muitos dormem, ressonam alto: s vezes 
um deles fala no sono, balbucia uma palavra, solta uma exdamao.
De olhos abertos e fitos no vo da porta da cozinha, que o reflexo das brasas vagamente alumia, Florncio continua sentado na sua cadeira. Extinguiu-se a luz da 
ltima vela, e ele tem a impresso de que a escurido e o silncio aumentam o frio. A dor no peito lhe voltou e, com ela, a falta de ar e a aflio. Para ele a noue 
 pior de passar que o dia. Tem de dormir recostado em travesseiros, pois quando se deita a falta de ar aumenta. Sente um frio que lhe vem subindo dos ps e tomando 
conta das pernas, das coxas, do ventre ; quando este gelo lhe chegar ao corao todo estar acabado .. .
Pensa em Antero. Quanto tempo far que o homemzinho se foi? Duas horas? Trs? Quanto tempo faltar ainda para clarear o dia?
Rudo, macio de passos. Florncio v um vulto aproximar-se dele, parar diante de sua cadeira.
- Quem  ?
- Sou eu. O Fandango.
- Que foi que houve?
- Nada. S vim ver como vassunc vai passando. Falam em cochichos para no acordarem os outros. - A dor me voltou.
- Mui forte?
- Mais forte que da ltima vez.
- ir o diabo. Mas daqui a pouco decerto o nanico chega a com  Dr. Winter e ele d uma arrumao nesse seu peito.
- Vassunc acredita mesmo que ele vem?
Fandango fica mudo por um instante. Senta-se no cho ao lado do amigo, encruza as pernas e depois sussurra:
Pra le falar a verdade, no acredito muito. O doutor pode ter ido embora de Santa F, pode ter morrido... sei lI E o Antero a esta hora decerto est amarado suma 
rvore, com a garganta aberta .. .
Passos no andar superior.
- Como estar a Alice? - pergunta Floracio.
- Vim de l ind"agorinha. A febre voltoa e ela est se remexendo muito, batendo com a cabea dum lado pa outro, e at.
variando .. .
A Alice que Florncio agora v em seus pensamentos tem oito anos. tnnas compridas e est correndo no quintal atrs dama borboleta. Maria Valria aparece a uma janela 
e grita com sua voz esganiada: "Dcixa quieto o pobre do bichinhoI"
Florntio suspia fundo e depois pergunta
- E vassunc .no dorme, Fandango?
O SOBRADO - VI        557

- J tirci a minha toninha. No sou homem de macho dormir. Acho at que sou meio parente de coruja. Gosto da noite que me lambo todo.
Uma pausa curta. Depois a voz calma de Florncio
- Vassunc se lembn do Monarca, o meu bngad? "~
- Se noo vou me lembnrl En flor de animal.
O Monarca en o cavalo de estimao de Florntio. Serviu-o dunnte muitos anos e foi morto nm combate no principio da revoluo.
- Pois tive a noite passada um sonho esquisito com ele. Sonhei que estava num potreiro muito gnnde e de repents vi o Monarca saindo do meio duma cerrao. Estava 
,bem apmd e Encruo, sacudindo a cabea e fazendo sinais pra mim assim cmo gncrendo dizer: "Vim le buscar. Vamos embon." E -vaaauno sabe dnms coisa? No sonho fiquri 
at contente quando compreendi que o bragado ia me levar pro outro mundo. De repente no senti mais. dor neste peito nem frio. nem tristeza nem nada. Tudo en como 
noa tempos de dantes. Mntei no animal e entramos a troto na cerno ...        _
Fandango levanta-se e diz:
- g. Tem sonhos engaados. Mas Beja se dorme um pouco, seu Florntio.        "
- Estou com os ps gelados.
- Est porque quer. Vamos l pn perto da fogo.
Toma do buo de Floracio e ajuda-o a erguer=se. Encaminhamse os dois para a cozinha. Fandango leva a tadrira do outro, qac coloca na frente do fogo.
- Vamos animar este fogo - cicia ele. - Tome assento, seu Florncio. No est melhor aqui?
Florncio senta-se e fica olhando para as brasas. Fandango vai at a despensa e depois de alguns tainutos volta sobnando um pacote e alguns .pedaos de madeira.
- Veja s o que amostrei - cochicha.
Ajoelha-se diante da boca d fogo e mostra a Florgncio Opacotc  luz das brasas.
- Que  isso?
- Jornais velhos. Voa meter tudo no fogo.
- No faa isso. Deve ser a coleao do Licnrgo.. .
- Qual nada I Pa mim jornal ~  bom mesmo pra comcar fogo.
Florncio permanece calado c imvel, enquanto Ooutro comea a rasgar velhos nmeros de O Arauto e de O Danocrata c a atirai os pcdaoa doutro do fogo
#I S M  L I A C A R ~ 1
redao e as oficinas de O Arauto ficavam numa meia-gua
quase em runas, apertada entre o Pao Municipal e o casaro dos Amarais. Toda a gente em Santa F sabia que o jornal dirigido por Manfredo Fraga se mantinha graas, 
ao apoio financeiro que lhe dava o Cel. Bento, o qual da janela lateral de sua residncia costumava berrar sugestes para os artigos de fundo: "Ataque esses republicanos 
duma figa. Diga que so uma corja de traidores!" On ento: "Responda ao artigo de Jlio. de Castilhos e conte que- A Federao  financiada pela Maonaria." On ainda: 
"Ameace que vamos contar donde saia o dinheiro pra construir o sobrada dum certo republicano de Santa F. D a entender que vamos desenterrar cadveres, e que muita 
roupa suja vai .ser lavada em praa pblica 1"
Aos oitenta e um anos de idade era ainda Bento Amaral um homem-cheio de energia. Caminhava lentamente, arrastando. os ps, mas recusava-s a usar bengala, mantinha 
uma postura ereta e detestava ser tratado como velho. Tinha o crnio completamente calvo, liso e lustroso como uma bola de bilhar; a pele de seu rosto, duma tonalidade 
citrina, estava cortada de rugas fundas e terrosas; as plpebras empapuadas se lhe dobravam roxas sobre os olhos de bordas vermelhas e inflamadas e quase cobriam 
as pupilas dum cinzento frio e lquido. Toda a gente ali na vila achava difcil conversar com o Cel. Bento porque o homem falava sincopadamente, aos arrancos, soltando 
as palavras em rajadas e fazendo longas pausas nervosas de gago. Quando estava enfurecido a gagueira aumentava e, em vez de falar, ele ficava a silvar como cobra. 
Tinha o cacoete de levar de quando em quando a mo ao rosto e esfregar com a ponta do indicador a cicatriz que lhe marcava a face esquerda. Ultimamente deixais de 
fumar, mas adquirira o hbito de mascar fumo, de sorte que muitas vezes quando da janela de seu quarto gritava ordens para "o salafrrio do Fraga" - que lhe era 
til, mas que no fundo ele detestava - as palavras lhe saam da boca junto com um chuveiro de saliva parda. Da outra casa, com a mo em
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concha atrs da orelha - pois era meio surdo - o diretor de O Acauto escutava-lhe as ordens num silncio selvil e depois ia sentar-se  mesa de trabalho, molhava 
a pena na tinta e tom caligrafia caprichada traava o artigo de fundo, de acordo com as instrues do Chefe. Nunca publicava nada em seu jornal sem primeiro pedir 
a aprovao do Cel. Bento.
Naquela fria manh de junho, Manfredo Fraga terminava de revisar o editorial que devia aparecer no. nmero do dia seguinte. Sentado junto da escrivaninha, metido 
num largo poncho cor de chumbo, do qual sobressaa seu pescoo descarnado e cheio de pregas, a sustentar precariamente a cabea oval, de rosto rosado e glabr, o 
diretor de O Arauto parecia uma enorme tartaruga. Acariciando. o lbulo da orelha direita com a ponta da caneta, os cnls .acavalados no nariz adunco, os lbios 
a se moverem silenciosamente, Manfredo Fraga relia o artigo mais importante que escrevera desde que tomara a dire~o do semanrio.
Amanh, 24 de junho de 1884, ser um dia assinalado na Histria de nossa idolatrada terra. Santa F comemorar festivamente sua elevao  categoria de cidade. Aleluia! 
Aleluia! Que os sinos de nossa bela e alterosa igreja badalem e encham os ares de sons laaes, anunciando o fasto. grandioso. Finalmente a Assemblia Provincial 
fez justia, (gnae acra Eamen) , pois j a todos causava estranheza a tardana da concesso de foros de cidade  nossa vila, quando um outra localidade menos progressista 
e importante que a nossa (e cujo nome a discrio manda calar) j o tem de h.muito.
Manfredo Fraga ergueu a cabea de gnelnio e sorriu.
Todos iam perceber .que ali estava uma referncia velada a Cruz Alta, que era cidade desde 1879. O Velh ia gostar da indircta. pois tinha bina dos cruzaltenses 
e vivia s turras com o Baro de
S. Jac, chefe poltico do municpio .vizinho.
Sorrindo ainda, Fraga tornou a baizar os olhos para . o artigo:

A nossa Cmara Municipal e o Comit de Festejos  cuja frente se encontra o ilustre e benemrito cidado Alvarino maral, organizou para amanh um prograrra  altura 
do magno acontecimento. Ao romper da alvorada a Banda de Msica Santa Ceclia, organizada e orientada pelo provecto mdico e musicista germnico, Dr. Carl Winter, 
.percorrer as ruas principais de nona urs, tocando marchas festivas. As dez da manh haver na l~latriz um Te Deum, com prdica especial Pelo nosso culto vigrio,_ 
o Pe. Atlio Romano. .+Is quatro da tarde.
ISMALIA CAR        561

na Praa da Matriz, realizar-se-o as tcadicionais Cavalhadas, nas quais tomaro parte, como moucos e cristos, pessoas da nossa melhor sociedade. Como de costume, 
seguir-se-o as famosas provas das angolinhas, em que nossos garbosos contercneos tero ocasio de revelar sua percia de cavalheiros.
Finalmente  noite, o Pao Municipal abrir seus sales para um grande baile de gala, abrilhantado pela supracitada Banda, e iniciado por um cotillon, e ao qual 
comparecer o que Santa F tem de mais seleto e representativo. Por essa ocasio ser prestada significativa homenagem ao -venerando Cel. Bento Amaral, neto do fundador 
desta cidade, e por muitos anos chefe poltico liberal deste municpio.

Seguia-se um elogioso perfil biogrfico do Chefe. Manfredo acrescentou-lhe alguns adjetivos e a seguir, .fazendo uma pausa- na leitura, apanhou a garrafa de cachaa 
que tinha a seus ps, janto da cadeira, tomou um longo sorvo, estralu os beios e limpn-os com a manga do casac. Fazia frio, ele estava com os ps .gelados e 
o diabo do Velho no mandava nunca fazer. os consertos de que a casa necessitava: uma das paredes estava rachada, havia goteiras no telhado e o vento -entrava pelas 
fretas das janelas sem vidraas. Agora, porm, Fraga sentia no peito nm calor confortvel que aos poucos lhe ia subindo  cabea e que acabaria por aquecer-lhe tambm 
os ps. Ainda estralando e lambendo os lbios chegou ao que se lhe afigurava o trecho mais sensacional do artig de fendo:

Achamos .que  nosso dever prevenir o pblico em geral contra a manobra de certas pessoas de m f que, pr simples inveja e despeito, esto procurando desvirtuar 
as finalidades dos festejos de amanh, lanando a semente da discrdia no seio da populao local. Esses maus patriotas, movidos por mero_ Interesse pessoal e mal 
disfarada ambio de mando, esto tratando de confundir os espritos. Por isso avisamos nossos leitores de que nenhuma outra comemorao, alm das acima mencionadps, 
tem a sano da Comisso Central de Festejos. Dizemos isso porque sabemos que se organiza para a noite de amanh uma festa de finalidade poltica e subversiva, com 
o visvel propsito de perturbar o baile de gala do Pao Municipal, que dever encerrar c~n chave de ouro o grande dia. Trata-se duma farsa montada e ensaiada P~ 
maons, livres-pensadores, hereges e mazorqueiros, cct~o objetivo precpuo  solapar o Regime, destruir a Famlia, menoscabar a Religio, atacar nosso querido e 
impoluto So
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berano; em suma, substituir a democrtica Monarquia Braileira pela mais nefanda e nefria das anarquias. Os verdadeiros patriotas ho de saber noo s evitar a companhia 
desses traidores da Ptria como tambm dar-lhes o desprezo e o castigo que merecem.

Ali estava um artigo de arromba - concluiu o diretor de O Araut, esfregando as mos. Ficou imaginando a cara com que ia ficar Licurgo Cambar quando lesse aquele 
editorial no dia seguinte.
Ergueu-se, puxou nm pigarro com tamanho gosto e tanta fora, que ele lhe saiu do peito como um grito de triunfo.


No dia seguinte, por volta das nove da manh, O Arauto de Santa F foi distribudo de casa em casa entre seus assinantes e depois posto  venda avulsa na Farmcia 
Galena, na Casa Sol e na Sapataria Serrana. O artigo de Fraga foi muito- comentado e, farejando polmica, quase todos puseram-se a imaginar o que iria dizer O Democrata, 
rgo do Clube Republicano local. Ficaram um tanto decepcionados quando s dez da mesma manh o nmero semanal dessa folha apareceu, trazendo na primeira pgina 
um editorial muito sereno, que terminava assim:

Entre as comemoraes mais significativas do dia de amanh, alm do Te Denm, encontra-se a festa que nosso correligionri, o cidado Licurgo Cambar, realizar 
na sua residncia e durante a qual, num gesto que deve ser imitado por todos os bons brasileiros, dar carta de manmisso a todos os seus escravos. Na mesma ocasio 
dezenove outros cativos, cuja liberdade foi comprada a seus senhores a peso de ouro, com dinheiro da caixa d nosso Clube, coletado especialmente para esse fim, 
sero
igualmente manumitidos. Haver danas nas salas do So
brado e fandango no seu quintal, onde se acendero fogueiras em homenagem ao santo do dia. O Sr. Cambar noo fez convites especiais para essa festa de fraternidade 
e
humanidade, mas por nosso intermdio convida a tomar parte nela todos os santa-fezenses e forasteiros que simpatizam com a idia abolicionista e que, mesmo no sendo 
republicanos, desejam ver implantado no Brasil um regi
me verdadeiramente igualitrio.

Pouco antes do meio-dia Bento Amaral apareceu  sua janela e berrou:
- Fraga! , Fraga!
O diretor de O Arauto respondeu da outra janela:
ISMALIA CAR        563

- Pronto, coronel! Que foi que houve?
O Chefe brandiu no ar um exemplar de O Democrata.
- Vassunc j leu esta bosta?
- J.
- En devia mas era fazer o Rezende engolir este jornal.
- No- prximo nmero de O Arauto eu desanco esse baiano.
- Palavra no di na pele. O que ele merece mesmo  uma sova de cabo-de-tatu.        .
O velho mascava fumo freneticamente e pelos cantos da b"a lhe escorriam dois filetes de saliva pardacenta. Ficou um instante a olhar para a cara do Fraga e depois 
rosnou:
- Regime igualitrio! Eles vo ver com quantos paus se faz ama canoa. -. De repente, como se quisesse que todo o mundo ouvisse, gritou : - Eles que dem graas a 
Deus eu ser um homem de bem, senoo mandava acabar a festa do Licurgo a porrte.
Naquele instante ia passando a cavalo pela rua um tropeiro de Soledade, que ouvia as ltimas palavras do velho. Apeou pouco depois  frente da venda do Kunz: amarrou 
o animal num frade-depedra, entrou, pediu um trgo de caninha - "Pr"esquentar" - e foi logo contando:
- Sabe da ltima? O velho Amaral diz que  capaz de mandar acabar o baile do Licurgo a pau.
- Quem foi que disse? - perguntou o alemo de olhos arregalados.
- Ningum - rep:cou o tropeiro. - Eu mesmo ouvi com estes ouvidos que a terra h de comer.
- No diga I
Kunz foi para o fundo da casa e contou  mulher:
= O Cel. Amaral diz que vai acabar a festa do Sobrado a bala.
- Ach! Que horrorI - replicou Frau Kunz. Corru para a cerca e chamou a vizinha:
- Sabe o que me contaram, comadre? O Cel. Amaral vai mandar acabar com "o baile do Sobrado a faco.
A vizinha passou a. notcia ao marido. Este, que era scio do Clube Republicano, correm para a redao de O Democrata onde chegou ofegante e despejou a novidade 
em cima do seu diretor, o Dr. Torbio Rezende:
- Os Amarais vo mandar a capangada atacar o Sobrado amanh de noite. Diz que vo armados e dispostos a acabar com a festa.
O Dr. Rezende franziu a testa, fitou os olhos no correligionrio e depois perguntou com calma:
- O senhor acredita nisso?
- U. Por que  que noo? Esses sujeitos so capazes de tudo.
O outro encoiheu os ombros, sorriu e disse:
#564        O CONTINENTE

- Co que ladra no morde.
Dois homens que estavam na sala . da redao e ouviram o dilogo, saram, cada qual para seu lado, e comearam a espalhar a notcia pela cidade. Por volta das trs 
da tarde, toda Santa F j sabia que o Cel. Bento Amaral estava preparando seus capangas para atacar o Sobrado, prender Licurgo Cambar e Torbio Rezende, empastelar 
O Democrata e fechar o Clube Republicano.
2
Antes de raiar o dia de So Joo, Jacob Geibel, o sacristo da Matriz de Santa F, deixou a cama ainda estremunhado de sono, enfiou o poncho sobre o camisolo de 
dormir e dirigiu-se para o campanrio. ~ra um homnculo atarracado, de pernas arqueadas
- curtas, barbas ruivas e olhos cor de malva. Viera da Alemanha havia cinco anos e ali em Santa F e arredores era conhecido como
- "Barbadinho do Padre". Poucos, porm, podiam gabar-se de terlhe ouvido a voz: alm de noo saber portugus, o sacristo era um homem taciturno e azedo, que parecia 
detestar o convvio humano.
Diante do altar-mor dobrou os joelhos rapidamente, sem entretanto encost-los no cho, fez um vago sinal-da-cruz e saiu a arrastar as chinelas ao longo do corredor 
central do templo. Entrou no batistrio, ficou por um instante coando a cabea e bocejando; depois agarrou a corda do sino com ambas as mos e deu-lhe um brusco 
puxo.
A badalada fendeu o ar quase com a intensidade duma exploso
- cobriu a cidade como uma onda, espraiando-se pelos campos em derredor. Jacob continuou a tocar sino com um vigor apaixonado,
- como o atroar aumentasse, ficou de tal maneira estonteado, que por fim foi como se um demnio lhe tivesse entrado no corpo: pendurou-se na corda e comeou a dar 
pulos, ao. mesmo tempo que gritava em alemo os piores nomes que conhecia, na confusa asperana de que a zoada do sino impedisse Deus e os santos de lhe ouvirem 
os improprios. Num dado moment fez. uma pausa para tirar o poncho, e depois, s de camisolo, tornou a agarrar a corda com redobrada fria. Odiava Santa F, odiava 
aquela gente de lngua brbara, odiava o vigrio e s vezes chegava a odiar at as imagens dos santos.
Quando algum enterro saa da igreja e ele tinha de dobrar a finados, era com secreta alegria que murmurava a cada badalada: Wieder einer wenigec! Menos um! Wieder 
einer weniger! Menos umI Agora, porm, o ulmo do sino no era lento e fnebre, mas frentico, desesperado, como um toque a rebate.
ISMALIA CARE        565

Verflucte Stadt! - gritava ele. Cidade maldita! Cachorrada do inferno! ,Porcos excomungados! Que Deus vos amaldioe! Que um raio vos parta I        "


O Sobrado ali estava na luz indecisa da alvorada, pesado como uma fortaleza e ao mesmo tempo com o jeito dum grande animal adormecido. Fora recentemente, caiado 
de novo, os caixilhos das janelas pintados dum azul de anil, os azulejos polidos; e nas grades do porto a tinta estava ainda fresca. Pombas que tinham fugido da 
torre da igreja, assustadas pelo badalar do sino, estavam agora pousadas no telhado do casaro dos Cambars. Apesar de tudo, o monstro continuava a dormir. Num dado 
momento, porm, como uma plpebra que se ergue, revelando o brilho dama pupila, abriu-se o postigo duma das janelas do andar superior, deixando aberto na fachada 
um qudriltero luminoso onde se recostou o vulto dum hmem alto. e espadado, metido num camisolo.
Licurgo Cambar fora despertado pelo bater do sino, pulara da cama. meio atordoado, viera at a janela e agora ali estava a olhar para fora com olhos embaciados 
de sono. Em pontos segundos sua confuso, que continha um vago elemento de pnico, foi dssipada pela prpria voz do sino, que parecia anunciar: "Santa F j  cidade! 
Santa F j  cidade!" Licurgo sentia o soalho frio sob os ps descalos. ("V calar as botinas, menino!" - gritou-lhe a av em seus pensamentos.) Passando a mo 
pelos cabelos revoltos e duros, ele olhou para os lampies da praa, cujas chamas morriam e, erguendo os olhos, viu que comeavam a apagar-se tambm as estrelas. 
Passara mal a noite, num sono de febre mais cansativo que uma viglia forada. Andara dum lado para outro, ora ~a cavalo ora a p, metido em roupagens vermelhas, 
"com um turbante mouro na cabea, distribuindo a torto e a direito ttulos de manumisso e pontaos de lana.. De vez em quando acordava, agoniado, com a sensao 
de no ter dormido um s minuto,, e ficava olhando a escurido, escutando a quietude da casa, ouvindo o. relgio grande l ern baixo bater os quartos de hora. E 
assim, pensando nas coisas que tinha a fazer no dia seguinte, caa de trovo em modorra, e outra vez comeava a lida, a angstia, a luta entre mouros e cristos, 
que de repente se transformava na quadrilha dos lanceiros em que seu par era prima Alice, a qual no era bem prima Alice, mas um pouco Ismlia Cr. Assim passara 
toda a noite, e agora ele sentia a cabea oca como um porongo que o som do sino fazia vibrar. .
Mas tudo estava bem : o dia em breve ia nascer, o grande dia I Fez meia volta, apanhou o lampio que se achava em cima da mesinha de cabeceira, e encaminhou-se para 
o lavatrio. Despejou a
#566        O CONTINENTE
gua do jarro na bacia de loua, lavou o rosto com ambas as mos, bufando e respingando o espelho; depois escovou os dentes com fora, borrifando as faces com o 
p cor-de-rosa do dentifrcio. Tirou
- camisolo e comeou a vestir-se com uma pressa nervosa. Como
-        sino cessasse de bater, ps-se a cantarolar O Boi Barroso.

Eu mandei fazer um lao Do couro do jacar, Pra -laar o Boi Barroso No cavalo pangar.
Enquanto enfiava as botas, gemeu a msica do estribilho, imitando o choro sincopado da gaita. Depois cantou:

1{deus, priminha, Eu vou m"embora No sou daqui Sou l de fora.
Por um instante teve na mente a imagem de Alice. Dali a pouco mais de um ms estaria casado com a prima. Ia ser engraado, porque ele noo podia esquecer a Alice 
dos tempos de menina: magricela, de tranas, compridas, olhos pretos muito grados, pernas finas e fala chorosa. Nunca lhe ocorrera a idia de aamorar a prima. Sua 
av tinha cada lembrana 1
Licurgo pousou as mos sobre os joelhos e ficou sentado na
`beira da cama, a olhar fixamente para o soalho. Sempre que pensava
na noiva, sua imagem lhe vinha acompanhada pela da amante.
Havia poucos dias mantivera com a av nm dilogo embaraoso - Pensa que sou cega, Cnrgo? Eu vejo tudo. - Pois  verdade. A Ismlia  minha amsia. No tivera coragem 
de encarar a velha.
- Mas agora vassunc vai casar, precisa deixar a china o
,quanto antes.
Ele permanecera silencioso.
- Promete?
- No.
A conversa terminara a. Desde ento nunca mais haviam tocado no assunto. Era impossvel explicar a uma senhora de quase oitenta anos o que ele sewta pela rapariga. 
Aquela gente antiga era muito positiva nas suas opinies. Para ela uma coisa era boa ou m, preta ou branca, decente ou indecente. No conhecia o meiotermo. Seria 
intil tentar explicar  av que ele gostava da prima Alice o suficiente para faz-la feliz; que a achava bonitinha, prendada, e que tinha a certeza de que ela ia 
ser tima dona de casa, boa esposa e boa me - mas que todas essas coisas nada tinham a ver
ISMALIA CARE        567

som o que ele sentia pela Ismlia. A chinoca no pedia nada, no esperava coisa alguma. Gostava dele quase assim como uma cadelinha gosta do dono. Se por um lado 
ele sabia que no teria nunca a coragem de abandonar a amante, por . outro tambm estava certo de que seu rabicho pela Ismlia nunca, mas nunca mesmo, poderia influir 
em sua afeio pela prima nem perturbar-lhe a paz do casamento.
Tornou a erguer-se, postou-se na frente do espelho e passou o pente nos cabelos. Depois alisou cam a ponta dos dedos o grosso bigode negro, acariciou os zigomas 
salientes, dum moreno lustroso
- avermelhado de couro curtido, e tornou a pensar em Ismlia. Comeara a desejar violentamente a rapariga desde o dia em que a vira pela primeira vez no rancho dos 
Cars, no fundo dufia das nvernadas do Angico.. E certa manh, aps longo assdio, muitos negaceios e engodos, conseguira lev-la para o mato. Nos ltimos momentos, 
porm, tivera de peg-la  fora, e desses minutos agitados e resfolgantes de luta corporal lhe haviam ficado lembranas meio confusas e .perturbadoras: o desejo 
que, exacerbado pela longa espera e pela resistncia de Ismlia, se havia trasformado numa fria quase homicida; os gritos. da chinoca, primeiro de protesto e finalmente 
de dor;_ os guinchos dos bugios que, empoleirados nas rvores
-        excitados pela cena, hviam rompido numa gritaria endoidecedora.
Aplacado o desejo, ele ficara estendido de costas, os braos abertos em cruz, olhando com um vago remorso para os bugios que perseguiam suas fmeas e .ouvindo o 
choro manso de Ismlia a seu lado. Sentia vergonha de sua brutalidade e comeava a impacientar-se pelo fato de noo achar o que dizer  rapariga. Pedir desculpas 
no adiantava nada, e mesmo isso no era de seu feitio. Dar-lhe dinheiro seria brutal.
Erguera-su em silncio, sara do mato resolvido a no ver mais Ismlia e convencido tambm de que daquele momento em diante ela passaria a votar-lhe um dio de morte. 
Na certa ia contar tudo a pai e este iria imediatamente queixar-se a D. Bibiana. Imaginara-se diante da av a responder a uma interpelao:
- Pois  verdade. Fiz e sstento. Mulher  pra isso mesmo. Se no fosse eu, havia de ser qualquer outro.
A coisa no entanto acontecera da maneira menos esperada. Depois daquela manh passara vrios dias sem pr os olhos na menina. E uma tarde,  nora da sesta, estando 
ele deitado no seu quarto j quase a cair no sono, vira um vulto de mulher esgueirar-se pela porta entreaberta e caminhar na direo de sua cama. Era Ismlia. Fz-lhe 
um sinal e a chinaweio enroscar-se a seu lado como uma gata.

Licurgo desceu para o andar trreo, atravessou a passos largos a sala de. jantar, e entrou na cozinha, onde Fandango conversava ao p do fogo com a negra Lindia.
#568        O CONTINENTE

- Bom dia, Fandango! - Buenos!
- Ento sempre chegou a grande data, hei?
- Que remdio? Ds que o mundo  mundo, depois do hoje vem o amanh e assim por diante at a hora da gente ir pra cidade dos ps juntos.
- Est pronto o mate?
- Quase - informou a negra.
Sobre uma das chapas do grande fogo, a chaleira comeava a despedir jactos de vapor pelo bico.
Licurgo esfregou as mos, sentou-se nem mocho e perguntou
- Sabe quantas pessoas dormiram aqui em casa esta noite? - Umas quatro ... - troou Fandango. - Quase trinta!
Os escravos do Angico e de outras estncias que iam receber carta de manumisso tinham passado a noite no poro do Sobrado.
Fandango coou a barbicha com a unha do indcador e "murmurou
- Eu s quero ver o que  que .essa negrada vai fazer depois que receber papel de alforria.
- Ora! Vai ficar livre.
- Sim mas vassunc acha que vo viver melhor? - Claro que vo.
- Pois eu duvido.
- Velho cabeudo!
A tampa da chaleira comeou a dar pulinhos: - Que venha esse amargo, Lindia! A negra cevava o mate.
- Vassunc vai ver - prosseguiu o capataz. - Recebem dinheiro e gastam. todo em cachaa. Vo passar o dia na vadiagem, dormindo ou se divertindo. Nenhum desses negros 
alforriados vai querer trabalhar. No fim acabam morrendo de fome.
- No seja to agourento, Fandango
- Qual ! O que sou  nm ndio velho mui vivido. Na minha idade um cristo acaba descobrindo que o que hai a vida  muita conversa fiada. Vassuncs moos que lem 
nos livros gostam demais dessas novidades estrangeiras.
- Mas a abolio va melhorar tudo. A escravatura  a vergonha do Brasil.
- Qual vergonha, qual nada! Deixe de histria. Negro  negro. Hai gente que nascem pra ser mandada. - Vassunc est me desiludindo.
- Ch gua! No nasci ontem. Essa histria de cidade  a mesma coisa. Dias atrs noo se sabia de nada, Santa F era vila. Muito bem. De repente chega nm desses tais 
de telegramas e comea
ISMALIA CARA        569

a folia. A Assemblia resolveu que agora Santa F  idade. Todo mundo fica louco, a festana comea,  sino, viva e foguete. Mas, me diga, cambiou alguma coisa? 
Nasceu alguma casa nova, algema rua nova, alguma rvore nova s por causa do decreto? No. Pois  ... Pura conversa fiada, hombre!
Licurgo sorria.
- Se  assim, vassunc deve ser tambm contra a repblica.
- A est outra bobagem. Se vier a repblica a gente va ver como no cambia nada. Pode cambiar a posio das pessoas. Quem est -por baixo sobe, quem est por cima, 
desce. Mas as coisas ficam no mesmo, e o povinho continua na merda.
- A repblica h de vir, seja como for. Mas tme esse mate -~ disse Licurgo, estendendo para o velho a cuia que Lindia lhe entregara.
Fandango, porm, sacudiu negativamente a cabea
- No. Gracias. Nada de "prmeiros" comigo. Nem com mulher nem com mate.
Licurgo comeou a chupar na bomba e a cuspir o lquido esverdeado no cho.
- Na prxima eleio - disse ele - vassunc vai votar com os republicanos.
- Posso votar com o Curgo, que  meu amigo. O resto  bobagem.
- Dessa vez havemos de eleger os nossos candidatos.
- Pode ser. 1VIas na ltima eleio esse tal de Assis Brasil no fez nem pro fumo .. .
- Espere, Fandango, que no ano que vem a coisa muda.
O capataz encolheu .os ombros.
- O Velho  bom. Certos apaniguados dele  que noo prestam.
Referia-se ao Imperador.
- Mas pra derrubar essa cambda  preciso derrubar tambm o Velho e o regime, substituindo esses figures por gente nova como Jlio de Castilhos, Rui Barbosa, Venoncio 
Aires e outros.
- Conversas! So todos uns bons filhos da me.
Licurgo tornou a encher a cuia d"gua e passou-a a Fandango. E enquanto o velho ficou entretido a chupar na bomba, ele falou com entusiasmo nos festejos do dia. 
Tinha a impresso - disse - de que o baile de gola do .Pao Municipal, com suas formalidades e seus medalhes, ia ficar apagado diante da festa do Sobrado, onde 
reinaria a verdadeira democracia: negros e brancos, "ricos e pobres, todos misturados e irmanados no ideal abolicionista e republicano. Mas no momento mesmo em que 
dizia essas coisas, Curgo percebeu que no estava sendo sincero, que noo estava dizendo o que sentia. Era-lhe inconcebvel a idia ~e que aqules negros sujos pudessem 
vir danar nas salas de sua casa, em ntimo contato com sua famlia.
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-Sabia tambm que pouca, muito pouca gente em Santa F compreendia o entic~o da palavra repblica .. .
Fandango fez uma careta.
- Pois eu c noo preciso de desculpa pra me divertir. Quando estou com vontade de danar, dano. Quando estou com vontade de cantar, canto. Inste peito no conhece 
tristeza. Vassuncs  que so uns capados. No. fazem nada sem muito discurso. Ch gua!
Licurgo contemplava o amigo. Gostava daquela cara inditica, do contraste entre a pele tostada e o branco prateado da barba esfalriFada. Sentia-se fascinado principalmente 
pelo jeito d velho falar
- pela expressao travessa e maliciosa de seu olhar. S se lembrava de t-lo visto triste no dia em que chegara a Santa F a notcia dt que seu filho, o Fandango 
Segundo, havia sido morto em combate nas terras do Paraguai. O velho ficou pa-nado, com uma nvoa nos olhos, e por alguns segundos noo disse palavra. Depois, como 
O quisessem consolar, murmurou: :"T~dos tm de morrer mais cedo ou mais tarde; noo ? S que uns morrem .cedo demais ... " Nesse dia, quando Fandango montou a cavalo 
e saiu para o campo szinho, Licurgo viu-lhe lgrimas nos olhos. O capataz passou horas e horas andando  toa- pelas. invernadas do Angco. Voltou ao entardecer
- j assobiando ao trte do cavalo. E  noite no galpo ao redor do.fogo contou  peonada as proezas de Fandango Segundo, suas andanas e amores; e rematava cada 
episdio da vida do flho com estas palavrs: "Era nm alarife, mas tinha por quem puxar." Depois dessa noite noo pronunciou mais. o nome do morto, e suas esperanas 
ento passaram a concentrar-se no neto, o Fandanguinho, que crescia ali na estncia ao calor de seus olhos e  luz de seus confeYhos: "Um pi mui ladino" - dizia 
o velho, piscando Oolho. - "Vai me sair melhor que a encomenda."
As pessoas com quem Licurgo mais gostava de conversar eram Fandango, sua av e Torbio Rezende. Este ltimo, um baiano formado pela Faculdade de Direito de So Paulo, 
estabelecera-se em Santa F em princpios de 1881, trazendo para o municpio a" idia republicana, da qual era ardoroso propagandista. Desde o primeiro dia provocara 
a ira dos Amarais, que o ameaaram de todos os mods, primeiro indireta e depois diretamente, procurando for. -lo a deixar a vila. Mas o diabo do nortista fincara 
p, impvido, e fizera frente aos potentados da terra com tanta altivez e coragem, que Licurgo fora espontaneamente procur-lv, ferecendo-lhe seu apoio, sua casa, 
sua fortuna, enfim, tudo de que ele precisasse. Comeara assim uma amizade que j durava mais de trs anos e que se fazia mais forte  medida em que o tempo e os 
acontecimentos passavam.        -
O convvio com Torbio Rezende, a leitura dos artigos que Jlio de Castilhos publicava na imprensa atacando o imprio e fazendo a propaganda da abolio e da repblica 
- tudo isso tinha
feito de Licurgo Cambar nm republicano e um abolicionista. Ficara de tal modo dominado por essas idias que acabara quase faatizado por dia. Fandango observara 
um dia: "O Curgo tem trs amantes: a Repblica, a Abolio e a Ismlia. s vezes- vai pra cama com as trs ao mesmo tempo."
Em 83 Torbio Rezende e Licurgo Cambar fundaram em Santa F o Clube Republicano, que contava agora com quase sessenta scios e mantinha uma folha semanal. As notcias 
~ do progresso do movimento no resto do pas davam-lhes nimo e estmulo. Sabiam que o Cear comeara a libertar seus escravos, e que havia poderosos clubes republicanos 
em. Porto Alegre e na capital de So Parlo, onde Borges de Medeiros, jovem estudante gacho, dirigia nm jornal.
Fandango entregou a cuia a Lindia, que tornou a ench-la d"gua, passando-a a Curgo, o qual tinha os olhos postos na janela, atravs de rnjas . vidraas via um 
plido pedao de "cu. O grande dia estava prestes a raiar. Santa F ia dar um exemplo ao resto da Provnca, e esse exemplo partia daquela casa, do Sobrado! Aquilo 
- refletia Curgo - ia ser um ato de humanidade, de eoragem, e ao mesmo tempo valia como uma bofetada na cara dos monarquistas: era nm desafio capaz de repercutir 
at n estrangeiro. Tinha razo Tonbo Rezende quando afirmava que a idia republicana podia ser cm~rada com uma onda que ia aos poucos crescendo e que acabaria 
noo s lavando a mancha da escravido como tambm derribando o trono! Proclamada a Repblica, Santa F ficaria livre
- Amarais, e homens como Torbio e ele, Licurgo, iriam .dirigir a poltica municipal, eliminando o favoritismo, as injustias. e as arbitrariedades. Em pensamento 
Licurgo via Torbio afalar e gesticalar: "O Cap. Rodrigo botou sua marca no rosto do velho Bento: s ficou faltando o raliinho do R. Pois bem, Curgo. Quem vai completar 
o servio (Torbio pronunciava servio com um  muito aberto)  voc, no com uma adaga, mas simblicamente, levando par diante a campanha abolicionist e republicana, 
e livrando Santa
- de ser strapa." Como Torbio falava bem, com que elogncia, cm que facilidade! Na mente de Licurgo a imagem do amigo desaparecer para dar lugar  de Jlio de 
Castilhos, cuja mo ele apertara comovidamente por ocasio do ltimo congress republrano de Porto Alegre. Era incrvel que aquele moo retrado e de poucas palavras 
estivesse abalando o trono com seus artigos polticos, escritos e publicados na Provncia! Agora os republicanos do Rio Grande tinham em Porto Alegre o seu jornal: 
A Federao, fundado em janeiro daquele ano. Em Santa F os scios do Clube Republicano esperavam com ansiedade a mala postal que trazia semanal-
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mente os nmeros da folha em que Castilhos publicava seus artigos candentes.
Havia num desses escritos certo trecho que Licurgo aprendera de cor, por achar que ele definia, melhor que qualquer outro, a idia abolicionista. Repetiu-o em voz 
alta para Fandango:
- "Quando se trata de tornar livres todos os filhos do Rio Grande, quando urge acabar com a imoral instituio que nos rrntcula, no deve haver, partidos. 3 h 
lugar paia um partido:  o partido da moral, do direito e da liberdade, que protestam contra a escravido.  margem, pois, das desavenas e dos dios das lutas . 
partidrias, emudea a voz do partidarisrrro poltico quando  imperioso combater este inimigo comum: a escravido."
Fandango escutou o amigo em silncio, e quando Curgo se calor, o velho cuspinhou por entre os cacos de dentes e disse:
-.Conversa fiada. O inimigo do hombre  o hombre mesmo.
Licurgo ergueu-se, caminhou para a porta da cozinha, abriu-a de par em par e respou profundamente o ar frio da manh.
Uma negra com um grande balde na mo se dirigia para o fendo do quintal, onde ia ordenhar as vacas. Aos poucos saam vultos do poro da" casa. Eram os escravos que 
acabavam de despertar. Uns se espreguiavam, bocejando longamente. Outros caminhavam encolhidos, tiritando de frio. Quando viam Licurgo murmuravam
- A bno, sinh.
- Deus vos abenoe - respondia ele.
Em breve aquela gente toda ia ser livre - pensou. E por um momento ficou como que afogado pela idia da prpria bondade. O que ia acontecer no Sobrado aquela noite 
era grande: o mais belo. gesto da sua vida. Fechou os olhos, conteve a respirao como para avaliar melhor a intensidade de seus sentimentos. Acabou, porm, por 
descobrir, decepcionado, que a emoo que sentia diante de tudo aquilo noo era to dominadora como ele esperava: noo estava, em suma,  altura dos acontecimentos 
que a despertavam.
Galos cantavam nos terreiros. e seus gritos se cruzavam no ar do amanhecer. O horizonte comeava a clarear.
- Est ouvindo, Fandango? - perguntou Licurgo em voz alta, sem se voltar. - Os galos esto bem loucos. Parece que sabem que dia  hoje. Lindia) Me prepare um churrasco. 
Estou com fome.
Fandango ergueu-se.
- Deixe isso por minha conta. Vou trazer um bom costilhar pra ns. Tambm estou louco de fiambre.
Caminhou com seu passo mido e meio gingante para a despensa, onde havia quartos de reses pendurados em ganchos.
Com um gale sobre os ombros, os braos cruzados, Bibiana entrou na cozinha. Aos setenta e oito anos tinha ainda o porte ereto, o andar firme e vivo, e os cabelos 
apenas grisalhos.
ISMALIA CARr        573

Licurgo voltou-se e caminhou para .ela.
- A bno, vov.
Bibiana estendeu a mo, que o neto beijou.
- Deus te abenoe, meu filho.
Fandango voltou . com o costilhar aos braos.
- Bom dia, Fandango.
- Buenos dias, dona. Passou .bem a noite?
- Dormi com os anjos.
A malcia deu um brilho sbito aos olhos do velho.
- Com quem que vassunc dormiu?
- Com os anjos, velho indecente)
- Ah 1 - fez Fandango, que tratava de tirar brasas do fogo para assar a carne.
- Pra que todo esse barulho? - perguntou Bibiana, olhando para o neto.
- O sino? ~ do programa, vov.. Hoje  o grande dia.
Bibiana sacudiu lentamente a cabea.
- Pra mim  um dia como qualquer outro.
Depois, mudando de tom:
J pensaram no que  que vo dar pra essa negrada comer agora de manh?
- No.
- Pois . Vassuncs s pensam-em bobagens, em discursos.
velha  que tem de tratar da comida. Carta de manumisso no enche barriga de ningum. L preciso dar alguma coisa pra entreter o estmago desses negros.
Ficou dando instrues a Lindia. No havia em casa po nem biscoito que chegasse para todos.
- 1Gles que comam laranja e bergamota - sugeria o capataz.
- Chame a Doca e a Nomia - gritou Bibiana para a preta. - Vamos comear a trabalhar, seno fica tudo atrasado.
Tinham de dar de comer  noite para mais de cem pessoas. Iam mandar carrear cinco novilhas, trs porcos e duas ovelhas. Havia na despensa vrias caixas com garrafas 
de cerveja, vinho e cachaa.
E por que toda essa folia? - refletiu a velha, S porque" o homem ~ do telgrafo, que vivia batendo com o dedo naquela engenhoca que fazia ter-ter-ter-ter-ter, tinha 
recebido pelo fio (coisa que ela no podia compreender) um recado dizendo que Saata F havia sido elevada  categoria de cidade. Licurgo andava com aquelas manias 
de acabar com a escravatura e atacar o Imperador. Era uma verdadeira loucura. O Sobrado estava cheio no s da negrada do Angico como de escravos de outras casas 
e estncias. Era o maior disparate do mundo dar liberdade quela gente. Mas o menino queria porque queria. E o outro, o Dr. Rezende, esse era o mais doido de todos. 
"Era por causa do baiano que Curgo andava com
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aquelas idias na cabea. Enfim, s alma, sua palma, como diz ~o ditado. En  que noo me meto nessas coisas. Contanto qnc no prendam fogo na casa, podem fazer o 
que entenderem.
Licurgo aproximou-se de novo da porta dos fundos e ficou miando o quintal. Ansiava pelo nscer do sol. Queria ver Toado. Quer~ ver gente, muita. gente : os amigos 
do Clube, pessoas, enfim. com quem pudesse discutir os planos do dia. A madrugada fria. aqueles vultos silenciosos no ptio e o cocoric dos galos comeavam a deix-lo 
deprimido.
Sentiu que a av estava a seu lado, os braos cruzados debaizo do xale. E no silncio ele esperou a pergunta que temia, e que finalmente fi formulada:
- Mandou buscar a Ismlia?
Seu primeiro impulso foi o de dizer que.no. Mas no sabia mentir.
- Mandei. .
- Ento a coisa no est acabada? - No.
- Mas  preciso acabar o quanto antes. - Eu sei.
- Se sabe, por que  que noo acaba? Flta seu casamento.
Curgo pensou.: mis cedo ou mais tarde a Alice tem de saber. Mas nada disse.
O relgio. deu uma . badalada.
- Seis e meia - murmurou Fandango..
-        O dia clareava aos pucos. De longe vinham agora os sons dama banda de msica.
- A vem ela! - exclamou Lindi.
Licurgo aproveitou o ensejo para cortar o dilogo. Tomou d brao da velha e disse:
- Vamos ver a banda, vov.
Foram, seguidos de Fandango. Abriram uma das janelas da frente do Sobrado e debruaram-se sobre o peitoril. Na boca da Rua do omrcio apontou a Banda de Santa Ceclia. 
Vinham os msicos formados em duas filas de quatro. Pisto, flauta, contrabaixo, bombardino, clarineta, violo, bombo e tambor. Tocavam uma marcha, mas a melodia 
cantada pela voz do pisto e da darineta, rendilhada pelos trilos do flautim, era quase abafada pelos roncos do bombardino e do contrabaixo, em duas notas repetidas.
que davam  impresso do grunhir dum porco descomunal.
Quando a bania passou pela frente do Sobrado, Licurgo acenou amistosamente, para os msicos. Bibiana olhava impassvel, resmungando .para o neto:
- O Dr. Winter merecia ser enforcado por ter inventado essa droga.
ISMLIA CAR        575

Fandango deixou a janela, correu para a porta da rua, abriu-a
saltou para fora, gritando:
- Olha. a furiosa, minha gente!
Ps-se a pular e a danar na frente da charanga. Nas rvores da praa os passarinhos chilreavam. Abriam-se janelas, onde assomavam cabeas. Homens, mulheres e crianas 
vinham para afrente de suas casas, trocavam-se acenos e cumprimentos. O Pe. Romano apareceu  porta da igreja, com o rosto rubicundo iluminado em cheio pela luz 
do sol, que comeava a aparecer por cima da coxilha do cemitrio. Fez na direo do Sobrado um largo aceno, e que Licurgo respondeu.
- At o vigrio ficou assanhado com a msica - comentou Bibiana.
- No  s a msica, vov. ) o grande dia!
A velha encolheu os ombros.
- Quando vassunc chegar.  minha idade, vai ver que no final de contas tdos os dias so iguais.
Erguendo poeira do cho, a Banda de Santa Ceclia passou pela frente da Matriz e seguiu pela Rua dos Farrapos.
J
Quando Fandango entrou na igreja e viu-a abarrotada de gente. disse em voz alta a Bibiana, que caminhava a seu lado:
- Est apertado que nem queijo em cincho.
- Cht! - repreendeu-o a velha, franzindo a testa e acrescentando num cochicho: - Na igreja no se fala.
O sino comeou a badalar. Eram quase dez horas da manh,
- o rosto da velha imagem de Nossa Senhora da Conceio resplandecia  luz do morno sol de inverno que entrava pelas janels do templo. Para Bibiana a santa tinha 
uma fisionomia familiar, pois desde menina ela se habituara a v-la ali no altar com as mesmas roupas, a mesma postura e o mesmo sorriso bondoso. Vezes sem conta, 
quando moa, Bibiana viera ajoelhar-se ao p da imagem da padroeira de Santa F, confiar-lhe suas dificuldades e fazer-lhe promessas. Fora por obra e graa de Nossa 
Senhora que Bibiana casara com o Cap. Rodrigo. Quando aos trs anos Bolvar cara de cama com um febro medonho, ela viera um dia  igreja
- dissera  santa: "Se vosmec faz o Boli melhorar, prometo mandar rezar dez missas e dar cinco pataces pra igreja." Ao chegar  casa encontrara j o menino com 
as roupas midas de suor e a testa fresquinha. Depois, com o passar do tempo, e  medida que Bibiana perdia sua f nos homens e nos santos, suas relaes com Nossa 
Senhora foram deixando de ser de santa para crente para serem
s um mes pro
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quase de mulher para mulher. E agora o olhar que a velha ao sentar-se lanara para a imagem parecia querer dizer: "Bom dia, comadre, como vo as coisas?" Eram ambas 
donas de casa e tinham grandes responsabilidades. Durante mais de cinqenta anos Bibiana noo tivera segredos para com a santa. Eram velhas amigas e confidentes: 
entendiam-se to bem que nem precisavam falar...
Alice entrou de brao dado com Licurgo. Atrs do par vinham Florncio Terra, o pai da noiva, e sua outra filha, Maria Valria.
Segundo uma tradio local, os liberais e seus familiares deviam ocupar os bancos que ficavam  direita de quem entrava no templo; os conservadores, os da squerda, 
que era agora o lado onde se sentavam tambm os republicanos. Os trs primeiros bancos da direita estavam permanentemente reservados para Bento Amaral e seus filhos, 
genros, noras e netos. O Pe. Romano mandara reservar o primeira- banco da esquerda para Licurgo Cambar e sua gente. Quando estes ltimos se acomodaram, os Amarais 
nem sequer voltaram a cabea para o lado dles. Ouviu-se um murmrio na igreja. A rivalidade entre aquelas duas famlias era um dos assuntos prediletos da vila. 
Todos sabiam que o velho Bento costumava dizer:
-Quando vejo gente do Sobrado fico com o dia estragado." Por sua vez, sempre que mencionava o nome Amaral, Licurgo acrescentava: "Com o perdo da m palavra ... 
"
Curgo sentou-se ao lado da noiva. Respirou fundo. Andava no ar um cheiro de gua de toilette misturado com o do leo de mocot que muitas das mulheres usavam nos 
cabelos. Era uma mescla quente, entre adocicada e ranosa, temperada pelo olor de incenso e de cera queimada.
Quando o sino cessou de badalar, fz-se um silncio pontilhado de tosses nervosas, de pigarros e do estralar de bancos.
Jacob Geibel deixou o campanrio e encaminhou-se para o altarmor, pelo corredor central. Vestia a sua melhor roupa, uma fatiota preta que o uso tornara rua. Estava 
muito vermelho, com as orelhas em fogo. Caminhava encurvado,: de olhos baixos, e suas botinas de elstico, que ele s usava na hora da missa, rangiam agudamente, 
coisa que lhe aumentava o embarao. Verfluchte Stadtl L estavam aquelas mulheres gordas e peitudas, que tinham bigode e cheiravam a leite e queijo. E aqueles homens 
escuros e cabeludos, de mos rudes e vozes guturais, aquelas bestas que. recendiam a suor de cavalo e a esterco. Animais!
Jacob desapareceu na sacristia e pouco depois voltou para acender as velas dos altares. Fez primeiro uma reverncia rpida diante do altar-mor e a seguir acendeu 
uma a uma as longas velas de cera, pensando irritadamente no negro Caetano, que tods os dias ao anoitecer saa pelas ruas com sua escadinha s costas para acender 
os lampies da vila.  medida em que o tempo passava, mais vermelhas iam ficando as orelhas do sacristo e mais forte sua sensao
ISMf~LIA CARr        577
de mal-estar. Ble sabia - oh se sabia! - que aquela gente ali na igreja estava rindo dele s suas costas. Porcos! Quando saa  rua, as crianas o seguiam, gritando: 
"Olha o Barbadinho do Padre!"
Depois de acender a ltima vela. Jacob retirou-se. O altar agora estava todo pontilhado de pequenas chamas mveis, que atiravam reflexos dourados nas alfaias e ouropis.
Licurgo olhou de soslaio para a noiva e por um instante ficou a contemplar-lhe o perfil delicado e tranqilo. Alice trazia o seu melhor vestido de cassa e tinha 
uma mantilha negra na cabea. Por um tmido instante seus olhos escuros e mansos fitaram o noivo, mas desviaram-se logo, furtivos, fixando-se no altar. Licurgo sentiu 
que devia dizer alguma coisa. Podia cochichar: "A senhora est muito bonita hoje." Mas continuou calado. No podia vencer a sensao de constrangimento que a presena 
da prima lhe causava. Por outro lado, havia coisas que no aprendera ainda a dizer nem fazer. Detestava as pessoas que viviam com a preocupao de agradar e elogiar 
os outros. Considerava Torbio Rezende o seu melhor amigo, mas havia no rapaz traos e hbitos com os quais ainda no se acostumara. O baiano era demasiadamente 
derramado de palavras e gestos, e tinha o hbito constrangedor de chamar-lhe "meu querido", coisa que causava a Curgo um certo desagrado, pois achava esse tratamento 
demasiadamente efeminado.
Curgo estava de tal modo absorto em seus pensamentos (andava agora a cavalgar pelos campos do Angico com. Ismlia Car na garupa) , que nem percebeu que  entrada 
do padre a congregao se erguia. Alice bateu-lhe de leve no brao com a ponta dos dedos e dirigiu-lhe um rpido sorriso. Licurgo levantou-se. O Te Deum comeava.


Quando o Pe. Atlio Romano subiu ao plpito para fazer a sua prdica, o Cel. Amaral puxou um pigarro que encheu sonoramnte o recinto. "Velho porco" - murmurou Bibiana. 
Fandango abafou uma risada.
Era o vigrio de Santa F um homem alto e corpulento, de rosto carnudo e olhos dum castanho de mel queimado. A barba . forte e escura, sempre visvel mesmo quando 
escanhoada, envolvialhe as faces sanguneas numa sombra arroxeada, dando-lhe  fisionomia um certo ar crepuscular que s o sorriso aberto, de dentes muito brancos, 
conseguia neutralizar. Era um sorriso to aliciante, que chegava quase a ser feminino. A primeira vez que Licurgo vira o padre sorrir ficara tomado duma impresso 
desagradvel. O padre, porm, tinha um aspecto to msculo - a voz, os gestos, o andar - que Curgo acabou convencido de que ""o vigrio era mesmo macho cento por 
cento".
Natural da Itlia, Atlio Romano viera para o Brasil logo depois
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de ordenado. Voraz ledor de livros, adorava as lnguas e a oratria, e gostava de tal modo de conversar e discursar, que pareia encontrar no simples pronunciar 
das palavras, na formao das sentenas, no uso dos adjetivos, no engendrar dos tropos um prazer to sensual como o que o comum dos homens encontra no ato. de comer 
ou de amar. Falava com um leve sotaque italiano e tinha .uma voz cantante e macia que, por assim dizer, lubrificava as palavras, de sorte que elas lhe rolavam fceis 
e geis pela lngua e enchiam o ar de msica e ritmo. Seus gestos, como a voz, possuam tambm cadncia e melodia. Agora ali no plpito o sacerdote media o auditrio 
com um olhar dramtico, o cenho cerrado, as mos enlaadas  altura do peito, a respirao contida, as narinas palpitantes. Encheu os pulmes de ar, estendeu os 
braos para a frente, como se quisesse enlaar toda a congregao, e disse:
- Meus queridos paroquianos?
Sua voz encheu o recinto, grave e bem modulada. Jacob Geibel saiu da sacristia na ponta dos ps e veio sentar-se num mocho atrs do plpito, num lugar em que no 
podia ser visto pelos fiis.
- Meus queridos - repetiu o vigrio - meus muito queridos paroquianos.
Lambeu os lbios e respirou fundo.
- Santa F acaba de receber seu ttulo de cidade l - exclamou de repente; cm voz cheia de exultao e agarrando as bordas do plpito com suas manoplas rosadas e 
peludas.
Nesse momento ouviu-se um forte zumbido no ar. Cabeas voltaram-se para todos os lados, olhos procuraram , .. Um colibri que acabara de entrar na igreja, voejava 
agora, estonteado, dum lado para outro,  procura duma sada. O padre calou-se. Houve um momento de embaraosa expectativa. Fandango no se conteve e disse em voz 
perfetamente audvel:
- Beija-flor  bicho muito burrol
Srdiram aqui e ali risinhos abafados. O passarinho volitava, aflito, sobre as cabeas dos fiis. Por fim frechou na direo da porta e saiu para o ar livre. Houve 
como que um ah 1 de alvio e de novo as atenes se voltaram para o orador. Atlio Romano sorria, de olhos brilhantes. Estendendo o brao na direo da porta, com 
o indicador a apontar acusadoramente para o colibri, disse com suave gravidade:
- Esse pobre passarinho desnorteado que acaba de sair daqui, meus queridos cristos,  um smbolo de importncia tremenda. - Carregou no erre de tremenda, como para 
tornar a palavra ainda mais cheia de signifcao. - Ele me lembra certas almas sem rumo que procuram s cegas algo de melhor e mais alto na vida e passam seus dias 
a bater com a cabea em muros, paredes, cercas e gbstculos de toda a ordem. Como esse passarito que buscava a liberdade do ar livre, essas almas se esforam por 
fugir s prises humanas e querem
ISMALIA CABE        579

alar o vo para o alto, para o infinito. Pobres almas aflitas. transviadas, sem norte.. que se ferem nessa basca alucinada 1 Como lhes seria fcil achar a sada_ 
se compreendessem, como esse colibri a princpio parea noo compreender, que a liberdade est- na direo da luz, na direo da porta. -Mas aqui, meus queridos paroquianos. 
h uma diferena. Se para a avezita a liberdade e a vida estavam l fora, para as criaturas humanas a verdadeira liberdade e a verdaBeira vida esto aqui dentrol 
~ na igreja que se encontra a salvaol
Ao pronunciar esta ltima palavra inclinou o busto para a frente. como se quisesse atirar-se do plpito de ponta-cabea. Passeou o olhar por aquelas muitas fileiras 
de caras, em sua maioria inexpressivas, que estavam voltadas para ele.
Tornou a retesar o busto, Afrouxou-se-lhe a expresso tensa do rosto, e sorrindo, ele prosseguiu:
- Vede como um simples bpede emplumado que errou o caminho, pode desviar um orador sacro do rumo traado para seu sermo. Mas para . voltar ao grande assento do 
dia, quero ainda usar duma imagem. que esse colibri me sugeriu. Como pssaros agitados que deixam a fronde duma rvore e, um aps outro, se vo pelo ar, batendo 
as asas em todas as direes, assim so as palavras que neste momento se rne escapam da boca. - Aproximou os dedos dos lbios, num gesto que tinha a leveza duma 
pluma. De repente ficou srio, cerrou o punho e brandiu-o na direo do auditrio. - Mas eu quisera que esses pobres e apagados pssaros tivessem a mais rica, bela, 
colorida e brilhante das plumagens, e que sua revoada constitusse um arabesco gracioso e expressivo; quisera. em outras palavras, ter a eloqncia dum Ccero ou 
de nm Demstenes para poder exprirrii"r neste instante o jbilo que me vai na alma diante desse acontecimento memorabilssimo que  a elevao da Santa F  categoria 
de cidade!
f Jacob Geibel escutava a voz do padre, mas sem compreender o que ele dizia. Seres pensamentos o levavam a outros lugares e horas. De braos cruzados, olhos entrecerrados, 
a barba ruiva espalhada sobre o peito, ele agora se via numa. certa manh dominical, com o guarda-sol aberto, montado num burro que trotava rumo de Nova Pomerna. 
.Ia meio adormentado ao tranco do animal e j avistava os telhados da colnia. Comeava a encontrar conhecidos. Guten l~lorgen, Jacob! Guten lborgen, Heinrich! 
Depois comeava a peregrinao de todos os domingos. Caf com leite, cuca e mauteiga de nata doce na casa do Spielvogel. Apfelstrudel no chal de Frau Sommer. Canecas 
de cerveja espumante e partidas de boio no Clube dos Atiradores. Msica de acordeo e cantigas. Ach du lieber Augustin, Augustin, Augustin.
A voz do vigrio era um pano de fundo para o devaneio do sacristo.
- ,Santa F, que era menina - dizia Atlio Romano - agora
#58O        O CONTINENTE
ISMI~LIA CAR        581
se faz moa. E ns, que a amamos e nos envaidecemos dela, apresentamo-la ao mundo e exclamamos : "Vede como cresceu a nossa menina, como se fez graciosa e bela!"
- Rendamos graas a Deus e  nossa padroeira - trovejou o vigrio, apontando para a imagem de Nossa Senhora da Conceio - pelos favores que o Cu nos tem concedido. 
Esta cidade  obra de homens que nasceram, aprenderam, trabalharam, sofreram, esperaram, envelheceram e morreram: de homens que produziram filhos que por sua vez 
.nasceram, aprenderam, trabalharam, sofreram, esperaram, envelheceram e tambm morreram, e assim por diante de gerao em gerao, at este dia memorvel. Mas enquanto 
os homens aparecem e desaparecem .na face da terra, h Algum que  permanente, Algum que  eterno. E esse Algum, meus caros cristos,  Deus, que est em todos 
os lugares e em todos os tempos. Sem Ele nada existe, nada vive. Rendamos, pois, graas ao Altssirvo, pois a Ele mais que  Cmara Municipal, mais que  Assem-.
-        blia Legislativa da .Provncia, mais que aos figures da politiza .. .
Licurgo teve um estremecimento de entusiasmo. Aquelas palauras indiscutivel*nente visavam os Amarais. O padre era dos bonsl Desde que chegara  Santa F compreendera 
a situao e resolvera no se deixar dominar pelo Cel. Bento, como acontecera com o pobre Pe. Otero. (Que a terra lhe seja leve!) Embora no pertencesse ao Clube 
Republicano, o vigrio simpatizava com a idia nova e era francamente, partidrio da abolio. Licurgo esfregou. as . mos uma na outra, freneticamente, remexendo-se 
no banco.
- ... a Ele devemos nossa cidade - continuava o pregador - as nossas casas, as nossas terras; os nossos entes queridos e o simples e maravilhoso fato de estarmos 
vivos. Rendam, pois. humildemente, reverentemente, suavemente, comovidamente, graas a Deus!
Bibiana escutava com ateno, ao mesmo tempo que em pensamento fazia comentrios  orao do padre. Render graas a Deus? Sim.. Deus lhe dera um neto. que era um 
homem de bem. Por outro lado, porm, Deus tambm lhe fizera "boas": matara-lhe o marido na flor da idade e deixara que os Terras passassem dificuldades. No entanto, 
ela se consideraria paga e satisfeita de todos ~ trabalhos e daria a vida por bem vivida se Deus agora, como compensao, lhe permitisse viver o tempo suficiente 
para ver. os bisnetos e deixar seu trabalho na terra terminado: o Curgo casado; pai de famlia e senhor do Sobrado e do Angico.
- Porque - prosseguia o vigrio, sacudindo ritmicamente os braos como se estivesse  reger uma orquestra -  necessrio que matemos, assassinemos: expulsemos` 
de _ns o demnio do orgulho que s vezes sorrateiramente, traioeiramente, solenemente e maleficamente nos entra nos coraes, levando-nos a crer que somos o sal 
da terra, chefes supremos dos nossos corpos e das nossas almas.
e dos corpos e das almas daqueles que nos cercam e que ns, na nossa vaidade, na nossa cegueira, na nossa inconscincia consideramos nossos subordinados, nossos 
inferiores, nossos servos, nossos escravos !
Calou-se para tomar flego. Tornou a inclinar o busto para a frente e escrutar os rostos dos ouvintes. Licurgo vibrava. No podendo mais conter-se, cutucou a noiva 
com o cotovelo. "Todo isso  pro velho Amaral" - cochichou ele aproximando os lbia do ouvido da rapariga e sentindo o perfume dos cabelos dela. (Que estar .fazendo 
a Ismlia a esta hora?)
- Santa F - exclamou o padre - no  obra dum homem. embora seja de justia que prestemos nossa homenagem ao seu fundador, que foi uma figura de prol, tronco de 
respeitvel famlia .. .
Licurgo noo gostou da ressalva. Aquela cambada no merecia a menor considerao. .Ricardo Amaral noo tinha passado dum tiranete que falava  sua gente decima do 
cavalo, de cabea- e rebenque erguidos. Comeara a vida como ladro de gado e mandara matar e surrar muita gente, passando por cima de todas as leis. O padre noo 
precisava dar nenhuma barretada para aquela corja.
- Santa F  obra de muitos homens, de muitas famlias e principalmente uma ddiva do Todo-Poderoso!
Fez uma pausa e passeou o olhar clido em torno, como num desafio a que contestassem o que acabava de afirmar. Fandango voltou a cabea para a direita, avistou Fandanguinho 
na extremidade do banco - de casaco de riscado, bombachas brancas, leno branco no pescoo e flor no peito - sorriu e piscou o olho para o neto.
- No  tambm por meio da calnia oral ou escrita ... - prosseguiu o pregador.
Chegou a hora do Manfredo levar a sua dose -pensou Licurgo. Rezende conversara com o padre na vspera e lhe pedira fizesse uma referncia  linguagem de O Arauto. 
Licurgo olhou para a direita e viu o Fraga sentado junto dum dos Amarais, de beiola cada, boca semi-aberta, calva reluzente, ar palerma, os culos acavalados no 
nariz lustroso e vermelho de cachaceiro.
- ... noo  com a verrna, com a intriga, com o improprio... - As palavras eram. como um vinho embriagador que o padre produzia e ao mesmo tempo consumia; e sua 
sede parecia insacivel        no  com o aleive, com a mentira, com a agresso, com o apodo, com a calnia que havemos de conseguir que nossas idias prevaleam. 
Elas s podero impor-se se estiverem amparadas na verdade, e a verdade, meus queridos catlicos, a verdade  simples e cristalina como a gua que brota, borbotante, 
transparente. translcida e pura do seio da terra, dessa mesma terra que Deus fez e que os homens habitam e s vezes conspurcam, maltratam. esterilizam e mancham 
de sangue.
#582        O CONTINENTE

"Mas esse padre  um portento!" - murmurou Licurgo, dessa vez pau ningum. O vigrio evidentemente se referia  ameaa que o velho Amaral fizera de atacar o Sobrado 
aquela noite.
- Esta data, portanto, pertence a todos aqueles que, santafezenses de nascimento on no, amam esta cidade, este torro abenoado, esta comunidade crist. E se algum 
tentar manchar este dia assinalado com algum ato de violncia, que sobre ele caia a maldio do Todo-Poderoso. E que contra ele, em justo protesto, se ,volte a in 
de todos os homens de bem desta terra 1
As palavras tinham um tom de ameaa : os punhos cerrados do pregador esmurraram o vcuo. De sbito, porm, uma transformao se operou nele. Suas mos no eram mais 
clavas de ferr: abriraz-se e ficaram leves e esvoaantes como pombas. Sua voz se fez alcalina e seu rosto se iluminou quando le disse:
- Curiosos so os caminhos do mundo e misteriosos os desgnios de Deus ... - Sorriu e por alguns segundos ficou com a cabea inclinada. para um lado, o ar sonhador. 
- H trinta e cinco ano nascia na cidade italiana de Nizza este humilde, insignificante sacerdote que agora vos dirige a palavra. ~ E nessa mesma cidade. no aao 
da graa de mil oitocentos, e sete, via pela primeira vez a inz bendita do dia uma criana que recebeu na pia batismal o nome de Giuseppe. Era filho legtimo de 
Domenico Garibaldi, um marinheiro, e, como o pai, ao fazer-se homem, sentiu o fascnio do mar. En tambm um patriota e amava a aventura. Meteu-se na conspirao 
republicana de Mazzin e, perseguido pelas autoridades, fugiu para a Amrica do Sul. J sabeis, queridos cristos, de quem vos falo. r de Giuseppe Garibaldi,  
guerreiro de dois mundos.
Fez uma pausa teatral. Bibiana, que nos tempos da mocidade ouvira narrar, encantada, as proezas daquele lendrio italiano, impertigon-se e, redobrando a ateno, 
ficou sentada na ponta de banco, de cabea alada e boca entreaberta. O padre falava num companheiro do Cap. Rodrigo!
- Conta a tradio oral que ao passar uma tarde por Santa F, Garibaldi contemplou longamente a vila do alto da coxilha do cemitrio e depois murmurou a nm dos companheiros: 
Un bel villaggio! Dizem tambm que dormiu uma sesta  sombra da grande figueira da praa, sobre os arreios, enquanto seu cavalo, companheiro leal de tantas batalhas, 
pastava tranqilamente a poucos passos de distncia. Que sonhos, meus amigos, que sonhos teriam visitado Osono do heri? Se me permitis dar asas  fantasia, direi 
que ele sonhou com a vitria dos Farrapos .. .
Neste ponto do sermo ouviu-se um murmrio e um arrastar de ps nos primeiros bancos da direita. O padre calou-se. Cabeas, olhos e atenes voltaram-se para l. 
O velho Amaral ergueu-se, olhou duramente para o vigrio e disse a meia voz:
- Isso tambm  demais! Falar na minha frente nesse gringo
ISMLIA CARA        583

sujo e traidor, nesse Farrapo canalha,  um abuso. - Voltou-se brusco para os filhos e ordenou: - Vamos todos embora daqui.
No meio dum silncio tenso retirou-se da igreja, arrastando os ps e puxando pigarros, acompanhado por todos os Amarais com suas mulheres e filhos. Manfredo Fraga 
seguiu-os como um co fiel.
- rosto e as orelhas purpreos, as narinas a vibrar, as mos a apertar fortemente as bordas do plpito, o Pe. Romano acompanhou os Amarais com o olhar, e depois 
que os viu sarem da igreja, cerrou os olhos, baixou a cabea, uniu as mos espalmadas e ficou por um instante na postura de quem reza.
Um sussurro encheu o ar, como o farfalhar dum arvoredo batido por um sbito golpe de vento. Mas no se ouviu nenhuma voz. Todos os olhos estavam fitos no padre. 
Atlio Romano levantou a cabea, sorrindo, e recomeou o sermo:
- Como eu dizia, Giuseppe Garibaldi sonhou com a vitria das armas farroupilhas e sonhou tambm, decerto, com a unificao da ptria distante.
- padre tem fibra! - pensou Licurgo. No se atrapalhou. Esse  dos bons! A seu lado Alice estava meio trmula de medo e torcia nervosamente a ponta da rpantilha. 
Fandango olhou para o neto e tornou a piscar-lhe o olho. Bibiana no tirava os olhos da imagem de Nossa Senhora da Conceio, dizendo-lhe em pensamento: "Vosmec 
est vendo?  como le digo. Amaral noo presta nem pro fogo."
- Anos depois, na Igreja de So Francisco de Assis, em Montevidu - prosseguiu o orador - Giuseppe Garibaldi casava-se com uma brasileira que encontrara na Laguna, 
Ana de Jesus Ribeiro, mais conhecida como Anita Garibaldi, a herona. De volta  Itlia, Garibaldi jamais esqueceu esta provncia, e eu peo vnia para ler-vos 
caros cristos, trechos da carta que ele escreveu a seu amigo e companheiro de campanha Domingos Jos de Almeida.
-        padre tirou do bolso um papel.
- Ouvi o que disse de vossa provncia o insigne guerreiro. "Quando penso no Rio Grande, nessa bela e cara provncia, quando penso no acolhimento com que fui recebido 
no grmio de suas famlias, onde fui considerado filho; quando me lembro das minhas primeiras campanhas entre vossos valorosos concidados e dos sublimes exemplos 
de amor ptrio e abnegao que deles recebi, fico verdadeiramente comovido.. E esse passado de minha vida se imprime em minha memria como alguma coisa de sobrenatural, 
de mgico,. de verdadeiramente romntico." - O vigrio fez uma pausa, lambeu os lbios e, num tom menos solene, acrescentou:. - Agora vou ler uma passagem que por 
certo encher de orgulho principalmente os homens de Santa F: "Quantas vezes fui tentado a patentear ao mundo os feitos assombrosos que vi realizar por essa viril 
e destemida gente, que sustentou por mais de nove anos contra um poderoso
#584        O CONTINENTE

imprio a mala encarniada e gloriosa das lutas!" - Neste ponto Opadrc ezalton-se, como se estivesse fazendo um discurso poltico. - "Oh quctntaa vezes tenho desejado 
nestes campos italianos um s esquadro de.vossos centataos avezados a carregar uma massa de infantaria com o mesmo desembarao como se fosse uma ponta de gado! 
Onde esto agora esses belicosos filhos do Continente, to majestosamente terrveis nos combates? Ond, Bento Gonalves, Neto, Canabarro, Teixeira e tantos valorosos 
que no lembro?"
Licurgo vibrava, com mpetos de aplaudir, de gritar. Mas limitava-se a bater com o cotovelo no brao da noiva. Fandango, porm, no s~e conteve e exclamou: "Oigal 
bicho bom!"
- "Que o Eio Grande ateste com uma modesta lpide o stio em que descansam os seus ssos. E que vossas belssimas patrcias...".- O padre fez uma pausa, passeou 
os olhos pela assistncia. e repetia: - "que as vossas belssimas patrcias cubram de flores esses santuroa de vossas glrias,  o que ardentmente desejo." - 
Calou-se, dobrou o papel e tornou a met-lo no bolso.
- Mas por que falei em Garibaldi, que aparentemente nada tem a ver. com a data de hoje? - Fez. uma .breve pausa, como se esperasse de algum resposta  sua pergunta 
retrica.. Ergueu o brao direito, com o indicador enristado.. - L porque quem vos fala  um sacerdote italiano,de nascimento que comea a ser brasileiro de conio; 
porque nesta mesma igreja hoje, sentados no meio. de brasileiros, acham-se imigrantes italianos que h quase dez anos chegaram a esta provncia e fundaram .nste 
mesmo municpio de Santa F ama colnia que se chama Garibaldina, em homenagem ao heri. E  porque esses colonos italianos, bem como os alemes de Nova Pomernia, 
esto trabalhando juntamente com os brasileiros pela grandeza deste municpio, desta provncia, dste grande pas. E nesta terra cujos. conquistadores primitivos 
tinham nomes como Maglhes, Pereira, Fagundes, Xavier, Terra, vivem hoje homens que se chamam Bernardi, Natdini, Sorio, Conte, Bauermann, Schultz, Schaeider, Schmitt, 
Kunz. E nesta igreja espero um dia com a graa de Deus lxnir em matrimnio uma Dela Mea com um Pinto ou um Spielvogell
Filho meu no casa com gringa - declarou Bibiana mentalmente.
Atlio Romano abriu os braos e por alguns momentos ficou asma atitude de crucificado.
- Aleluial - exclamou. - Aleluia? Que os sinos cantem-, bimbalhem, badalem, clamem, anunciando ao mundo que Sant F  cidade. E praza aos Cus que nunca mais outra 
guerra fratricida encha de luto e sangue esta terra abenoada !
Quando o padre terminou o sermo, os paroquianos comearam a ouvir s roncos compassados de Jacob Geibel, que dormia sono solto atrs do plpito.
ISM.4LIA CARE        585
4

E um serelepe - pensava Bibiana - parece que tem bicho-carpinteiro no corpo.
Sentada  cabeceira da mesa, na sala de jantar que o sol do meio-dia tocava duma luz alegre, ela contemplava o Dr. Torbio Rezende, que dava pulinhos na frente de 
Licurgo, atirava os braos para o ar e movia a cabeorra para a direita e para a esquerda - hein? }~ein? - com movimentos vivos de pssaro. Fazia j algum tempo 
que ela tentava acomodar os convivas  mesa, mas no conseguia, pois aquele baiano desinquieto no parava de falar, de andar dum lado para outro, como se quisesse 
lanar confuso no ambiente. Mirando o advogado com olh crtico, mas no sem uma certa simpatia, Bibiana esperava pacientemente, com as mos tranadas postas sobre 
a mesa.
Torbio exclamou:
- Pois que venham os capangas dos Amarais! Havemos de receb-los a bala. E quando a munio acabar, brigaremos com batatas, laranjas, mandiocas, pratos, garfos, 
panelas. - E  enumerao de cada uma dessas coisas, movia vigorosamente os braos, como se estivesse atirando pedras contr inimigos invisveis. Agitava a cabeleira 
negra, longa e ondulada, que o tornava to parecido com Castro Alves.
De repente cessou de falar, mas continuou a produzir rudo: uma risada de garganta, trepidante e prolongada, que lembrou a Bibiana a matraca da igreja em Sexta-feira. 
Santa.
- Quando vassunc terminar de brigar - disse ela a Torbio - venha pra mesa.
- Dr. Rezende aproximou-se da velha, tomou-lhe da cabea com ambas as mos, e deu-lhe um sonoro beijo na testa. A fisionomia de Bibiana permaneceu impassvel. No 
gostava muito dafluelas liberdades, principalmente quando vinham dum estranho: Nunca fora "mulher de beijos".
- Sente-se na minha direita - ordenou ela.
Torbio obedeceu, piscou o olho para Licurgo e disse:
- Ainda vou acabar sendo seu av, Curgo.
- Cale a boca, menino. Me deixe acomodar essa gente na mesa:
-        baiano empunhou uma faca e comeou a fazer riscos paralelos na toalha.
- O senhor, Dr. Winter, fique aqui na minha esquerda. Preciso de algum bom ~o juzo perto de mim .. .
-        mdico sentou-se  frente de Torbio. Bibiana olhou para o neto:
#586        O CONTINENTE
- Deixe o Florncio sentar hoje na cabeceira, meu filho. Florncio ficou constrangido:
- No carece, titia. Qualquer lugar me serve..
- Faa o que. estou dizendo. Sente na cabeceira.
O sobrinho obedeceu. Bibiana olhou para as duas moas que
estavam de p,  espera de suas ordens:
- Alice, sente do lado esquerdo do seu pai. E vassunc, Curgo,
fique na frente da sua noiva. Maria Valria, espere um ponto. Alice e Licurgo sentaram-se nos lugares indicados. - Onde est o Juvenal ?
- Estou aqui - respondeu o rapaz, que naquele instante entrava na sala, limpando os lbios com a manga d asaco.
- Garanto como j esteve bebendo um trago na cozinha,-no?
O rapaz sorriu. Era grandalho e tinha o rosto largo e tostado.
- Pr"esquentar ... - desculpou-se ele.
- Eu sei - resmungu a velha. - N inverno bebem cachaa pr"esquentar. No vero, pra refrescar. Quando- se molham bebem gra evitar resfriado. Conheo bem esse negcio. 
Mas sente ali ao lado do Dr. Torbio. - Voltou-se para Maria Valria. - E vassunc, menina, fique entre o Dr. Winter e o Curgo.
Esperou que tods se acomodassem e depois., abrangendo a mesa com um olhar satisfeito, murmurou:
- At que enfim! Tudo arrumado.
Mas em pensament corrigiu: Minto. Nem tudo est arrumado. Ainda falta muita. coisa. Falta o Curgo e a Alice casarem, terem filhos e encherem esta" mesa de crianas. 
Falta o menino abandonar a amsia. Falta casar tambm a Maria Valria.
Lanou um olhar enviesado para o Dr. Torbio, que estava j com a "matraca" funcionando, a cotar _ ao Dr. Wiuter suas polmicas com o Manfredo Fraga d"O ruto. 
O Dr. Rezende podia ser um bom partido... Ou noo? Embora gostasse do rapaz, Bibiana nunca conseguira vencer a impresso de que o baiano era um estrangeiro, de fala 
e costumes diferentes dos da gente da Prov~ncia. Ficava meio atordoada pela sua tagarelice, e sua gesticulao exagerada s vezes a deixava com uma "coisa" nos olhos 
... Havia de ser muito engraado casar um moo agitado, conversador e festeiro com uma rapariga seca, retrada e caladona como a Maria Valria, qe herdara da me 
(pobre -da Ondna, to quieta, to sem sal!) a falta de graa e do pai a teimosia. No. A coisa noo podia dar certo.
Bibiana bateu palmas:
- Lindia, a sopa!
-As mulheres estavam caladas: Alice brincava com o guardanapo, de olhos baixos; Maria Valria, muito tesa, as mos pousadas no regao, olhava fixamente para uma 
das janelas, onde uma abelha " voejava e zumbia, batendo s tontas contra a vidraa. Juvenal
ISM.S.LIA CARA        587
contava ao pai a histria dum tropeiro que conseguira vender a certa charqueada um lote de vacas magras por preo exorbitante. Florncio sacudia a cabea num gesto 
que era metade incredulidade e metade censura. A risada do Dr. Rezende de novo vibrou no ar ensolarado.
Bibiana abarcava a sala com um olhar morno e tranqilo. Sentia-se feliz. Tinha ao redor da mesa os parentes mais chegados e queridos. No princpio daquele ano sua 
filha Leonor e o marido tinham vindo passar um ms no Sobrado. Se o Florncio no fosse to teimoso podia tambm morar ali com sua gente. Era um casaro enorme que 
por assim dizer vivia vazio. Mas o diabo do sobrinho s um ano depois da morte de Luzia  que tornara e entrar no Sobrado, e assim mesmo meio trazido  fora. Agora 
l estava ele  cabeceira da mesa, com os seus bigodes cados, seus olhos tristes, macambzio e contrafeito, como se estivesse num almoo de cerimnia. Ela tinha 
s vezes vontade de agarrar o Florncio pelos ombros e sacudi-lo, sacudi-lo muito. "Deixe de bobagem, homem! Esta casa  nossa,  dos Terras. Sempre foi!"
A criada entrou com a grande terrina de loua branca e dep-la sobre a mesa,  frente da patroa. Bibiana ergueu-lhe a tampa e o vapor subiu, envolvendo-lhe o rosto. 
Com a grande cucharra de prata ela mexeu a sopa loura e cheirosa, e depois, tirando pratos fundos da pilha que tinha  sua direita, comeou a servir.
- V passando adiante - disse ela ao Dr. Torbio, ao entregar-lhe o primeiro prato. - E no precisa cheirar a comida!
- Que delcia! - exclamou o advogado. - A ambrosia dos deuses e os manjares dos banquetes de Sardanapalo no cheiravam to bem quanto esta sopa! D. Bibiana, tenho 
a honra de pedi-la em casamento.
- Ento primeiro passe adiante a sopa - retrucou ela. E vendo que Florncio ia entregar o prato a Curgo, disse: - No, Florncio. Esse  seu.
Dentro de alguns segundos estavam, todos servidos,  espera de que a dona da casa comeasse a comer. Bibiana tomou da colher, mexeu a sopa com ar distrado e por 
fim, depois de soltar um prfundo suspiro, com cujo sentido o Dr. Winter no pde atinar, sorveu o primeiro gole. Os outros comearam .tambm a tomar sopa, e por 
alguns momentos o silncio da sala ficou cheio de chupes sonoros.
Bibiana olhou para a terrina: tinha quase vinte anos de uso. Viam-se sobre aquela mesa outros utenslios antigos aos quais a velha se afeioara como se eles tambm 
fossem membros da famlia: a farinheira de madeira (com a tampa j muito lascada) ; os pratos de loua creme com debrum dourado; o paliteiro de platina - um homem 
magro de guarda-sol aberto e cheio de furinhos onde se espetavam os palitos; os clices de cristal verde e longas hastes, que
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vnham do tempo do velho Agunaldo (que Deus ou o diabo Otenha ! ) .
Corgo comia com sofreguido, encurvado sobre a mesa, o nariz quase a entrar no prato. Era sempre assim quando andava preocupado com algum problema: havia momentos 
em que os pensamentos se lhe atropelavam na mente e ele se esquecia por completo do que estava fazendo ... Agora comia por assim dizer ao ritmo das coisas em que 
pensava. Naquele instante em sua mente era noite, a festa tinha comeado, danava-se na sala grande do Sobrado e no quintal os negros pulavam ao redor da fogueira, 
mas ele, Curgo, estava de revlver em punho  janela da frente esperando os capangas de Bento Amaral. Venham, seus capados! Venham se so homens! E eles vinham ... 
Surgiam de todos os cantos da praa e rompiam fogo. Sobre. a cabea de Licnrgo uma vidraa partiu-se, os cacos de vidro lhe caram na cara. Ele comeou tambm a 
atirar. Pi ! L caiu um. Pi ! L se foi outro ... E com fria assassina Curgo levava as colheradas de sopa  boca.
- Coma mais devagar, menino! - gritou-lhe a av.
S ento Licurgo voltou  sala de jantar. E, como se os outros tivessem estado a presenciar aquele combate imaginrio, disse:
- Mas acho que ele noo tem caracu!
Alice corou e baixou os olhos para o prato. Com exceo de Maria Valria, todos olharam para Licnrgo interrogadoramente.
- Quem  que no tem caracu? - perguntou Juvenal. A sopa que lhe enchia a boca, tornava-lhe mole a voz.
- O velho Amaral - esclareceu Curgo. - Digo que no tem caracu pra atacar o Sobrado. - Inclinou o busto sobre a mesa, voltou a cabea para a direita e perguntou: 
- Qual  a sua opinio, Dr. Winter?
-        mdico passou o guardanapo pelos bigodes, pigarreou e respondeu
- Coragem talvez no lhe falte. Mas o velho  esperto demais para fazer uma loucura dessas.
- Mas no seria a primeira! - observou Torbio.
-        alemo sacudiu negativamente a cabea.
- No, Curgo. Ele no vai fazer uma asneira assim to grande.
- E por qu? - indagou Torbio. - Hein? hein? Por qu?
Carl Winter comeou a riscar distraidamente a toalha com a ponta da faca, enquanto Bibiana o mirava com ar de reprovao.
- Por vrias razes - prosseguiu o mdico. - Vejam bem. Primo, atacar uma casa de famlia onde se realiza uma festa em que h mulheres e velhos,  um ato reprovvel 
que fatalmente repercutiria mal em toda a Provncia. Segundo, esse ataque s poderia prejudicar moralmente o Partido Liberal e fornecer aos jornais abolicionistas 
um motivo para atacarem a monarquia. Finalmente, porque o Cel. Amaral sabe muito bem que o Conselheiro no apro
ISMALIA GARE        589
varia um gesto de violncia como esse, principalmeate dirigido contra o Sobrado .. .
Havia algum tempo, Gaspar Silveira Martins passara por Santa F, onde realizara uma conferncia, aps a qual - para surpresa de todos - em vez de ir ao casaro dos 
Amarais, visitara o Sobrado. onde ficara at altas horas da noite a conversar com Bibiana, Licnrgo e o Dr. Rezende. Tinha sido uma noitada memorvel,
- a casa ficara toda cheia da voz trovejante daquele extraordinrio orador cuja legenda o pas inteiro conhecia., O Conselheiro deixara "a gente do Sobrado" impressionadssima. 
Era um homem alto, de largo peito, e postura atltica: tinha um olhar magntico e uma irresistvel capacidade de seduo. O Dr. Torbio, que quase no tivera a coragem 
de abrir a boca na presena do estadista, dissera dele mais tarde: "E um misto de Sanso e Demstenes. E se me pedissem para pintar Jpiter, barbudo e formidvel 
por entre nuvens de tempestade, com um feixe de raios nas mos eu o representaria na figura do Conselheiro!"
Depois que Silveira Martins se retirara, av e neto- ficaram ainda por mais duma Dora a conversar, entusiasmados, sobre a personalidade do visitante da noite. Comentara 
Licurgo: "~ um grande tribuno. Pena que no seja dos nossos." Fandango, que durante todo o tempo da visita ficara de longe, "bombeando e escutand " o Conselheiro, 
resumira sua admirao numa frase: "Bichinho mui especial." Bibiana dissera simplesmente.: "Tem o jeito do Cap. Rodrigo. ~ um homem."
O Dr. Winter tinha razo. O velho Amaral noo era to insensato que quisesse correr o risco de provocar a ira do Conselheiro.
- Mas pelas dvidas - contou Licnrgo - j tomei minhas providncias. A peonada do Angico vai danar de pistola na cinta
-        olho alerta, preparada pro que der e vier. L bom a gente noo confiar muito. O seguro morrem de vero.
- Mas morreu - acrescentou Bibiana.
Winter soltou uma risada.
- Ah I - fez o advogado bruscamente. - J ia me esquecendo ... Recebi de Cruz AIta um boletim que o Diniz Dias mandou distribuir. Ir a propsito de sua briga com 
o Dr. Gaspar Martins.
Por motivos polticos, o Conselheiro destitua o Baro de So Jac da chefia d diretrio liberal do municpio vizinho.
- Leve os psatos de sopa,,Lindia - ordenou Bibiana.
Torbio tirou do bolso um papel, desdobrou=o e disse:
- Ouam s esta belezaI - Comeou a ler: - "O Sr. Conselheiro decretou a deposio do Baro de So Jac e a outro se entregou o basto que lhe fora confiado pelo 
voto un8nime do partido local." - Torbio fez uma pausa, fifpn em Curgo os olhos inquietos, somo e disse: - Quem est radinte com essa briga  o velho Amaral.
59O        O CONTINENTE
ISMLIA CARE        591
- So vinho da mesma pipa - resmungou o amigo.
O advogado baixou a cabea e continuou a leitura:
- "Quarenta anos de lutas, vinte e .trs de chefia no valer ao soldado de quatro campanhas para evitar de ser alijado e ma goado pelo~Sr. Conselheiro. Declaro no 
entretanto perante a Psovncia e meu partido, que noo  propriedade exclusiva do Sr. Gasp~ que no aceito a demisso de chefe..."
Juvenal tomou a ltima colherada de sopa e disse:
- Comearam a se comer uns aos outros.
- Que se entredevorem! - exclamou Torbio. - Que ~ estraalhem! Essa confuso s poder ser benfica para a propaganda republicana.. Mas ouam isto, agora.  de 
primeirssima: "Estaremos na Rssia, _sob a presso desptica do Czar? Somos servos ou cidados livres?"
- Somos servos da canalha monarquista! - aparteou Curgo.
Torbio tornou a dobrar e guardar o papelucho.
- Se o gabinete liberal cair e os conservadores subirem - observou o Dr. Winter - o Bento Amaral  capaz de comear .a atacar  monarquia.
- Sim - concordou o Dr. Rezende - porque nenhum desses dois partidos  sinceramente monarquista. O que eles querem  governar. Quando esto com o osso na boca,- 
defendem o Imperador. Quando perdem o osso, comeam, a rosnar.
- Por isso eu digo sempre - tornou Winter - que noo  de admirar se amanh os Amarais de novo virarem a casaca. No foram j conservadores? Tudo depende de onde 
sopra o vento .. . Lanou um olhar trocista e oblquo para Licurgo, acrescentando: -O velho Bento ainda vai acabar no Clube Republicano.
- Essa  que no! - protestou o outro.
Juvenal sentenciou
- Em poltica nunca devemos dizer "dessa gua no beberei". Curgo bateu na mesa com o punho fechado.
- Pois  pra acabar com essas imoralidades que ns queremos
a repblica.
- E quem vai derrubar a monarquia - declarou Rezende com voz empontada -  aquele moo austero que nasceu na estncia da Reserva, e que escreve artigos em A Federao. 
A repblica, tomt nota das minhas palavras, Dr. Winter, vai cair aos golpes duma pena e noo duma espad.
O mdico sacudiu a cabea, cptico.
- Neste pas nunca se far nada sem a interferncia direta ou indiret da espada. S vir a repblica se o Exrcito quiser.
Sempre que Licurgo ouvia ou lia a palavra exrcito, a imagem que lhe vinha - mente era a dum certo Ma j. Erasmo Graa, que freqentara o Sobrado em princpios de 
187O.
- Qual Exrcito qual nada! - vociferou ele, lanando um olhar agressivo para o Dr. Winter.
- Quando chegar a oportunidade - disse Torbio remexendo-se na cadeira - o Castilhos saber atirar habilmente, o Exrcito contra a monarquia. No h nada que aquela 
pena mgica no possa fazer.
- ~ um homem inteligente, no h dvida ... - murmurou o Dr. Winter com ar benevolente.
- Um homem inteligente? S isso, meu caro doutor, apenas isso? Hein? Hein? - E Rezende voltava a cabea dum lado para outro. - Hein? Jlio de Castilhos  o maior 
escritor poltico do Brasil !
Naquele instante entraram duas pretas trazendo bandejas com travessas fumegantes, que foram enfileiradas no centro da mesa. Juvenal ficou de olho alegre. Florncio 
mirou a comida com melanclica inapetncia. Winter mais uma vez se maravilhou ante a fartura: havia feijo preto com lingia; carne assada com batata inglesa; galinha 
ensopada; um pratarro de mondongo - que o doutor detestava; uma travessa de arroz rosado e lustroso; um prato fundo .com abbora e outro com iscas de rins.
- Agora, que cada um faa pela vida! - exclamou Bibiana. - Sirvam-se !
Houve uma troca animada de pratos, e por alguns instantes todos ficaram a servir-se.
Curgo levantou-se, foi at a despensa e voltou de l com duas garrafas abertas.
- Vamos experimentar um vinho feito pelos italianos de Garibaldina - disse.
Encheu o clice de Florncio, depois aproximou-se de Maria Valria.
- Eu no tomo - murmurou esta sem erguer os olhos.
- Dr. Winter? Talvez vassunc prefira cerveja..
- Vinho - disse o mdico.
Licurgo encheu-lhe o copo.
- E a senhora, vov, no bebe um pouquinho?
- No sou gringa.
Licurgo serviu Torbio e depois Juvenal.
- Toma vinho, Alice?
Ela olhou para o noivo e respondeu com um meio sorriso:
- No, obrigada.
Por um breve instante o olhar de Curgo fixou-se, morno, no doce relevo dos seios de Alice, e imaginou-a nua em seus braos. Mas repeliu logo esse pensamento. Era 
indecente, absurdo. Alice ia ser sua esposa, a me de seus filhos. Para "aquelas coisas" ele teria a Ismlia. (Onde estar ela a estas horas?)
Fez a volta da mesa, encheu o prprio copo e sentou-se.
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- A Repblica! - exclamou Torbio, erguendo o clice. - Hein? Hein?  Repblica!
Juvenal e Curgo participaram imediatamente do brinde. O Dr. Winter imitou-os com um resignado encolher de ombros. - V l!  Repblica!
Florncio olhava sombriamente para seu copo. Os outros homens tomaram um largo gole.
- Como , seu Florncio? - interpelou-o Torbio Rezende. - No nos acompanha no brinde?
- Acho que o papai  monarquista - disse Juvenal, olhando para o velho com um sorriso que ainda lhe alargava mais o rosto e obliquava os olhos.
- Eu sei bem o ,que o Florncio  - resmungou a velha. - Um teimoso.
- Eu no sou coisa nenhuma, tia Bbiana.
- Um homem tem de ter opinio! - exclamou Curgo, partindo com desnecessria fria um pedao de carne.
- Eu c tenho as minhas. S acho que no preciso andar gritando na rua o que  que penso .. .
- Estou falando de poltica - tornou Curgo. - Nesta hora noo  possvel ser neutro.
Florncio deu-lhe uma resposta indireta:
- O Imperador  um homem de bem. Eu s queria saber onde  que vassuncs vo arranjar outro melhor. que ele pra botar no governo.
Curgo lanou um olhar clido para Torbio.
- Est ouvindo, Torbio? Est ouvindo?
- Como esse h milhares e milhares em .todo o Brasil -
exclamou o advogada
- B por isso - interveio o Dr. Winter - que eu digo que noo se pode contar com o povo para derrubar a monarquia.
- Mas no se trata duma revoluo armada, doutor, e sim duma revoluao de idias. Estamos no sculo do progresso, do caminho de ferro, do vapor, do telgrafo eltrico, 
da fotografia ... hein? hein? A era da barbrie j passou.
Carl Winter, que estava a tomar um novo gole de vinho, riu dentro do copo to brusca e violentamente que, engasgado, rompeu numa tosse convulsa, apertando os lbios 
com o guardanapo. Sem a menor mudana de expresso fisionmica, Maria Valria ergueu o brao direito e desferiu uma sonora palmada nas costas do mdico.
- Que  isso, menina ? - repreendeu-a Bibana.
- O doutor est engasgado - respondeu a moa, imperturbvel.
Winter tossia e ria ao mesmo tempo. E quando, muito vermelho,
ISMLIA CAR        593

com os olhos cheios de lgrimas, a respirao arquejante, ele bebia pequenos goles d"gua, Torbio lhe perguntou:
- Mas por que o senhor riu, hein?
O alemo encarou-o, subitamente srio.
- Vassunc disse que a era da barbrie passou e que estamos no sculo do progresso, das idias .. .
- E que  que h de to extraordinrio nisso? Acaso no terei enunciado um axioma irretorquvel?
Winter atirou o guardanapo sob-~ a mesa, inclinou o busto para a frente, e, escandindo bem as slabas, disse com voz ainda apagada:
- No se iluda, meu jovem amigo. Os homens inventaram algumas engenhocas teis, noo h dvida, mas no que diz respeito a sentimentos no esto em muito melhor situao 
que seus antepassados das cavernas. Suas reaes animais so " basicamente as mesmas.
- Experto crede! - exclamou o advogado.
- No ano passado a Inglaterra ocupou o Egito - prosseguiu o mdico. - Que significa isso? A vitria da civilizao sobre a barbrie? No. Significa, a meu ver. 
que essa nobre vaca, com o perdo das senhoras presentes. que essa respeitvel bruaca que  a Rainha Vitria vai ter mais escravos e os comerciantes ingleses mais 
lucros.
Os olhos ainda midos, Winter apertava a haste do clice com seus longos dedos rosados, cobertos duma penugem fulva. Os outros dividiam a ateno entre a comida 
e a polmica.
- Qual progresso, qual nada! - E o mdico tornou a passar o guardanapo nos lbios. - Diga antes interesse material, comrcio, ganoncia. O homem  o lobo do homem. 
Vosmec deve saber dizer isto em latim, Dr. Rezende .. .
- Mas o meu caro e irnico esculpio - retorquiu Torbio - achar que a Inglaterra com seu adiantamento cientfico, a sua civilizao, a sua experincia noo pode 
levar o progresso ao Egito? Hein?
- Pode mas noo leva. Para ela os egpcios noo so propriamente homens.
- No entanto - rebateu Torbio, cujas faces o vinho e. o entusiasmo deixavam afogueadas - no entanto vosmec noo negar que foi graas  grande Inglaterra que abolimos 
o trfico de negros. S uma poltica altamente humanitria -seria capaz de conduzir a um gesto to altrusta. Dei:<e 18O7, se no me falha a memria, a Inglaterra 
no faz mais o comrcio de escravos.
- Mas dizem que ainda vendem negros por baixo do poncho - observou Juvenal.
- Qual nobreza, qual humanitarismo, qual nada! - exclamoa Winter. - Tudo interesse comercial.
#i
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- O senhor  um esprito de contradio! - acusou-o Curgo agastado.
Espetou no garfo um pedao de batata, levou-a  boca num gesto brusco e ficou a mastig-lo com uma ferocidade cmica.
- Sou um homem sem paixes - disse Winter. - No tenho partido. Nem sequer nasci neste pas. Um dia posso ir-me embora para a Alemanha e no voltar mais. Limito-me 
a ler, ouvir, observar e tirar minhas concluses. Os senhores botam todas essas questes num p puramente ideolgico. Eu prefiro levar a coisa para o lado do interesse 
material.. .
- O senhor ento - perguntou Curgo, inflamado - acha ne no h no mundo lugar para o corao, e que as pessoas s fazem as coisas com o olho no lucro, no benefcio 
prprio?
- No quero dizer exatamente isso ... - comeou o mdico. O outro, porm, noo lhe deu tempo para terminar a sentena, pois prosseguiu
- Tome o meu caso. Vou hoje dar liberdade a todas os meus escravos. Qual  o meu lucro material nessa histria? Me diga. Me diga.
Winter encolheu os ombros.
- Vassunc  um sentimental.
- Graas a Deus! E no me envergonho disso.
Lanou um olhar rpido para Alice, que naquele instante o contemplava com expresso amorosa. Depois ergueu o copo e bebeu, como num brinde a si mesmo, ao seu bom 
corao e aos seus sentimentos nobres.
- A Provncia do Cear est libertando seus escravos - ajuntou Torbio. - A do Amazonas tambm. Que lucro material tm elas nisso?
Winter lutava com uma sambiquira de galinha. Sem erguer os olhos para os interlocutores, respondeu:
- A explicao  simples. Para a lavoura do Norte o brao escravo j no  mais. negcio. No fim de contas  muito melhor pagar ao negro um salrio baixo e seco 
do que dar-lhe de comer e vestir.
Juvenal largou a sua perna de galinha e disse:
- Mas um dia destes conversei com um fazendeiro de So Paulo que no quer nem ouvir falar em abolio .. .
- Mas est certo - replicou o mdico - rigorosamente certo. A lavoura de caf  a mais prspera do pas, a mais lucrativa. Os fazendeiros de So Paulo esto tendo 
lucros cada vez maiores.
Destacando bem as slabas e atirando-as uma a uma na direo de Licurgo e Torbio, com uma lentido provocadora, o Dr. Winter concluiu
- Os fazendeiros de caf precisam do trabalho barato do escravo. Por isso so contra a abolio. O governo por sua vez se
ISMALIA CARr        595
encontra ente dois fogos: o nteresse dos .senhores fendais paulistas e a opinio pblica, qne  anti-esrnvagista.
~- Seja como for - disse Torbio - a idia abolicionista est em marcha vitoriosa.
- E vencer 1 - eadamon Licnrgo.
Winter sorriu:
- Espero qne no me tornem por um miservel escravagista. Sou apenas um homem que se quer dar o luxo de ver claro .. .
Mas ~ qne era "ver dar " ? - perguntou ele a si mesmo, chupando a sambiquira da galinha. Seria coisa sbia procurar a gente viver sempre com lgica e lucidez? s 
vezes lhe parecia que o melhor era participar de tdas as paixes, enlamear-se nelas, noo ficar  margem da vida, preocupado com examinar todos os lados das pessoas 
e das. questes, querendo dizer sempre a palavra mais justa e serena. que no fim era quase sefipre a mais cnica e a menos humana. Apesare de toda a sua famosa lucidez, 
aos sessenta e trs anos de "dade eacontrava-se ele ainda- em Santa F, solteiro, solitrio, escravo da rotina, pensando sempre em ir-se embora,. em voltar para 
a Europa, mas ao mesmo tempo sentindo-se poderosamente preso quela .terra como ~nma velha rvore de razes profundas - mas ama rvore que noo ama o solo em .que 
est plantada e noo tira dele o alimento de que necessita para vicejar com toda a plenitude.
Lenta e meio cansada, como se viesse do fundo dum longo corredor sombrio, ouviu-se a voz de Florncio
- No tenho nem nunca tive escravos. Mas acho que no Rio Grande os negros so felizes. Nas estncias e nas charqueadas eles trabalham ombro a ombro com os brncos. 
A no ser um ou outro caso; em geral so bem tratados. Dizem que l no Norte os senhores de engenho maltratam os escravos. No sei. H moita conversa fiada. O que. 
sei  que aqui. na Provncia os negros passam bem..
Curgo sacudia a cabea, obstinadamente.
- Mas isso noo  razo pra manter a escravatura, primo Florncio.
O velho fez um gesto vago.
- Vassuncs so moos, lem nos livros, devem saber o que fazem. En sou nm homem antigo.
Bibiana lanou-lhe um olhar de estranheza. Se Florncio se considerava "antigo", ela ent, que era? Um caco velho, um trapo. No entanto o se trocava por nenhum 
daqueles moos que ali estavam ao redor da mesa.
Juvenal voltas-se para Torbio e perguntou:
- Como  mesmo aquela frase do Conselheiro sobre a escravatura?
- "Amo mais a minha ptria do que ao negro" - citou o advogado.
#596        O CONTINENTE
- Frase indigna dum grande homem - disse Licurgo. - Nem parece ter sado duma cabea privilegiada como aquela. Torbio olhou para o amigo:
- No aprovo a atitude de Gaspar Martins, mas compreendo-a. O que ele quer dizer  que teme que a luta pelo abolicionismo degenere em guerra civil como nos Estados 
Unidos ~da .Amrica do Norte.
- E tem razo - observou Flornco. - H esse perigo.
Licurgo levantou-se ntempestvamente, foi at a sala de visitas, voltou de l trazendo o ltimo nmero de A Federao, que recebera nas vspera, tornou a sentar-se 
e anunciou:
- O que vou ler .agora foi o Dr. Castilhos que escrevn: "Abandonada aos impulsos naturalmente irregulares da paixo revolucionria que anima tanto o .abolicionismo 
intransigente como a escravocracia emperrada, a questo do elemento servil assum uma gravidade excepcional." Agora prestem bem ateno a este final: "Se a luta 
violenta sobrevier, .desabe todo o peso da responsabilidade sobre o governo medocre que. compromete a paz pblica."
Tornou a dobrar o jarnal e colocou-o junto do guardanapo com o ar de quem havia dito  palavra definitiva sobre o assunto. Houve um curto silncio, ao cabo do qual 
Torbio falou:
- O que o Dr. Castilhos quer dizer - explicou ele -  que o . . governo no tem seguido uma poltica sensata nesse assunto da abolio.
Mas que  que o doutor chama de poltica sensata? - perguntou Winter.
- Uma poltica que visasse acabar gradualmente, heinT baia?, a propriedade escravagista por meio, digamos, dum imposto que os senhores de escravos teriam de pagar 
e cujo produto podia ser empregado num fado de emancipao. Uma. poltica que promovesse o decreto de leis- tendentes  dificultar o negcio de escravos e sua transmsso 
por herana. Por ezemplo: devia ser proibido Ocomrcio de negros entre as provncias. E a melhor maneira de snbatituir o brao escravo na lavoura seria estimular 
a imigra~o. Tudo isso o governo podia fazer e no faz. .
- S conseguiremos essas coisas com a repblia - afirmou Curgo.
Flornco meneou a cabea.
- Estore muito velho pra acreditar em conversas - observou ele, de olhos baixos, como. se estivesse se dirigindo ao prprio puto e no aos outros. - Tenho visto 
muita mudana de governo aa minha vida e tenho lido e ouvido muita. promessa de polticos Acho que as coisas noo vo mudar se vier a repblia.
Curgo olhou vivamente para o tio e, quase agressivo, replicou:
-  por essa e por outras que o Brasil ao vai pra frente. Sc homens como o senhor acham que noo h diferena entre repblip
1SMALIA CARE        597

e monarquia, o que  que a gente pode esperar dum gacho bronco.
dum peio, dum... dum... homem da rua? - Olhou. pau o
advogado e pediu:.- Torbio, conte ao primo Flornco o que 
que a repblica quer.
Torbio cruzou os talheres, fincou os cotovelos aa mesa, tran
ou as mos  alteia do queixo e principiou:
- Pan ao fazer uma dissertao muito comprida, direi pri
meiro que. com a repblica, as provncias ficaro transformadas
em estados. autnomos e confederados, mas politicamente. unidos. Esfregou as mos t fez uma pausa. Bibiana aproveitou o breve
silncio para perguntar -        - - Mais carne, Dr. Winter?
- No, muito obrigado.        ,
Teremos tambm um poder legislativo central; um tribunal
superior de justia, colaborao proporcional de todos os Estados
para as despesas da nao .. .
Winter sabia que Flornco no estava entendendo nada. Como
ele havia no pas milhes de pessoas para as quais aquelas palavras
no tinham sentido. -
A enumerao continuava. O senado seria temporrio. O voto,
alargada Todos teriam liberdade e associao e de culto. Os
-cemitrios-seriam secularizados...
Neste ponto Bibiana interveio:
- E os defuntos vo continuar mortos, sem saber de nada .. . Curgo fuzilou para- a av um olhar de-censura.
- Teremos o casamento civil obrigatrio - prosseguiu Tor
bio. - A Igreja ser separada do .Estado. Os ministros, responsa
bilizados. No s os ministros, mas tambm todos os agentes da
administrao. Acabarmos com o poder moderador e com o con
selho dos Estaos. Ah! E haver a mais ampla liberdade de
ensino .. .
~ repente o advogado calou-se. Flornco fez- apenas este
comentrio:
- Tudo isso  muito bonito. Mas o Imperador  nm homem
de bem.
Cargo deizon escapar um suspiro de impacincia.
- E um caixeiro-viajante! - explodiu. - Vve passeando na
Europa, fazedo versos e visitando museus, enquanto o pas aqui
se vai guas abaixo!
Flornco no respondeu. Continuou a comer serenamente. Torbio retomou a palavra
- 8 um Imperador para uso externo, cujo principal motivo
de orgulho  ser amigo ntimo de Victor Hugo! Flornco repetiu simplesmente: - O Imperador  um homem de bem.
#X98        O CONTINENTE
5
O relgio grande bateu uma hora.
Os pratos foram recolhidos e veio a sobremesa - doce-de-coco -
nnma grande compoteira de vidro azul, na frma duma galinha no choco. Todos gostam de doce-de-coco? Se no gostarem, tem pessegada, marmelada e figada ... Mas todos 
gostvam.
Durante aqueles ltimos dez minutos o Dr. Torbio estivera com a palavra, continuando sua catilinria contra o Imperador e seris ministros enquanto os outros o escutavam 
em silncio com uma ateno duvidosa.
Vendo que o advogado noo tocava na sobremesa, Bibiana" lhe disse
- Coma, moo.. Vassunc mais fala -do que outra coisa.
- Mas  da profisso, minha senhora. Se ns os advogados noo falarmos, perdemos as- causas, e se perdermos as causas,. morreremos de fome.
- Pois ento coma enquanto tem comida - retorquia a velha. Rezende soltou a risada de matraca.
- A senhora  uma mulher que me agrada. Realista, positiva,
hein? hein? De gente assim  que vamos precisar quando vier a repblica, no  mesmo, Corgo? Pois sua av vai ser a primeira presidenta do Estado do Rio Grande do 
Sul, hein?
Bibiana, que partia uma fatia de queijo, somo e replicou:
- Se eu continuar- sendo presidenta do Sobrado me doa .por muito satisfeita. - Fez com a cabea. um sinal na direo-de Alice. - Ali est quem vai me derrubar. Detro 
dum ms- ser a dona desta casa.
- Ora, titia - protestou Alice debilmente. - Nem diga uma coisa dessas .. .
Maria Valria, que pouco falara durante todo o almoo, observou
- Todo o mundo sabe, tia Bibiana, qne quem- vai connuar mandando aqui dentro  a senhora.
Winter voltou a cabea para a moa que estava a seu lado. Tinha uma simpatia particular por aquela rapariga que tda a gente achava feia, mas na qual ele descobria 
um encanto secreto e meio spero, muito mais atraente para seu gosto do que a "boniteza" comum de Alice. Sempre que a via, muito alta, tesa e esbelta, o rosto alongado, 
os grandes olhos negros um pouco saltados, o nariz longo e fino, a boca rasgada de expresso um tanto sardnica - ele noo podia deixar de fazer uma comparao: "comprida 
e aguda como uma lana". A prpria voz de Maria Valria tinh
algo de contundente. Em vrias ocasies, com o intuito de conhec-la melhor, Winter procurara lev-la a confidncias, pois suspeitava de que havia naquela criatura 
muito mais coisas do que seus gestos e palavras revelavam. No conseguira, entretanto, quebrar aquela espcie de armadur de gelo que envolvia a filha mais moa 
de Florncio Terra. Aos vinte e quatro anos Maria Valria tinha mentalmente quase a idade de Bibiana. Quando as duas mulheres se encontravam, Winter divertia-se 
a observ-las. Era evidente que existia entre ambas uma certa m vontade recproca a qne as gentes da Provncia davam o nome de .birra. Eram - comparava o mdico 
- duas personalidades de pederneira, que ao se chocaram produziam chispas de fogo. No entanto ele estava certo de que, sendo necessrio, qualquer uma daquelas duas 
mulheres seria .capaz dos maiores sacrifcios pela outra.
Bibiana lanou um olhar duro para a sobrinha, mas nada disse. Quando veio o caf, Rezende acendeu um charuto e Florncio e Carl Winter comearam a fazer seus cigarros. 
Licurgo aproximou-se da janela e olhou para o quintal onde os escravos comiam sentados no cho, sob as rvores, ou nos degraus da escada que levava  porta da cozinha. 
Eram homens, mulheres, crianas e velhos, todos descalos e molambentos. ~~JriS tinham nas mos latas ora velhas panelas cheias de arroz e"fejo; ,outros metiam 
os dentes em costelas, arrancando-lhes a pelanca,. ao passo que uns quatro ou cinco caminhavam dum lado para outro, a chupar laranjas e bergamotas. Comiam num silncio 
impressionante, e sobre as carapinhas e os chapus de palha, as faces, mos, pernas e ps pretuscos que o frio gretava, brilhava o claro e tpido sol de bunho. Licurgo 
ficou a imaginar a cara que os escravos fariam aquela noite quando recebessem na sala grande do Sobrado seu ttulo de manumisso. Compadecia-se daquela pobre gente, 
mas reconhecia que nem sempre tinha pacincia suficiente para trat-la com doura. Mais duma vez fora obrigado a dar de relho em pretos que lhe faltaram com o respeito. 
Fizera isso, porm, de homem para homem, mas nunca, nunca mesmo, mandara aoitar um escravo.
Acendendo o charuto que o Dr. Torbio lhe oferecera, Juvenal disse:        "
- Eu s queria saber quem vem  festa hoje aqui no Sobrado e quem vai ao baile do Pao .. .
Licurgo ouviu as palavras do primo e deixou a janela.
- Pra vir aqui hoje - disse, aproximando-se do outro -  preso ter tutano. Quem entra nesta casa fica marcado pelos Amarais pro resto da vida.
- Tenho receio que no venha ningum - confessou Bibaaa. - Depois que espalharam que o velho vai mandar atacar o Sobrado, muita gente pode ficar com medo de vir 
.. .
- Pois quem tiver medo que no aparea! - exclamou Li-
ISMLIA CARB        599
#6OO        O CONTINENTE

Curgo. - S queremos aqui dentro gente de coragem e de opinio. Se for preciso, fazemos o baile com o pessoal de casa e com a negrada.
Juvenal puxou uma baforada com gosto e, olhando intencionalmente para Maria Valria murmurou:
- Eu se dum moo que vem .. .
Os outros riram porque sabiam a quem ele se referia. Jos Lrio, o Liroca, andava perdido de amor por Maria Valra, a qual tinha por ele invencvel repulsa. E o 
que deixava a situao ainda mas cmica era o fato de o rapaz ser mais baixo e mais moo que sua amada.
- Se sabe, diga logo! - desafiou Maria Valria.
Um pontao de lana - refletiu Winter, acendendo o cigarro e olhando reflexivamente para Bibiana.
- A senhora se lembra - perguntou ele - quando um dia, faz muito tempo, nesta mesma sala, nesta mesma mesa, eu lhe disse que Santa F ia progredir e ter muitas dessas 
coisas de cidade grande?
- Nunca me esqueo de nada, doutor.
- Pois . No me enganei. Hoje temos lampies nas ruas, nmeros nas casas, mala postal.. .
Curgo interrompeu-o:
- Mala postal, essa, que devia chegar uma vez por semana mas que chega sempre com o atraso de duas semanas, quando chega... Belezas da monarquia!
Sem fazer caso da interrupo, o mdico prosseguiu:
- Temos um teatrinho, um telgrafo .. .
- E casas de mulheres -toas - ajuntou Bibiana acidamente. Havia para as bandas da coxilha do cemitrio uns dois ranchos
onde viviam algumas chinas. Dizia-se que at homens casados
freqentavam essas ordinrias.
Winter soltou uma risada curta e seca.
- Que  que a senhora quer? Essa  a mas antiga das profisses.
- Uma pouca vergonha, isso sim  que  - replicou a velha. Lanando um olhar oblquo para o neto e baixando a voz, ajuntou: - H homens que nem precisam visitar 
essas sem-vergonhas, porque tm as amsias em casa mesmo.
Licurgo teve a desnorteadora impresso de que a av acabava de esbofete-lo em pblico. Sentiu um sbito form.gamento quente em todo o corpo e olhou automaticamente 
para a noiva, que conversava em voz baixa com o pai e parec noo ter prestado ateno s palavras da velha.
Maria Valria ergueu-se da mesa, acercou-se da janela que dava para a Rua dos Farrapos, e ficou olhando com ateno vaga para a meia-gua caiada, l do outro lado, 
e  frente da qual uma criana brincava com um cachorro. Desconcertada diante da observao de D. Bibiana, tratara de afastar-se do grupo, para que ningum lesse
ISMALIA CARE        6O1
em seu rosto que ela saba do caso de Licurgo com Ismlia. Passara todo tempo do almoo esforando-se por no olhar para o primo. Que gostava dele, era uma verdade 
que s admitia com relutncia. Morreria de vergonha se algum viesse a suspeitar desses sentimentos que em vo procurava ocultar at de si mesma. Temendo trair-se, 
chegava a tratar Curgo com aspereza, dando muitas vezes aos outros a impresso de que lhe queria mal. Sempre, porm, que o via o que lhe ouvia a voz, ficava toda 
perturbada, com a garganta seca, as mos trmulas, o corao a bater descompassado. No seu orgulho, irritava-se com isso, pois lhe fora sempre agradvel a idia 
de considerar-se diferente das outras moas que viviam preocupadas com "essas bobagens de amor". Maria Valria era muito sensvel aos mexericos da vila, embora declarasse 
no dar-lhes a menor importncia. Era costume chamar aos maldizentes "filhos da candinha". Seria horrvel se eles um dia comeassem a murmurar: "Sabem da ltima? 
A Maria Valria est apaixonada pelo noivo da irm."
Com a testa encostada na vidraa, os olhos fitos na rua, ela agora ouvia mentalmente vozes repetirem aquelas palavras. E "os filhos da candinha" tinham caras conhecidas: 
eram os homens que bebiam cachaa e contavam histrias sujas na venda do Schultz e na Casa Sol; eram tambm as mulheres que se encontravam  sada da missa e murmuravam 
segredinhos: "Ouvi dizer que a Maria Valria tem um rabicho danado pelo Curgo. Quem diria, hein? V a gente se fiar nessas santinhas ... " S de pensar em tais coisas 
ela ficava com as orelhas vermelhas, as faces quentes como chapa de fogo, e at a respirao se lhe tornava difcil, omo se ela estivesse cansada dum. esforo 
fsico.
- Pois , doutor - dizia Bibiana. - Fique com o seu progresso. Me deixe c com as minhas antiguidades.
Rezende caminhava pela pea, em passos rpidos e aflitos, soltando no ar a fumaa azulada do charuto. De repente estacou junto de Curgo, segurou-lhe um dos botes 
do palet como se quisesse arranc-lo e disse:
- Preciso voltar  redao. Estou preparando um nmero especial de O Democrata para amanh. Os monarquistas vo ficar com a canela ardendo de inveja. J comecei 
a escrever a notcia da nossa festa.
- A festa de hoje de noite? - estranhou Bibiana.
- E que tem isso? No  difcil imagnac o que vai acontecer. No se esquea de que estamos em 1884. O jornalismo moderno difere do antigo principalmente na presteza 
com que d as notcias.
A velha sacudiu a cabea lentamente, murmurando: "Ora j se viu?" Rezende beijou-lhe a mo:        "
- Muito obrigado pelo almoo - disse. - Fo um banquete digno dum nababo. - Fez um gesto largo. - At logo para todos? Curgo, por volta das quatro estarei aqui nas 
minhas roupagens
#6O2        O CONTINENTE

vermelhas de mouro, hein? Derrotaremos os cristos e imporemos ao mundo o Imprio do Crescente. Viva ~ a Repblica !
Precipitou-se para o vestbulo, acompanhado de Juvenal que, de olhos ~ pesados, pensava na sesta.
-  bem doido - comentou Bibiana, sorrindo. E depois, mudando de tom: - S no sei por que  que vassuncs, meninos, vo de mouros e noo de cristos.
- p porque o vermelho representa a revolta, D. Bibiana - explicou Winter - a revoluo, e tambm porque  a cor da mo- - cidade, noo , Curgo?
- No. Ns somos mouros porque os Amarais so cristos. Bibiana olhou para o neto, sobressaltada. - No vai haver perigo de sair briga de verdade? No quero
que vocs se lastimem.
Licurgo sacudiu os ombros.
- .Estamos prontos pro que der e vier.
Florncio olhava para Maria Valria, que estava ainda ao p da janea. Sentia pelos filhos uma profunda afeio, embora no soubesse manifest-la em gestos ou palavras 
. de carinho. Admirava Maria Valria: era ela quem, depois da morte da me, tomava conta da casa. Tinha coragem, bom-senso e esprito prtico; no se preocupava 
com vestidos ou enfeites, e no era dessas que vivem na frente do espelho, pensando em festas e namorados. Sabia fazer queijos, doce e po; era uma cozinheira de 
primeira ordem e herdara as mos habilidosas da me, sendo hoje talvez a melhor rendeira de Santa F. Quando ela trabalhava com o bilro, Florncio ficava distrado 
a olhar o movimento de seus dedos a tramarem os fios por entre os alfinetes do almofado. J a Alice era diferente .. . Florncio sentia por ela uma afeio misturada 
de pena. Sempre a achara menos independente e corajosa que a outra. Parecia ser dessas moas que precisam permanentemente de proteo, que nasceram para viver  
sombra dum homem - pai, irmo ou marido. Quanto a Juvenal, era sem a menor dvida o mais alegre e despreocupado de toda a famlia. s vezes Florncio ficava a perguntar 
a si mesmo de onde o rapaz teria herdado aquele gnio. Olhava a vida sem pessimismo, gostava de festas, era trocista e costumava dizer que noo se casaria nunca porque 
no era homem de gostar da mesma mulher a vida inteira. Florncio lembrou-se dum dia em que chegara  casa abatido e contara aos filhos a decepo que tivera com 
um homem que at ento ele julgara ser seu amigo de verdade. Alice mirara-o com uma expresso de pesar. Maria Valria, ocupada com preparar o jantar, no pronunciara 
palavra. Mas Juvenal, sorrindo e encolhendo os ombros, dissera: "Faca que noo corta, pena que noo escreve, amigo que no serve, que se perca pouco importa." Era 
bom ter um gnio assim - refletiu Florncio. A gente sofre menos.
ISMALIA CAR;        6O3

-  am costume portugus - dizia Curgo  av, que lhe perguntara sobre a origem das cavalhadas. - Foram os aorianos que tronxeiam pra c.
- Mas a coisa vem de mais longe - acrescentou o Dr. Winter. E comeou a dissertar sobre o reino dos visigodos e a citar nomes como Pelgio, Hermengarda, Roderico, 
Vamba .. .
Esse alemo sabia coisas - refletiu Florncio. Talvez fosse a nica pessoa no mundo que sabia o que se tinha passado entre Bolvar e a mulher. em Porto Alegre, no 
tempo da peste. Tudo Olevava a crer que pouco antes de ser- assassinado pelos capangas de Bento Amaral, Boli contara a Winter o seu segrdo.
O mdico, porm, conservara a boca fechada. Depois ,daquele ~a em que Florncio correra para o Sobrado ao ouvir tiros, e fora erguer do meio da rua o corpo ensangentado 
do primo - depois daquele dia horrvel nunca mais tinham tocado no assunto. Era melhor noo remexer naquela ferida. Era melhor esquecer ... No entanto, tudo ali no 
Sobrado agora lhe lembrava Luzia, Bolvar e os anos difceis .que se _haviam seguido quele casamento desastroso. Florncio noo podia esquecer que Bolvar ficara 
indiferente com ele, a ponto de por fim trat-lo como a um stranho. Essa era uma das grandes tristezas de sua vida. Outra de suas mgoas era a de nunca ter podido 
dar  famlia uma vida de conforto e fartura. Perdia dinheiro em todos os negcios em que se metia. Era pura falta de sorte, porque no jogava, no . bebia, nunca 
fora dado a mulheres; pulava da cama com o sol, ao raiar o dia  com o sol se deitava ao anoitecer. No rejeitava trabalho, e Deus era testemunha do quanto ele amava 
a famlia e do quanto desejava faz-la feliz. Sempre que se lembrava da falecida era com uma saudade tocada de remorso: o remorso de no lhe ter podido dar uma-vida 
melhor. Desde o dia eni que se casara at o dia em que a puseram no caixo, enrolada numa mortalha que as prprias filhas coseram, Ondina havia trabalhado sem parar, 
cozinhando, lavando e passando a roupa, cuidando da casa, dos filhos e do marido e ainda por cima`- coitada! - fazendo renda para vender. No entanto ele no lhe 
ouvira nunca a menor queixa:
Florncio olhou para Curgo, que discutia animadamente com o Dr. Winter. O rapaz era opinitico como os Terras e esquentado como o av. Dentro de poucas semanas seria 
seu genro. Florncio aprovara o noivado mas nada fizera para encoraj-lo: noo queria dar motivo para dizerem que estava procurando casamento rico para a filha. Queria, 
isso sim, que ela fosse feliz como merecia. Mas infelizmente aqueles dois iam comear a vida de casados j com uma dificuldade muito sria. Curgo tinha uma amsia. 
Diziam que o rabicho era forte..Florncio noo acreditava que o rapaz abandonasse a china. Conhecia dezenas de casos como aquele: duravam quase sempre toda uma vida. 
Pensara a princpio em falar francamente
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no assunto com o futuro genro, mas desistira da idia, temendo um atrito. Licurgo tinha o sangue quente e detestava que lhe dessem conselhos. Que fosse tudo como 
Deus quisesse!
O Dr. Winter levantou-se, espichou os braos, espregui~ando-se, e disse:
- Bom, vou fazer a parte do achorro magro que enche a birrga e sai sacudindo o rabo.
Despediu-se e saiu. Bibiana acompanhou-o com os olhos e, antes de v-lo desaparecer, gritou-lhe:
- Vassunc vem  festa hoje de noite? O mdico voltou-se e respondeu:
- Est claro que venho. Me acha com cara de capacho dos Amarais?
A velha fez um muxoxo.
- U! A gent v de tudo no mundo.
- Argumentam ad ignorantiam! -.exclamou o mdico. E
abalou.
Bibiana ficou-rindo seu risinho gutural e lento.
- Esse Dr. Winter sempre empalhando a gente com o seu alemo! - Depois olhou para o neto, que conversava com a noiva. e disse: - V dormir . a sua sesta, menino.
Licurgo franziu a testa, contrariado." No lhe era nada agradvel receber ordens da av diante das primas.
- No estou com sono - respondeu ele, com uma m vontade que lhe dava certo fio s palavras.
- Mas v - insistiu a velha. - Vassunc .precisa descansar um pouco. O dia vai ser brabo e comprido. Sna noiva- no repara. no , Alice?
- No reparo, titia.
- Pos . V!
Cargo apertava nQs dentes o cigarro agora apagado. De repente sentiu que a sesta ~lhe seria uma boa desculpa. para deixar. a sala: era=lhe difcil manter conversao 
com i noiva.
- Est bom. Com. licena de todos, at mais tarde!
- At mais tarde - disse Alice.
Maria Valria no olhou para o primo.
Depois que Licurgo se retirou, Flrncio ps-se d p. - Ns tambm vamos indo:
Bibiana ergueu a ,mo:
- Fiquem um pouquinho mais.
- A senhora no vai dormir a sesta?
- Quem foi que le disse que_ eu durmo a sesta?
Florncio no respondeu. Sabia que todos os dias aps o almoo
velha apanhava um jornal, acavalava os culos no nariz, senta
va-se na cadeira de balano e ficava a ler e a lutar . com o sono, de
plpebfas pesadas -e meio cadas, mas mesmo assim teimando em
ISMALIA CAR        6O5

manter os olhos abertos. Por fim, vencida, deixava tombar o jornal e, de cabea pendida sobre o peito, dormia profundamente. Acordava dali a meia hora num sobressalto, 
piscava estonteada, remexia os lbios e estalavas a lngua como se estivesse provando alguma coisa e, se via gente perto, tratava de disfarar, dizendo:
- Quase peguei no sono .. .
Florncio mirava-a agora, indeciso.
- Sente-se - ordenou ela. - E vassuncs tambm, meninas. Precisams tratar dum assunto.
Pai e filhas obedeceram.
- Ento - perguntou Bibiana, que continuava sentada  cabeceira da mesa - quando  que. resolvem se mudar. pro Sobrado?
Por um instante Florncio" ficou mudo. Depois, sem olhar para a tia, murmurou
- Eu j lhe disse mais duma vez que noo acho direito.
- O que np  direito  roubar, matar, pregr mentiras, tirar a mulher d prximo. -
- Se a senhora quer a minha opinio, titia - interveio Maria Valria - eu estou com o. papai. No fica dirito.
- Ningum pediu a sua opinio.
- Mas eu dei.
- Que  isso, minha filha? - repreendeu-a Florncio suavemente.
Bibiana mirou a moa sem rancor. _Por mais que Maria Valria s vezes a imtasse, no podia deixar. de adurir-la. Gostava de gente franca  despachada.        "
- Pois  - prosseguiu a velha tranqilamente. - Esta casa  gnnde que. nem potreiro e no entanto vive a bem dizer vazia. Vassuncs moram naquel cohicholo velho, 
mido, sem vidraas nas janelas, tod cheio de goteiras. E pagam um despropsito de aluguel. Isso  que no  direito.
,Florncio sacudia negativamente a cabea, chupando o cigarro com nm certo constrangimento,-pois ainda noo se habituara a fumar diante da tia.
- Tudo isso est bem - concordou. - Mas  que podem dizer que estamos vivendo  custa da senhora e do Cargo.
- Pis que digam. No  verdade. - Olhou para Alice e sorriu. - O seu caso j est resolvido, no , minha filha? - Pscon-lhe o olho, fazendo um sinal de cabea 
na direo de Florncio e de Maria Valria. - Deixe esses dois velhos cabeudos morando sozinhos naquela baica. Um dia eles ho de se entregar, no ?
Ergueu-se, dizendo
- Est bom. l~gora podem ir.
Florncio beijou a mo da velha e saiu a manquejar na direo d= porta da rua. ,
#6O6        O CONTINENTE
Alice beijou a tia em ambas as faces, ms Maria Valria limitou-se a apertar-lhe a ponta dos dedos. Quando, acompanhadas do pai, as moas j estavam no vestbulo, 
Bibiana gritou-lhes:
- Venham logo que anoitecer! Quero que me ajudem a receber os convidados.
Ficou parada junto da mesa, pensando... Ouvia a batida da porta que se fechava. Sabia que queria uma coisa mas noo se lembrava do que era. Por alguns segundos teve 
uma sensao estonteante de vazio na cabea. De repente, lembrou-se.
- Lindia! - gritou. E quando a negra apareceu, ela pediu- -~ O jornal.
A escrava trouxe-lhe o ltimo nmero de O Democrata, que Bibiana ps debaixo do brao, e depois, em passos lentos, dirigiu-se para a escada e comeou a subir devagarinho, 
pensando em como ia arranjar-se quando estivesse velha demais para galgar aqueles degraus. Havia trs solues. Ficava l em ima e no desci mais; mudava-se para 
o andar de baixo e nunca mais subia; on ento pediria que dois negros. a carregassem no colo, sempre que precisasse subir. Mas nenhuma das trs solues prestava! 
O melhor mesmo talvez fosse morrer. Assim ficava estendida dentro do caixo, quieta, debaixo da terra; no tinha de subir nenhuma escada e no incomodava mais ningum... 
Prnt!
6
Pouco antes das quatro , da tarde, com o charuto preso entre os dentes, Torbio Rezende irrompeu dramaticamente Sobrado. adentro, todo metido nas -suas vestes vermelhas 
de mouro, ,pregando um susto  escrava que lhe veio abrir a porta. Galgou "em dois pelos os degraus do vestbulo e, arrancando a espada, precipitou-se para o andar 
superior e fez algo que no teria a coragem de fazer em condies normais, isto , se aquele fosse nm dia como os ostros e ele envergasse sua roupa preta. domngaeira 
e tivesse o pescoo entalado num colarinho duro: entrou no quarto de Licurgo sem bater. Abriu a porta num repelo e, erguendo a espada, bradou:
- Al! Al! Al! Sangue! Quero muito sangre!
Estacou  frente do amigo que, tambm metido nas soas roupas de mouro, se encontrava sentado na cama, numa atitude de profundo desnimo. Torbio baixou a mo -que 
segurava a espada, franzia a testa e perguntou:
- Mas que cara  essa, homem?
Curgo ergues para ele dois olhos infelizes: - Que horas acro?
Torbio no respondeu de imediato. Um pouco ofegante da
ISMLIA CARA        6O7

corrida, tratava de meter a arma na bainha, o que fez com alguma dificuldade. Depois, encarando o companheiro, disse:
- Quase quatro. Mas que foi que houve?
Curgo levantou-se lentamente. Naquelas roupagens berrantes, com o turbante de veludo na cabea, parecia ainda mais alto e corpulento do que realmente era. Estava 
de blusa e bombachas de cetim vermelho, botas de couro negro, muito lustrosas, e esporas de prata.
Preso ao turbante luzia um crescente de lata ; e do lado esquerdo da blusa, como a indicar ao inimigo o corao do guerreiro, via-se outra meia-lua ainda maior, 
bordada com fio- de prata.
A mo de Curgo crispava-se, nervosa, sobre o cabo do alfanje (de madeira, feito pelo Tuta Marceneiro) que pendia do cinturo de couro juntamente com o revlver de 
cabo de madreprola.
- Nunca pensei que ia ficar to esquisito com esti fantasia - resmungou ele, baixando os olhos. - Quando me olhei no espelho, cheguei a encabular .. .
- Ora, no seja bobo!
- Pois bobo  como me sinto, vestido deste jeito. No tenho coragem de sair pra rua.
Torbio cruzou os braos, puxou uma baforada e ficou a mirar o amigo com um olhar entre impaciente e irnico. No era de admirar que Licurgo sentisse aquilo - refletiu. 
Parecia ser nm trao dos Terras detestar tudo quanto fosse ostentao e atitude teatral. No gostavam de pessoas "semostradeiras" : eram homens secos, prosaicos 
e reservados, que viviam por assim dizer em surdina, procurando noo chamar sobre si mesmos a ateno dos demais. Licurgo at que no era dos piores. Florncio, esse 
sim, levava aquelas manias ao extremo.
- Estou que nem um palhao ... E dizer que tenho de montr a cavalo e me mostrar na frente de centenas de pessoas!
Tinha horror ao ridculo. Achava que a vida real era muito diferente da imitao dela que nos apresentam as novelas e as peas de teatro. Nunca tivera pacincia 
para ler um livro at o fim. Instado por Torbio, comeara a ler romances de autores famosos como Jos de Alencar e Bernardo Guimares; nunca, porm, chegara a passar 
da pgina cinqenta. Parecia-lhe uma infantilidade perder tempo com histrias de gente que nunca tinha existido de verdade e que, alm do mais, pensava, fazia e 
dizia coisas que uma pessoa s do juzo no pensa, no diz nem faz. De todos os romances que comeara nenhum lhe parecera mais absurdo que O Guacari. Onde se viu 
um bugre bronco como Per falar bonito e difcil como um advogado ou um deputado?
Travestido de mouro, Licurgo agora se senta improvvel e grotesco como uma personagem de romance. Vira muitas cavalhadas em sua vida. Apreciava a coisa como jogo, 
mas sempre re-
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cusara tomar parte nela por causa da "palhaada das roupas". Daquela- vez, porm, havia cedido ante a insistncia de Torbio e de outros amigos, e levado tambm 
pelo carter excepcional daqueles festejos.
- Pois eu gosto tanto desta fantasia e desta cor - confessou Torbio com veemncia - que se pudesse andava sempre vestido assim .. .
- Cada qual com o seu gosto, noo ?
- Bom, mas agora  tarde pra voltar atrs. Vamos embora. No te esqueas de que h mais dez sujeitos vestidos como ns. E mais doze de azul, com penachos na cabea.
Tomou do brao do amigo, procurando arrast-lo para fora do quarto.
- Depois, meu caro, lembra-te de que as cavalhadas so uma tradio desta provncia. Antes de ti teus avs andaram vestidos assim, e no me venhas dizer que s melhor 
e mais respeitvel que eles.
Curgo apanhou com relutncia a espada que pertencera ao av
- apresilhou-a  cinta. Soltou um suspiro e postou-se mais uma vez diante do espelho do lavatrio. O pior de tudo era aquele turbante feminino a coroar-lhe o rosto 
tostado, num ridculo contraste com a bigodeira preta. Parecia mesmo um turco. Imaginou a cara de certas pessoas de Santa F que deviam estar. presentes  festa. 
Viu-as cochichando e rindo  socapa quando ele passava. Teve gana de precipitar-se sobre elas e dar-lhes umas boas esgaldeiradas no lombo. Canalhas!
- Coragem, homem! - exclamou Torbio. - No  questo de coragem .. .
.Curgo olhava para a imagem do espelho como para um estranho,
- um estranho com quem no simpatizava nem um pouco. Fez meia volta e balbuciou
- No h outro remdio. Vamos.
Saram do quarto e desceram a escada, num tinir de espadas e esporas.
Encontraram Bibiana na sala de visitas, sentada numa cadeira de balano. Pararam na frente dela perfilados, como para uma revista. Torbio tirou respeitosamente 
o charuto da boca e escondeu-o no cncavo da mo. Na verdade a expresso de seu rosto equivalia a uma pergunta infantil: "Estou bonito?" Curgo, entretanto, tinha 
um aspecto taciturno: sentia-se como um menino que acaba de fazer nma travessura e espera a repreenso do pai. Por alguns segundos os dois quedaram-se n frente 
da velha, silenciosos
- expectantes. Bibiana olhou-os criticamente e depois, com um brilho de malcia nos olhos, disse:
- Parecem dois burlantins.
Curgo voltou a cabea para o amigo e vociferou: - Eu uo te disse?
ISMALIA CARA        6O9

Naquele momento a Banda de Santa Ceclia rompeu num dobrado. Em passadas largas; Curgo aproximou-se da janela e olhou para fora. Sob um cu sem nuvens, dum azul 
intenso, a praa cintilava ao sol, numa mobilidade colorida de calidoscpio. Soprava uma brisa fria, o ar estava leve e picante. Coladas a fios suspensos entre os 
postes da ilumnao e as rvores, esvoaavam bandeirinhas triangulares azuis, encarnadas, verdes, amarelas e brancas. Dos ramos da figueira grande pendiam guirlandas 
de~ flores artificiais. A luz reverberava nas fachadas brancas das casas, fazia chispar as vidraas
- os instrumentos da banda de msica - o que contribua para aumentar ainda mais a.claridade festiva da tarde.  frente da igreja erguia-se um coreto rstico, tambm 
enfeitado de bandeiras e flores,
- no qual j estavam acomodados o vigrio e as autoridades municipais com suas famlias. Ao longo dos quatro lados da arena retangular na qual se iam bater mouros 
e crstos, homens, mulheres e crianas, metidos quase todos em suas roupas domingueiras, achavam-se sentados em bancos ou cadeiras que haviam trazido de suas casas. 
O estandarte dos cristos tremulava ao vento, plantado  frente do palanque principal. O "castelo" dos mouros, tendo a uma de suas quinas a bandeira vermelha do 
crescente, no passava duma plataforma quadrada feita de pranchas de madeira que repousavam sobre pilares de tijolos,  frente da figueira grande.
O estrado onde os msicos se esfalfavam- a tocar o dobrado marcial, ficava no lado da arena que dava para o Sobrado.
Licurgo contemplou por alguns segundos o quadro alegre. Pombas voavam ao redor do campanrio da Matriz. O vento que agitva as bandeirinhas cheirava a campo. (Por 
que ser que a Ismlia ainda no chegou?)
A senhora no vai  festa? - perguntou Torbio.
- Vou assistir  coisa aqui da janela. As meninas do Florncio tambm vm pra c.  melhor do que ficarem naquele amontoame_ nto, tomando sol na cabea.
Torbio tocou o ombro do companheiro.
- Vamos embora!
Curgo voltou-se e respondeu:
- Vamos, antes que eu me arrependa. A bno! - pediu, beijando a mo da av.
- Deus te abenoe. E tenham juzo. No faam nenhuma loucura. Olhem que isso  um brinquedo e noo uma guerra de verdade.
Quando viu Licurgo afastar-se, de espada e pistola  cinta, Bibiana Terra Cambar teve um mau pressentimento. Lembrou-se da hora em que, havia quarenta e oito anos, 
dissera adeus ao marido que ia atacar o casaro dos Amarais... ("Me frita uma lingia que eu j volto, prenda minha!") Em sua mente a imagem de
#61O        O CONTINENTE
Rodrigo fundiu-se com a de Bolvar, que atravessava a rua de pistola na mo, gritando como um possesso .. . - Licurgo! - exclamou ela.
O rapaz estacou e fez meia volta.
Naquele momento Bibiana teve a impresso de que o neto era uma mistura de Pedro Terra, do Cap. Rodrigo e de Bolivar. Trs homens num s e esse um agora tambm ia 
para a guerra. Era nma guerra de brinquedo, sim, mas nela entravam homens, armas, cavalos e perigos. Tudo podia acontecer. Cambar macho no morre na cama. Ela no 
podia. esquecer aquele ditado do capito .. . Curgo era Cambar e macho. Uma rodada ... Um pontao de lana que algum lhe desse sem querer ... ou de propsito, 
porque um Amaral  capaz de tudo .. .
- Que , v?
- Nada. V com Deus:
Licurgo se foi. Bibiana ficou a ouvir dentro_ da cabea o eco de suas prprias palavras. V com Deus. Era sempre o que as mulheres diziam quando seus homens partiam 
para a guerra. V com Deus. Eles iam com Deus. Uns voltavam inteiros. Outros voltavam estropiados, como o pobre d Florncio. Outros no voltavam mais, nunca mais, 
como o Fandango Segundo. Adiantava algema coisa dizer - V com Deus? Deus, me perdoe.. .
Ficou onde estava, sofrendo no apenas aquele momento, mas os muitos outros momentos negros do passado em que dissera adeus a entes queridos que partiam para a guerra, 
para longas viagens ou que saam daquela casa para o cemitrio dentro dum caixo.. .
Na rua ao sol, Licurgo teve a impresso de que as cores de suas vestes ficavam ainda mais berrantes. Sentia-se perturbado como se estivesse prestes a desfilar completamente 
nu pelo meio de todo aquele povo.
Os companheiros, os restantes dez mouros, estavam j montados em seus cavalos,  frente do Sobrado. Cinco deles eram membros do Clube Republicano; os outros cinco 
pertenciam aos Partidos Liberal e Conservador, pois a comisso organizadora das festas achara conveniente "misturar os rebanhos", a fim de evitar que as cavalhadas 
degenerassem em conflito poltico.
Ao ver aqueles homens tambm vestidos de vermelho, alguns at com enfeites de vidrilho no turbante, Licurgo ficou um pouco mais consolado.
Levaram algum tempo para fazer o Dr. Torbio montar. Alm de ser mau cavaleiro, o homem tinha as pernas curtas, e o espadago que trazia  cinta embaraava-lhe os 
movimentos. Dois companheiros seguraram-lhe as pernas e ergueram-no para a sela, trocando sorrisos maliciosos, pois para aqueles gachos nenhum homem era
ISMALIA CARA        611

digno desse nome se no fosse bom cavaleiro. Curgo achava qne teria sido melhor se Torbio houvesse desistido de tomar parte nas cavalhadas: estava farto de qne 
o amigo ia fazer papel ridculo, e isso o deixava inquieto.
Uma batida de bombo, qne ecoou na praa como um tiro de mortiro, ps fim ao dobrado, o que noo impediu que a pistonista, distrado, soltasse ainda duas- notas, 
que subiram desgarradas no ar, provocando risos entre  pblico.
O-sino da igreja deu trs lentas badaladas. Era o sinal convencionado para comear o torneio.
Licurgo gritou
- Vamos embora, minha gente!
Pondo os cavalos_ a trote, os mouros dirigirarrl-se para o lado do quadriltero que dava para a igreja, pois era por l que deviam entrar_ na arena. Com a mo esquerda 
segurando as rdeas e com a dir~Yta .empenhando a lana,. Licurgo .abria a marcha. Sentia no rosto uri caloro de vergonha, o suor comeava a brotar-lhe da testa 
e seus olhos estavam meio ofnsc~dos. (Quem ~sera o "gracioso" que da janela duma das casas, l do outro lado da praa, estava focando nele o reflexo cegante dum 
espelho? Cachorro 1 S a bala 1) Curgo no distinguia as pEssoas com clareza: via manchas, vultos, faces mveis mas sem fisionomia ... Passando pela frente do palanque 
principal, vislumbrou a~silhneta negra do padre. Mantinha a cabea ergnd, os olhos,  altura dos telhados das casas fronteiras. Comearam os aplausos, primeiro 
tmidos, depois mais fortes e coesos. A banda atacou um novo dobrado: Cavalaria Farroupilha, da antoris do Jota Paz, o trombonista. Aos compassos vibrantes da msica 
Curgo teve, mau grado seu, um estremecimento de entusiasmo, nma espcie de exaltao patritica que lhe deu um frentico desej de ao guerreira e herica. Procurou 
dominar esses sentimentos, que iam to bem com suas roupagens mouriscas e que lhe pareceram to espalhafatosos e absurdos quanto elas. Bobagem! Aquilo no passava 
duma festa, dum jogo: noo havia razo para tais entusiasmos. Mas aquele dibo de msica sugeria-lhe mesmo ama erga dos cavalarianos de Bento Gonalves. E ele tinha 
na cintura a espada do Cap. Rodrigo: aquela arma na verdade tomara parte na Guerra dos Farrapos! Licurgo apertou com fora a haste da lana. Devia ser bom a gente 
entrar numa carga de lanceiros, rachar nm quadrado inimigo.. .
Esporeou o animal, que transformou o trote num galope: os outros cavaleiros mouros o imitaram e assim, sob gritos e aplausos.
#612        O CONTINENTE _
chegaram ao seu "castelo", diante do qual se dispuseram numa fila singela.
- Que espetculo! - exclamou Torbio.
- E que dia ! - comentou o homem que estava a seu lado. - Parece que foi feito de encomenda. Um cu azul e limpito!
- E bem frescote - observou outro cavaleiro mouro.
Corgo permanecia silencioso. Um suor frio escorria-lhe pelo rosto, que ele escanhoara havia menos duma hora. Seu peito arfava ao ritmo duma respirao comovida, 
e sua mo apertava ainda com apaixonada fora a haste da lana. Olhou. para o Sobrado e viu a av, a noiva e Maria Valria debruadas  janela. Desviou o olhar de 
sua casa, demorou-o um instante no palanque principal e depois passeou-o em torno da arena. Via agora os bonifrates que se alinhavam nos dois lados mais longos do 
quadrilter, com sus caras grotescas e suas cabeas descomunais de pano. Licurgo contou-os: havia dez "guerreiros" de cada lado.
- L vm os crstos! - exclamou algum.
O que Licurgo viu a princpio por trs das rvores da-praa foi uma mancha azulada e mvel, picada de rebrilhos. Finalmente Alvarino Amaral, de penacho ao vento, 
entrou na arena  frente de seu. grupo, montado num belo alazo muito bem aperado. Os cristos postaram-se  frente da igreja. Envergavam blusas e bom= bachas dum 
azul claro, uma capa curta atirada sbre o ombro esquerdo e chapus tambm azuis de aba larga, dobrada e costurada a copa, e enamados por penachos brancos. Curgo 
agora observava o garbo com que se apresentava Alvarino Amaral: seus arreios eram chapeados de ouro e no boal, no cbresto, no rabicho e nas rdeas luziam filigranas 
de prata.
- Palhao! - murmurou. O patife noo perdia ocasio de ostentar sua riqueza. A pratari do casaro dos Amarais era famosa peia abundncia e pela variedade. Prata 
roubada - diziam -.produto de pilhagens feitas em muitas guerras e em muitos lugares da Provncia e da Banda Oriental por vrias geraes de Amarais, a comear pelo 
famigerad Cel. Ricardo, tronco da famlia.
- Olhem s a faceirce daqueles fletes - exclamu um dos mouros.
Os cavalos dos cristos tinham as colas tranadas e amarradas
com fitas azuis e brancas. Para Licurgo todo aquele aparato era
vaga e repulsivamente- feminino. S por isso - "concluiu ele -
Alvarino merecia levar uns pranchaos de espda nas paletas.
- Moada linda ! - exclamou um dos mouros. - E bem montada! - elogiou outro. Corgo voltou-se para os companheiros:
Preparem-se. Quando derem o sinal, vamos comear as evolu
es de picaria.
Algum se ps de p no palanque das autoridades. Era o juiz
ISMALIA CARE        613

de direito. Ergueu para o cu uma pistola, e disparou-a: a arma cuspiu fogo e seu estampido sco ecoou atrs da igreja. Era o sinal.
- Vamos embora! - exclamou Licurgo. - Primeiro a um de fundo.
Seguindo seu "mantenedor-", os mouros fizeram a volt da arena a galope, ~ soltando gritos de guerra e brandindo as lanas. Depois, prendendo ests ao aro da sel, 
desembainharam as espadas e simularam um carga contra os cristos, fazendo estacar dramaticamente os animais a poRcos metros das fileiras inimigas. Estrugiram palmas. 
A banda de msica interrompeu o. dobrado e comeou a tocar uma valsa, cuja melodia era familiar a Licurgo. Chamava-se Saudades do Reno e tinha sido composta por 
um colono de Nova Pomerana. Olhou para Torbio e viu-o agarrado  cabea do lombilho, ofegante e suado. Em todas as evolues ficara sempre para trs, provocando 
risos:da assistncia, de onde algum j lhe gritara: "Socando canjica, miservel!"
Os mouros formaram uma circunferncia e puseram os cavalos a andar a passo, ao ritmo da msica.. Quando j tinham feito um bom- nmero de evolues e figuras, Licurgo 
ordenou:
- Agora, a toda a brida pro castelo l
Os mouros precipitaram-se na direo de sua bandeira a todo Ogalope, gritando fino - hip-hip-hip-hip! Torbio. foi o ltimo a chegar. Curgo lanou-lhe um olhar 
rancoroso, mas o advogado como nica resposta -lhe sorriu candidamente.
Pouc antes. de os cristos omearem suas evolues, ergueu-se da assistncia um ah! de admirao. Cabeas voltaram-se na direo da fortaleza dos infiis. Surgia 
de trs da figueira, montada em belo cavalo branco, uma donzela de cabelos louros soltos ao vento e com o rosto escondido sob uma mscara de pano preto. Donzela? 
Tdos logo perceberam que se tratava, como de costume, dum homem vestido de mulher. Era Floripa, a princesa crist que os mouros mantinham prisioneira em seu castelo, 
e que os cristos em breve iriam libertar. Mas quem era que estava fantasiado de Floripa? - perguntavam-se os espectadores. Ningum precia saber ao certo. Alguns 
davam palpites .. .
Um dos mouros aproximou seu cavalo do de Floripa e perguntou:
- Como  moa, vamos ou no vamos dormir juntos esta noite?
A "princesa", porm, permanecia silenciosa. Seu vestido branco, batido pelo sol, era tambm um foco de , luz. Pela abertura da mscara viam-se dois olhos escuros 
meio assustados.
- Como vai a coisa? - perguntou-lhe Torbio.
A resposta veio numa voz grossa e aflita:
- Puxa! Estou com falta de ar.
#614        O CONTINENTE

- No h de ser nada - replicou Corgo. - Os monargnistas, digo, os cristos j vm a e a folia acaba logo. Pacincis.
Do pblico partiam risadas, gritos e dichotes dirigidos a Floripa. A banda prosseguia na valsa lenta e o contrabaixo fazia nm-pa-pa.. . nnn-pa-pa ... Os cristos 
comearam soas evolues. Estavam magnificamente ensaiados, e nos seus cavalos-bem aneados e faceiros, "fizeram mais vista" que os mouros, como disse o Dr: Tonio. 
Alvarino comandava-os com o garbo dum gro-senhor. Ao passo pela frente dos adversrios fez nm floreio cavalheiresco com a espada nua e sorriu, mostrando o canino 
de ouro qne lhe cintilou sob oa bigodes negros, lustrosos de cosmtico.
- Filho da me? - resmungou Corgo.
No centro da arena os cristos agora erguiam para o ar sena bacamartes e disparavam. O tiroteio deu a impresso de . qne a praa era uma enorme panela onde pipocas 
gigantscas estivessem a estourar. A assistncia rompeu em aplausos entusisticos.
- O velho sentimentalismo popular - comentou Totbio a Licurgo. - O povo est sempre- do lado da justia e do bem, contra  crime e o mal, sempre do lado dos anjos 
contra os dem& nios. E natural que nesta oia o corao da turbamulta bata de amor pelos cristos e de dio pelos mouros. Amigo Corgo, no podemos contar.com a simpatia 
da assistncia. O remdio  batizarmo-nos, trocando o .crescente. pela cruz de Cristo.
Em obedincia s regras do jogo, Corgo mandou aos cristos o seu emissrio, o Veiguinha, filho do proprietrio da Casa Sol. O rapaz aproximou~se a galope do reduto 
cristo e bradou ao comandante inimigo que veio a seu encontro:
O mui alto e poderoso rei da 16laurit~ia, Senhor do meio sol e da meia lua, lGlandou-me c  presena tua Impor-te com a maior severidade, Qual , e qual deve ser 
sua vontade!
Declamou os outras versos a plenos pulmes, mas -sua voz. abafada pela msica, principalmente pelos roncos do contralxiizo, no chegava at a assistncia.
Quando Veiguinha terminou, Alvarino Amaral deu-lhe a sw resposta altiva : os cristos no se renderiam aos moncos. maa lutariam at a vitria final e a libertao 
de Floripa. - E dedaron:
ISMALIA CARA        615
Veiguinha voltou, sob apupos, a seu castelo, para dar conta da misso ao chefe.
A batalha comeou. A um sinal partido do palanque, ambos os grupos precipitaram-se a toda. a brida um contra o outro, em fila simples, gritando como selvagens e 
brandindo nd ar suas armas. No centro da arena fizeram os cavalos estacar, quase peito contra peito, e teraram lanas, por alguns segundos. Licurgo viu-se a "lutai 
" contra um membro do Clube Republicano. No trocaram palavras nem sorrisos: estavam demasiadamente compenetrados de seus papispara se lembrarem de que eram correligionrios. 
e amigos.
Depois de rpida escaramua, ambos os grupos voltaram para seus lugares. No dos mouros, Floripa esperava, sentada agora pacientemente numa cadeira, no centro do 
estrado.
Estava combinado que um cavaleiro crist iniciaria os torneios individuais. Alvarino Amaral esporeou o cavalo e, de lana em riste, saiu a alvejar os bonifrates. 
A cada "homem" que derrubava, a multido aplaudia com gritos e palmas. Depois de percorrer o lado direito, Alvarino voltou pelo esquerdo, fazendo tombar ao todo 
quinze bonecos. Quando o comandante cristo tornou a seu lugar; Licurgo saiu a lancear aodadamente os bonifrates, como se todos eles fossem membros da fmlia Amaral.. 
Sua fria era to grande e perturbadora, e ele precipitara o cavalo a tamanha velocidade que. errou os primeiros cinco golpes - o que provocou gargalhadas na multido. 
Cada vez mais enfurecido, Corgo continuou a carregar: acertou num, depois noutro e assim foi at o fim, deitando por terra os bonecos restantes sendo que trespassou 
a cabea do ltimo com a lana e ergueu-o dramaticamente no ar. A assistncia prorrompeu em grandes aplausos. A banda de msica tocava um galope. Jfegante, o rosto 
lustroso, o suor a entrar-lhe incomodamente nos olhos, Corgo voltou para junto dos seus homens. Os bonecos foram de novo postos de p e o torneio prosseguiu, enquanto 
no palanque o Dr. Winter e o juiz de direito, munidos de lpis e papel, tomavam nota do nmero de pontos feitos pelos membros de cada grupo. Quando chegou a vez 
de Torbo, o baiano ficou onde estava, todo encolhido e de olhos baixos em cima do cavalo, pois sabia que para andar a galope teria de agarrar-se na cabea do lombilho, 
o que lhe tornaria impossvel manejar a lana. Da assistncia partiam gritos: "Que saia o baiano! Que saia o baiano!" Estouravam risadas. 1Vluito vermelho, o Dr. 
Rezende erguia a mo para o ar, fazendo que no com gestos frenticos. Indignado, Licurgo murmurava
- E bem te dizia, Torbio. Devias ter dado teu lugar pro Fandanguinho ou pra qualquer outro. Ests nos fazendo passar uma vergonha danada.
- No seja bobo - replicou o advogado. - A vergonha  minha. Olha s pra minha cara. Estou tranqilo, hein?
Um s de meus guerreiros bastaria
Para dar cabo de toda a mouraria. Volta e vai tuas hostes preparar
Que dentro em pouco hei de vencer e batizar.
#616        O CONTINENTE

Naquele momento ouviu-se um tropel e um cavaleiro surgiu de trs da figueira. O mascarado! - gritaram vozes. Era costume nas cavalhadas haver um palhao, um cavaleiro 
mascarado que fazia evolues humorsticas para divertir a assistncia nos intervalos entre os torneios. Tinha, porm, ficado resolvido pela comisso organizadora 
da festa que noo haveria nenhum mascarado naquela cavalhada. Quem era, pois, o recm-chegado?
- pblico rompeu a rir. A banda parou de repente de tocar e os msicos ficaram olhando a sorrir para o mascarado, que vestia um macaco amarelo, e tinha na cabea 
o velho chapu de chamin que pertencera ao Dr. Winter; seu rosto. estava. escondido por trs duma grotesca mscara de papelo. O mascarado desembainhou a espada, 
aproximou-se do palanque principal e fez uma continncia.
O juiz de direito ergueu-se e perguntou:
- Quem sois?
-        desconhecido no respondeu. Um dos cristos acercou-se dele e disse:
- V tirando a mscara, moo .. .
Sem pronunciar palavra, o homem de amarelo bateu com a espada na lana do outro, numa provocao. Por alguns instantes ficaiam a terar armas, sob as risadas- dos 
espectadores. O mascrado soltava gritinhos - hi-hi-h-hi - e num dado momento deu de rdeas, fez o .ginete sair a todo o galope, e; perlongando o quadriltero, 
comeou a golpear os bonifrates. Com uma felicidade e uma destreza raras, foi-lhes decepando as cabeas uma por uma, errando apenas cinco golpes. Por fim, com um 
"crnio" espetado na ponta da espada, sofrenou o cavalo diante dos juzes, sob grandes aplausos. O Pe. Romano ps-se de p e sua larga cara rosada lziu risonha 
ao sol.
- Convido o meu belo amigo a tirar a mscara! - disse ele de maneira aliciante.
De vrios pontos da praa partiram gritos: "Tira a mscara! Tira a mscara!"
- mascarado saltou do cavalo para o cho, jogou para o ar a cabea do boneco, embainhou a espada e, voltando-se para o estrado da banda, pediu
- Msica, moada!
-        Dr. Wnter julgou reconhecer a voz ... Mas seria mesmo quem ele suspeitava? No. Impossvel.
A banda comeou a tocar uma polca e, quando o homem de amarelo arrancou a mscara, as pessoas mais prximas exclamaram em unssono
- O Fandango!
- clamor da multido aumentou. Explodiram gargalhadas e palmas, que se misturaram no ar com a melodia saltitante da polca. E ali na frente do palanque, os olhinhos 
vivos e travessos postos
ISMLIA CARA        617

nos juzes, a barbicha branca esvoaando  brisa da tarde, Jos Fandango sorria, de braos abertos .. .
A novidade chegou aos ouvidos de Curgo.
- O homem tirou o disfarce - contaram-lhe. - ~ o Fandango.
- Velho desfrutvel! - exclamou ele, entre zangado e enternecido. - Vestido de amarelo, como um palhao de circo de cavalinhos! E nem me contou que ia fazer isso, 
o ingrato!
Outro mouro comentou;
- Mas viram que destreza tem o diabo do velhote?
- Est com mais de setenta no lombo, rnnha gente. Isso  que , resistncia.
- O Dr. Torbio devia at- ficar envergonhado.
-        baiano limitou-se a resmungar:
- No me amolem.
-        Pe. Romano desceu do palanque para ir apertar a mo do capataz.
- Venha sentar-se consco, Sr. Fandango - convidou. Vassunc  o heri do dia.
Fandango deu o brao ao padre e caminhou com ele para o estrado das autoridades.
A notcia do inesperado acontecimento chegara j  janela do Sobrado. Bibiana disse s sobrinhas:
- Esse velho assanhado ainda vai acabar morrendo numa dessas travessuras.
Fingia zanga, mas no fundo estava orgulhosa.. Fandango era "gente do Sobrado" e acabara de dar quele povo uma demonstrao do quanto os antigos eram melhores que 
os "moos de hoje em dia".
Alice e 1V~aria Valria assistiam com interesse ao espetculo. A primeira perguntou:
- E agora, tlia?
- Agora - respondeu Bibiana - os cristos vo salvar a Floripa.
Na praa o povo preparava-se para o momento culminante da guerra. Ouviu-se uma clarinada. Era o sinal convencionado para a carga final. Os mouros desceram de seus 
cavalos, amarraram-nos ao tronco da figueira e depois vieram entrincheirar-se  frente de sua fortaleza, de espingardas em punho, enquanto Floripa, sempre sentada 
na sua cadeira, pernas e braos cruzados, esperava pachorrenta. Alvarino Amaral ergueu a espada e gritou: "Avante!" Soltando gritos de guerra, os cristos se atiraram 
ao ataque a todo o galope. Batido pelas patas dos doze animais, o cho soava como um grande tambor surdo.
- Fogo! - bradou Curgo. Seus homem dispararam as espingardas quase ao mesmo tempo. Os cristos fizeram alto subita-
#618        O CONTINENTE
mente e simularam uma retirada em desordem. Um dos mouros, nam gesto absolutamente fora do programa, apanhou a bandeira vermelha que estava plantada a uma das gnnas 
do "castelo", e comeou a agit-la no at, gritando: "J se entropigaitaram os cristos!" Soltou uma gargalhada rascante, que foi abafada pelo rudo dos aplausos.
Voltaram os cavaleiros da cruz ao ataque e, apeando dos cavalos, lanaram-se contra o forte mouro de espadas desembainhadas. Os infiis tambm arrancaram as espadas 
e o entrevero comeou. Retinindo e lampejando, ferros chocaram-se no ar. A banda tocava um galope frentico em que o contrabaixo resfolgava como um homem gordo  
cadncia duma respirao de susto. Os guerreiros vociferavam blasfmias. Licurgo defrontou-se com o coletor estadual, mas com o rabo dos olhos viu Alvarno Amaral, 
que sorria mostrando o canino de ouro. (Que cara boa pra uma bofetada") A princpio mouros e cristos teraram armas, cada grupo formado numa fila simples mais ou 
menos regular, mas depois de meio minuto de luta a formao foi quebrada, os mouros saltaram do estrado para o cho e o entrevero ento foi completo. Os contendores 
trocavam gravatas:
- Olha que te degolo!
- L vai ferro!
- J te capo!
- Te defende!
- Toma esta que a tia Chica te mandou!
O pblico, exaltado, aplaudia sempre. Muitos daqueles homens
que ali estavam sentados tinham tomado parte em revolues e
guerras. Quando sentiam cheiro de plvora ou ouviam o tinir de
arma branca, ficavam excitados. Um velho magro, que se achava
acocorado nas proximidades do forte mouro, picando fumo com
sua faca de cabo de osso, gritou para os vizinhos:
- Como , moada, vamos tambm entrar no barulho? Um homem de barba cerrada e chapu de palha exclamou - Sai, velhote! Tu nem pode mais com as calas... O velho 
voltou-se para ele, fulo, e vociferou: - Eu te mostro, cachorro!
E atirou-se contra o outro de faca em riste. "Que  isso, sen Pires?" - gritaram. O velho foi agarrado e levado  fora para seu lugar, enquanto o homem de chapu 
de palha desculpava-se, com nm sorriso amarelo:
- Estou brincando, amigo. Ento no se pode nem caoar?
O velho ofegava; lanando para o outro um olhar torvo.
As atenes tornaram a voltar-se para o torneio. Um cristio naquele momento saltava para dentro do "castel ", arrebatava Florpa, montava no seu corcel, iava a 
princesa para a garupa e saa a galopar na direo de seu reduto, sob aplausos gerais. Flo
ISMI~LIA CARr        619

ripa fora libertada! Mas. agora o pblico queria ver a cara da "princesa". "Tira a mscara!" - gritavam. O cavaleiro que salvara Floripa f-la descer do ginete. 
Alguns espectadores no se contiveram: invadiram a arena e ali mesmo, -abaixo de gritos e risadas, arrancaram-lhe primeiro a mscara e depois as roupas. "E o Liroca!" 
- exclamaram. "O Liroca!" - "1VIe larguem!" - gritava Jos Lrio, quase chorando de rva. - "Me larguem, miserveis!"
Os outros continuavam a despi-lo sem piedade, e iam agitando no ar as vestes da "donzela", enquanto Liroca se debatia, todo confuso, em mangas de camisa, com as 
bombaehas arregaadas at os joelhos, mostrando as pernas cabeludas, e tendo ainda na cabea a cabeleira loura de mulher, num, contraste com o rosto msculo onde 
azulava a barba de dois dias. Por um instante ficou sem sader que fazer, mas de repente, arrancando e atirando longe a cabeleira, deitou a correr na direo da igreja..
As atenes, que se haviam desviado -da luta para a cena cmica. focaram-se de novo - no entrevero.
- Que  aquil? - perguntou o juiz de direito. - Dois hmens ainda lutando?
Estava combinado que quando libertassem Florpa, os mouros se renderiam.
Algum gritou:
-  o Curgo e o Alvarino se duelndo .. .
O Dr. Winter ergueu-se num salto.
- Ai-ai-ai - fez ele, voltando-se para o padre. - 1~ bom irmos at l.
Saltou do palanque e saiu a caminhar apressado, com o charutinho apertado nos dentes,. uma das mos segurando a bengala e a outra a aba do chapu para que ele no 
lhe voasse da cabea. O padre seguiu-o, em passadas largas, fungando. O pblico comeou a invadir a arena. "Abram cancha!" - gritavam. "Abram cancha!" Pel meio 
da multido desordenada Flornco Terra tambm corria, arrastando a perna, apalpando j o cabo do punhal, com uma expresso belicosa no rosto. Juvenal seguia-o de 
perto, gritando: "Chegou a hora! Chegou a hora!"
Tinham formado um crculo cmpacto em torno dos homens que se batiam.
- Eu te mostro, cachorro! - gritou Alvarino.
- Temos contas a ajustar, ladro! - replicou Curgo.
E atiravam-se como feras um contra o outro. Ouviam-se exclamaes desencontradas na multido. "Apartem!" "No se metam!" "Mas vo se matar!" "Que se matem!" "Barbaridade!" 
"Olha o padre!" "Abram cancha!"
Com as caras contorcidas de dio e reluzentes de suor, os dentes  mostra, a respirao ofegante quase transformada numa estertpr de fera malferida,- os dois inimigos 
batiam ferros, avanavam e
#62O        O CONTINENTE
ISMALIA CARi~        621
recuavam, brandindo as espadas. Licurgo tinha na~ testa um ferimento de onde o sangue brotava, escorrendo-lhe pelo rosto e entrando-lhe pelos olhos e pela boca. 
O peitilho azul da blusa de Alvarino Amaral estava tambm empapado de sangue.
-        Pe. Romano conseguiu abrir caminho e penetrar na pequena clareira onde os homens duelavam.
- Parem, pelo amor de Dusl - suplicou o vigrio, erguendo os braos. E por breves segundos seu vozeiro dramtico dominou todos os outros rudos. O duelo, porm, 
continuava com a mesma ferocidade. Alvarino, muito plido, apertava o peito com a mo esquerda, como a procurar a ferida, e o sangue j comeava a escorrer-lhe por 
entre os dedos. Licurgo tinha o olho esquerdo. completamente vermelho e sua respirao era to forte que ao expelir o ar ele produzia -um chuvisqueiro de saliva 
misturada com sangue..
- ,padre teve um instante de hesitao, mas a seguir, bailando a cabea e estendendo os braos para a frente, investiu como um touro e, procurando evitar o nvel 
m que as espadas se chocavam, meteu-se entre os adversrios. Houve da parte destes um instante de perplexidade e indeciso, do qual se aproveitaram, o Dr..Winter, 
Torbio, Juvenal. e outros homens, que seguraram poderosamente os duelistas pelos ombros e pelos braos, imobilizando-os.
- Me larguem I - cuspinhava Licurgo, tentando libertar-se,
- com a espada ainda na mo. Alvarino, porm, j noo opunha aos apertadores a menor resistnda. Deixou cair a arma ao solo e, muito plido, ora olhava para a mo 
ensangentada ora apalpava o peito, murmurando
- O canalha me feriu! O canalha me feriai Chamem um mdico I Chamem um mdico I
- padre andava dum lado para outro, tenUndo acalmar. os nimos. O Cel. Bento Amaral surgiu de repente, seguido do filho mais moo e d dois genros, todos de pistolas 
em punho, faanhudos
- ameaadores. Abriam caminho na multido e procaravam aproximar-se de Licurgo Ao v-los, Florindo e Juvenal amncaram tambm das pistolas e, acompanhados de Fandango, 
que tiah?~ na mo apenas sua faca de picar fumo, postaram-se defensivamente na frente de Licurgo.
- 1VIe larguem I - gritava este ltimo. - Por amor de Deus me larguem 1
Sen olho vermelho piscava repetidamente; seus dentes estavam tintos de sangue.
- Vamos ajustar contas com a cachomda do Sobrado) - gritou o velho Bento, arrastando os ps. A pistola tremia-lhe, na mo, e a deatriz que. tinha ao rosto esUva 
purprea contra a pde cor de palha.
O padre avanou alguns passos e barrou o caminho aos Amarais.
- Em nome de Indo quanto h de mais sagrado, noo avancem
nem um centmetro mais I
Naquele instante muitas das pessoas que haviam invadido a arena
comearam a correr .e a fugir, na expectativa dum tiroteio. Atrs
do padre, Florncio, Juvenal e fandango, sem tirar os olhos dos
Amarais, esperavam. Torbio dava pulos. e gritava
- At qne um dia o tumor veio a. furo)
- No estrague a parada, padre I -, pediu Licurgo. - M
soltem que era mostro pra essa corja)
O velho Bento quis fizer alguma coisa, mas a raiva roabou-lhe
a voz, seus lbios descorados moveram-se, flcidos, sob os bigodes
brancos, mas deles. saiu apenas um silvo.
Ao redor de Curgo estavam agora, reunidos muitos companheiros
do Clube Republicana
Alvarino foi carregado pelos amigos na direo ,de sua casa,
enquanto o Dr. Winter se esforava, mas em vo, para que Curgo
fosse tambm afastado daquele lugar. ,
- O covarde vai fugirI - gritou o mais moo dos Amarais. Florindo Terra bradou:
- Cala a bca, ordinrio)
O jovem Amaral deu dois passos  frente, apontou a pistola
para Florindo e, quando quis fazer fogo, o padre segurou-lhe a arma
com a mo direita, e erguem-a para o ar, enquanto com o brao
qne tinha livre enlaava fortemente a cintura do rapaz. Ficaram
assim por uns segunds como que a danar. O vigrio gritou
- Pelo amor de Nossa Senhora da Conceio, padroeira desta
vila I
Seu caro vermelho estava alagado de suor, suas narinas palpi
tavam, e havia em seus olhos, de ordinrio doces, um brilho belicoso.
Conseguiu finalmente tirar a pistoia das mos do outro, mas con
tiauon a enla~lo.
- Solta o meu filho senoo eu fao fogo ) - ameaou-o O
Cel. Bento.
`O Pe. Romano obedeceu. No se limitou, porm, a afrouxar o
abrao; afastou o moo com um repelo to forte que ele, tombou
. de costas.
- Padre - do diabo I - vociferou o velho Amaral. - En te
ensino a respeitar os superiores I
Avanou. com a pistola ergaida  altura do peito do vigrio,
qne se limitou a abrir os braos e dizer:
- Pois atire!
O velho hesitou. Fz-se um silndo sbito e nesse silndo se
ouviu a voz de Florindo:
- Vai morrer muita gente ... - disse ele com uma calma
dramtica na sua falta de dramatiddade.
Passavam-se os segundos. O padre continuava de braos abertos,
#622        O CONTINENTE
como que pregado a uma cruz invisvel. Por trs dele os amigos de Licurgo, de armas em punho, esperavam. Torbio repetia num automatismo nervoso:
- Saia fora, padre, porque a parada  nossal
Bento Amaral desceu o brao e meteu a pistola no coldre. Voltou-se para seus homens e disse, babando-se de mal contida raiva
- No vamos estragar a nossa festa so por causa desses republicanos mazorqueiros.
Voltou as costas para o padre e se foi, arrastando os ps na direo de sua casa, seguido de parentes, amigos e capangas. O padre baixou os braos e por alguns instantes 
ficou a seguir o grupo com
- olhar. Depois, voltando-se para os homens que estavam s suas costas, exclamou:
- Porca misria! Desta vez quase me arrebentam a alma. Comeou a enxugar o rosto com seu grande leno de alcobaa.
O Sobrado estava cheio de amigos, qne comentavam o incidente. " Em mangas de camisa e sentado numa cadeira na sala de visitas, Licurgo deixava que o Dr. Winter lhe 
pensasse o ferimento da testa. Era um talho longo mas noo muito profundo. Fora necessrio dar-lhe cinco pontos, que Curgo suportara sem gemer.
- Costure direito o menino - dissera-lhe Bibiana,. qne seguira
-        curativo de perto, sem desviar os olhos.
Curgo era um homem - pensava ela. Quem tivesse antes alguma dvida, agora a perdia, porque o rapaz noo soltara um ai. Estava .ali " com a camisa aberta, um pedao 
do peito cabeludo e forte  mostra : macho como o pai e o av.
- Pronto! - disse o Dr. Winter, terminando de amarrar um pano ao redor da cabea do ferido. E, com o prazer. de sempre, repetiu um ditado da Provncia: - "No h 
de ser nada: quando casar, sara."
Bibiana pensou na Alice, coitadinha, que estava l em cima deitada na cama, muito plida, tomando o ch de flha de laranjeira que Maria Valria lhe preparara.
- Canalhas! - murmurava Torbio, ainda vestido de mouro
-        sentado numa cadeira a tranar e destranar as pernas. Bibiana lanou-lhe um olhar frio:
- Pare quieto, doutor. Finalmente a coisa podia ter sido pior. Ningum morreu, que eu saiba.
Contava-se que Alvarino estava ferido no peito e havia perdido
muito sangue. O Cel. Bento, esse continuava a ameaar cus e terra. Curgo mirava suas bombachas vermlhas. - Preciso tirar estas roupas o quanto antes - disse. O 
Dr. Winter fechou a bolsa onde trouxera medicamentos e
instrumentos cirrgicos.
ISMLIA CARr        623

- Mas conte direito como comeou a coisa - pediu ele, acendendo um charutinho. - Ainda noo pude formar uma idia. Cada qual conta a histria a seu modo.
O Dr. Torbio pulou da cadeira
- Pois eu estava terando armas com o cachorro do Alvarino enquanto o Curgo, a meu lado, brigava com outro cristo. De repente ouvi o canalha gritar: "J te corto 
a cara, republicano patife!"
Curgo interrompeu o amigo para corrigi-lo:
- No, Torbio. Eu me lembro bem. O que ele disse foi "En te mostro, republicano sem-vergonha!"
- Pois ento foi isso - concgrdou Torbio. - Fiquei possesso e gritei .. .
Curgo de novo o interrompeu
- Quando ouvi isso, deixei o meu parceiro e ,respondi: "Monarquista ordinrio,  contigo mesmo que eu quero tirar uma diferena." E nos atracamos.
- E se noo fosse o Pe. Romano - concluiu Bibiana - vocs se matavam.
- Tinha sido melhor assim, v. A gente resolvia o assunto duma vez por todas.
- Qual! - exclamou o Dr. Winter, soltando uma baforada. - No diga asneiras. Vassuncs precisam mas  criar juzo
- acabar com essas rivalidades. No digo que fiquem amigos, mas ao menos parem de brigar. J que tm de viver na mesma cidade,  melhor que vivam em paz.
De dentes cerrados Curgo resmungou:
- Amaral, comigo., s na ponta da faca.
Naquele momento Fandango, que estivera a contar a "quest"  negrada da cozinha, apareceu  porta da sala de visitas, com as faces iluminadas por um sorriso.
Curgo dirigiu-lhe um olhar .enviesado:
- Velho gaiteiro! Como  que vassunc faz uma coisa dessas
-        nem avisa a gente antes?
Todos os olhares se voltaram para o capataz, que encolheu os ombros e respondeu
- U: Eu queria fazer uma surpresinha. - Deu alguns passos na direo de Bibiana. - Vassunc viu as minhas proezas?
A velha sacudiu afirmativamente a cabea:
- Vi. Parecia um palhao de circo.
Fandango meteu os polegares nas cavas do colete, entortou a cabea e filosofou
- O mundo  mesmo um circo, dona. Tem de tudo. Burlantins que viram cambota, equilibristas, os que fazem piruetas em riba dum cavalo, os palhaos. E quem nasce pra 
palhao, como eu, morre palhao e nunca endireita. - Neste ponto o Dr. Winter;
#624        O CONTINENTE

que observava o velho, julgou perceber-lhe no tom da voz uma pontinha de tristeza. (Ou estaria fantasiando?)
- Pois  - prosseguiu o capataz. - J pedi ao meu neto que quando eu morrer me botem no caixo com uma roupa bem bonita. Em vez de velrio, faam um baile no terreiro, 
com bons violeiros. E dan~_em a tirana-grande, o anu e a chmarrita em roda do meu corlio. veto que o enterro seja abaixo de gaita. E que seis motochas hem guapas 
carreguem o meu caixo.
~ Houve um curto silncio, ao cabo do qual Bibiana murmurou
- Velho assanhado.
E lanou para Fandango um olhar entre repreensivo e afetuoso.
8
Eram sete horas da noite e Jacob Geibel estava recostado a um poste,  esquina da praa, olhando para o Sobrado, cujas janelas do andar trreo se achavam iluminadas. 
Havia uma boa hora que o sacristo ali se- encontrav, falndo consigo mesmo e olhando os convidados qu tinham comeado a chegar logo depois das seis. Via com uma 
raiva surda os vultos .que se moviam por trs das vidraas que o. frio =embaciara. Fazia j algum tempo que algum discursava l dentro, e a voz. do orador chegava 
de vez em .quando, meio apagada, aos ouvidos do sacristo. Encolhido sob o poncho, com as abas do chapu de feltro puxadas sbre os olhos, Jacob Geibel contemplava 
o Sobrado com ressentimento. Havia ali fora, no meio da rua, grupos de curiosos que espiavam a festa. No outro lado da praa, o Pao 1~Iunicipal tinha .suas janelas 
tambm iluminadas, e l de dentro vinham os sons da banda de msica, que tocava uma valsa.. A noite estava estrelada e o ar parado e no muito frio:- De quando em 
quando um cachorro latia numa rua distante. Pr trs do Sobrado erguia-se o claro da grande fogueira de So Joo.
Deviam prender fogo naquela casa - soliloqueava o sacristo. Ele gostaria de ver aquelas fmeas sarem correndo e gritando l de dentro, com suas vestes em chamas. 
Seria muito bem-feito. Se morressem todos os convivas, no se perderia nada. E se o vigrio tambm ficasse carbonizado a coisa ento seria muito melhor.
Jacob Geibel tirou de baixo do poncho uma garrafa de cachaa, levou-a  boca e bebeu nm, gole largo. Depois lmbeu os beios e chupou os bigodes, ao mesmo tempo 
que lhe vinha  mente uma idia excitante: tirar toda a roupa e entrar nas salas do Sobrado para escandalizar aquelas mulheres com sua nudez ... Por alguns segundos 
o sacristo ficou a masturbar-se com essa idia.
A msic da valsa de vez em quando ficava mais forte, vinha
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como que em rajadas que o envolviam, e Jacob ps-se a pensar num baile da mocidade, em sua aldeia natal, havia mais de trinta nos .. . Viu-se atravessando o salo 
na direo duma rapariga: inclinou-se  frente dela, convidou-a para danar e a Frulein como nica resposta rompeu numa gargalhada. A vergonha daquele momento! 
Todo o mundo olhando e rindo. O cho pareceu faltar a seus passos quando, perturbado e vermelho, ele voltava a seu. lugar. Cadelinha! Agora Jacob Geibel tornava 
a sentir aquele caloro, aquele formi~ gueiro aflitivo a percorrer-lhe o corpo. Mas no era vergonha, no. Era a cachaa. Cadelas! Isso  que eram as mulheres. Cadelas! 
Todas inclusive sua me, que ele nunca conhecera, e que tivera a coragem de p-lo na roda. Ordinrias!
Sob o lampio de luz amarelada e tbia, o Barbadinho do Padre olhava para as janelas do Sobrado e imaginava-se a correr completamente nu pelo meio daquelas mulheres, 
que gritavam e tampavam os olhos com as mos. Naquele instante a voz do orador se fez mais forte e at aos ouvidos do sacristo chegaram estas palavras ... ancha 
negra da escravatura.
De costas para o grande espelho, na sala de visitas, metido no seu bem cortado crois preto, com uma prola a brilhar-lhe foscamente contra o fundo escuro do plastro, 
o Dr. Torbio Rezende enchia o ambiente com- sua voz metlica e vibrante. Fazia j vinte minutos que discursava, traar_do a histria da escravatura no mundo. Comeara 
por dissertar sobre a ndia, o pas das castas, em que os sudras constituam a classe inferior, cuja sina era submeter-se e servir. Passara depois pra o Egito, 
na descrio de cuja paisagem gastara prodigamente adjetivos, pedindo emprestado a Castro Alves duas estrofes, "duas jias lapidares sem par na literatura universal", 
e que na sua opinio melhor do que qualquer tela, que qualquer daguerretipo, descrevia o pas da esfinge e das pirmides:

L no solo onde o cardo apenas medra, Boceja a Esfinge colossal de pedra Fitando o morno cu.

De Tebas nas colunas derrocadas As cegonhas espiam debruadas
O horizonte sem fim.. .
Onde branqueja a caravana errante E o camelo montono, arquejante,
Que desce de Efraim.
Pois nessa terra que em tempos pretritos atingiu um grau de civilizao de que o mundo ainda hoje se assombra - prosseguira
#626        O CONTINENTE

O orador - os faras faziam guerras para se apoderarem de escravos, e o Rei Amenhotep - e Rezende repetiu o nome com certa volpia - o Rei Amenhotep chegara a mandar 
ao Sudo uma expedio com o fim exclusivo de caar negros para transform-los em servos!
Do Egito o Dr. Torbio transportou-se para a China, em que os primeiros escravos, segundo se calculava, haviam surgido durante a dinastia de Chow. Na ponta ,dos 
ps, Rezende atirava aquelas palavras como farpas contra as muitas dezenas de pessoas que o ouviam, em respeitoso silncio na sala do Sobrado. A dinastia de Chow! 
Ele arrasava aquela gente com sua erudio. Aquilo de certo modo lhe era uma compensao para as frustraes da tarde em que como cavalheiro fizera figura triste. 
Agora ele fazia evolues de picaria verbais, e nessa arte sabia noo ter rival em Santa F. Pronunciar, aqueles nomes de brmanes, faras, mandarins e reis; empregar 
com destreza e naturalidade os adjetivos mais raros, era o mesmo que. derrubar bonifrates a golpes de lana ou espada.
"Sim, meus senhores e minhas senhoras, na China da antiguidade, os prisioneiros de guerra, fosse qual fosse a cor de sua epiderme, eram transformados em escravos." 
E, sem tmar flego, Torbio Rezende saltara da China para a Babilnia - cuja descrio se prestara  maravilha para novos jogos florais de eloqncia - e entrara, 
quase sem flego, na histria dos hebreus, para depois chegar, com um sorriso nos lbios,  Grcia, "a gloriosa Hlade, a serena Hlade dos filsofos, dos sbios 
e dos artistas, e cujo grande vate, Homero, na sua Ilada, menciona Aquiles e Agamemnon como possuindo escravos em suas tendas ... "
Nas salas iluminadas pela luz de dezenas de velas e lampies a querosene, as damas estavam sentadas e os cavalheiros de p. Bibiana, vestida de preto, fitava no 
orador seus olhinhos galhofeiros, sacudindo a cabea a cada nome arrevesado de guerreiro, monarca ou filsofo que o baiano soltava no ar com sua voz cantante. Era 
um moo de fala engraada - achava ela. Dizia luiz e cruiz em vez de luz e cruz; e sabia que como revide o baiano troava dela quando a ouvia dizer rs e deps, 
em vez de ris e depois.
Sentado junto da dona da casa o Pe. Romano de quando em quando sacudia a cabea numa grave aprovao. E seus lbios se. abriram num sorriso feliz quando Torbio 
Rezende afirmou que com o advento do cristianismo a situao dos escravos melhorara. e as manumsses se fizeram mais freqentes. Entrando na Roma antiga o orador 
estudou a situao dos escravos  luz do Direito romano, e, avanando tempo em fora, com botas de sete lguas, passou dramaticamente sobre a Idade Mdia e - tropeando 
em instrumentos de tortura, chamuscando-se em fogueiras de auto-de-f - chegou com a testa rorejada de suor aos tempos modernos. Fez uma smula das conquistas do 
homem merc da Revoluo Francesa
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e depois traou a histria da escravatura no Brasil, desde o dia em que os primeiros escravos negros puseram. o p em terras de Santa Cruz at aquk momento, quela 
"j histrica" noite de 24 de junho de 1884, no Sobrado, em que por iniciativa do Clube Repablicano de Santa F mais de trinta escravos iam: receber -sua carta de 
manumisso.
Fez uma pausa para beber um gole de gua dum copo que estava s soas costas, sobre  consolo. Curgo olhou para a av e sorriu. A velha piscou-lhe o olho. Trepado 
numa cadeira, na sala de jantar, o velh Fandango "bombeava" o orador por cima das cabeas das pessoas que se comprimiam na sala. Do quintal vinha de quando em quando 
o murmrio das vozes dos escravos junto com o crepitar da fogueira.
Passado o leno de leve pelos lbios, Torbio Rezende tornou a encarar o auditrio.
- Senhoras e senhores - disse. -" Do significado desta noite, o Futuro e a Histria ho de dizer com uma elqncia muito maior que a de minhas pobres palavras!
- No apoiad! - aparteou o padre.
Enquanto_ o advogado discursava, Licurgo passeava os olhos em tomo - demorava-os um pouco na face de cada conviva, como- a escrutar as reaes de cada nm quele 
discurso- ao qual le prprio so prestava muita atenao. Era engraado - achava ele - ver barbeados e penteados,- de roupa . nova e escura, colarinho duro e botinas 
lustradas,. aqueles homens que ele estava habituado a ver diariamente de bombachas  botas, casaco de riscado ou ento metidos nos ponchos, com as barbas ,geralmente 
crescidas. Como as mulheres ficavam mais bonitas quando vestiam suas roupas domingueiras e faziam" penteados especiais! Com o canto dos olhos ele mirou por alguns 
instantes a noiva, que se achava sentada a seu lado. Seus cabelos negros e lustrosos de leo estavam puxados para cima, num penteado alto que lhe acentuava o oval 
do rosto. De suas orelhas pendiam brincos de pedras azuis na forma de losangos. Nnm contraste cm o vestido de gorgoro preto, muito rodado, a pele de Alice tinha 
uma tonalidade de marfim antigo. Licurgo achava que a fita de velado negro que. a noiva trazia ao redor do pescoo, e da~ qual pendia um medalho dourado, lhe dava 
um ar de moa de cidade. Sentada junto dela, com o busto ereto, Maria Valria tinha as mos cadas sobre o regao, e seu perfil se recortava ntido e agudo contra 
o crois negro dum dos convivas.
Licurgo tornou a voltar a cabea para Torbio, que agora ateava o gabinete liberal e o Imperador, dizendo:
- .. e homens. como Rui Barbosa, o do verbo candente. Joaquim Nabnco, o nobre estilista, e Jos do Patrocnio, que  a propus voz da raia negra escravizada esto, 
com um punhado de outros heris, preparando o advento da Abolio ao mesmo tempo
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que o da Repblica, porque, minhas senhoras e meus senhores,
abolio e repblica so sinnimos perfeitos)
Licurgo pensou em seu duelo cm Alvarino Amaral e ficou
ruminando o sabor violento, acre e embriagador daquele momento.
Havia muito que no sentia uma exaltao assim to grande. Comparados com ela, a festa do Sobrado, a manumisso dos escravos, seu noivado com Alice e a prpria idia 
de repblica empalideciam, como coisas de menor importncia.
Levou a mo  testa e com a ponta dos dedos apalpou de leve as. ataduras bem no ponto em que sentia o ferimento. Estava orgulhoso daquele talho. O fato de nunca 
ter tomado parte em nenhuma guerra ou revoluo sempre o deixara numa incmoda posio de inferioridade perante seus conterrneos de meia-idade qe haviam lutado 
no Paraguai e os velhos que tinham feito a .campanha contra Rosas e a Guerra dos Farrapos. Sempre fon considerado um "espada virgem". Naquela tarde, porm, tivera 
seu batismo de sangue, e isso pau ele tinh uma significao extraordinria. Era como se s agora se pudesse . considerar .completamente adulto. E essa sensao 
de ser" homem, a certeza de que na hora d perigo a mo no lhe tremera, o corao no lhe falhara, davam-lhe uma. fora nova, uma .confiana exaltada em si mesmo, 
e ao msmo tempo uma certa impacincia "que no fundo era desejo de mais ao violenta, de mais oportunidades para pr  prova sua hombridade. Daquele duelo interrompido 
ficara-lhe tambm um sentimento de frastrao, a impresso irritante de ter deixado nm servio incompleto, .bem como acontecera com . seu av, que no pudera fazer 
o rabinho do R na cara de Bent - Amaral. Porque - achava Cargo - a" coisa s devia terminar quando -Alvarino ou ele ficasse estendido no cho l na praa .. .
Licurgo passou o indicador da mo direita entre o pescoo e o colarinho. Aquel coisa engomada. sufocava-o: o discurso tambm comeava a impacient-lo. Gostara de 
Torbio, achava-o inteligente, leal, o melhor amigo do muado...Mas o diabo_ do n~az falava demais; quando comeava, Santo Deus!, no havia. quem
- fizesse parar. L estava ele a atacar violentamente a monarquia. Licurgo via uma ezpresso de interesse na fisionomia de muitas das pessoas que o escutavam; mas 
nos rostos ~ da maioria dos convivas
-        que ele via era fome. Misturado com o perfume de p de arroz
- de eztrato, que emanava das mulheres, andava no ar um cheiro de comida, e de vez em quando vinha-da cozinha um~bafejo de frtuns. A entrega dos ttulos de manumisso 
levria lgum tempo. Quando era, pois, que aquela pobre gente ia pau a mesa?
Licurgo estava prestes a fazer para o amigo uma carda de impacincia quando Torbio ergueu a mo e gritou, rematando, o
Vozes masculinas uniram-se num coro e repetiram
- Vivai
Romperam os aplausos. Alguns hmens avanaram para estreitar Torbio num abrao. Bibiana soltou um suspiro de alvio e cochichou ao ouvido do padre
- Esse moo fala pelos cotovelos..
Atlio Romano mostrou os belos dentes num sorriso tolerante:
- O dom da palavra  uma graa divina, bela I - exclamou ele. Cstnmava chamar aos amigos belo ou bela. O Dr. Winter at achava que esse era o tratamento que o vigrio 
dava na intimidade a Nossa Senhora da Conceio. - E o Dr. Torbio usa da sua palavra em prol da boa causa I - acrescentou o padre j em tom declamatrio.
O mdico inclinou o busto para a frente e voltou a cabea para o vigano.
- Pe. Romano - disse ele em Qoz muito alta para ser ouvido no meio da balbrdia - ainda no. compreendi como  que, sendo o senhor um sacerdote catlico, pode simpatizar 
com a idia republicana .. .
- Por que no? Por que no, belo? Acha que um padre no deve ou no pode ter emoo cvica?
- No  isso. Um~ dos pontos. do programa republicano  a separao da Igreja do Estado.. .
        O Pe. Romano ergueu-se.
- E entoI E da? - exlamu, aproximando-se do outro, como se o quisesse agredir: Segurando o mdico pelos ombros com suas manoplas peludas, perguntou: - Pensa 
o doutor que a Igreja para sobreviver precisa do amparo do Estado? - Soltou uma risada. gostosa. - Essa  magnfica I O Estado  que no poder viver se no se amparar 
espiritualmente na Igreja)
O Dr. Winter sacudia a cabea, ao passo que Bibiana voltava os olhos ora para um ora para outro. Depois esqueceu-os e passeou o olhar em torno da sala. Os hmens 
agora conversavam em voz alta, animadamente, dividids em pequenos grupos. No meio deles Licurgo parecia uma mosca tonta. Como ficava esquisito com aquele pano amarrado 
na testa I Parecia um bugre - somo Bibiana.


A entrega dos ttulos de manumisso foi feita no meio dum silncio grave e comovido, Os escravos estavam no quintal, junto da porta da cozinha, e entravam  medida 
que seus nomes iam sendo chamados. Sob o espelho da sala de visitas, os ttulos empilhavam-se em tino do consolo de mrmore. Torbio Rezende lia a lista de nomes: 
- Antnio Tavares! Marcolino Almeida! Terncio Rodrigues! - e muitas vezes Licurgo tinha de soprar-lhe
ISMALIA CARE        629 .
discurso:
- Viva a Abolio! Viva a Repblica)
#63O        O CONTINENTE

ao ouvido o apelido do negro chamado, pois mnitoa daqueles homens j haviam esquecido os nomes de batismo. "Maneco Torto! - gritava Torbio - Dente de Porco! Incio 
Moambique!" Por entre alas de convidados os pretos entravam na sala, piscando os olhos  luz forte, e acanhados, de cabea baixa, sm ousarem olhar para os lados, 
aproximavam-se de Licurgo, recebiam o ttulo
- beijavam-lhe a mo; alguns ajoelhavam-se depois diante da cadeira em que Bibiana estava sentada e levavam aos lbios a fmbria de sua saia. Retiravam-se, estonteados, 
buscando aflitamente a porta da cozinha. Muitos dos escravos choraram ao receber a arfa de alforria. Houve, porm, um deles que entrou de cbea erguida, olhou arrogante 
para os lados, como num desafio, recebeu o ttulo
-        sem o menor gesto ou palavra de agradecimento, fez mela golfa
- tornou a voltar para o quintal, impassvel como nm rei que acaba de receber a homenagem a que tem direito. Licurgo acompanhou-o com um olhar furibundo. Era o Joo 
Batista! Merecia una bons chcotaos na cara. Sempre fora assim altivo e provocador. En um bom peo, um bom domador, um trabalhador incansvel, mas tinha um jeito 
to atrevido, que por mais duma vez Licurgo estivera prestes a "ir-lhe aa lombo".
A chamada continuava. Negros entravam e saam. Havia entre eles homens e mulheres, moos e velhos. Licurgo comeava a imtar-se. A cerimnia no s se estava prolongando 
demais, como tambm no oferecia metade da emoo que ele sperava: era uma coisa to lenta e aborrecida como uma eleio. "Bento Assis!" - gritou Torbo. E como 
o preto chamado no aparecesse, ele repetiu em voz mais alta: "Bento Assis!" O peo que, estava  porta da cozinha gritou para fora: "Bento Assis!" .Nenhuma resposta 
veio. Licurgo, que sacudia a perna nervosamente, bradou de repentc: "Bento Burro! -Onde est esse aaiml?" "Bento Burro!" - repetiu o peo. Ento uma voz soturna 
saiu do meio dos escravos que esperavam, no sereno:. "Pronto, patro!" E entrou na asa.
E o desfile continuou. Licurgo mal podia conter sua impacincia. No conseguia convencer-se a si mesmo de que aquela en uma grande hora - uma hora histrica. No 
achava nada, agradvel ver aqueles negros molambentos e sujos, de olhos remelentoa
- arapinha enardida a exibir toda a sua fealdade e sua misria naquela asa iluminada. E omo eram estpidos em sua maioria 1 Levavam a vida inteira para atravessar 
a sala e depois fiavam wm o papel na mo, atarantados, sem saber que fazer nem para onde ir. Era preciso que ele gritasse: "Agora v embora. Nol Por ali. Volte 
pro quintal!"
O pior era que o Sobrado j comeava a cheirar a senzala.
Foi com um suspiro de alvio que entregou o ltimo ttulo. E quando o ltimo escravo desapareceu na cozinha, houve um
momento de silncio e imobilidade, como se os convidados espc
ISMALIA CARA        631

rassem de Licurgo algumas palavras. Mas quem falou primeiro foi a velha Bibiana
- Agora abram as janelas pra sair o bodum!
Licurgo mandou erguer as vidraas. Estava meio decepcionado. Esperara durante meses por aquele instante e ao entanto ele no lhe trouxera a menor emoo. De repente 
viu-se tarado por amigos que lhe apertavam a mo e o abraavam efusivamente. Um deles gritou: "Viva o Clube Republicano! Vva o nosso correligionrio Licurgo Cambar!" 
Os outros gritaram em coro: "Vivai" E comearam todos a bater palmas estrepitosamente. Os gaiteiros que estavam no vestbulo romperam a tocar uma marcha. Licurgo, 
ento,. sentiu com tamanha e repentina fora a beleza daquele instante, que esteve quase a rebentar em lgrimas. Foi com esforo que se conteve. Entregou-se passivamente 
queles abraos, alguns dos quais chegavam a cortar-lhe a respirao. No ouvia as palavras que lhe diziam. S sabia que aquele momento era glorioso, raro, grande. 
Com um gesto de suas mos tinha dado liberdade a mais de trinta escravos! L fora estava acesa uma grande fogueira ao redor da qual os negros - agora homens livres, 
felizes e dignos - iam danar, cantar, comer e beber!
Uma preta de turbante vermelho, os dentes arreganhados, andava por entre os convidados com uma bandeja cheia de copos de cerveja: Algum deu a Licurgo um copo, que 
ele apanhou e levou avidamente aos lbios, bebendo-lhe todo o contedo dum sorvo s. Ficou depois lambendo cstraidamente os bigodes, a olhar em torno, meio zonzo, 
sentindo um calor e um tremor de febre, as idias confusas e sempre aquela vontade absurda de chorar. Bibiana aproximou-se dele e abraou-o e - pela primeira vez 
em muitas anos - seus lbios midos pousaram na face do nto num beijo chocho:
- Deus te abenoe, meu filho - balbuciou ela.
Licurgo inclinou-se, encostou uma das faces na cabea da av e rompeu a chorar como uma criana. Bibiana arrastou-o para o vestbulo e depois para o escritrio, 
cuja porta fechou apressadamente. No queria. que os convidados vissem aquele acesso de nervos de seu rapaz.
- Que "isso, Cargo? No chore. Vamos, enxuga as lgrimas. Ora, ~a se viu?
Licurgo passava o leno nos olhos e nas faces e fungava, furioso consigo mesmo por ter fraquejado, e j com uma vaga vontade de brigar. .Mas brigar com quem e por 
qu?
- Vamos botar essa gente na mesa! - exclamou de repente. - Devem estar morrendo de fome.
Puxou bruscamente a av pelo brao, e sempre fungando, com vontade de dizer nomes feios a seus convidados e ao mesmo tempo de abra-los, voltou para a sala, exclamando:
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- Vamos comer, .minha gente! Vamos pra mesa! Esta casa  de vassuncs!
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Tinham posto na sala de jantar uma longa mesa, coberta. de toalhas de linho muito alvo, e sobre a qual se alinhavam travessas com carne de porco fria e farofa, pedaos 
de galnha assada, lingia frita e rodelas de salame e presunto de Garibaldina. Assm que os convivas se sentaram  mesa, as negras comearam a trazer os espetos 
de churrasco quente  pratarraos cheios de pastis recmsados da frigideira.
- So de carne - anunciou Bibiana, que estava j sentada  cabeceira - e esto quentinhos.
Os convidads atiravam-se com vontade s comidas. Bibana ficou a observar, deliciada, o Pe. Romano que comia com tanto apetite, que era um gosto v-lo. Sentado 
 frente do vigrio, o Dr. Winter, que andava ultimamente to enfastiado, mordiscava com indiferena uma coxa de galinha. Ouvia-se o som claro e alegre do vinho 
no instante em que era despejado nos copos. As conversas ganhavam anmao  medida em que os convivas iam bebendo,
- os homens agra precisavam gritar para se fazerem ouvir, pois todos falavam ao mesmo tempo e os gaiteiros noo tinham parado de tocar.
Sem fome, Licurgo olhava para a janela, atravs de cujas vidraas via o claro da fogueira. Onde estaria Ismlia? J teria chegado? No podia compreender aquela 
demora. Segundo suas instrues, a rapariga devia ter deixado o Angico ao raiar do dia .. .
Maria Valria- lanou um olhar furtivo para o primo. Achou-o taciturno e inquieto. Que se estaria passando com ele? Por que noo falava com a Alice, que estava ali 
_esquecida  sua direita? Olhou para a frente e deu com os olhos ansiosos de Liroca, do outro lado da mesa. O rapaz lhe sorriu. A face de Maria Valria permaneceu 
impassvel Jos Lrio fizera j duas tentativas para puxar conversa, mas ela lhe respondera com monosslabos secos, a fim de
- desencorajar. O diabo do rapaz, porm, era persistente. Apesar de todas as desfeitas que ela lh fazia - bater ostensivamente a janela quando ele se aproximava 
na calada; voltar-lhe as costas quando ele a convidava para danar nos bailes; recusar as flores que ele lhe mandava - apesar de tudo isso o infeliz continuava 
a persegui-la
-        ultimamente se dava at ao desfrute de cantar-lhe serenatas com sua voz de taquara rachada.
Maria Valria baixou a cabea e comeou a comer, meio pertrbada, fazendo o possvel para esquecer que o primo se achava
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quela mesma mesa, e que bastava erguer os olhos e. voltar a cabea para v-lo.
Os gaiteiros tocavam agora uma valsa r Ondas do Danbio, reconheceu ela. " Por um rpido instante imaginou-se a danar nos braos de Lcurgo, mas repeliu logo esse 
pensamento, irritada, e j com um sentimento de culpa, como se s por pensar aquilo tivesse trad a irm.
Bibiana contemplou Alice por alguns ,instantes com olho crtico e depos, inclinando-se para ela, disse:
De amanh em diante vassunc vai tomar todos os dias depois do almoo uma. gema de ovo cru com um clice de vinho do Porto.
Alice fitou na velha seus olhos grados:
- Mas eu noo gosto de ovo cru, titia!
- Goste ou noo goste, tem de tomar. Vassunc anda muto plida e precisa egordar. Homem ~ no gost de mulher magra. Faa ,o que eu digo. E comece amanh !
- Est bem, titia -.concordou Alice, com um sorriso submisso. Baixou os olhos para o prato e continuou a comer sem nenhum entusiasmo um pedao de peito de galinha.
Bibiana continuava a olhar obliquamente para a futura mulher de Curgo. A moa tinha os quadris estreitos: -noo podia ser boa parideira. Mas fosse tudo pelo amor 
de Deus! Ela conhecia muitas mulheres. de bacia estreita que botaram muitos filhos no mundo e s morreram de velhice.
O ar estava cheio do rumor das conversas e do tinido de pratos, copos e talheres. Os homens conversavam animadamente e comentavam, muitos deles, o incidrite da 
tarde. Curgo comia devagar e sem vontade, mas esvaziava em largos goles seu copo de vinho. Tinha o rosto afogueado e os lbios muito vermelhos e lustrosos. De vez 
em quando voltava-se para a noiva e procurava comear uma conversa: "Est sem fome?" - dizia. Ou "Olhe s o apetite do padre." Ou ento: "Est gostando da festa?" 
Alice, porm, respondia apenas com monosslbos acanhados, e a conversa como que se congelava no ar.
O Pe. Atlio Romano tinha diante de si um prato d pastis, que ia devorando rapidamente, com tal entusiasmo que s vezes chegava a mel-los inteiros na boca. Mastigava 
com bravura e ao mesmo tempo no queria deixar de falar, porque o Dr. Winter, aquele ateu incorrigvel, noo o deixava em paz. Agora estava a repetir-lhe de cor trechos 
dum livro de seu amigo Carlos vou Koseritz, outro herege de m morte. Com o busto inclinado sobre a mesa, o garfo em riste, o mdico olhava fixamente para o padre 
enquanto falava
- "O mais crente dentre vs acreditar que a Terra seja o
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centro do Universo e que o Sol, a Lua e todos os astros s foram criados para fazerem o servio de lampies?"
O vigrio escutava-o, sorrindo e mastigando.
- E por que no? - exclamou, interrompendo Ooutro. - Por que noo, se Deus assim o quis? - - Recostou-se na cadeira e gritou para uma negra que passava : - Me traga 
mais pastis, bela! - E com os lbios reluzentes de banha,  face corada, o olho alegre, tornou a voltar a teno para o mdico: - E por que noo..?
Winter .brandia ainda o garfo.
- "A Bblia  obra de homens ignorantes; a histria da cciao _ um mito, e Laplace tinha razo quando Napoleo 1 lhe perguntou, por que noo falara em Deus ao expor 
o seu sistema de mecnica celeste: `Sire, je n"avais pas esoin de refle hypothsel""
- "Quos Deus vult perdere, prius dementat" - citou o padre, soltando um arroto feliz.
- "O estado das camadas terrestres demonstra  evidncia que o homem  simplesmente fruto da e-.ioluo da matria como a prpria Terra, como so os mundos- todos 
que pvoam o espao do Universo."
Atlio Romano bebericava seu vinho, fazendo-o demorar sobre a lngua e depois engolindo-o com um vagar sensual. Tornou a encher o clice.
-.Nada disso  novidade pra .mim, doutor r- disse ele. - Todos esses autres ateus seus amigos so tambm meus conhecidos. Tenho seus livros  minha cabeceira e 
isso  um sinal de que noo os temo.
- E no acha que eles tm razo?
- Toda. Ah! C esto os pastis quentinhos. - Esfregou as mos. - Sirva-se, belo!
O Dr. Winter no se deixou comover pel presena dos pastis
recm-sados da frigideira e que ali estavam  sua frente, ndios,
cheirosos, trigueiros, polvilhados de acar e canela. Lanou-lhes
um olhar frio e tornou a encarar o interlocutor:
- Mas se acha que eles tm razo, como  que continha a
exercer o sacerdcio duma religio baseada num mito pueril?"
A manopla do padre avanou e seus dedos pinaram hm pastel. - A razo no tem nada a ver com a f! - sentenciou ele,
metendo o pastel na boca e empurrando-o com os dedos. - Vosmec leu Darwia e Lamarck, no leh? - Li. E talvez melhor que o doutor. - Aceita as leis da evoluo e 
da seleo? - Aceito.
- Ento?
- Ento qu?
- Como pode reconhecer ao mesmo tempo a autoridade da Bblia?
ISMALIA CARA        635

- Mas a Bblia fala uma linguagem simblica, belo! .
- Isso  um sofisma.
- A hiptese evolucionista no exclui necessariamente Deus. Ela  antes uma prova da suprema, da incomparvel, da sutil e imaginosa inteligncia do Todo-Poderoso. 
- Limpou com a ponta da toalha os beios engraxados. - A Bblia no passa duma verso potica do gnesis o alcance da inteligncia popular.
- Isso  uma heresia, padre!
- E ningum mais utorizado que um padre para proferir uma heresia, belo! - exclamou o vigrio, soltando uma gargalhad.
O Dr. Winter sacudiu a cabea, rindo o seu riso em falsete. Contemplou o interlocutor com simpatia. Admirava o Pe. Romano. Conhecera outros vigrios de Santa F: 
alguns deles eram homens de poucas luzes, que viviam no sagrado temor de desgostar o chefe poltico local. No liam nada e tiziham medo de discutir todo. Agora Santa 
F possua nm vigrio independente, exuberante de sade e bom humor, um liberal e, por mais absurdo que parecesse, um livre-pensador.. Tinha em casa uma rica biblioteca, 
onde Winter, encantado, encontrava em belas encadernaes de couro, alguns de seus autores queridos : Renan, Schopenhauer, Diderot ... Um dos livros de cabeceira 
do vigrio era o Candide, de Voltaire. Um dia o Dr. Winter pilhara o Pe. Romano a ler os contos de Boccacio e a soltar gargalhadas homricas.
- O vigrio lendo Boccacio! ,-exclamara, admirada
Fechando o livro com_ estrondo e erguendo-$e de sbito, o padre explicou
- Leio este patife por duas razes poderosas. Primo, porque gosto..Secundo, .porque com suas histrias materialistas e frascrias ele me capacita a sentir melhor 
as delcias da castidade e da vida espiritual.
Era o Pe. Romano geralmente estimdo em sua parquia. Sabia contar com graa uma anedota e, pastor amvel, no vivia como seus predecessores a ameaar as ovelhas 
com o fogo do inferno. Algum pecou? Vamos ver, sente-se a, fique  vontade, descanse um pouquinho. .No se aflija. Tudo se pode arranjar, porque Delis  uma boa 
pessoa. Abra-lhe seu corao, bela. Pronto, -estou escutando .. .
N~ domingos  tarde montava no seu zaino-perneira e de guarda-sol aberto tocava-se ao trote do animal, rumo das colnias. seguido pelo sacristo, qu cavalgava numa 
mula magra. D. Qhixote e Sancho Pana - pensava Winter quando os via passar. ~`.Em Garibaldina o padre comia macarronadas memorveis, bebia vinho  sombra fresca 
das bojudas pipas das cantinas, e jogava ruidosamente bocha, ou mora com os colonos, em companhia dos quais ficava depois a cantar cantigas do el paeee.
#636        O CONTINENTE
E la Violetta la v, la v, la v,
La v nel campo e la si sognava
Ch"el gera el so" Gigin che la rimirava. - Perch ~ mi rimiri, Gigin, de amor,
Gigin d"amor?
- lo ti~ rimiro perch sei belfa,
E se vuoi venir con me alia guerra. - No, alia guerra nora v venir,
Non vo" venic!
Non v venir con te alia .guerra
Perch si mangia male e si dorme per terra.

O Dr. Winter jamais esquecera o dia em que vira o padre com nm copo de vinho na mo cantar um solo com sua bela voz de bartono:

Non ti ricordi, oh Adelina, Sotto 1"ombra di quel ramo, Tu dicevi: T"amo, t"amo! Eri tutta felicit?
Ao redor dele os colonos, de faces rosadas e lustrosas, cantavam o coro

141a perch, Adelino, ma perch Tu non pensi pici a me?

Certo domingo, quando de volta de Nova Pomernia apeava do cavalo em Garibaldina para um breve descanso, o Dr. Winter ouviu gritos e risadas vindos dum grupo que. 
cercava dois homens. Aproximou-se do ajuntamento e ficou embasbacado com o que viu. De batina erguida, o Pe. Atlio Romano jogava uma luta romana com Arrigo Cervi, 
o ferreiro da colnia. De rosto suado, vermelho como um tomate, o vigrio bufava e gemia, deixando escapar de quando em quando blasfmias: Porca miseria! Hostis? 
Figlio dum cave!
Os vigrios de Santa F sempre se impacientavam com a falta de religio dos homens da terra, que em sua maioria nunca iam  missa ou, quando iam, noo se ajoelhavam 
nem oravam, limitando-se a ficar de p. atrs do ltimo bano, com o ar entre sestroso e contrariado; em geral se retiravam, mal comeava o sermo. Dizia-se que nenhum 
vigrio jamais conseguira levar um daqueles homens ao confessionrio. O Pe. Romano, porm, fizera-se amigo de todos, conquistando-lhes a confiana, de sorte que 
muitas vezes ouvira, de
ISMLIA CARE        637

homem para homem, diante dum copo de cachaa ora  mesa de jogo, tonfissea ntimas, e no raro era chamado para resolver pe incias de honra ou prpblemas de famlia 
que seus paroquianos queriam ajustar em particular. Escandalizava as beatas. pela irreverncia com qnc s vezes tratava as coisas de religio. Mas tinha um -comportamento 
exemplar e a maledicncia local nunca conseguira descobrir-:he na vida o mais leve cheiro de mulher.
Mirando agora Atlio Romano, que ainda comia com voracidade os pastis quentes, Winter sacudia a cabea com ar benevolente dum adulto diante das travessuras dum 
menino. Desrou depois Oolhar na direo de Licurgo e pensou imediatamente em Bolvar. O rapaz tinha o jeito desinquieto do pai: sugeria v~n potro de cabea alada, 
farejando perigo, prestes a tomar o freio nos dentes e disparar. Qae contraste com a tranqilidade a calma fora de Florncio, que parecia. ter seus ps to bera: 
plantados no chot Mas - achava Winter - era a tranqiliade- e a fora dum boi que se .resigna a ,passar a vida puxando carreta.
Tornou a encher o copo de vinho e bebeu-o todo dum sorvo s. O melhor que tinha a fazer era embriagar-se para poder. participar da alegria grah pra: esquecer que 
a vida para ele noo prometia mais nada. J "no lhe restavam esperaas de sair de Santa F. A distncia em quilmetrs que o separava da Alemanha era enorme. Mas 
a distncia em tempo, essa era ainda mais aterradora: Sentisse solto no tempo e no espao, sem lgao com ningum e com coisa alguma. Mas no fora sempre esse o 
seu ideal? No ter compromissos, nem esposa nem famlia nem propriedade nem contratos. Ser fsica e espiritualmente um viajante sem bagagem. Estar sempre. _em disponibilidade, 
poder, dum .minuto para outro, sem ter de dar satisfaes a ningum, mover-se dentro da geografia, mudar de paisagem, de ambiente, de hbitos .... Pois bem. Conseguira 
tudo isso. Mantivera-se livre, disponvel, sentimentalmente intocado... Mas que uso fizera de sua liberdade? Guardara-a apenas como algumas daquelas famlias de 
Santa F ntesouravam jias antigas dentro dum escrnio, no fundo duma gveta, noo as usando nunca, nunca se desfazendo delas nem mesmo nos momentos de maior necessidade. 
Um luxo intil, enfiml
Tornou a encher o copo. de vinho. Bebeu um gole, passou o guardanapo nos bigodes e olhou em torno. L estava a velha Bibiana  cabeceira da mesa, atenta a tudo, 
noo perdendo uma palavra do que se dizia a seu redor, sempre a vigiar o neto com seu olhar vivo e dissimulado. Winter pensou ecn Luzia ... Segundo as teorias do 
padre ela tinha uma alma, e essa alma devia estar quela "gora (ser que no-outro mando existe o tempo?) purgando seus pecados nas chamas do inferno. O mdico sorriu. 
A teiniagu tinha parte com o dbo: ~ o fogo no lhe faria ~ menor mal a corpo
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verde de rptil. Mas onde estaria a alma do pobre Bolvar? Decerto penando pelos corredores do purgatrio.
- Padre, vassunc  uma besta! - gritou Winter olhando para o vigrio. Foi como se lhe tivesse de repente atirado na can o vinho do copo. Sua voz, porm, perdeu-se 
na balbrdia gml. Os homens conversavam em altos brads. As gaitas enchiam os sa= les com sua msica rasgada e chorona. No quintal os pretos cantavam, danavam 
e batucavam em tambores.
Um homem ergueu-se e bateu palmas, pedindo silncio.
- Queremos que o D.r. Trbio nos recite alguma coisa! - gritou. Vozes o apoiaram: "Muito bem! Bravos! Que recite o Dr. Torbio!"
O advogado noo se fez rogar. Ergueu-se com um entusiasmo avinhado, amassou o guardanapo nas m"aos midas e delicadas, e ficou um instante de cabea baixa, como que 
a pensar no que ia dizer. Quando a msica parou e os convivas fizeram silno, o baian6 passou os dedos pelos cabelos e disse com voz macia:
- Vou recitar um poema do grande vate cndoreiro Castco Alves, glria da Bahia e do Brasil. - Fez uma pausa grave e depois,. j em tom de discurso, acrescentou: 
L O Navio Negreiro, poema que tem .feito pela cansa da abolio da escravatnn no Brasil o que Cabana do Pai Toms fez pela mesma cansa sublime. na Amrica. do I`dorte.
Bibiana inclinou-se para. Alice e cochichou: - L vem discursrio outra vez.
Curgo voltou vivamente. a cabea pau a ~ av e, de cenho cerrado, lanou-lhe" um olhar sombrio de repreenso, que a velha rebateu com um sorriso pcaro.
O Dr. Torbio ps-se na ponta dos ps e, traand no ar com a mo direita uma semicircunferncia, comeou;
~Stamos em pleno mar.... Doudo no espao Brinca o luar - dourada borboleta.
Suas mos agitaram-se como borboletas morenas, que imediatamente se transformanm em ndas quando ele disse:
E as vagas aps ele correm... cansam Como turba de infantes inquieta.
Havia no rosto do padre uma expreaso de absoluta felicidade: Tinha comido e bebido bem: agora estafava um belo poema. Alimentava assim o corpo e o esprito.
O Dr. Torbio lanou ao ar uma pergunta pattica: Por que foges assim, barco ligeiro?
ISMALIA CARE        639
O Dr. Winter tinha os cotovelos fincados na mia e segurava a face barbuda com ambas as mos. Por que foges, barco ligeiro? Imaginou-se a bordo dum brigue, sentindo 
no rosto o vento picante do mar; estava a caminho da Alemanha e ali no convs do navio pensava em Santa F, especialmente numa certa noite de festa no Sobrado - 
fazia tanto tempo! - em que algum recitara nm verso que falava em barco, e ee se imaginara a bordo dum brigue que o levava de volta  ptria, e chegara a sentir 
o vento do mar no rosto, e ficara pensando numa noite remota em Santa F, em que numa festa no Sobrado algum recitara nm poema que falava em barco e ele se imaginara 
... Ach! Estava mas era embriagado. Bebera demais. Mas beber era bom; fazia-o sentir-se como nm balo leve, areo; colorido, despreocupado - bem como um balo de 
So Joo. Achava tudo bom, tudo bonito, todo certo. Em todo o caso, seria melhor tratar de beber uma xican de caf bem forte sem acar. Um mdico noo deve embriagar-se, 
mero lieber Doktr. Que .lngua estava falando o Dr. Torbio? Ble j no compreendia nada ... Aquelas palavras no tinham sentido. O poema era puro ritmo. Ra-ta-t 
... ra-ta-t ... n-ta-t .. . Pensou em Jahann Wolfgang vou Gcethe. Onde estava ele? Feito pl De nada lhe. adiantara ter. escrito que Zwei Seelen wohnen ach!, in 
meiner Brust. Duas almas habitam, ai!, em meu peito. Seu peito se havia enchido de vermes.. Hoje, noo havia mais vermes nem peito. P. Olhou para o padr que ainda 
mordiscava nm pastel. Onde esto as almas do poeta? No cu, responderia o sacerdote. Goethe entre os anjos. No Gcethe seria um arcanjo, como Heine, Schihet e tants 
outros.
Torbio prosseguia

1tilas que vejo eu a... Que quadro d"amargura
Que funreo cantar! Que ttricas figuras!
Que cu infame e vil... lbleu Deus! 161eu Deus? Que horror!

A voz do advogado se fez cava e tetral:

Era um sonho dantesco... o tombadilho, Que das luzernas avermelha o brilho,

Apontava para a mesa, como se ela fosse o tmbadilho. E num rompante dramtico pegou o copo de vinho, despejou-lhe o contedo na toalha branca, e, mostrando a mancha 
vermelha, declarou:

Em sangue a se banhar

Bibiana resmungou:
- No  ele que vai lavar a toalha . .
A voz do advogado agora estava lmpida e empostada:
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Tinir de fenos... estalar de aoite Legies de homens negros como a noit Horrendos a danar.. .

Negras mulheres, suspendendo s retas Magras crianas, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mes:
Outras, moas, mas nuas e espantadas No turbilho de espectros arrastadas
Em nsia e mgoas vs .. .

Winter tornou a encher o seu copo de vinho. Mulheres suspendendo s tetas... Seus olhos passearam pelas pessoas que estavamdo .outro lado da mesa. A tendncia que 
as mulheres daquela provncia tinham para engordar! Com exceo das filhas de Florncio. as outras moas eram rechonchudas, tinham ancas largas e seios fartos. Os 
gachos pareciam gostar de mulheres desse tipo, pois talvez as julgassem como julgavam as vacas leiteiras: quanto maior
- bere, mais leite. Depois que casavam, ento, aquelas fmeas botavam corpo e ficavam como a esposa do Veiga da Casa Sol, que aIi estava junto do vgrio, apertada 
num vestido de cetim azul-marinho, com sua cara de bolo de milho abalumado, o seu duplo queixo duma moleza e duma brancura de requeijo, a mirar
- declamador com seus olhinhos empapuados em que havia uma vaga luz de espanto... Meias Gott! Se Deus existisse, toda aquela comdia talvez tivesse um sentido. 
Quem sabe Deus existe?

Qual num sonho dantesco as sombras voam!.. . Gritos, ais, maldies, preces ressoam! E ri-se Satans!

Um dos pees de Curgo entrou na sala na ponta dos ps, apro~zimon-se do patro, indinon-se e cochichou-lhe ao ouvido: - Est tudo calmo.
Era o homem que ele pusera de sentinela na gua-furtada a vigiar a praa. Havia outro no fundo do quintal e nm terceiro debaixo da figueira grande, com o olho no 
Pao Municipal. Curgo no acreditava que os Amarais se atrevessem a atacar o Sobrado. mas achava que era bom ficarem de sobreaviso.
Sacudiu a cabea e murmurou
- Est bem. Diga aos rapazes que _venham comer.
O peo olhou para os lados e, num sussurro ainda mais leve. comunicou:
- A Ismlia chegou, patro.
Aquelas palavras caram sobre o peito de Licnrgo com o peso duma pedra. Ele olhou automaticamente para a av.
ISMALIA CARr        641

- Muito bem, Neco. Onde est ela ?
- No quintal.
O homem retirou-se na ponta dos ps. Licnrgo olhou para
Alice, meio desconcertado. Depois pau Trbio, que gesticulava.
ezdamando

 mar. porque no apagas C"a esponja de ruas vagas
        De teu manto este borro?

Se ele pudesse apagar Ismlia com rama esponja... teria congem pau tanto? No. Embora os outros pudessem considerar Ismlia um boro em sua vida, ele noo deixava 
de sentir por ela o que sentia. Agora todo desaparecia: a festa, o declamador, o poema,- a abolio, a noiva, a av, a repblica - tudo. O que ele sntia era nm 
desejo urgente de ver a chinoca, de apalp-la, abra-la, penett-la. Sa sensao de febre aumentava e ele sentia o pulsar surdo do prprio cotao e comeava a 
remexer-se na cadeira .como se ,estivesse sobre um braseiro.. Era sangre ou fogo o que lhe corria nas veias? No era apenas a ferida da testa que latejava: seu corpo 
inteiro pulsava, gnnte, dum desejo que chegava a doer. Olhou em torno mais uma vez.. Levantou-se devagar, procurando noo fazer barulho. Sentiu que a noiva e a av 
O observavam disfaradamente. O prprio vigrio voltou para ele uma cara interrogadora. Fossem todos pro inferno. Ele ,era dono daquela casa e era dono de sua vida. 
Pro inferno l Levantou-se e saiu a caminhar na ponta dos ps na dreo da cozinha, com a desconcertant impresso de que tio s todos os olhos estavam postos nele, 
como tambm de que era para ele que Torbio dirigia aquelas perguntas desesperadas

Quem so estes desgraados Que .no encontram em vs ll~aia que o rir calmo da tcuba Que excita a furia do algoz?

Abriu .caminho com gestos impa"entes pelo meio da negrada que se aglomerava na cozinha, e chegou finalmente  porta dos fundos. Parou no portal e contemplou o quintal, 
que a grande fogueira iluminava. Os negros que danavam ao redor do fogo - as caras reluzentes, transfiguradas por um xtase de batoque, as dentnaa  mostra, olhos 
revindos, as narinas arregaadas, as bocas retorcidas a babujar palavras duma lngua brbara - pareceramlhe mais demnios que seres humanos. Teve mpetos de gritar: 
"Chega I Vamos parar com esse barulho I"
Mas num segundo esqueceu os pretos, a fogueira, o batuque. Porque o que ele queria era Ismlia. Onde estaria a china? Comeou
#642        O CONTINENTE

a procur-la, aflito ... Finalmente avistou-a - estava ela acatada sozinha debaixo duma bergamoteira, enrolada num poncho, a olhar fixamente para o fogo.
Desceu a escada quase a correr.
1O
Levou-a sem dizer palavra para o fundo do quintal, para uma zona que a luz da fogueira no atingia. E ali, debaixo duma rvore copada, num ngulo formado pelo muro, 
abraou Ismlia e beijonlhe repetidamente os lbios midos e frios. O poncho que eaaolvia a rapariga, demasiadamente grande para seu corpo franzino, noo s lhe embaraava 
o movimento dos braos como ~ tambm tornava difcil para Licurgo abra-la. Este continuou a beij-la e seus lbios vidos colaram-se ao lbul da orelh da amante, 
depois rasa tmporas, na testa, n,~s olhos, nas faces e outra vez aa boca, onde ficaram por longos instantes..
Curgo afastou a rapariga de si para melhor ver-lhe o rosto.
Na penumbra, porm, noo lhe pde distinguir as feies. Meteu aa
mos pela abert~ira do poncho e apertou-lhe os baos. - Por que demorpn tanto a chegar? - No tive a culpa.
- Mas por qu?
- A aranha agiu tarde do Angico.
- Mesmo assim tinham tempo de chegar antes do anoitecer. - Viemos devagarinho. Eu enjoei coai o balano.. Paramos
no Rinco Bonit pra descansar.
- Quem foi que te trouxe?
- O Bentinho.
- O Bentinho? - A presso de sena dedos no brao da moa aumentou. - Mas eu te disse que viesses com o teu irmo. - O Laco est doente, de cama.
- O Bentinho no se passou contigo? - No.
- Jura por Deras?
Mal fez esta pergunta, arrependera-se. Estava fazendo itma una, colocando-se numa posio ridcula perante Ismlia.
ISMALIA CARA        643
Ele noo respondeu. Seu corpo  que estava doendo e latejando de desejo por Ismlia.
A rapanga esperava, imvel, calada, encolhida dentro do poncho. Tinha a envolver-lhe a cabea um pano branco amarrado sob o queixo. Respirava pela boca e de seus 
lbios entreabertos se escapava um tnue vpor.
- Vem - ordenou Curgo.
Fez meia volta e caminhou para o barraco que se erguia contra o muro dos fundos do quintal. Abriu a porta e entru. Ismlia seguiu-o silenciosamente.
Dentro estava completamente escuro. Curgo tomou da mo da rapariga e conduziu-a para cima duns fardos de alfafa.
- Senta aqui.
Ela obedeceu.
- Est com muto frio? - perguntou ele.
- Muito no.
- Ento tira o poncho.
Ela tirou e Curgo estendeu-o sobre dois fardos.
- Deita aqui.
Ismlia deitou-se. Ele fez o mesmo e em seguida abraou-a e estreitou-a com fora contra o peito.. Por longo tempo fcon a chupar-lhe os lbios, s fazendo pausas 
para tomar flego. Agora ele aspirava, excitado, o cheiro de Ismlia: corpo quente e moo recendendo a sabo preto. Era uma pena noo ter trazido rama lanterna - 
pensava ele. Estava com saudade das feies da rapariga, daquela cara dam moreno terroso, bem como mingau respingado de canela, e principalmente daquelas pupilas 
dum verde desbotado de malva, com esquisitos pontinhos dourados. Nunca puden compreender como duma famlia de porteiros miserveis e molambentos havia nascido uma 
criatura bonita como a Ismlia, com traos mais finos que o de muita filha de estancieiro rico.
O sangue martelava as tmporas de Licurgo quando suas mos apalparam os ombros da china, acariciaram-lhe os seios midos, desceram-lhe pelo ventre, pelas coxas e 
finalmente comearam a arrepanhar-lhe a saia, desajeitadas e .aflitas.
- Espere - disse Ismlia. E ela prpria ergueu a saia.
Deitado e de olhos cerrados, Lcnrgo sentia na nuca a rigidez elstica do brao da rapariga. Estava agora saciado mas trist, e desejava dormir, dormir nm profundo 
sono sem sonhos. Infelizmente tinha de voltar para a festa, pois no Sobrdo j deviam estar estanhando sua ausncia. No sentia,. porm, o menor desejo de ergaerse. 
Era boa a presena daquela criatura, bom o calor de seu corpo, o contato de sua carne. Ismlia no pedia nada, no perguntava nada. Era fcil estar ao lado dela.
- Juro.
Soltou-lhe os braos. A chinoca tocou-lhe a -testa com a ponta
dos dedos.
- Que foi isso?
No valia a pena contar todo. Era melhor resumir: - Me lastimei esta tarde.
- Est doendo muito?
#644        O CONTINENTE
ISMALIA CARB        6f5
Chegavam at o banaco as vozes dos negros, a msia das gaitas e, de quando em quando, o amiudar longnquo ,dam galo ora
-        latido dum cachorro em algema rua prxima.
- Agora v pra casa da velha Rosa - disse Licurgo. - J falei com ela. Se poder, amanh voa te visitar. Ouviu?
- Ouvi.
- Est precisando de alguma coisa ? - No.
Cargo voltou-se para Ismlia, segurou-lhe a cabea com ambas as mos e tornou a beijar-lhe a boca. Pouco depois, seus lbios lhe tocaram as faces e sentiram-nas 
midas: Levou os dedos aos olhos da rapariga e descobriu-os cheios de lgrimas.
-"Que  isso? Por que est chorando? - perguntou, j meio imtado.
- Nada.
- Est doente?
- No.
- Eu te machuquei?
- No.
- Ento que ?
Ela no respondeu:. Licurgo anancon nm talo de alfafa, levou
-  boca e comeou a mord-o, impciente. Ismlia decerto estava triste porque ele a casar. Era a hora de dizer-lhe que o casamento no ia mudar a situao, que 
eles continuariam como antes, como sempre, e que o fato de ele casar com Alice noo significava que .. . Mas- noo. Dar aquelas explicaes  filha do Man Car seria 
rebaixar-se , muito. No dava. De resto, ela noo compreenderia .. . No entanto aquelas lgrimas o afligiam e, percebendo que estava prestes a enternecer-se, ele 
se agastava e pensava j em fazer algum gesto spero.. Trnou a passar os dedos pelas faces da china e sentiu que as lgrimas agora escorriam mais abundantes.
Cuspia o talo de alfafa e soltou nm fundo suspiro. Era preciso voltar ao Sobrado. As danas decerto haviam comeado e ele tinha de danar com a noiva. Sentia mpetos 
de entrar em casa e gritar: "A festa acabou, minha gente.. J comeram, no comeram? J beberam, no beberam? J danaram, no danaram? Pois ento vamos todos dormir. 
Boa noite!"
O silncio continuava. Curgo descansou a mo espalmada sobre
o seio esquerdo da rapariga e ficou sentindo o pulsar de seu corao. Foi nesse momento que ela balbuciou - Vou ter um filho.
Ele no disse nada. Ficou ouvindo por muito tempo, com todo
- corpo,. aquelas palavras. Vou ter um filho. Continuou sentindo
- pulsar do corao de Ismlia juntamente com as batidas violentas de seu prprio sangue nas tmporas doloridas.
Com passos lentos Licurgo dirigia-se pau o Sobrado. Parou nas prozimidades da fogueira e fitos olhando pau as chamas. As danas e cantigas haviam cessado. Acotoados 
perla das bnaas, negros  negras assavam batatas-doces na ponta de vaus. Outros. exaustos, dormiam sob as rvores, enrolados em molambos. Uma nega-mina, acocorada 
debaixo duma laranjeira, gemia uma melopia africana. A parede dos fundos d Sobrado refletia a luz alaranjada da fogueira.
Vou ter um filho. Licurgo carregava consigo a voz de Ismlia. Vou tec um filho. Uma voz fininh, dolorida, triste. Vou tet um filho. O ar cheirava a sereno, o fogo- 
crepitava. Que fazem Que fazer? Talvez o melhor fosse deixar o problema para o dia segninte~ Estava cansado, com o corpo modo, a cabea latejando de dor. Talvez 
estivesse at com febre. Mas ama: coisa dede j estava decidida : aquela criana no podia nascer ... . No entanto, era lhe repugnante a idia de mandar Ismlia 
botar o filho fora. Sempre censurara os que faziam isso... Pensou na av. A velha reprovaria aquilo, sem a menor dvida ... Mas no. Ble sabia dos dissabores que 
lhe viriam se a criana nascesse. Filho. natural. Isso  que eia ia ser. Filho natural. Se fosse- nm homem a coisa seria m: mas se fosse mulher, -tudo ficaria a~tda 
pior. Cresceria como a me. ao abandono, no rancho dos Cars. Quando ae fize8ae mocinha algum grado a levaria para a cama- e depois a deixaria ao abara
dono com um filho na bamga. E pensando nisso, Licurgo chegou ... ..
a odiar o homem que ia fazer aquilo. De repente comprandeu.
que de certo modo estva se odiando a s mesmo.- Sim, ia mandar a Ismlia fazer o aborto. Isso" simplificaria tud. Mas... se a rapariga morresse? Cnhecia casos. 
Talvez o ,melhor mesmo fsse deixar. Ismlia ter o filho, e quando a criana nascesse,. faria todo para que ela fosse criada direito e nada lhe faltasse. Um dia 
contaria tudo a Alice: ela havia de compreenler,. porque agnil rinha acontecido no tempo em que ele, ~Curgo, era solteiro. Man aio. Dentro dum ms estaria casado. 
Era .at. -bem possvel que o primeiro filho de Alice nascesse apenas dois meses depois do de Ismlia. Iam crescer juntos no Angico. Um na casa grande, o outro no 
rancho dos Cars. Se fossem de sexo diferente era at possvel que ... Licurgo levou a mo  cabea, que estava a estourar-lhe de dor. Talvez o talho estivesse infeccionado..On 
tudo no mondo estivesse emdo. podre. Mas. quando  que esses , gaiteiros do inferno vo parar de tocar?
Tinha a lngua seca, , a garganta ardida e estavi com sde. Beberia um caneco de cerveja e mandaria todo para o diabo. Continuou a andar na direo da casa, pensando 
no que diriam ~ os outros quando o vissem voltar. Fagulhas voavam no ar. Da fogueia saa um cheiro enjoativo de laranja assada.
No. O melhor mesm era a Ismlia botar o fiiho fora. A
6~6        O CONTINENTE

aggra Anastcia conhecia amas ervas infalveis: todo ia ser fcil.  Anastcia resolveria o caso ... J bastavam as outras preocapaes de saa vida..O filho ia~ 
dar qne falar. Pensou. nas exploraes que sons ~uaugoa polticos podiam fazer. Ele e os outros membros do Clube Republicano estavam empenhados numa campanha de 
regenerao em que falavam em decncia e bons costumes. O Manfredo Fraga era capaz. de insiaar nos seus editoriais infetos que o presidente do Chib Republicano 
de Santa F havia desonrado ~ filha dam humilde posteiro, deixando-lhe . no ventre o freto do pecado, etc., etc.... Estava decidido. A criana noo ia nascer . .
Come~on a subir os degraus que levavam  porta da cozinha. L de dentro vinham os sons duma polca e o arrastar de ps dos panes, de mistura .com vozes e risadas. 
Vendo um vulto enquadrado pela prt,~ ~ da cozinha, estacou, reconhecendo a av. Bibiana e o neto se miraram por algum tempo em silncio.. Ser que ela desconfia 
de alguma coisa? - pensou Licnrgq. ~Ia falar quando a velha se antecipou, dizendo-lhe com uma calma arrasadora
- V somenos cavar as nios.
11
O Dr. Winter entrou no escritrio de Curgo com a inteno dt fugir am pouco  algazarra _que ia pelas outras salas. O Pe. Romeno estava demasiadamente .loquaz. O 
Dr. Torbio, empapado de lcool, derrubava b Imprio. O baile ficava cada vez mais animado e  Veiga tinha acabado de gritar: "Polca de damal" Antes. que. algema 
daquelas matronas gordas o viesse convidar para danar, ele batera em retirada. Fechou a porta com cadado e foi direito 3 cadeira de balano.
- Aoade vai? - perguntou ama voz. Nnm sobressalto, o mdico voltou a cabea para o canto da pea donde viera a voz e viu Bibian sentada numa poltroaa.
- Como foi que noo vi vassnnc a?
- Porque est ficando velho, com a vista avariada.
Winter sorria, sentou-se perto da amiga e dezon escapar nm
sospir de alvio.
- B verdade. Estou envelhecendo. J no agento mais muito baralho: Vm aqui descansar nm ponto, pois j me fizeram danar doas valsas.
Fiaram por alguns instantes em silncio, estafando a polca que os gaiteiros tocavam, e as risadas dos pares. O escritri estava alarmado apenas-pala luz do lampio 
que se achava sobre a mesinha janto da qual Winter se sentara e de onde agora lanava para Bibiana nm olhar. oblquo.
ISMALIA CA1tE        647

- Por qne  que est to abichornada?
- No estou abichornada.
- Est, sim. Conheo muito bem a minha freguesia.
Ela enoolhen os ombros mas contiauon calada. Vinha agora. da sala o tant bardo e cadenciado de ps que batiam no soalho.
- D licena de fumar? - pediu Winter.
A velha tornou a sacudir os ombros.
- Se en digo que noo, vassnnc fica a triste como terneiro desmamado. Acenda um dos sena mata-ratos. Mas levante nm ponto a vidraa pra fumaa no ficar toda aqui 
dentro.
- Est bem. No fumo. A coisa no  "to argente assm.
- Fnme. J disse que pode. Se no fumar, en tomo isso como desfeita.
Winter tirou do bolso nm charatinho, acendeu-o, puxou ama baforada e depois insistiu:
- Vassnnc est abichornada, sim. Alguma coisa acateceu.
Bbiana nada disse.. Encolhem-se mais sob o emale, pigarreou em surdina e continuou a olhar para a janela. A polca, os gritos e as batidas ritmadas continuavam.
- Qne horas so? - perguntou ela.
Winter tirou o relgio do bolso, aproximou-o do lampio e olhou.
- Faltam vinte pra meia-noite.
De novo se fez silncio entre os dois amigos. O mdico seclinon a cabea contra o respaldo da cadeira e cerrou os olhos. Alguma coisa havia acontecido, e ele sabia 
qne Bibiana acabaria por contarlhe fado: era questo apenas de tempo. Podia esperar. A vlha era assim. Quando estava doente - o qne era raro - fazia mil rodeios 
antes de admitir qne sentia algema coisa ; depois  que, aos pontos, ia contando soas dores, -mas achando que no tinham importncia, iam passar on podiam ser aliviadas 
com seus chs caseiros.
A msica de repente cessou. Soaram palmas e gritos, e os gaitemos bisaram a polca.
- A Ismlia chegou - disse de repente Bibiana, sem. nenhum prembnlo.
Winter abria os olhos e entesou o basto.
- Ao Sobrado?
- L fora. O Corgo ind"agorinha foi com ela pro fendo do quintal e ficaram l um tempo.
O mdico no achou o que dizer. Limitou-se a entortar a cabea e ficar assim com um jeito hesitante.
- Imagine s - continuou a velha. - Com festa em casa, a aviva aqui dentro, nem ao menos .. .
Calou-se o Dr. Winter ficou olhando fixamente para a ponta do charatinho e depois, sem olhar para a amiga, murmurou:
- Coisas de moo. Isso passa.
#648        O CONTINENTE

No fundo sabia que no era assim. Conhecia Curgo e conhecia Ismlia. O rapaz era obstinado em suas paixes e o diabo da rapariga tinha realmente um certo encanto.
- Deus le oua! - fez a velha. - Mas eu duvido.
Ficaram a conversar sobre outros tempos e outras aventuras. amorosas de Curgo. E Bibiana desatou a rir, recordando a- "histria da mulher do mgico". Licurgo devia 
andar por volta dos vinte anos quando apareceu em Santa F uma companhia de circo de cavalinhos que armou o seu barraco. na praa, perto da figueira. Tinha um malabarista, 
um equilibrista, um contorcionista, cachorros amestrados, dois palhaos que s falavam espanhol, e um mgico ixaliano, um sujeito gordo e vermelho, de grandes bigodes 
pretos, casado (casado? qual! decerto amasiado... ) .com uma mulher ruiva. Trabalhavam os dois num palco, ele todo de sob~ecasaa preta e gravata branca e ela - a 
desavergonhada - vestida de homem, bem como esses pajens das histrias da carochinha. Os homens de Santa F andavam assanhados com a piguancha: iam ao circo s para 
verem a mulher do mgico. Chamava-se Maria, imagine, nome de gente direita, nome da Virgem! Aparecia com carmim nas faces, uma sombra- azul ao redor dos olhos muito 
saltados e azuis, e ficava todo o tempo rindo para os machos que estavam nas arquibancadas ou nas cadeiras. E eles lhe diziam cosinhas ... Imaginem que at
- Fandango perdeu a cabea ; no queria mais voltar para. o Angico, ia a todos os espetculos e quando a mulher do mgico apareewsi, o velho gritava -das bancadas: 
"Eta potranca estrangeira bem linda!"
- ficava rindo e se babando. O mgico fazia coisas do arco-da-velha, dizia umas bobagens em italiano e tirava ovos d nariz da mulher, fazia o vinho virar leite, 
dava um tiro num caixa vazia e l de dentro saa uma pomba voando. 1VIas o .nmero de. mais sucesso era o em que o mgico botava a mulher dentro dnm caixo, mandava 
dois homens da assistncia amarr-la com cordas e cobri-la com um pano preto, depois. dizia umas bobagens        !, abria de novo
- caixo e a mulher no estava mais l dentre Ias o Curgo, qne noo era mgico nem nada,- fez um dia a mulher do italiano desaparecer. Havia algum tempo que andava 
de namoro com eia. Uma bela manh o italiano acordou no seu quarto no hotel ali na Rua do Comrcio e noo viu a mulher na cama. Onde est? Onde noo est? Mas lugar 
pequeno  o diabo, a gente d um espirro e todo o mundo ouve. O italiano logo descobriu com quem andava a safada
-        se tocou como um louco para o Sobrado.
Bibiana ria o seu riso macio.
- Parece que estou vendo a cara do homem - contou ela. - Chegou perto de mim, com os olhos cheios de lgrimas, e falou l na sua lngua arrevesada, queria que eu 
desse conta da mulher dele. Respondi: "U! Vassunc noo  mgico? Pois faa a sua mulher aparecer."
ISMALIA CARA        649

Winter levantou-se para ir erguer um pouco a vidraa e, ao voltar para sua cadeira, disse:
- Mas confesse que vasunc estava alarmada...
A velha franziu os lbios.
- Muito no. O Licurgo tinha me deixado um bilhete dizendo que a pro Angico passar uns dias com a gringa. Vassunc sabe, doutor, ele sempre teve muita franqueza 
comigo. O menino se criou assim, sempre me contou todas as patifarias que fazia, a comear com as chinocas do Angico. Vassunc sabe, ele  neto do Cap. Rodrigo. 
Quem herda no furta.
Winter sorriu. As proezas erticas do Cap. Rodrigo que no passado tinham sido uma fonte de inquietao e dissabores para D. Bibiana, agora lhe serviam como motivo 
de humorismo e" ela parecia orgulhar-se de ter tido um marido "alarife".
- Sempre achei que  mil vezes melhor um rapaz fazer. todas essas coisas em solteiro, pra depois de casado sossegar o pito e cuidar das obrigaes. - Calou-se. Seu 
rosto ficou de novo srio. -  por isso que a histria com a Ismlia me preocupa. A coisa com a mulher do mgico durou uma semana. O circo foi embora. O Curgo andou 
uns dias abichornado, querendo seguir os burlantins at Santa Maria, mas acabou esquecendo. Teve outro rabicho por uma castelhana: durou um ms. Parece que quando 
foi a Porto Alegre andou metido com uma polaca ... mas a cosa no durou muito tambm. Mas com a Ismlia  diferente.
- Um dia h de acabar - disse Winter sem muita convico.
Os gaiteiros tocavam uma mazurca. A luz do lampio ali no escritrio morria aos poucos. Winter estendeu o brao e, fazendo subir a mecha, avivou a , chama.
- E  por essa e por outras. - concluiu Bibiana com um tom magoado na voz - que o Curgo est com vinte e nove anos e ainda solteiro. Estou beirando os oitenta e 
ainda no vi os meus bisnetos. Eu que tanto queria a casa cheia de crianas!
- Pois elas ho de vir. Tudo chegar a seu tempo. O Curgo casa o ms que vem. L por ... deixe ver. - Fez a conta nos dedos. - L por abril de 85 podemos ter choro 
de criana no Sobrado. Em 86 pode aparecer outro bisneto... No  possvel apressar a natureza. Tenha pacincia.
- Pacincia eu tenho, mas  que duma hora pra outra posso bater com a cola na cerca .. .
- Aposto todo o meu dinheiro como vasunc passa dos noventa.
- E se eu morrer antes, quem vai pagar a aposta?
- Vassunc no morre.
- A verdade  que ningum quer morrer, nem os que so desgraados, os que sofrem muito.. Medo da morte, medo mesmo no tenho. Mas querer morrer, isso no quero. 
- Encolheu-se
#65O        O CONTINENTE

mais sob o gale. - Vassunc bem podia fechar a vidraa. Est entrando uma friagem. Dizem que a morte gosta de entrar pelas janelas .. .
Winter ps-se de p e foi baixar a vidraa. Lanou um olhar pau fora. Viu os lampies alumiando a solido das ruas e um vulto deitado na calada da praa. Devia 
ser. o Jacob Geibel.. . Que estranha criatura, aquela? Nas noites de ventania - contavase - o sacristo saa como um louco a andar sem destino certo pelas ruas, 
falando sozinho e gesticulando, com o jeito de quem quer fugir de algum ou de alguma coisa.
- Pos , doutor - disse a velha, depois que Winter tornou a sentar-se - agente se habitua tanto  vida que no fim viver, fica sendo uma espcie de cacoete.
O mdico soltou uma risada.
- Estou de pleno acordo. Viver  mesmo nm cacoete! Atirou a ponta do charutinho na escarradeia que tinha a seas
ps e ficou minado a velha com olhos cheios de simpatia.Quedaam-se ambos por algum tempo calados, a escutar a m
sica.
De repente, sem saber bem por que, Bibiana teve um pressentimento de desgraa.
- Acho que alguma coisa ruim est .pra acontecer .. ~. - murmurou.
O Dr. Winter franziu a testa e perguntou - Por qu?
- Tive um palpite ... uma coisa aqui ... - E a velha espalmou a mo sbre o peito. - Nunca me engano.
- Qual! No h razo pra isso. Tudo est bem: o .Corgo vendendo sade, os negcios marchando direito. E depois, que diabo! faz j quatorze anos que noo temos guerra 
nem revoluo.
- Pois  justamente isso que me d medo. Quando a esmola  demais o pobre desconfia. Depois da guerra com os paraguaios o tem havido barulho. - Lanando um olhar 
malicioso para o amigo, acrescentou : - Ano ser aquela guerrnha contra os seus patrcios .. .
Winter pigarreou, meio embaraado, mas nada disse. No gostava de falar no assunto. Bibiana referia-se aos l~luckers, uma seit de colonos alemes qne se formara 
no Ferrabraz, nas prozimidade de So Leopoldo, em torno dum carpinteiro que ,vinn cnnadeir~ e de sua mulher, Jacobina, estanha criatura sujeita a ataque peridicos 
de catalepsia. Merc de suas interpretaes da Bblia de suas "curas milagrosas", Jacobina conseguira fanatizar seus adeptos, levando-os a estranhas prticas. E 
tudo no teria passado dama tolice inocente se os l~luckers noo se pusessem a hostilizar os colonos que noo faziam parte da seita, chegando ao ponto de assassinar 
alguns deles e incendiar-lhes as casas.. E a Provncia,
ISMALIA CARB        651

estarreida, vira aquele incidente local transformar-se num srio caso de polcia e degenerar mais tarde numa pequena guerra intestina, em qne o governo, vendo derrotado 
o primeiro destacamento policial que fora. atacar os 1Gluckers, tivera de mandar uma segunda egpedio mais numerosa e com artilharia, a qual s  custa de muitas 
baixas e ao cab de numerosos e encarniados combates conseguiu tomar a cidadela dos fanticos. Contaram-se, na poca, histrias sangrentas e cruis dessa campanha. 
O curandeiro, que as foras legalistas noo tinham conseguido capturar, fora encontrado mais tarde enforcado nas matas do Ferrabraz. E Jacobina; que estava grvida 
de muitos meses, tivera o ventre trespassado por uma baioneta.
Durante a "Guerra dos Muckers" o Dr. Winter escrevera a seu amigo Von Koseritz: ..esse lamentvel episdio vem confirmar a opinio que tenho de meus compatriotas: 
individualmente so excelentes, sensatas pessoas, mas quando reuniaos em grupos aeabam sempre fazendo alguma asneira brutal. Creio, porm, que Goethe j disse isso 
antes de mim e em muito melhor alemo. Seja como for, s vezes chego a achar que a unificao da ~ilemanha foi um erro. Temo que depois da vitria de Sedara, embriagados 
de orgulho nacional, os alemes tomem gosto pelas guerras (H um ditado gacho que conheces: `Cachorro que come ovelha uma vez...") e no possam mais passar sem 
elas. Parece-me que homens como 16lozart e Hene s podem ser produzidos por naes que noo perdem tempo nem energia em arquitetar guerras e multo menos em lev-las 
a cabo."
Fingindo noo ter percebido a deixa de Bibiana, Winter disse:
- H de chegar o dia em que noo .haver mais guerras.
Ele prprio noo acreditava no que acabava ele dizer. As guerras tolas noo acabariam nunca pela simples razo de que os homens jamais deixariam de praticar as tolices 
que levam os povos  luta.
Bibiana olhava fixamente para a chama do lampio. Os gaiteiros fizeram uma pausa dentro da qual se ouviram palmas, gritos, risadas e batidas de p. Depois comearam 
a gemer uma valsa lenta e sentimental. Winter abafou um bocejo. Olhando para Bibiana, viu que uma estranha transformao se operava no rosto da velha. Era como se 
ela estivesse sozinha no casaro e de repente ouvisse nm rudo de passos suspeitos na sala contgua ... L estava ela de cenho franzido, olhos vidrados, mos crispadas 
sobre a guarda da cadeira, busto retesado .. .
Que seria? De repente Winter compreendeu... A valsa que os gaiteiros tocavam era uma das que Luzia mais gostava de dedilhar na ctara.
- Sabe duma coisa T - perguntou Bibiana baixinho, como a temer que sua voz fosse ouvida do outro lado daquelas paredes. - Ultimamente o Corgo deu pra perguntar coisas 
sobre a me.. .
#652        O CONTINENTE

O mdico sacudia vagarosamente a cabea.
- Quer saber como ela era, donde tinha vindo ... - prosseguiu a velha. - En fico meio desajeitada, noo sei se devo contar tudo. As vezes tenho ~ vontade, porque 
a verdade nona fez mal a ningum.
- A verdade agora nada adianta. Luzia est morta. Bibiana sorxin enigmatiamente e por alguns segundos ficou a menear a abea lentamente.,
- No est to morta. omo vassunc pensa.. .
Estas palavras foram como gua fria no esprito do mdico. Foi-se-lhe de repente o sono e ele ficou alerta.
- Que  que vassunc quer dizer com isso?
- No se passa um ms que eu no sonhe com ela. Sonhos loucos que me deixam cansada como se en tivesse passado a noite em claro. Me vejo sempre s voltas com ela, 
conversando, discutindo, brigando ... Enxergo tudo to claro .como se ela ainda estivesse viva. Vassunc sabe,- o quarto dela est bem _direitinho como no tempo 
que ela estava neste mundo. No u mexeu em nada.
Fez uma pausa. A chama do lampio comeava de novo a morrer
-        Winter j no podia distinguir bem as feies da amiga.
- Quem guarda a chave dourada do quarto  o Curgo. No deixa ningum entrar. l. As vezes o menino se levanta no meio da noite, mete-se no quarto da me e fecha 
a porta.
- E o que  que faz l dentro?
- Sabei-me l! Acho que fia remexendo nos bas e gavetas dela ... e lendo um cuaderno onde ela escrevia_ umas bobagens. En at no sei por que noo rasguei a mas 
tempo .esse cuaderno... O Curgo tem ada coisa! Agora deu pra querer saber por que foi que a me noo deixou nenhum retrato .. .
Winter franziu a testa.
- Mas eu me lembro que l por 69 ou 7O andou por aqui um
fotgrafo francs que tirou uns retratos da Luzia, no fo?
Por alguns segundos Bibiana hesitou. Depois,, sem olhar para
-        amigo, respondeu
- No me lembro.
Mas Winter agora se lembrava com clareza. Vira muitos retratos de Luzia no Sobrado at o dia de sua morte. Por sinal havia um com moldura dourada em cima do consolo 
... Sim. Luzia de preto sentada numa ordeira de respaldo alto, as mos adas sobre
- regao, a segurar um leque. Todos aqueles retratos tinham desaparecido de repente ... Olhou para Bibiana, pigarreou de leve
-        soma.
De novo a velha falou
- Sabe o que foi que o Corgo me disse um dia destes? Disse: "Vov, s vezes quando passo no corredor pela porta do quarto da mame, tenho a impresso que ela est 
l dentro me esperando,
ISMALIA CARA        653

porque quer falar comigo ... " Ora, j se viu? E uma coisa atf diferente do Curgo, dizer isso. Onde se viu esse amor assim de npente? O menino no era assim. Duns 
dois anos pra c  que mudou. Chegou  me dizer at que tem remorsos.
- Remorsos de qu?
- De no ter sido bom filho, de noo ter gostado da me como devia. Vassunc j ouviu maior disparate? Bom filho ele foi. Ela  que no soube ser boa me. - Bibiaaa 
teve um estremecimento e, mudando de tom, disse: - Estou fiando gelada. Ser que est" frio mesmo, doutor, on .. .
.Winter no ouviu o resto da frase, no s porque Bibiaaa o pronunciou num sussurro inaudvel mas tambm .porque ele logo se perdeu em pensmentos. Estava  lembrar-se 
dama curiosa conversa que mantivera com Licurgo, havia menos dum ms. Primeiro com ar fingidamente casual e depois com indisfarvel interesse, o rapaz lhe fizera 
perguntas sobre a me. Queria saber exatamente de que morrera ela, e se era realmente bela como ele a tinha em soror memria. Por fim mostrara-lhe o dirio da aie 
e fizera-o ler alguns . trechos assinalados. Havia nm que deixara Winter particularmente impressionado. -Fora. escrito nos .ltimos dica da vida de Luzia.        .
Estou me acabandq devagarinho. Ontem ainda me olhei no espelho. Eu era bonita, agora estou que acra caveicq: 1las gosto de me olhar, e quando me vejo assim envelhecida, 
acabada, horrluel, fico at alegre. Sempre que me enxergo no espelho digo pra mim mesma. "Bem-feito, Luzia, bem-feito." Acho gtte nunca gostei de mim mesma e que 
toda a minha vida no passou dota suicdio bento, miudinho. S no sei o que foi, que eu fiz pra .mim mesma para me odiar dessa maneira.
Essas palavras haviam deixado Winter perplexo. No s< tra
-        fava apegas de mera atitude literria duma moa influenciada pela leitura de Noites na Taverna e dos contos de Hoffmaan.. Era algo de mais profuado que 
ele no compreendia; mas que o deixava perturbado.
Winter ficara com. a impresso de que Licargo se atormeatava quando la as pginas daquele dirio escrito com letra mida e regular, e ao qual Luzia confiava suas 
mgoas, soror revolta wntn Santa F e soas angstias de prisioneira. E o que mais intrigava o rapaz era o fato de Luzia no ter mcnconado -seu nome ama vez sequer 
naquelas pginas. A verdade, porm, era que havia no dirio muitas folhas amornadas. Mas amaradas por quem? Com que propsito? E que haveria nessas pginas?
- Quando Licnrgo lhe perguntara "Que  que o doutor acha de tudo isto?", -ele lhe respondera com toda a fraagneza: "Acho que vassunc deve esquecer, esquecer tudo. 
Id na Bblia um veracalo que diz: `Deixa que os mortos sepultem os acua ,mortos"."
#65~F        O CONTINENTE

- Ostro que no esquece  a Floracio - ajuntou Bibiana. - E se ele no decide vir morar no Sobrado com a famlia  ainda por causa daquela mulher .. .
No vestbulo algum gritou: "D. Bibiana!" De repente a porta se abriu. e Fandango irrompeu no escritlirio, exclamando:
- T3 quase mea-noite, minha gente. Venham I V o soltar o balo. ,Dpoia todo o mondo vai danar a quadrilha dos lanceiros.
Sem esperar resposta, fez mcia volta .e se foi, no seu passo lpido de bailarim.
Bibiana suspirou fundo, ergueu-se lentamente, deu alguns passos na dreo do mdico, parou junto dele e murmurou:
- Nunca me agradei da cara dessa china, a Ismlia. No princpio eu no sabia por qu. Aggra sei .. .
Ficou esperando que o Dr. Winter perguntasse: "Por qu?" N1as ele. permaneceu calado, os olhos fitos na amiga. Das outras salas vinham, agora mais fortes, as vozes 
dos convivas. Os gaiteiros romperam a tocar os primeiros compassos dama quadrilha. Bibiana iadinon-se para o mdico" e esclarecer:
- O diabo da menina tem na cara, nos olhos, no jeito, qual. quer coisa que lembra a me do Corgo.
Winter encarou por alguns instantes a interlocutora e depois, levantando-se tambm, disse:
- L verdade. A Luzia no est to morta _como muita gente pensa.
Lado a lado e silenciosos, os dois amigos voltaram a passo lento para a festa.
No h em Santa F quem no conhea o velho 14laneco Lrio major da Guarda Nacional
veterano do Paraguai ledor de almanaques charadista consumado
e monarquista dos quatro costados.

Todos os .dias antes de nascer o sol
l est ele na frente da casa
de bombachos e em mangas de camisa, a tomar seu chimarro seja inverno, primavera, outono ou vero.

Depois do almoo vai sempre dar um dedo de prosa na farmcia e  noite joga sua partidinha de gamo cote o coletor federal.
Sofre de bronquite asmtica
e fuma com crta relutdncia cigarros de cartucho roxo.

LC catlico por tradio mas noo reza nao vat a missa no gosta de padre.
Em festas familiares nunca se faz rogar: basta que peam uma ue2 Recite um verso, major
(principalmente quando quem pede  uma dama)
d dois passos  frente,-limpa o peito e solta a voz de cascalho lquele "Ranchinho", da lavra de Lobo da Costa.
#656
Tu me perguntas a histria daquele triste ranchinho,
que abandonado encontramos, coberto por negros ramos de pessegueiro maninho, aquele rancho de palha, aquel triste ranchinho?

 num tom cavo e macabro que diz o ltimo verso

No outro dia os destroos de um rancho viam-se ento;
-        incndio levara tudo
-        fora cmplice mudo,
fora cmplice o trovo!
- a tens a histria que pedes do ranchinho do serto.

O majoc  vivo e s tem um filho, que  a menina de seus olhos mas agora vive sozinho, na sua meia-gua branca da Rua Voluntrios da Ptria.
Nas paredes midas de sua sala de visitas, trs retratos o de D. Pedro II
-        do Conselheiro Gaspar lblartins
-        o da Falecida, que Deus a tenha em Sua Santa Glria Amm!

So seis horas da tarde, na primavera de 93. O major olha o calendrio
uma tricromia onde cisnes brancos nadam num lago azul por entre nelumbos e vitrias-rgis
brinde d Casa Sol a seus prezados favorecedores. Franze a testa
Diacho! Hoje  15 de novembro.
Arranca a folhinha e l a efemride
1889. O l~lal. Deodoro proclama a Repblica.
Ch mico! Antes no tivesse proclmado coisa alguma e ficasse
em casa quieto, deixando a nao em paz.

l~laneco Lrio vai sentar-se  janela, com a cuia de mate, uma chaleira d"gua quente
-        mais suas lembranas e mgoas.
Na calada fronteira meninos jogam sapata
no meio da rua meninas fazem roda- e cantam no cu pisca-pisca a estrela vespertina.
657

O major volta a cabea para dentro d sala e olha com ternura
-        retrato do Imperador. Expulsarem do pas um -homem como esse .verdadeiro neto de ll~larco Aurlio!

Na rua as menininhas cantam

O meu belo do Castelo mata-tira-tiracei
Amigo de grandes homens como o Papa, Lamartine, Pasteur
-        outros
soberano democrata pai -dos necessitados sbio como poucos.
Traduziu o Velho Testamento do hebraico para o francs
-        "Jlio Csar" de Shakespeare para o latim
os poemas de Longfellow para a lngua materna
-        fazia sonetos adamantinos da mais pura inspirao. Versado em Astronomia
olhava a lua em telescpios .
estudou in loco as runas de Pompia
conhecia os museus da Europa como a palma .de sua augusta mo

Na calada os meninos tiram a socte
Canivetinho pintadinho gorro, mingorro tua mo est forro.

E apesar de tudo isso era a modsti em pessoa
O grande Vicroc Hugo, o vate de "Os l~liserveis", recebeu a
Imperador em sua casa de Paris
chamou o netnho e disse Beije a mo de Sua l~lajestad.
Vai ento o nosso Monarca aponta para o poeta e exclama Esta sala, mon enfant, agora s tem uma majestade: vosso av.
Expulsarem do pas um homem como sse!
Se esta rua fosse . minha Eu mandava ladrilhar
De pedrinhas de brilhante Para o meu amor pasar
#658
Doutra feita, na Amrica do Norte, sem cortejos nem faniarraa, tomo um simples viajante
nosso D. Pedro II visitou a Exposio do Centenrio, na cidade de Filadlfia
Falu com Alexandre Graham Bell, mas no se deu a conhecer S perguntou
Que diabo de aparelho  esse que vosmec tem na mo?
Pois  uma maquinazinha em que botei muito engenho. Quer experimentar? Encoste ete canudo. no ouvido e escute.
-        Soberano encostou, o inventor foi. paru outra sala e comeou a falar dentro dum funil.
E de repente Sua Majestade sentiu cocega no ouvido, pois do canudo saa uma voz
Santo Deua! Esta coisa fala.
-        da outra ponta do fio Alxandre Graham Bell dizia:
Isto  .o telefone. Dentro de pouco tempo todas as casas do
mundo vo precisar_ dum aparelho assim.
D. Pedro entusiasmado abraou o inventor e disse:
Quero fazer uma. encomenda desses tais de telefones pro go
verno do meu pas        "
Mas afinal de" contas quem  o senhor? Imperador do Brasil..
-        outro quase caiu pra trs.
E foi um homem como esse que os republicanos mandaram embora.
~        Seu Joo das Calas Brancas! Pronto, mu amo!
Quantos pes ,tem no forno? Vinte e cinco e um queimado. Quem foi que queimou? Foi o Bico de Lato.
Ora pega esse ladro
na panela de feijo.

Tudo foi obra desses moos da propaganda republicana.
Viviam com a cabea cheia de idias da estranja.
Queriam a abolio Tiveram
-        pioraram a srte dos negros. Queriam a repblica Tiveram
Derrubaram a monarquia Instituram" a anarquia Mandaram embora o Imperador que morreu, coitado, no exlio.
Mudaram a nossa bandeira
que agora  ordem e progresso.
S por milagre no mudaram o hino nacional
-        pas est entregue  camarilha positivista. Foram mexer com o Exrcito
que no tempo do imprio vivia quieto no seu canto Corremos agora o perigo duma ditadura militar. " E daqui por diante ningum vai fazer mais nada Sem primeiro ouvir 
e cheirar os generais.
-        o resultado dessa beleza  o que vemos
S aqui no Ro Grande de 89 a 9O tivemos cinco governos Botaram boal na imprensa hou~ tiroteio nas ruas
a canhoneira Maraj quis bombardear Porto Adegre,.
-        que o povo anda descontente
ds que mandaram o Velhinho embora.

Deodoro fechou o Congresso deu o seu golpe de Estado logo depois renunciou veio a revolta- da esquadra com o Custdio Jos de Melo a revoluo no Rio Grande
-        a ditadura do Floriano.
-        ningum se entende mais.
659
Ciranda,. cirandinha Vamos todos cirandar Vamos dar a meia. volta A meia volta vamos dar

Mas no meei fraco entender, s existe um homem no mundo capaz de salvar o pas        "
- Conselheiro Gaspar Martins, honra e glria da nao gigante no fsico e no moral, no saber e na inteligncia conhecedor de quinze lnguas entoe vivas e mortas 
r mais eloqente que Gambetta, Demstenes ou Mirabeau E at a grande Eleonora Duse, quando viu o Conselheiro disse l na sua lngua dela
Que magnfico Otelo ele no faria!
-        quando Gaspar Martins solta o verbo "de fogo
com sua voz de trovo
os pigmeus da Repblica se encolhem.
Pois o nosso Conselheiro  contra esta situao
E nas campinas do Rio Grande deu o grito de revoluo
#66O
E de todos os quadrantes surgiram federalistas e gaaparstas de leno colorado no pescoo
E meu filho Jos Lrio foi o primeiro a se apresentar. Os dias do Castilhismo esto contados.

Rei, capito Soldado, ladro Faca na cinta Pistola na mo.

Eu no sei o qe  .que estou fazendo aqui parado
que no azeito as minhas pistolas nem limpo a minha espada
-        boto um leno vermelho no pescoo e vou tambm pra coxilha com as foras dos maragatos.
No estou to velho assim que no possa dar uns tirinhos ou manejar uma espada.
Porque  bem como o Conselheiro diz Idias no so metais que se fundem.

Senhora D. Cndida Coberta de ouro e prata Descubra o seu rosto Quero ver a sua graa
Um apito de trem vara como uma lana o devaneio do major. 1Glaneco Lrio tira o relgio do blso e olha o mostrador
Seis e meia. O trem de carga de Santa 161aria est no horrio ouro e fio

O trem agora vai passando
pela frente do rancho de Quirnas Car
que sai para fora com a mulher e os filhos
-        ficam rodos olhando de boca aberta para a locomotiva

E depois que o trem desaparece na curva do .cemitrio Quintas cospe nd cho, volta-se para a mulher e diz com ar de entendido
Esse bicho traz seca.
S O B R A D O - V I I
27 de junho de 1895: Manh
~o clarear do dia o sudoeste irrompe em Santa. F. De seu poeto l " na gua-furtada, Faadaago, a quem tocou o ~ ltimo quarto da viglia da noite, contempla o cu 
e "tem a impresso de que  o minuano que vai apagando aos pouca com seu sopro de -gelo aa ltimas estrelas. Das rt!ores agitadas cai um chnvisqueiro de sereno. 
A figueira grande, que a geada prateia, parece uma cabea que envelhecer durante a noite. Tiritando de frio, o rosto- muito prsmo da vidraa, setindo aa ponta 
do nariz o contato gelado do vidro, o veiho capataz agora espia a rua. L est o maragato morto todo coberto de geada ... Quem ser o infeliz? Decerto algum pai 
de famlia. Amanh a revoluo termina, os .inimigos de hoje fazem as pazes, mas os que morreram no voltam mais.
Fandango suspira. ~Gnerra malvada! Irmo contra irmo, amigo contra amigo. O Fandaagninho dum lado e o -Juvenal do outro: A esta hora decerto jia degolaram tambm 
o Aatero... No deve
-        brinquedo levar nm talho de faca com um frio destes. Craz credo I
Fandango pensa nas gargantas abertas que viu ,desde que a revoluo comeou. Curgo vive dizendo que os maragatos sio barlidos. Mas quald Todo o meado sabe que h 
gente boa e gente raim doa dois lados. 131e se .lembra do Boi Preto, onde a Diviso do Norte pegou duzentos federalistas . dormindo num acampamento e liquidou todos 
a arma branca. E o caso do Gumercindo Saraiva ~ Foi enterrado num dia pelos companheiros e desenterrado no ou
- pelos inimigos. Contam at que um chefe repnblicaao gritou: , "Quero as orelhas do bandidos" - e passou-lhes a faa. Uma sangueira braba, uma perda horrvel de 
vidas, de ,dinheiro e de tempo! E no entanto o mando tem tanta coisa goatosal Mulher bonita, cavalo bom, baile, churrasco, mata .amargo... Laranja madura, melancia 
fresca, uma guampa de leite gordo siada quente doe beres da vaca ... Uma boi prosa perto do fogo ... Uma pescaria, .uma caada, uma sesta debaizo dum umbu... Tanta 
coisa!
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Para esquecer o frio, a fome e as mgoas Fandango pe-se a assobiar.
E o vento, qne assobia mais forte, faz trepidar as janelas do Sobrado, entra pelos buracos dos vidros quebradas, pelas frestas dos postigos e vai enchendo a casa 
com seu bafo polar. Um jornal que .veio noo se sabe donde, esvoaa no ar, sobe  desce em movimentos agnicos de pssaro ferido, e h nm momento em que Ba aberto 
e como qne colado  parede da igreja, mostrando Ocabealho da primeira pgina em letras garrafais: - OS FEDERA
LISTAS DERROTADOS. EM CAROVII: depois torna a cair, rola na
calada e  levado pelo minnano num vo rasteiro, Rua dos Farrapos em fora.        .
No Sobrado os homens esto quase todos acordados. Passaram a note ao redor do fogo, agarrados uns aos outros, numa busca meio inconsciente de calor e aconchego, 
e agora esto vagamente envergonhados dessa promiscuidade, como se tivessem feito algo que um homem que se preza noo faz com outro homem. Esfregam as mos, batem 
ps, tossem, pigarreiam, escarram, bocejam ... Mas nada dizem. porque decerto acham qne nada mais tm a dizer.
.Quando Fandango desce, seu prireiro +cuidado  o de ir ver como Florncio passou a noite. Encontra-o ainda a dormir, com a cabea atirada para trs e pousada num 
travesseiro: Bem bom que o velho est descansando - reflete o capataz. O coitado merece.
Volta-se para os homens e cochicha:
- No faam muito baralho, que seu Florncio . est dormindo.

O sol j apareceu por trs dos meros do cemitrio. A velha Bibiana est de novo a balanar-se na sua cadeira. E Cargo, que dormia algemas horas de sono pesado no 
quarto de Flornco, acorda de repente num sobressalto, com ama sensao de desastre iminente. Atira as pernas para fora da cama, e, zonzo, os olhos piscos, fica 
tentando varar a~ nvoa da sonolncia, para ver o qne acontecer... Qne foi? Rompeu de novo o tiroteio? Morreu algum?
Maria Valria ali est, parada no meio do quarto, o rosto voltad para ele.
- Que  qne quer? - pergunta, untado com a desagradvel
impresso de que a cunhada esteve a espion-lo.
- Nada. Vim s ver se vassnnc estava dormindo. - Me acordei agora.
- Estou vendo.
- Acontece_n alguma coisa?
- No.
- Como vai a Alice?
- A febre baixou um ponto.
O SOBRADO - VII        663

Cargo passa a mo pela cabea num gesto perdido.
- Dormi como uma pedra - murmura, como a penitencias
se dam ato reprovvel.
- Era de sono que vassunc precisava. - E o seu pai?
- Est l em baixe. Parece que finalmente conseguiu dormir. - O Antero deu algum sinal de vida? - No.
- Eu bem disse que noo ia adiantar nada .. .
- Mas algum precisava fazer alguma coisa, noo ? - En sei 1
Sentado na beira da cama, Licurgo mantm os olhos baixos,
pois sabe que nao lhe  possvel olhar de frente para a cunhada,
cuja presena chega a ser-lhe quase repulsiva.
- As laranjas esto se acabando e noo tem mais farinha em
casa. No sei o que  que vou daY pros homens comerem hoje.
Ble tem ganas de responder: "Me matem, me carreiem, me
comam l" Imvel na sua frente, Maria Valria espera. Parece que
o bafo gelado que entra no quarto no vem de fora, vem dela. E
quando esta mulher fala, ele sente sua voz como ama lixa a raspar
lhe os nervos.
- Me diga! Que  que vou dar pros .homens?
Por que noo dorme com eles? - pergunta-lhe Licurgo em
pensamento. Assim eles esquecem a fome, a senhora fica sossegada
e me deixa em paz.
Continua, porm, calado, de cabea baixa, friccionando ner
vosamente os joelhos com as palmas das mos. De repente, vendo
as prprias unhas crescidas e sujas, encolhe os dedos para que
Maria Valria no os veja, e fica ao mesmo tempo contrariado por
ter feito esse gesto. Por que ser que ela no vai embora?
- J pensou nas crianas? Todos stes dias sem leite nem
po? E na velha?        -
De sbito ele ergue a cabea, encara a cunhada e pergunta,
agressivo:
- Qne  qne- a senhora quer que en faa?
- J lhe disse mil vezes. Bote bandeira branca na sacada e
pea trgua enquanto  tempo de salvar Alice.
Curgo pe-se de p abruptamente, inclina-se sobre a cama e
com em gesto brusco arranca-lhe o lenol.
- Pois  isso mesmo que eu voa fazer agora? - exclama. -
E depois no me culpem pelo que acontecer.
Maria Valria fita nele os olhos plcidos e melanclicos e mur
mura
- Era o que o sephor devia ter feito h muito tempo.
Aps uma breve hstao, Licurgo encaminha-se para a porta.
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arrastando o lenol. Neste momento vem do corredor um rudo de passos apressados, seguido duma voz: - ... de bandeira branca!
-J` ~~ Licurgo deixa o lenol cair no cho e precipita-se para fora do quarto. Jango Veiga que se acha junto da porta da sacada, a espiar pelo postigo entreaberto, 
volta a cabea para ele e exclama, meio engasgado:
- Um grupo atravessando a praa ... na frente um homem com uma bandeira branca ... parece o vigrio .. .
Licurgo aproxima-se do companheiro, olha por cima do ombro dele e avista por entre as rvores que o vento sacode furiosamente, uns quinze homens que caminham na 
direo do Sobrado, tendo  frente - sim, no h a menor dvida! - o vigrio de Santa F, que carrega uma bandeira branca na ponta duma lana. Um dos homens ergue 
o chapu no ar e solta um brado; os outros o imitam mas o" vento leva-lhe as vozes para longe.
- ~ a nossa gente - diz Jango, excitado. - L est o nanico... o Dr. Winter... est vendo?
- Estou - responde Curgo com impacincia. - No sou cego.
Abre a porta da sacada e d dois passos  frente. Respira fundo, e com o olhar abarca a praa. O vento faz esvoaar-lhe os cabelos, as barbas, o poncho e o leno 
branco que ele no tirou do pescoo desde que comeou o cerco. Sente uma repentina tontura e por momentos as imagens se lhe turvam "diante dos olhos. L em baixo, 
impelido pela ventania, um pedao de jornal arrasta-se pela rua, bate nas pernas do maragato morto, sobe-lhe pelas coxas, fica por um instante preso nas dobras do 
poncho e acaba por cobrir-lhe a cara.
Perfilado, Licurgo Cambar espera .. .
O Pe. Atlio Romano entrega a bandeira a um companheiro, adianta-se do grupo e, de braos abertos, atravessa a rua.
- Graas a Deus! - exclama, de rosto iluminado. - Graas ao bom Deus! Os federalstas abandonaram a cidade antes do dia raiar. As foras republicanas da Crnz Alta 
j entraram no nosso municpio.
Curgo baixa os olhos para o padre mas no diz palavra. Os homens esto todos agora no meio da rua, com as faces erguidas para a sacada. O senhor do Sobrado e do 
Angico reconhece os companheiros que foram aprisionados pelos federalstas durante o combate pela posse da cidade. Erguem-se no ar espadas ~ chapus, lenos e lanas. 
Viva o Partido Republicano! Viva o Cel. Licurgo Cambar! Viva o Rio Grande do Sul! Antero pe o chapu na ponta duma lana, levanta-o bem alto e, com sua voz estrdula, 
brada: "Viva o Sobrado!"
s janelas do casaro assomam aos poucos seus defensores.
O SOBRADO - VII        665

Curgo volta o rosto para a torre da igreja e com uma fixidez estpida fica a mirar o galo do cata-vento, que rodopia como uma piorra.        "
- Curgo! - grita-lhe o padre l de baixo. - No conhece. mais seus amigos? Por que no manda abrir a porta?
Licurgo faz meia volta, d alguns passos e no patamar entoatra a cunhada de braos cruzados sob o xale, esperando...
- A cidade est livre! - exclama le com a voz cheia duma exultao em que h tambm um elemento de rancor. - Os federalstas fugiram, nenhum canalha botou o p 
na minha casa!
Man grado seu, lgrimas comeam a escorrer-lhe pelas faces e,. furioso por estar fraquejando, e ainda mais desconcertado por-y que Maria Valria est percebendo 
que ele chora, grita
- A senhora e seu pai queriam a todo transe entregar o Sobrado pros Amarais. Est vendo agora o que aconteceu? Foi ou no foi como eu le disse?
Maria Valria diz simplesmente:
- No se esquea que sua mulher est passando mal. Mande o Dr. Winter subir imediatamente.
Curgo desce a escada com uma lentido nervosa. No andar trreo encontra Fandngo a cantar e a danar. A alegria do velho deixa-o agastado, pois para ele o momento 
 grave e triste: no se trata de danar e dar vivas, mas de salvar a vida de Alice, enterrar decentemente os mortos, dar de comer aos vivos e fazer ressuscitar 
a cidade.
- Mas que cara emburrada  essa, muchacho?
Os outros homens cercam o chefe,  espera de ordens. Licurgo pe.na cabea o chapu em cuja fita se l - Viva o Dr. Jlio de Castlhos! - apresilhas cinta a espada 
e ordena a .Jango Veiga, que neste momento entra na sala
- Abre a porta e mande essa gente. entrar!
Jango precipita-se para o vestbulo, desce os degraus em" dois pulos, tira a tranca da porta, d-lhe volta  chave, puxa-lhe o ferrolho e abre-a de par em par. O 
primeiro a entrar  o vigrio, que tem os olhos turvos de comoo. Abraa Jango Veiga e sobe apressado, seguido do Dr. Winter e do resto do grupo. E ili no vestbulo 
os recm-vindos e os sitiados ficam a abraar-se, a se fzerem perguntas, a contar coisas entrecortadas e atabalhoadamente. O vigrio envolve Curgo com seus braos 
atlticos e d-lhe um beijo estralado em cada face.
- Que  isso, padre? - pergunta Cargo, cnstrangido. E desvencilhando-se do sacerdote, aproxima-se do Dr. Winter, que lhe pergunta:
- Como vai a Alice?
As palavras do mdico saem-lhe da boca num bafio de cachaa. Licurgo agarra-lhe fortemente os braos.
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- Snba, doutor, soba ligeiro e salve a minha mulher. - Voa fazer o possvel.
- Faa o impossvel!
Ao dizes ist apula com mais fora os braos do outro. - Eato noo me quebre os ossos.
Curgo larga-o. Winter comea a subir a escada grande, levando na cabea uma pergunta: Salvar pra qu? Salvar pra qu?
Montados no corrimo, Rodrigo e Torbio passam por ele deslizando velozmente.
- Olha o Dr. Winter!
- O alemo batata!
Sem dar ateno aos .meninos, de chapu na cabea, encurvado
- tateante (quebrou os culos  nm ms e -com esta maldita revoluo no - pde encomendar outros) Winter sobe penosamente os degraas.
Na sala de jantar Rodrigo puxa a manga cio casaco do rmo. - Vamos toar sino na igreja?
Os olhos do outro brilham.
- Vamos!
Passam pelo vestbulo, por entre os homens, ganham a rua
-        deitam a correr na direo da Matriz. Como encontram fechada a porta da frente, contornam o templo, .entram pela sacristia, fazem um rpido sinal-da-cruz 
ao passarem pelo altar-mor, metemse no batistrio, penduram-se na corda do sino e comeam a puxla com fria desesperada. A guerra .acabou! O Sobrado ganhou a guerra! 
Viva!. Viva! Atordoado pela zoada do sino, Rodrigo encolhe-se, trmulo, arregala s olhos, assustado e j meio arrependido da travessura. Dizem que o Barbudinho 
do Padre morreu surdo e louro por causa do barulho do sino .. .
- Estore com medo, Bio! - grita le.
Mas o irmo no pode ouvi-lo. Rodrigo larga a corda, ajoelha-se no cho, fecha os olhos e leva ambas as mos aos ouvidos, tapando-os, enquanto Bio continua a badalar, 
virando cambalhotas como um burlantim.
Os ares de Santa F atroam, e o minuano como que se enrosca no som do sino, num corpo-a-corpo frentico, e se vai lutando com ele campo em fora. O galo, do cata-vento 
contnua a rodopiar. As rvores da praa farfalham. O pedao de jornal que cobre a cara do morto sobe de repente e comea a esvoaar sobre os telhados, como uma 
pandorga extraviada.
Estonteado no meio da zoada, Curgo leva os dedos s tmporas
- fica um instante de olhos fechados, procurando pr ordem nos pensamentos.  preciso fazer algema coisa. Acabam de informarlhe que o trem que partiu de Cruz Alta 
de madrugada, conduzindo as tropas republicanas, chegar dentro de meia. hora.
- Jango! -=- grita ele para o companheiro. - Providencie
O SOBRADO - V I I        6 6 7
imediatamente pra arranjar comida pra nossa gente. Veja primeiro se consegue leite pros meninos e pra D. Bibiana. - Volta-se para o vigano e diz: - Padre, venha 
comigo.
- Aonde vamos?
- Vou primeiro tomar conta da Intendncia. Acho que vassnnc noo se esqueceu que ainda sou intendente de Santa F .. .
- Claro que noo, coronel.
- Depois quero passar um telegrama pro Dr. Jlio de Castilhos.
Ergue a voz e pede silncio. Os homens obedecem-lhe, mas o sino continua a tocar, a tocar .. .
- Quem quiser vir comigo que venha! - grita Licurgo.
Todos querem. Saem num grupo compacto, com o dono da casa e o padre  frente. Marcham lentamente, numa gravidade religiosa de enterro:  como se estivessem saindo 
do Sobrado conduzindo um defunto, rumo do cemitrio.
- Por que mandou tocar sino desse jeito, padre? - pergunta Licurgo, franzindo o cenho.
- Eu noo mandei coisa nenhuma, belo!
- Devem ser os seus filhos, coronel - esclarece um dos homens. - Vi quando eles saram ind"agorinha correndo pra igreja.
No meio da rua Licurgo detm-se ao p do inimigo morto, e, tapando o nariz com um leno, baixa os olhos. para o rosto dele. A princpio tem a impresso de que aquela 
fisionomia lhe  desconhecida. No leva, porm muito tempo para identific-la, pois v na face do defunto os olhos verdes e mosqueados de Ismlia.
- Joo Batista!
- Pronto, coronel.
- Mande enterrar imediatamente esses maragatos!
Diz isto e retoma a marcha. O negro olha para o morto e murmura
- Quem havia de dizer! O Mauro Car atirando contra o Sobrado! A gente dele sempre viveu nas costas do Cel. Licurgo. B o mesmo que comer e depois cuspir no prato. 
H muita ingratido neste mundo!
Cuspinha, enojado.
De longe o padre lhe grita:
- No enterrem os defuntos sem encomendao. Levem os corpos para a igreja, que eu j volto.
Licurgo caminha de cabea erguida, com o sol e o minuano na cara. A seu lado o padre fala incessantemente, contando-lhe suas provaes daqueles ltimos dez dias. 
Ficou prisioneiro de Alvarino Amaral enquanto durou o cerco, e por mais de uma vez lhe suplicou que o deixasse ir at o Sobrado para ver como estavam as mulheres 
e as crianas. O chefe federalista, porm, repelira-lhe a sugesto. Sabia que a revoluo estava perdida para seu partido, mas
O CONTINENTE
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tinha esperanas de forar Licurgo a pedir trgua: queria "quebrarlhe o corincho".
O padre tem de gritr para se fazer ouvir, pois o sino continua a bimbalhar. Aos poucos se vo abrindo as portas e janelas das casas ali da praa ; algumas .pessoas 
metem a cabea para . fora, espiam, ariscas, e depois, compreendendo , o .que se est passando, aventuram-se a vir para a calada e, descobrindo conhedos no grupo 
que atravessa a praa, omeam a acenar-lhes e gritar-lhes coisas,
Na mente de Licurgo o telegrama j tomou forma:

Ilmo. Sc. Dc. Jlio de Castilhos Palcio do Governo .Porto Alegre

Tenho a honra comunicar Vossncia Santa F acaba ser libertada. Aps vrios dias de cerco minha residncia onde resisti com grupo valerosos .leais correligionrios, 
inimigos abandonaram cidade aproximao bravas foras republicanas Ccuz Alta. Viva o Partido Republicano! Viva o Rio Grande! Viva o Brasil!

Licurgo Cambar.


De olhos. fitos na fachada da Intendncia, Curgo atravessa a rua em silncio. Doem-lhe os olhos e o peto; suas pernas esto fracas e trmulas,. a garganta seca, 
as mos e os ps gelados. Mas ele se mantm empertigado, e vai andando sempre, enquanto um sino enorme, um sino brutal badala-que-badala-que-badala implacavelmente 
dentro de sua cabea, confundindo-lhe as idias, martelando-lhe os nervos, deixando-o quase louco .. .


Sozinho no meio da sala de visitas do Sobrado, Fandango de repente tem a vaga mas estranha impresso de que algo de anorml est acontecendo.. Que ser? Nos primeiros 
segundos no. atina com o que seja, mas, ao olhar na direo da cozinha, percebe o que ... O velho Florncio continua a dormir, apesar de toda a gritaria. que os 
homens fizeram h pouco, e apesar do sino que continua a tocar.
Com um mau pressentimento aproxima-se do amigo e tocalhe o ombro, primeiro de leve e depois, como Ooutro no se mexe, com mais fora, e repetidamente. V ento, 
num susto, que os olhos de Florncio esto abertos e vidrados, fixamente
O SOBRADO - VII        669

fitos no teto fuliginoso da cozinha. Toma-lhe da mo: fria. Apalpa-lhe a testa: gelada. ncosta o ouvido no peito do amigo e aio lhe ouve o pulsar do corao. Apanha 
um copo, aproxima-o dos lbios do outro e deixa o ali por alguns instantes; depois ergue o copo no ar, contra o sol, para ver se est embaciado. Nada!
Fandango coa a cabea, estonteado, sem saber que fazer. Os homens todos foram embora. As mulheres esto. l em cima. 1; preciso que algum lhes v contar que o 
velho Florncio morreu.
Se ao menos esse maldito sino parasse ... Quem ser o canalha que est tocando? Decerto  a alma do Barbadinho do Padre, que voltou dos quintos do inferno. Filho 
da me!
Fandango olha fixamente para o amigo morto. Pobre do velho! Como  que eu no vi logo que ele se tinha finado? Est que nem . um boneco de cera, j com as ventas 
meio roxas. Deus me livre de morrer sentado! Mas deve ter sido uma morte fcil, sem agonia. Decerto morreu dormindo. Ou no? Quem sabe acordou de noite, com a pontada 
no peito? Era homem de vergonha, noo gostava de dar parte de fraco nem de incomodar o prximo.. . No gemeu pra noo acordar os outros. E morreu sozinho sem ter ningum 
que botasse uma vela acesa na mo dele ...  bem como dizia o falecido Maneco Lrio: Mundo velho sem porteiral
P por p, como para ao despertar o amigo, o capataz encaminha-se- para a escada e comea a -subir os degraus lentamente, com uma vontade danada de no chegar nunca 
l em cima.
Credo cruz! Dar notcia de morte  . a coisa pior do mundo. Logo eu, o Fandango, o gaiato, o festeiro, o bom de farra .. . Como  que vou dizer? D. Maria Valria, 
seu pai est l em baixo morto. Acho Que o bragado apareceu esta noite e levou ele na garapa pro outro mundo... Mas no se .aflija, dona, a vida  assim mesmo. Todos 
morrem, mais cedo ou mais tarde. A morte noo pede licena pra entrar na casa da gente. Seu pai era mais moo que eu: Seu pai era muito melhor que eu. Me des..ulpe 
por eu estar ainda vivo... Quem manda  o Velho, l em cima.
Com os dedos crispados sobre o corrimo, Fandango vai subindo. Sino desgraado, por que noo calas essa boca? Vento do inferno, por que noo paras de zunir? Vo acabr 
deixando todo o mundo fora do juzo. E como  que vou dizer pra Alicnlia que o pai dela se finou? E pra velha Bibiana? Por que foi que esse negcio estourou na 
minha cacunda? Logo eu, o Fandango, o festeiro, o gaiato, o bom de farra... Mundo velho sem ,porteira!
Os olhos do capataz esto cheios de lgrimas, que lhe escorrem pelas faces tostadas e entram-lhe pelas barbas. Junto da porta do quarto de Alice, ele as enxuga com 
a ponta do poncho. Depois de alguma hesitao, bate de leve... Ouve o rudo de passos macios l dentro. A porta entreabre-se e na fresta aparece a metade do . rosto 
de Maria Valria.
#67O        O CONTINENTE

- Que , Fandango?
- Preciso falar com vassunc.
- : muito urgente?
O capataz titubeia.
- Muito ... no.
- Ento espere. Estou ajudando o Dr. Winter. - Est bem.
A porta torna a fechar-se. Fandango suspira, aliviado. De repente o sino cessa de badalar e ele fica com uma zoada nos ouvidos, como se sua cabea fosse um ninho 
de marimbondos.
Sem saber ao certo por que, dirige-se para o quarto de Bibiana, bate na porta e, como no obtm nenhuma resposta, abre-a devagarinho e entra. L est a velha sentada 
na sua cadeira de balano, com o xale nas costas, mascando fumo, remexendo a boca como uma vaca a ruminar.
Mas que fo mesmo que vim fazer aqui? A velha est catacega e meio caduca: no tenho coragem de contar pra ela que seu Florenao morreu.
- Quem  l? - pergunta Bibiana. - Sou eu. O Fandango, dona.
- Ah!
- O stio terminou. Os maragatos fugiram. O Curgo est na Intendncia com os companheiros .. .
A velha permanece impassvel como se no tivesse ouvido as
palavras do capataz, ou como se no as tivesse compreendido. Fandango aproxima-se dela e toca-lhe o ombro. - Vassunc est se sentindo bem?
O vento uiva, fazendo matraquear as vidraas. Bibiana Terra Cambar sorri, leva o indicador aos lbios, como a pedir silncio. e, estendendo a mo na direo da 
janela, sussurra:
- Est ouvindo?

    Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a
inteno de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma
manifestao do pensamento humano..
